Por André Pavesi
Com grandes toques do Caio

 

Parte I

Jorge já estava na quinta cerveja quando percebeu os olhares de duas garotas no final do balcão do bar do Darkness, uma das casas noturnas mais conhecidas da noite paulistana.

A forte maquiagem e as roupas de couro preto, assim como a atitude lasciva delas, chamaram logo sua atenção.

– Beleza! Acho que vou me dar bem – pensou Jorge – Parece que vamos ter um pouco de diversão noturna.

Olhando fixamente para elas, enquanto ambas se derretiam em risinhos e trejeitos, Jorge pode confirmar que elas se encaixavam exatamente no tipo de garota que ele estava caçando.

Com um aceno de seu copo, aproximou-se de maneira casual. Jorge era um sujeito do tipo grandalhão, e aos vinte e sete anos sabia exatamente o sucesso que podia fazer com garotas como aquelas. Elas se apresentaram como Miranda e Natasha, mas Jorge logo desconfiou que se tratava de nomes-de-guerra, personagens inventados na mente febril das duas garotas, como alter-egos noturnos. Mas entrando na brincadeira, apresentou-se como Luke. – Como a marca de cigarros, gatinhas – complementou Jorge.

Miranda usava uma espécie de vestido negro com detalhes em roxo, com os belos cabelos negros presos num coque displicente, enquanto Natasha vestia um jeans agarrado, uma camiseta de banda de rock e uma pesada jaqueta de couro preta, que a julgar pelo tamanho alguns números maior do que ela,devia ter pertencido a algum namorado do passado; o cabelo cortado à altura da orelha e raspado na nuca deixava à mostra um pequeno morcego tatuado na base do pescoço de Natasha.

Logo de cara Jorge percebeu que, embora as duas obviamente fossem namoradas, não teria problemas para conseguir levá-las até um lugar mais íntimo,onde pretendia “acabar a missão”, como costumava pensar. Com certeza Miranda era a mais receptiva, abraçando-o pela cintura, mas Natasha também se mostrava bem disposta, mantendo a rotina de risinhos e pequenos esbarrões tão característica dos encontros casuais noturnos.

– Vocês parecem bem novinhas – perguntou Jorge, buscando assunto.

– Você ficaria espantado com a nossa idade… – respondeu Natasha em tom de brincadeira, olhando de soslaio para Miranda, os rostos iluminados pelas luzes da pista de dança ao lado do bar.

– Só não quero depois que o pai de alguma de vocês venha me procurar por sedução de menores – retribuiu a brincadeira Jorge, arrematando em seguida – Mas acho que não terei esse problema…

E a conversa seguiu animada, as duas garotas bebiam e fumavam bastante, e pareciam cada vez mais excitadas. Jorge acompanhou-as bravamente na cerveja, e em pouco mais de uma hora parecia mais bêbado que um gambá, embora elas mantivessem uma inesperada sobriedade.

Mesmo meio alterado, Jorge conseguiu convencê-las a ir com ele até seu apartamento, um quarto-e-sala há poucos quarteirões dali. As duas belezas noturnas se entreolhavam com freqüência, mas Jorge parecia não notar esse olhares de cumplicidade.

Seguiram pelas ruas do centro velho de São Paulo, Jorge cambaleando um pouco, abraçado com as garotas, que continuavam rindo e trocando olhares, suas peles alvas refletindo intensamente o luar. Os poucos notívagos que cruzavam com o animado trio invejavam a sorte do rapaz.

 

Parte II

 

Após ele se atrapalhar um pouco com as chaves, finalmente entraram no apartamento de Jorge. Decorado de maneira austera, o pequeno imóvel de dois cômodos não apresentava muitos móveis, apenas um pequeno rack com uma televisão, um pequeno armário, uma minúscula cozinha tomada por fogão e geladeira velhos e uma despensa de compensado, e uma cama de casal, onde as duas garotas se espalharam.

Jorge cambaleou mais alguns passos, caindo deitado na cama exatamente no meio delas. Miranda rapidamente montou sobre ele, erguendo seu vestido e expondo um par de coxas firmes, de uma brancura extrema, abraçando-o e beijando-o sofregamente, enquanto Natasha levantou-se, e aos pés de Jorge, largou no chão a jaqueta de couro, exibindo sua invejável silhueta contra o luar que entrava pela janela, banhando a cama e seus excitados ocupantes.

Sentindo a forte resposta física de Jorge, Miranda pareceu enlouquecer, contorcendo-se sobre ele, enquanto Natasha abria lentamente os botões das costas do vestido da companheira.

Ainda em meio às carícias a seis mãos, Natasha puxou uma fita do vestido de Miranda, e usando-o como venda tapou os olhos de Jorge.

– Vire de costas pra parede, gostosão – sussurrou Miranda no ouvido dele – e só se vire de frente quando mandarmos.

De pé sobre a cama, com as mãos na parede como se fosse tomar uma geral da polícia, Jorge ouviu excitado as duas garotas transarem, uma verdadeira sinfonia de gemidos, sussurros e gritinhos. Após o que pareceram horas de puro êxtase, ouviu a voz de Natasha, ainda estremecida pelo desejo, mandando que ele se virasse de frente.

Ao virar-se e retirar a venda, Jorge viu as duas garotas flutuando sobre a cama, seus belos corpos nus resplandecentes a luz do luar, mas seus rostos estavam totalmente transformados: a pele lisa e macia dos vinte e poucos anos havia dado lugar a uma pele de pergaminho, acinzentada, toda enrugada e rachada, irregular ao ponto da abstração; os olhos desejosos emitiam um brilho arroxeado, sobre profundas olheiras. Mas o detalhe mais impressionante era o amontoado abjeto de dentes longos e pontiagudos que substituíra o doce sorriso das garotas.

– Humano – urrou a coisa que há pouco Jorge conhecera como Natasha – chegou a hora de nos alimentar com seu sangue!

– Ralé humana – completou a antiga Miranda – Vocês sempre se acham irresistíveis, não? Mas agora vai aprender quem são os verdadeiros donos da noite…

Jorge, encostado na parede, apenas abaixou e balançou lentamente a cabeça, como se fosse um professor dando uma bronca num aluno muito burro.

– Mas eu sou muito azarado mesmo – disse Jorge, com a voz completamente sóbria, e um toque de melancolia na voz. – Custava vocês fazerem a ceninha de vampiras super-poderosas depois de transarmos?

As duas vampiras se entreolharam, surpresas com a reação de Jorge.

Foi a última coisa que fizeram juntas.

No instante seguinte, Jorge saltou sobre elas, agarrando-as pelos pescoços, com força e velocidade sobre-humanas. Natasha e Miranda ainda tentaram se desvencilhar do aperto mortal em suas gargantas, mas as mãos de Jorge pareciam duas tenazes.

Num piscar de olhos, as mãos de Jorge deram lugar a poderosas garras, cobertas de um pêlo grosso e negro como a noite, que se espalhava por todo o corpo; os músculos pareciam brotar do nada, o rosto maduro de Jorge dando lugar às feições selvagens de um homem-lobo.

– Vampiras – rosnou a besta que tomara o lugar de Jorge – Agora começa a diversão.

Antes que pudesse esboçar qualquer reação, Natasha teve sua cervical esmagada, e foi desmontada como uma boneca de pano.

Miranda bem que tentou vingar sua companheira de vida eterna, mas Jorge jogou-a do outro lado do cômodo sem a menor dificuldade.

Antes de perder a consciência, a bela vampira ainda teve tempo de ouvir uma risada gutural, seguida de um rosnado cavernoso. Jorge, em sua forma natural, abaixou-se, e tocando de leve o rosto de Miranda disse:

– É uma pena, eu realmente achei vocês deliciosas, mas vou ter que mandá-las pro inferno que merecem.

Horas depois, vestindo sua nova jaqueta de couro, Jorge assistiu ao nascer do sol, que trouxe o descanso eterno para mais duas belas vampiras, reduzindo seus corpos desmembrados ao pó ancestral, espalhado ao vento sobre os prédios da capital paulista.

– Droga! – resmungou o homem-lobo, com pena de si mesmo. – eu realmente queria transar com elas…

Virando-se de costas ao nascer-do-sol, Jorge caminhou lentamente pelo terraço do prédio onde morava, para voltar ao seu apartamento e se preparar para, como ele mesmo costuma dizer, “um pouco de diversão noturna”.

 

 

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