Por Caio Bezarias 

 

 

Parte I

 

A noite era fria e serena. O céu estava coberto, de um extremo a outro, por uma camada única, contínua, de nuvens maciças de um cinza uniforme, no qual não se via movimento aparente. Uma brisa gelada circulava por entre os edifícios e igrejas do centro velho de São Paulo, carregando consigo poeira, aromas, folhas secas. Mas algo mais parecia vagar entre os prédios históricos e edifícios comerciais, como se também conduzido pelo acaso da brisa: um homem de estatura média, corpulento, pele pálida, olhos tranqüilos e cabelos encaracolados tão escuros como a noite, metido em um conjunto de calça e blazer marrons, camisa branca imaculada e sapatos antiquados de pelica. O homem caminhava sem rumo aparente: vindo do Vale do Anhangabaú, pela Quinze de Novembro, circundou a rua Benjamin Constant, parando a cada par de metros para observar algum detalhe –um alto revelo, uma murada mais elaborada, um frontão em um prédio ou algo aparentemente banal como uma simples esquina, o movimento de um inseto ao redor de uma lâmpada, a passagem de um morcego, o topo dos postes de metal recortados contra o céu escuro. Por fim, ele entrou na Benjamin Constant, deu alguns passos para parar, dar meia volta, entrar na Quintino Bocaiúva e de lá seguir para o Largo São Francisco, onde escrutinou cada elemento da fachada da Faculdade e das Igrejas vizinhas, para com ainda mais calma entrar na minúscula Cristóvão Colombo, através da qual ganharia o início da Brigadeiro Luis Antônio.

Todo esse percurso foi feito sem ser incomodado por ninguém. Os poucos desocupados, pedintes e usuários de drogas que ousavam circular pelo centro velho em uma hora tão avançada da madrugada não deixaram de reparar na figura lenta e sombria, mas havia algo tão incomum em seus olhos e a calma e lentidão com que se movia eram tais que instintivamente todos sabiam que aquele era um ser extraordinário e que incomodá-lo seria uma estupidez tremenda; os porteiros e seguranças de prédios tinham suas ocupações e nenhuma atenção deram a ele; até mesmo uma viatura de polícia, que topou com ele por duas vezes no intervalo de quinze minutos, deixou-o em paz. O que nenhum desses percebeu foi a verdadeira razão de evitarem o sujeito de marrom.

Lúcio era seu nome. O nome que recebeu ao deixar o ventre de sua mãe humana e que usou desde então, em todos os meios e ocasiões. Aquele homem aparentando quarenta anos tinha mais de duzentos anos de idade, duzentos e trinta, com exatidão, apenas os vinte primeiros vividos fora de São Paulo, vinte anos no pequeno vilarejo do norte de Portugal onde nascera como humano e do qual partiu após tornar-se um licantropo.

Ele não era apenas um homem-lobo, era ainda um lycaon, ou licon, ou ainda “licão”, como eram chamados, pelos lobisomens mais jovens cuja língua-natal era o português, os mais idosos, sábios e poderosos lobisomens, homens-fera tão evoluídos na ligação com Gaia, a mãe de todos, a personificação multimorfa, inebriante e terrível de toda a vida no planeta, a fonte a um só tempo mística e orgânica da qual todos os seres vivos provinham e à qual retornavam, que tornavam-se uma espécie de elemental extremamente poderoso e selvagem que encarnava toda a vida orgânica e os elementos naturais, em seu aspecto mais selvagem e exuberante. A comunhão do lycaons com a Terra e tudo que ela gerava, nutria e por fim engolia era tão intensa, profunda e crescente que sua presença emitia uma energia que nenhum ser – fosse animal ou vegetal, orgânico ou sobrenatural, racional ou irracional – podia ignorar; ele influenciava, com um infinitesimal de esforço e concentração, o comportamento e ações de todos os seres orgânicos a seu redor. Assim, era tão fácil para Lúcio afastar intrometidos e eventuais adversários ou inimigos, irradiando uma aura que explorava medos atávicos, que isso já se lhe tornara um ato reflexo.

Pois dentre todos os seres a serviço de Gaia, seus agentes que caminhavam pela biosfera mantendo o equilíbrio entre a luz e a escuridão, vida e morte, ordem e caos, tão ameaçado desde a ascensão dos humanos, ele pertencia ao grupo dos mais intensos, ativos, violentos até: os licantropos anciãos a um só tempo atraíam e irradiavam a força vital da natureza com tal volúpia e descontrole que se tornavam destrutivos, caóticos. Gaia, porém, parecia não se importar.

Assim, a presença dele era sentida por todos os seres vivos e por outros mais: outros lobisomens o percebiam de imediato e frequentemente o abordavam, oscilando entre admiração desmedida e temor respeitoso; vampiros, fantasmas e entidades místicas indefiníveis o temiam tanto que sua simples visão os levava ao pânico. Os vampiros mais antigos ainda lhe dirigiam ódio, por reconhecer nele um antípoda cujo ser sereno e elevado era uma zombaria à desgraça deles. Em suma, nada havia na Terra que pudesse ameaçar Lúcio e ele atingira tal estágio de sua condição que o medo era algo que ele não mais experimentava, ria desse sentimento, para ele um elemento pueril e superado da infância de sua existência.

Ele podia ouvir pensamentos; detectava qualquer som, quão débil fosse; enxergava todas as cores e matizes existentes; reconhecia com nitidez todos os odores, por mais fraca fosse sua fonte; além de perceber coisas e dimensões inacessíveis a seres humanos, seres sobrenaturais perturbados e apartados da natureza e lobisomens jovens. Os lycaons sequer distinguiam o “sobrenatural”, o místico, do orgânico, do “natural”. Em sua enorme sabedoria e imensa sensibilidade às emanações de Gaia, essa divisão só poderia ser uma arbitrariedade dos seres mais baixos e cegos.

 

Parte II

 

Mas Lúcio não estava pensando nesses temas ou se extasiando com seus enormes poderes e sabedoria, enquanto atravessa a ruela que ligava o Largo São Francisco ao início da Brigadeiro Luis Antônio. Ele apenas parou ao lado de um enorme e ameaçador edifício sede de algum órgão governamental, situado à esquerda da ruela, e olhava, com sincera admiração, para o paredão escuro e íngreme que se erguia abaixo desse edifício, o sustinha, irrompendo do solo ao lado da avenida Vinte e Três de Maio, uma enorme parede de argamassa e tijolos, muito gasta e escurecida pelos anos, separada da avenida por uma grade, que delimitava um estacionamento estreito e descoberto. Após este erguia-se um verdadeiro bosque, uma massa compacta de árvores e arbustos que cobriam o paredão por metros e metros. Completando o cenário, um conduto a céu aberto, um caminho formado de paredes baixas de concreto, conduzia água da chuva e de encanamentos até um bueiro, cercado por samambaias viçosas, um verde luminoso e uniforme saltando de suas folhas simétricas. Todo o paredão, durante a noite, estava imerso em sombras e exalando mistério e antiguidade, principalmente durante a noite, quando assumia a magnitude de uma explosão da natureza a afrontar o fervilhar da humanidade e seus milhares de obras apinhados no núcleo da cidade. As lembranças brotaram na mente dele e lembrou-se com perfeita nitidez quando aquele vale e outros do Centro eram as fossas e lixeiras da cidade, os lugares nos quais gerações inteiras de descendentes diretos da mistura de índios briguentos e europeus violentos e cobiçosos que fundaram e fizeram a cidade resistir e crescer empilhavam seus monturos. A lembrança era tão nítida e firme, incluindo sons e cheiros particulares, que teve de se conter, pois recentemente mais uma capacidade espantosa nele se revelou, com conseqüências complicadas: ao lembrar-se de como um lugar fora, se permitia as imagens e outros registros dominarem sua memória, esta mobilizava o poder de seu corpo sobre os elementos naturais e até sobre o arranjo da matéria, fazendo, simplesmente, que o lugar em questão voltasse a ser como era há décadas ou séculos, conforme as lembranças que ele mantinha, para surpresa e por vezes horror de Lúcio, que enfrentou nessas ocasiões uma dura luta entre sua consciência e seu ser atávico para restituir o sítio a seu estado “normal”.

Ele não desejava que o imenso e belo paredão de rocha, marcado na base por uma atraente zona de escuridão de mistério, se tornasse uma enorme e insuportável vala de detritos e lixo apenas porque assim ele o vira há muitos anos. Por que sua mãe brincava de maneira tão louca com ele, dava-lhe mais e mais dotes, conforme envelhecia e ficava mais sábio, que redundavam em caos e confusão para os lugares e seres a seu redor? Essa pergunta, cada vez mais freqüente nos últimos anos, a princípio o transtornava, mas então ele caminhava um pouco entre os homens, observava as aspirações e íntimo da maioria deles, o que estavam fazendo a si mesmos e ao planeta e a dúvida se dissipava.

Quando estava prestes a retomar a caminhada e deixar o paredão em paz, um uivo artificial rasgou a noite e agrediu seus ouvidos, o som da arrancada brusca de um carro fazendo com que os freios uivassem e os pneus se queimassem contra o asfalto. Lúcio não pôde evitar e encarou a fonte de ruído tão abjeto: um reluzente e poderoso carro esporte vermelho que vinha pelo início da Vinte e Três de Maio, que se estendia por debaixo do viaduto, na pista que ia do centro para o sul, em uma velocidade absurda. A curiosidade dele acendeu-se. Quem poderia ter tamanha pressa já no fim da madrugada e por quê? Afinou sua capacidade de adentrar os pensamentos, sensações e memórias dos humanos e dirigiu-a para o automóvel, antes desse se afastar. O piloto da máquina, um macho mal-entrado na idade adulta, imaginava-se poderoso, capaz de tudo, invencível! Ele julgava-se um dos reais conhecedores e possuidores da cidade, pois caminhava com segurança por suas entranhas mais fétidas e traiçoeiras e por alguns de seus espaços mais requintados e celebrados, sempre tirando delas muito lucro, que usava para sua satisfação pelo restante da cidade afora, nos lugares em que o dinheiro era tudo necessário para ter poder, respeito e prazer. Ele, seus amigos e muitos de seus adversários conheciam a verdade de São Paulo e conheciam a verdadeira natureza de seus habitantes e até mesmo a natureza dos homens em geral, pois ganhavam muito bem suas vidas explorando o que essa natureza autêntica e suja exigia e que a sociedade e suas leis ridículas tentavam inutilmente barrar. O rapaz era tão satisfeito consigo e sua existência que estava algo apaixonado por si mesmo: tão jovem e já era um comerciante tão bem-sucedido das coisas ilegais que os patéticos homens decentes consumiam com tanta avidez! Apenas vinte e três anos de idade e tão rico e respeitado, tantas fêmeas já possuíra e tantas a seu dispor! O garoto julgava-se um pequeno deus, um ser especial que conhecia como ninguém a verdadeira humanidade. Ele era um dos donos da cidade, tinha direito de nela fazer o que queria, inclusive acelerar seu maravilhoso carrão vermelho pelas avenidas da cidade na hora que quisesse e na velocidade que bem entendesse!

 

Parte III

 

Aquilo foi demais para Lúcio e principalmente para as forças que usavam seu corpo e espíritos prodigiosos como canal de manifestação. Tomado por puro frenesi animal, ele saltou para a avenida, atingiu-a sem o menor ruído ou impacto e disparou na direção do carro, que alcançou após dois segundos. A essa altura já se transformara, o corpo coberto de pêlos escuros e grossos, músculos enormes agitando-se sob a pele, sua cabeça tomada por um focinho proeminente, presas afiadas e úmidas saltando das mandíbulas e olhos vermelhos fervendo de fúria.

Lúcio surgiu diante do automóvel e parou-o, usando suas mãos imensas e terminadas em garras negras, em um lapso de tempo tão curto que o rapaz só percebeu o que aconteceu após o monstro uivar para a noite, rasgar o capô do carro com as mãos nuas e despedaçar o motor como se fosse um brinquedo de papel de seda. Ao ver a coisa imensa e pavorosa urrando bem a sua frente, ele soltou um berro e buscou a pistola automática que sempre carregava. Antes de alcançar a arma, pousada no banco de passageiro, o monstro arrancou a porta, rasgou o cinto de segurança e o ergueu pelo colarinho da camisa de lã, pondo sua face a milímetros de sua carranca horrenda e pestilenta. Ele estava prestes a morrer de medo, de correr para a não-existência e esconder-se daquele pesadelo. Lúcio, percebendo isso, dirigiu-lhe uma onda de energia que congelou seu ser e trovejou:

– Você julga saber o que realmente é esta cidade, humano? Acha que conhece seus segredos mais profundos e inconfessáveis? Obter ganhos, prazer e poder de explorar o crime e a sordidez faz de você um ser especial? Pois vou lhe mostrar um pouco de uma São Paulo que você sequer imagina ter existido e que ainda retornará, para engolir sua vil raça!

Com um único golpe, arremessou o carro contra a base do viaduto com tanta força que o veículo se desfez numa pilha de metal esmagado e aos saltos, carregando o humano sem dificuldade usando uma de suas mãos, alcançou o paredão e embrenhou-se nas árvores que se espalhavam por sua base. Uma vez lá, arrancou todas as roupas do garoto e as despedaçou, grudou seus olhos de fogo nos olhos parados deste e deixou seu terrível bafo invadir e queimar as vias respiratórias dele, antes de continuar:

– Aqui, vou lhe conceder a honra e a satisfação de experimentar um pouco do que a São Paulo antiga tinha de mais autêntico, verdadeiro e profundo. Quem sabe você não descobre de onde veio!

E dizendo isso jogou-o contra a parede. O garoto soluçava e emitia balbucios, chamando por seu Deus, clamando pela sua querida mãe. Lúcio espalmou suas mãos e pousou-as na pedra e tijolos ao lado do humano, que chorava cada vez mais alto, e deixou seu mais novo poder correr sem peias e alterar aquele trecho do paredão, fazendo com que retornasse ao que era nos fins do século XVIII, início e parte do século XIX: uma imensa vala onde os paulistanos despejavam lixo, detritos, fezes e cadáveres. Súbito, uma onda de matéria putrefata e liquefeita aflorou dos espaços entre os tijolos e cobriu o humano até quase o pescoço, bolhas de gás aflorando em meio ao caldo. Os galhos da árvore mais próxima se agitaram e deles surgiram ossos lascados que caíram sobre ele, rasgando seu rosto em inúmeros pontos. Um cheiro muito mais podre que o bafo do lobisomem, um cheiro de séculos, inundava o ar. A essa altura, o humano se refugiara na insanidade e estupor, de onde talvez nunca mais saísse.

Antes de partir, Lúcio encarou-o uma última vez e disse, a voz um tanto mais branda: – Adeus. – E retirando as mãos do paredão tudo retornou ao normal. Afastou-se num salto, alcançou a calçada da avenida, já em forma humana, e sem pressa tomou o rumo de sua casa.

Subindo a Brigadeiro Luis Antônio, Lúcio mais uma vez perguntou-se por que a Mãe Gaia ainda não o fizera retornar ao seio dela, após uma vida como lobisomem e lycaon tão longa. Ele tinha atingido uma consciência tal que não temia mais morte, pelo contrário: ansiava por retornar à natureza e ter seu ser disperso por todo o planeta, a imensa energia que carregava animar a vida de muitos e muitos seres que ainda viriam à existência. Perguntava-se porque ela ainda não permitira essa dádiva, para o que ainda precisava dele no mundo físico. Mas vivendo em uma cidade como São Paulo e tendo, na porção humana de sua vida, as predileções e costumes que tinha, sempre caíam sobre ele situações como a que acabara de viver, e que calavam suas mais densas dúvidas e inquietações.

 

Anúncios