Por André Pavesi
(esse conto se situa um tanto quanto à parte do nosso cenário padrão, mas acreditamos que valha como leitura)

Quando acorda pela manhã, antes mesmo de abrir os olhos ou por os pés no chão, Sérgio sabe que está fodido. Sabe que está atrasado, que seu banho não terá a temperatura ideal para a época do ano – frio demais no inverno, desnecessariamente quente no verão, que ao seu lado no metrô sentará algum tipo de neurótico estressado, folgado e espaçoso, daqueles que sentam com a perna aberta e seriam capazes de empurrar pra fora do caminho uma velhinha que ousasse disputar um lugar vago com ele.

Chegando no escritório, Sérgio já entra no prédio sabendo que terá uma pilha de relatórios desnecessários para revisar e chancelar, que ficará pelo menos 50 minutos pela manhã trancado na sala esfumaçada de cigarro do escroto cafajeste do diretor de sua unidade, ouvindo uma ladainha sem fim sobre como ele não demonstra iniciativa – sendo que suas iniciativas são sempre reprimidas; sabe que irá aturar o mesmo discurso irreal de sempre, sobre a “larga experiência no ramo de RH” do bastardo.

Sabe que na hora do almoço pegará filas intermináveis pra se servir, pra sentar e até mesmo pra pagar a conta, sabe que se for comer peixe haverá espinha demais e sabor de menos. Sabe que o refrigerante estará sem gás e quente, a salada morta e a carne fria e sangrando, exatamente do jeito que ele mais detesta. Sabe também que não adiantará nada reclamar, que os atendentes serão grossos e desatenciosos, e que corre o risco de ganhar cusparadas como molho nos próximos pedidos.

Sabe que a tarde terá que refazer todo o trabalho de um colega folgado e espaçoso, que prima por duas qualidades básicas para a sobrevivência sob o comando do já citado diretor escroto: puxa-saquismo e falta de caráter. Sabe que o mesmo colega sanguessuga levará o mérito pelo seu trabalho, enquanto ele leva fama de preguiçoso e incompetente. Sabe que terá que aturar piadinhas pela sua magreza extrema, e pela sua calvície precoce – adivinhem de quem? Isso mesmo, do colega metido a galã…

Sabe que será inevitável perceber que uma fulana que ganhou uma inexplicável promoção sumiu no meio da tarde junto com o verme do diretor, e que ambos retornam no final do dia com os cabelos molhados. Sabe que uma certa sicrana continuará falando mal dele abertamente, olhando-o de atravessado – a mesma sicrana que mantem o emprego de joelhos, com o pau do seu gerente de área na boca.

Sérgio sabe que ao final do dia, se não fizer pelo menos meia hora-extra não remunerada, apenas por que seus colegas de trabalho não conseguem se organizar para cumprir corretamente sua jornada de trabalho, será taxado de preguiçoso e descomprometido.

Sabe também que irá depois pegar o metrô, sempre lotado de gente mal-educada. Que chegará em casa apenas para encontrar a casa virada do avesso, e sua esposa largada no sofá, com um copo de bebida e um cigarro na mão, o controle remoto da televisão na outra. Sabe que não terá jantar, pois sua esposa anoréxica acha que ambos estão gordos demais, embora estejam os dois bem abaixo do peso ideal. Sabe que nem adianta perguntar o que fez durante o dia, pois ela como sempre mentirá dizendo que foi ao dentista/cabeleireiro/oftalmologista/academia, quando na verdade ambos sabem que ela passou mais uma vez a tarde na cama se atracando com algum tipo primitivo, brutal e musculoso.

Sérgio sabe que irá dormir tarde demais, depois de ficar horas ouvindo os tiros nos bares da vizinhança, sua esposa ao telefone com amigas que ele não aprova, e mais uma das intermináveis discussões, recheadas de gritos, acusações, agressões verbais e físicas, que sempre terminam com sua esposa ameaçando se matar se ele deixa-la.

Sérgio sabe que adormecerá com lágrimas nos olhos, pela inescapabilidade de sua vida.

E por fim Sérgio sabe que, independente do que quer que ele faça, o dia seguinte será exatamente igual a esse.

O que Sérgio não sabe é que morreu há exatos três anos. Que quando rezou desesperadamente pedindo pela vida de seu irmão, vitima de um acidente de trânsito, implorou aos prantos para que o levassem ao invés do garoto, suas preces foram atendidas.

Mas não por quem ele achou que iria atendê-lo.

 

O Inferno é repetição.

 

Anúncios