Por André Pavesi
com alguns toques e último parágrafo por Caio Bezarias

 

Parte I

 

Num espaçoso sótão convertido em uma confortável biblioteca, se reúnem quatro sujeitos na casa dos seus cinqüenta anos, todos velhos amigos, cercados por imensas estantes forradas de livros; reunidos assim, parecem mais jovens escoteiros acampados ao redor de uma fogueira do que bem-sucedidos cinquentões.

Só que no lugar de uma bucólica fogueira, encontramos uma mesa de centro, parcialmente coberta por copos, garrafas, cinzeiros, livros, jornais e revistas.

– Senhores – disse Marcos, o mais alto dos cinquentões, um sujeito de um porte físico ainda impressionante apesar da idade, os ralos cabelos acinzentados penteados para trás na volumosa cabeça, levantando-se pesadamente de sua poltrona favorita, e começando a circular por entre seus amigos. – Acho que todos nós sabemos como essas coisas acontecem. Todos nós já fomos jovens um dia, e já nos sentimos tentados ao pecado da carne por um belo par de pernas. E minha história de hoje, minha contribuição mensal ao nosso grupo, é justamente a história de um desses encontros fortuitos que ocorrem aos milhares na noite de nossa velha metrópole…

– Escuta!! – interrompe de forma afoita Isaac, um sujeito de cabelos tão grisalhos quanto longos, presos em um desalinhado rabo-de-cavalo; magro como sempre fora, vestindo um par de jeans e uma camiseta de alguma obscura banda de rock dos anos 70. – Por um acaso essa história não se passa no …

– Darkness, meu velho…isso mesmo, se passa no bom e velho antro que conhecemos tão bem, que pra cada um de nós costumava ser tão familiar quanto nossos próprios lares, não importando que ele existisse apenas em nossas imaginações. – completou Marcos, dando um amigável tapinha no ombro direito de seu amigo e sócio.

Do outro lado da mesa, os outros dois membros do grupo, apenas sorriem de maneira divertida, como se a cena, as interrupções mútuas, fossem mais do que familiares, fossem algo que fazia parte das regras daqueles encontros.

Qualquer pessoa que visse a cena perceberia imediatamente que entre esses quatro homens feitos, sujeitos calejados por tantas batalhas da vida, existe algo maior do que a vida, existem laços de amizade mais fortes do que aço, forjados durante horas passadas entre risos e lágrimas, apoio e desavenças, divergências e suporte mútuo.

 

Parte II

 

– Mas antes de mais nada, acho que preciso apresentar nossas duas personagens principais – continuou o contador da história, circulando pela biblioteca. – De um lado temos nossa bela Sophia, meus amigos, uma morena de tirar o fôlego. Figura mais do que habitual do Darkness, sempre calçando botas de salto negras como a noite e usando vestidos longos, rendados e de generosos decotes, Sophia sabe do seu poder, do impacto que causa no que ela mesma gosta de pensar como seu “rebanho”. Ela sabe como jogar seus belos cabelos de ébano, longos e sedosos, descendo pelas suas costas de uma forma sensual, com um caimento e um movimento de fazer a fama de qualquer cabeleireiro. É difícil definir exatamente o que a torna tão magneticamente atraente. Talvez seja a estatura, alta para os padrões brasileiros, ou a postura de modelo internacional que torna ainda mais óbvios os seus quase1,80 metros de altura, ou a extrema magreza. Talvez a negritude dos cabelos, naturalmente lisos, batendo no meio das costas, ou a alvura de sua pele, que relembra o brilho das neves eternas, ou os lábios carnudos…ou quem sabe os caninos um tanto quanto salientes…

Depois de alguns segundos com os olhos fechados e a cabeça levantada para o teto, como se rememorando a figura de sua personagem, Marcos prosseguiu. – Mas o que importa para a nossa história é que Sophia carrega um segredo, terrível e inominável em sua simplicidade, que marca seu distanciamento da humanidade, e determina sua rotina, sua obrigação de deixar a pista do Darkness impreterivelmente às cinco da madrugada, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos, voltando para junto de seus pares.

– Devemos também, meus amigos, atentar aos hábitos peculiares de Sophia, a ritual imutável de sua caçada noturna, a forma como ela descarta uns e seleciona outros, a forma como crava seus olhos chamejantes em um sujeito, elegendo-o para ser seu consorte naquela noite, mais um em uma aparentemente infindável lista de homens – e eventualmente mulheres – aos seus pés.

– Mas o que não vemos, meus amigos, é a forma como ela se alimenta do corpo e da alma de cada um desses sujeitos. Como ela extrai o sangue e as esperanças dos que abraçam a noite ao seu lado.

– Mais uma história de vampiros… – comentou sarcasticamente Rogério, o terceiro membro do seleto grupo, um sujeito de constituição comum, ligeiramente acima do peso, que poderia passar desapercebido numa multidão, se não fosse por seus trajes sempre negros, e seus olhos claros como cristal, cabeça constantemente raspada e um mal-cuidado cavanhaque.

Marcos apenas sorriu, olhando de soslaio para seus velhos amigos, sabendo que qualquer reprimenda seria inútil. Após um suspiro e alguns segundos de espera, retomou a sua história.

– Sempre envolta pelas sombras no Darkness, Sophia caminhava superior a tudo e a todos. Os funcionários e habitues do lugar já a conheciam, e sabiam que essa fleuma, esse ar de paisagem, eram imutáveis. Noite após noite, Sophia entrava no Darkness, circulava como uma sombra por seus ambientes, dançava languidamente na velha pista de dança do porão, sempre a do porão, a pista original do Darkness, escolhia algum acompanhante e ia embora de forma etérea, levando consigo seu eleito.

– E a segunda personagem? – perguntou Alec, o último dos ouvintes, um sujeito encurvado, aparentemente o mais velho deles, embora na verdade fosse o mais novo dos presentes no recinto. Tão magro quanto seu amigo de longos cabelos, estava vestido como um verdadeiro ancião, ao contrário de seus amigos. Com dedos marcados por anos de nicotina, era o responsável pela nuvem de fumaça que pairava no ambiente, e por todas as bitucas largadas no cinzeiro.

 

Parte III

 

– Chegamos a ele justamente agora, meu velho. Você sabe que as histórias seguem seu próprio ritmo. – respondeu Marcos, ainda circulando confortavelmente pela sala, como se estivesse num tablado, sob os holofotes que guiaram sua vida. – Nosso segundo personagem, podemos chamá-lo de Thales, é um sujeito legal. Solteirão, gosta de freqüentar bares de rock com seus amigos. Sempre ouviu falar do Darkness, mas sejamos honestos, sempre teve medo de ir no lugar. Um medo um tanto quanto irracional, alimentado por fábulas e causos contados por clientes supostamente assíduos da casa, que se divertem em espalhar boataria para valorizar suas próprias experiências.

– Magro e alto demais, com cabelos cuidadosamente cortados à altura dos ombros, Thales acreditava, como sempre, que estava causando uma grande impressão ao entrar no Darkness. Claro que o fato de haver bebido algumas garrafas de algum tipo iced de vodka ajudava a reforçar sua auto-imagem confiante. Circulando inicialmente de maneira discreta pelas diversas salas do Darkness, foi do lotado bar para a pista principal, depois para a área externa, onde casais e grupos conversavam soturnamente sob o luar, retornando depois para o interior da casa, mas como todo novato passou batido pela entrada para a pista do porão, indo diretamente de volta ao longo balcão do bar.  Seu objetivo era claro: tentar se atracar com alguma das garotas do lugar, quem sabe terminando a noite em alguns dos hotéis pulgueiros da região.

– Mas quando nossas duas personagens se cruzaram sua vida perdeu totalmente o norte,. Thales viu Sophia encostada do outro lado do balcão, conversando distraidamente com o barman, parecendo ignorar totalmente as pessoas a sua volta. De repente, num movimento displicente de cabeça, ela fixou seus penetrantes olhos em Thales, praticamente arrebentando o coração do pobre rapaz. Tomado por aquela coragem etílica que nos é tão familiar, Thales começou a lutar para abrir caminho pela pequena multidão amontoada ao redor do balcão do bar. Mas quando finalmente conseguiu atravessar a turba, Sophia já havia desaparecido.

– Durante as próximas duas horas, Thales praticamente revirou o lugar de cabeça pra baixo à procura dela até que finalmente a encontrou, quase ao acaso, na entrada da pista do porão. Descendo a escada aos tropeções, chegou na ante-sala da pista, onde enquanto duas garotas se beijavam de forma apaixonada algumas pessoas aguardavam uma brecha para entrar na pista lotada. Thales ficou algum tempo observando cegamente a pista, tentando acostumar seus olhos à quase impenetrável escuridão do porão, entrecortada por esparsos flashes estroboscópicos. Subitamente, como se emergindo das sombras de um dos cantos, surgiu Sophia, dançando lentamente, em oposição ao ritmo alucinante das batidas industriais da música. Mais uma vez o rapaz perdeu as pernas, pasmo diante da tamanha beleza. Começou atabalhoadamente a tentar abrir caminho até ela, mas foi rechaçado pela lotação da pista, pequena e de teto baixo, sufocante apesar dos gigantescos ventiladores das paredes. Estava prestes a desistir de sua investida quando Sophia levantou a cabeça, abrindo os olhos e fulminando-o com o olhar, como se implorasse para que ele não desistisse. Depois de mais algumas investidas, chegou finalmente ao canto onde Sophia estava dançando, apenas para encontrar o lugar ocupado por outras pessoas., e sua musa, mais uma vez, desaparecida como um vulto.

– Após mais uma série de cotoveladas, encontrões e esbarrões, Thales conseguiu sair da pista. Para sua surpresa, Sophia estava encostada à parede ao lado da ante-sala, olhando para o vazio, como se estivesse se fundindo com as sombras do ambiente. Dessa vez, pela primeira vez naquela maldita noite, seu caminho até ela estava livre, e Thales não pretendia perder a chance.

– Bem, meus amigos – continuou Marcos após um gole na sua bebida. – É nesse ponto que devemos dar um pequeno salto em nossa narrativa. As cenas a seguir dispensam maiores descrições, é apenas o velho e bom ritual de aproximação de um casal que se conhece na noite, e que muda muito pouco de um lugar para o outro.

– Devemos na verdade voltar a Thales algumas horas mais tarde, quando ele acordou. Mas seu despertar, que ele achava que seria tranqüilo e revigorado após uma bela trepada, foi na verdade um mergulho num mar de dor e confusão. Sua primeira impressão foi a de que seu tronco e seus braços estavam mergulhados em fogo. Olhando ao redor, pode perceber que se encontrava algemado a uma pesada cama de metal, num quarto imundo, pouco maior do que um armário. Nu, percebeu que parte da pele do seu peito e dos seus braços havia sido arrancada em tiras, deixando sua carne exposta. Muito do seu sangue havia escorrido e molhava o colchão. A luz do sol iluminava apenas uma parte do quarto, mas ele pode perceber que estava sozinho, e que seus ferimentos ardiam de forma absurda. Começou a gritar por socorro, quando de repente se deu conta de que não conseguia se lembrar de como havia chegado até ali. Na verdade, pouco se lembrava do último dia. Essa amnésia apenas aumentou seu desespero, redobrando a força dos seus gritos, que logo atraíram socorro e policiais, que o levaram até o hospital.

Um pesado silêncio se abateu sobre os quatro amigos, como se cada um deles absorvesse a história de Marcos. Eles sabiam que ela não estava encerrada, que o narrador apenas tomava mais um gole de sua bebida antes de prosseguir. Eles sabiam que como em todas as histórias contadas por Marcos, nessa haveria algum detalhe no final da história para arrematá-la.

 

Parte IV

 

– Na verdade, a amnésia se revelou uma benção para o sujeito, poupando-o de amargas lembranças. Ele nunca mais se lembrou dos beijos intensos e carícias trocados com Sophia, nem se lembrou de como ela havia amortecido seus sentidos, nem dos jogos de excitação que rolaram até as algemas serem trancadas. Não se lembrou do desespero que sentiu ao ver Sophia sacando uma faca de caça de sua bota, e da dor insuportável quando ela começou a retalhar sua pele. Também não se lembrou de como um movimento reflexo de suas pernas, praticamente um espasmo, salvou sua vida.

– Mas todas essas lembranças ficaram guardadas dentro dele, gravadas em cenas de fogo em sua alma, e passaram a atormentar suas noites com os piores pesadelos.

– Nesse momento, meus amigos, deixamos Thales com sua dor, e iremos procurar Sophia. Para encontrá-la, devemos voltar nossos olhos para um convento na região da Liberdade. Mas não iremos encontrá-la de imediato, mas apenas encontraremos um grupo de irmãs de caridade, envolvidas nas atividades da manhã. Olhando-as mais de perto, reconheceremos um rosto, mas não reconheceremos sua expressão, ou sua postura.

– Pois, meus caros, estamos diante da Irmã Beatrice, uma introvertida noiva de Cristo, uma mulher livre do pecado, pura e ingênua, devotada unicamente ao seu trabalho no orfanato. Se pudéssemos penetrar em suas lembranças, não encontraríamos vestígios de suas aventuras como Sophia pelas trevas do Darkness. Pois ela não se lembra de nada, não se lembra da noite com Thales, nem de como ele havia jogado suas pernas para cima, num movimento desesperado, passando-as pela frente do seu rosto e puxando-a pra trás, fechando suas pernas num aperto enlouquecido, até que ela desmaiasse. Ela não se lembra de como acordou horas depois, já com o sol entrando pela janela do cortiço, e de como sua vitima perdia importância à medida que a urgência por fugir do sol tomava conta dela.

E os três amigos fitaram, mudos e com olhares pesados, seu amigo de décadas, meio agradecidos por ele compartilhar tal história e meio pasmos com a revelação final, mais apavorante que o macabro segredo sobrenatural que esperavam ouvir. Em silêncio, acenderam cigarros, verteram goles de bebida pela garganta. Isaac e Alec olharam, desconfiados e temerosos, para a pequena janela que trazia para o sótão a noite da cidade, como se temessem que por ela a narrativa que tinham acabado de ouvir escapasse, encontrasse outras de sua espécie e inspirasse novos atos malignos.

 

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