Por André Pavesi
Com subtítulo e alguns poucos toques de Caio Bezarias 

Nina e Nicolau- fim do anonimato de um autor nada tímido

 

 

Nina e Nicolau  – a versão narrada, noturna e paulistana de um disco conceitual de rock

Para Nicão, Ninoca e Jibóia, o trio parada-dura. Crom sabe o quanto vocês fazem falta…

Nina & Nicolau –faixa 1

“…e este foi David Coverdale com seu Whitesnake, com o clássico “Love is a Stranger”, aqui na sua WKY-Sampa. E uma última notícia para quem ainda pensa em viajar no feriadão: as estradas continuam todas congestionadas…e eu vou ficando por aqui mas continuem ligados na sua madrugada-rock, até o nascer do sol!!”

E com seu conhecido bordão Nicolau acionou a programação automática da WKY-Sampa, a mais ouvida rádio-rock de São Paulo. Das 2 da manhã até o raiar do sol, cada segundo de programação levado ao ar estava previamente gravado, poupando aos cofres da emissora o pagamento de hora-extra para toda a equipe. Apenas o técnico Chuvisco, um sujeito boa-praça de origem miscigenada tipicamente brasileira, permanecia de plantão, para o caso de algum problema técnico. Embora desde a implantação de um sistema computadorizado não houvesse ocorrido mais falhas com as gravações, tal contingência era mantida apenas como precaução, e hora após hora o pobre Chuvisco cumpria o ritual de checagem das fitas.

Enquanto a primeira música pré-programada ia ao ar, Nicolau saiu da cabine à prova de som, encerrando assim seu turno, que começara às oito horas da noite, logo após a “Hora do Brasil”. Com um rápido aceno de mão, despediu-se de Chuvisco e desceu as escadas para o 27o andar, onde pegaria sua jaqueta de couro no vestiário. Instantes depois se despediu também do seu Zé, o porteiro do prédio comercial que a rádio compartilhava com outras duas emissoras de rádio, fora uma série de consultórios dentários, escritórios de advocacia e até mesmo uma sex-shop.

Ajeitando a gola da jaqueta, saiu para o vento frio da Praça Oswaldo Cruz. Era começo de Julho, e as costumeiras frentes-frias castigavam a terra da garoa. Virando à direita, seguiu pela Avenida Paulista rumo ao apartamento de dois cômodos que alugara num prédio na Rua Itapeva. Sabia que seria uma fria caminhada, mas não queria se enfiar debaixo da terra, e precisava economizar a grana do táxi, que aquela altura da madrugada seria a única alternativa ao trem do metrô. Havia deixado o walkman no seu armário na rádio, e de alguma forma suspeitava que precisaria estar alerta em seu caminho para casa. Não fazia a menor idéia de como estava certo.

Nina & Nicolau – faixa 2

Nina era uma moça dura. Havia abandonado o conforto da casa dos pais no interior de São Paulo para tentar a vida na metrópole. Trocara a casa/comida/roupa lavada em Lins por uma quitinete no Bairro da Liberdade, que dividia com uma colega do curso de História. Classificada dentre as primeiras na Fuvest, conseguia conciliar os rigores da vida acadêmica com o trabalho como professora de dança em uma academia na Lins de Vasconcelos, no Cambuci. O primeiro ano fora praticamente a pão e água, pois precisava pagar as prestações dos móveis que havia comprado para o apertado novo lar, mas a partir do segundo ano conseguira algumas aulas extras na academia, além de uma monitoria na USP. Mesmo assim, o orçamento era apertado, os luxos poucos, mas a energia de viver muita.

Mas neste momento Nina não conseguia pensar em nada disso. Apenas pensava em correr, correr como nunca havia corrido em sua vida. Minutos antes, ao sair de uma casa noturna na Pamplona, onde havia assistido a uma “performance teatral imaterial” de sua colega de quitinete (e de dureza), resolvera seguir para um dos seus coffee shops favoritos, o Sereno Paulista do Conjunto Nacional. Aquela noite fria de inverno pedia uma boa caneca de chocolate quente, para aquecer os pulmões para o resto da balada. Porém, um pouco antes de chegar à esquina da São Carlos do Pinhal com a Itapeva fora atacada por algum tipo de maluco, que tentara abrir seu sobretudo, com os dentes arreganhados, como se quisesse morder seu rosto.

Fora salva por seus reflexos de bailarina. Ao ver seu atacante pulando detrás de um furgão desferiu-lhe um chute no meio das pernas, fazendo-o recuar um pouco. Em seguida, sem parar para pensar duas vezes, aproveitou que seu atacante estava curvado para frente e deu-lhe outro belo chute, desta vez no rosto. Parando para ver se o havia derrubado, Nina finalmente viu a verdadeira natureza de seu atacante: iluminado pela luz vacilante de um poste de luz, o jovem rosto imberbe mudava de feições, à medida que o atacante se levantava. A pele lisa dava lugar a uma máscara enrugada, como se todos os músculos da face passassem por um processo de embrutecimento; os olhos passaram a chispar um brilho avermelhado; por fim, a boca se abriu em um urro selvagem, revelando um conjunto de presas pontiagudas onde deveria haver dentes humanos. Nina, mesmo com sua natureza aguerrida e batalhadora, fez o que qualquer pessoa com o QI acima do de uma ameba faria: gritou como louca e saiu correndo por sua vida.

 Nina & Nicolau – Faixa 3

Tucão era o que um velho hard rock dos anos 80 chamava de “misfit kid” – um sujeito largado na vida, metido com todo o tipo de maus elementos e encrencas. Cigarro, álcool, drogas, nada parecia bastar para o desvairado. Até que uma noite, enquanto fazia pose nas redondezas de uma conhecida boate de viração, foi abordado por um sujeito elegante, cara de gringo, cabelos louros engomados para trás, a bordo de uma imponente BMW com vidros fumês. Aproximou-se gingando da janela do motorista:

– E aí, alemão? O que vai ser?

Confirmando as aparências, o sotaque carregado confirmava que se tratava de um gringo, embora Tucão não tivesse cultura geral suficiente para diferenciar os sotaques. – Entre no carrro, garroto. – afirmou lentamente o motorista.

– Peraí, cara, não transo homem não! – mentiu Tucão, tentando valorizar seus serviços de michê.

– Não estou interressado em você, criaturra inferrior…minha senhorra o escolheu, eu apenas sou o condutorr. Vamos, entre no carrro!! – cortou rispidamente o estrangeiro, mostrando a Tucão um maço considerável de notas de 100 dólares, que fez os olhos inchados do drogado brilharem de cobiça.

Sem pensar duas vezes, deu a volta no carro, entrando pela porta traseira. – Toca para a casa da patroa, alemão!! – disse o marginal, do jeito mais arrogante possível.

Assim era Tucão, sempre tentando disfarçar sua burrice e falta de cultura com uma atitude arrogante e prepotente. O que ele não sabia é que estava assinando seu atestado de óbito ao entrar naquele veículo reluzente.

Duas noites depois, um Tucão diferente foi jogado para fora do mesmo carro importado que o havia recolhido. Mas desta vez, seu coração já não mais batia, seus pulmões já não mais respiravam, suas veias e órgãos já entravam em processo de atrofia. A única coisa que permanecia inalterada, na sua mente conturbada, era um desejo insaciável, um vício, uma fome incontrolável, um mal-estar generalizado comumente associado às suas crises de abstinência. Com sua inteligência limitada, Tucão não fazia idéia de seu verdadeiro estado: estava morto, mas privado do consolo do descanso eterno. Estava morto, mas condenado a vagar pela terra como um monstro, consumido por uma fome maior que o pior dos seus vícios.

Alucinado pela fome, viu uma garota descendo a rua, na calçada oposta. Parecia uma vítima fácil, uma garota com não mais do que 1,70m, magra, com os cabelos presos no alto da cabeça em um coque improvisado, não parecia capaz de oferecer a menor resistência. Uma voz assaltou sua limitada mente: “morda-a, beba seu sangue” sussurrava a voz feminina – “Alimente-se dela” – ordenou a voz com hipnótica firmeza. Tucão, mesmo sem entender o porquê, sabia o que fazer: iria rasgar a garganta dela, saciando assim seu novo vício.

Saltou então para a primeira e última caçada de sua existência como parte do mundo inferior.

 Nina & Nicolau – Faixa 4

Nicolau já estava caminhando há quase dez minutos, num ritmo agradável, sem pressa. Era noite de quinta-feira, véspera de um feriado prolongado, e a noite prometia. Desde moleque sempre fora fascinado pelas luzes da Avenida Paulista, e com o passar dos anos achava que ela havia ficado ainda mais bela. Com a inauguração do ramal Paulista do metrô, o horário de funcionamento de toda linha havia sido ampliado, passando a operar 24h por dia, o que injetara novo ânimo na vida noturna do maior cartão-postal paulistano. E essa vida noturna inspirava sempre o jovem radialista, que transformava o seu caminhar para casa em um potente laboratório de situações e tipos para os seus ácidos comentários radiofônicos. O seu programa, um dos mais ouvidos pela juventude paulistana, era recheado de críticas sociais e comentários do mais ácido humor, não poupando nada nem ninguém. Talvez por isso mesmo tantos ouvintes ligassem todas as noites, entupindo as linhas da emissora.

Como todo viciado em música, Nicolau sempre andava com uma canção martelando dentro da cabeça; nessa caminhada o repertório havia sido bem amplo, indo de Smiths a Elvis, passando por Skid Row e a desconhecida Cathouse Queen. De repente, um sujeito de barba, encostado no muro do terreno em que existira a antiga Mansão Matarazzo, começou a assobiar um verso de “Hound Dog”, como se captasse a melodia diretamente da mente de Nicolau. Surpreso pela coincidência, olhou de relance para o estranho, um homem alto, de idade impossível de ser definida, vestindo berrante camisa havaiana e óculos escuros à John Lennon, que desapareceu virando na Pamplona.

Seguindo seu caminho, logo esqueceu o assobiador, classificando-o mentalmente como mais um “tipo estranho” da noite paulistana. Afinal de contas, com a rica fauna daquele trecho da Paulista ficaria difícil se manter concentrado em um sujeito barbudo, com um gosto bacana para músicas e duvidoso para roupas. A sucessão de modernos, góticos, punks, nostálgicos dos 80’s, patricinhas, mauricinhos, esquisitos, clubbers e afins era tão grande que todos passavam como cavalos em um carrossel, movimento e cor sem identidade palpável.

Andando mais um quarteirão chegou à Itapeva, onde virou para descer para casa. Pretendia apenas passar no apartamento para tomar uma ducha, trocar de roupa e sair para a balada. Nas rodas que freqüentava, balada boa começava após as três e meia da madrugada, o que lhe dava uma folga de ainda pelo menos meia hora.

Começou a descer a rua rumo ao prédio onde dividia um apartamento com Carlos, seu amigo há mais de dez anos, e professor de literatura em um conhecido cursinho da região. Dividiam o apartamento, mas raramente se viam, pois os horários do atrapalhado professor não batiam muito com os do radialista. Invariavelmente se comunicavam através de bilhetes pendurados na porta da geladeira, ou no mural do corredor. Rápidos telefonemas ao longo do dia eram usados para acertar alguns detalhes, e a convivência seguia tranqüila.

Estava quase chegando ao seu prédio quando levou um encontrão. Esbarrara em uma garota, que descia correndo a São Carlos do Pinhal. No reflexo, segurou-a firmemente pelos braços, para impedir que caísse. Por um momento foi como se o tempo ficasse suspenso; a respiração cortada no meio, um silêncio tranqüilizante, um instante suspenso no ar: a garota era linda!! Os cabelos, presos em um charmoso coque no alto da cabeça, eram de um tom de castanho avermelhado, deixando cair mechas sobre o rosto perfeito, iluminado pelas luzes de néon do letreiro de uma padaria. Nicolau olhava fascinado para a boca bem feita da garota, mas teve seus devaneios apaixonados interrompidos por uma nova figura, que saltou sobre a dupla, sedenta de sangue.

 Nina & Nicolau – faixa 5

– Maldita vagaba!! – urrara Tucão, em seu último instante racional. A garota havia acertado-o nas bolas, e a dor havia aumentado ainda mais sua fome e sua raiva. Disparou atrás da garota, que corria por sua vida. Sentia seu corpo mais leve, correndo com leveza, e rapidamente aproximou-se da garota. Seu estômago ardia de fome, certamente a pior larica de sua vida. Acelerou o passo, estava quase alcançando a sua presa.

Mas ela não iria facilitar para ele. Durante a fuga, passou por um bar quase vazio,  puxou umas mesinhas de metal, dessas que costumam trazer uma marca de cerveja estampada para o meio do caminho, acertando-o nas pernas. Tucão tropeçou e se enrolou com as mesas, mas num golpe de fúria arremessou uma para o outro lado da rua, sem nem mesmo perceber o que havia feito. Antes mesmo que a mesa de metal aterrissasse sobre o pára-brisa de um Corsa estacionado, já disparava outra vez atrás da garota.

Viu quando ela chegou até a esquina e abraçou-se a um homem que cruzava o caminho. Irracionalmente, murmurou – playboy maldito… – e saltou sobre os dois, pronto para matar quem quer que estivesse em seu caminho.

  Nina & Nicolau – Faixa 6

– Que merda é essa!?! – foi a primeira coisa que passou pela cabeça de Nicolau, quando viu o rosto do sujeito que o estava atacando. Segurando o atacante pela gola da camiseta, Nicolau não entendia bem o que estava vendo: um sujeito magrelo, talvez não mais do que cinqüenta quilos, com o rosto coberto de calombos e dentes pontudos saindo da boca escancarada. Quando percebeu que o sujeito tentava morder seu braço, empurrou-o para longe.

– Sangue!! – gritou Tucão. – Quero sangue!!  – e saltou novamente sobre Nicolau, que o recebeu com um soco no queixo. Porém, o soco de Nicolau pareceu servir apenas para enfurecer seu atacante, que com um golpe rápido com a mão direita abriu um talho no peito do locutor.

Recuando, Nicolau tateou o peito ferido; os três cortes não eram muito profundos, apenas o suficiente para esfarrapar sua camiseta do NIN e arrancar um pouco de sangue. Nicolau ergueu os olhos, bem a tempo de ver quando seu atacante lambia sofregamente os dedos.

– Esse sujeito é maluco! – pensou nauseado, enquanto se levantava. Com o pulso acelerado pela excitação, olhou em volta, procurando pela garota que havia colocado-o naquela encrenca. Viu apenas seu atacante se levantando, os olhos acesos tal qual carvões em brasa na escuridão da noite.

– Santo Deus… – balbuciou Nicolau, enquanto procurava afastar-se da criatura, que saltou com a boca escancarada, como se fosse abocanhá-lo. Nicolau mal teve tempo de erguer o braço esquerdo para bloquear o ataque. Salvo pelo couro da jaqueta, sentia a pressão da mordida aumentando em seu braço. Aproveitou o impulso do atacante, jogando-o contra o poste. Com um urro de dor, a criatura soltou do seu braço, caindo aos pés de Nicolau.

Aproveitando-se da oportunidade, Nicolau desferiu um chute certeiro no rosto do atacante, que rolou para a sarjeta. Neste momento, como se surgido do nada, ouviu o estridente barulho de sirenes, antecedendo duas viaturas com os giroflexes ligados.

Antes que Nicolau pudesse esboçar uma reação, quatro policiais saltaram das viaturas, todos com as armas apontadas em sua direção. – Parado, mão na cabeça!! – gritaram os policiais. O jovem radialista fez o que os policiais mandaram, por puro reflexo condicionado.

 Nina & Nicolau – Faixa 7

Tucão jazia atordoado. A fome estava consumindo-o, e suas forças falharam no momento decisivo. Havia saltado sobre o sujeito grandalhão, e cravado seus dentes nele como sabia que devia fazer. Mas algo saíra errado, havia sido golpeado duramente nas costas e na cabeça. Agora tudo parecia girar ao seu redor, luzes fortes piscando em seus olhos e fazendo-os lacrimejar. Barulhos fortes, estridentes furando seus ouvidos. Vozes gritando. Precisava sair dali, acabar com a fome. Viu os policiais, embora sua mente não conseguisse distinguir quem eles eram, ou o que faziam ali. Sabia apenas que haviam chegado junto com as luzes e barulhos fortes, e que devia fazê-los parar. Saltou sobre o mais próximo, pronto para acabar com as luzes e a fome.

 Nina & Nicolau – Faixa 8

Os soldados-PMs Vandir e Juvenal seguiam em patrulha pela região dos Jardins quando ouviram no rádio um chamado para uma ocorrência de vandalismo na São Carlos do Pinhal. O dono de um boteco registrara queixa de arruaceiros depredando seu estabelecimento, mencionando inclusive que haviam atirado suas mesas nos carros passantes. Como o comerciante havia reclamado de um grupo de cinco ou seis marginais, eles serviriam de reforço para os colegas Dias e Alex, que já estavam quase no local.

Ambas as viaturas encostaram praticamente ao mesmo tempo, com as duplas de policiais saltando em sincronia. O procedimento era um tanto quanto padrão: localizados os arruaceiros, aplicar toda a pressão possível para intimidar logo de início. Este tipo de ocorrência geralmente acabava bem, com uma meia dúzia de moleques bêbados dormindo desconfortáveis no distrito.

Nesse caso parecia que não seria diferente. Quando os faróis das viaturas iluminaram a cena, dois dos sujeitos estavam se engalfinhando, com o maior deles socando o outro num poste. Ao receberem voz de prisão, o que estava de pé prontamente ergueu os braços, demonstrando que não era tão burro quanto parecia. O menor, porém, reagiu de maneira inesperada: primeiro cobriu os olhos e abraçou a própria cabeça, como se quisesse tapar os ouvidos, depois saltou sobre o sargento Dias com um grito, como um animal acuado.

Antes que Dias pudesse esboçar uma reação, o moleque abocanhou seu pescoço, mesmo por cima da gola do uniforme. O sangue do policial começou a jorrar, como se houvesse sido atingida alguma veia importante. Alex, parceiro de Dias num turno de doze horas há cinco anos, deu rapidamente a volta ao veículo, para socorrer o amigo. Acertou dois golpes de cacetete na cabeça do moleque, que desmontou no chão. Alex era contra o uso de violência excessiva, mas ao ver o parceiro e amigo com o pescoço aberto daquele jeito não pôde conter um chute na cara do agressor, que já estava desmaiado. Apontou em seguida sua arma de serviço para o grandalhão.

– E você, fica quietinho aí!! – berrou com o sujeito, intimidadoramente. Vandir e Juvenal se aproximaram, o primeiro algemando o suspeito desacordado, o segundo verificando as condições de Dias enquanto Alex chamava uma ambulância. Enquanto isso o segundo arruaceiro, um sujeito grandalhão vestindo jaqueta de couro, permanecia obedientemente com os braços levantados, olhando assustado enquanto os policiais jogavam o outro suspeito no chiqueirinho da sua viatura.

Após receber uma frustrante negativa em relação à ambulância, Alex algemou violentamente os braços do grandalhão às suas costas, empurrando a cabeça dele para dentro do chiqueirinho, junto com o sujeito desacordado. Enquanto Alex seguia com seu colega para o Hospital do Servidor, Vandir e Juvenal seguiram para o 5o DP com os suspeitos. No chiqueirinho, Nicolau permanecia de olho em seu atacante, que jazia desmaiado ao seu lado.

– Se esse coió se mexer eu meto o pé na cara dele – pensou o assustado radialista – Parece maluco, sai mordendo as pessoas por aí…quem ele pensa que é, o Conde Drácula?!

Mal sabia o quanto havia chegado perto da verdade…

 Nina & Nicolau – Bônus Track

Sexta-feira, dia 13, por volta das 06:00h

Nicolau acordou horas depois, trancado numa cela, ouvindo gritos próximos de dor e desespero. Da cela onde Tucão havia sido trancado, lotada como quase todas as dos distritos policiais paulistanos, vinha um forte cheiro de queimado, acompanhado por um chiado e pelos gritos que acordaram Nicolau. Os presos começaram a gritar pedindo socorro, se amontoando no canto mais distante da cela, enquanto uma figura, que Nicolau rapidamente reconheceu como seu atacante da noite anterior, corria desesperado pela cela iluminada pelo sol. Os gritos de dor aumentavam de intensidade a cada minuto, enquanto Tucão se retorcia, até que o viciado caiu de bruços no chão, ainda se debatendo e urrando de dor. Subitamente, Tucão começou a queimar, sua pele se soltando da carne, a carne caindo dos ossos em pequenos pedaços flamejantes. Em questão de minutos, o viciado fora reduzido a um corpo carbonizado, cercado por uma marca de queimado no chão.

Por volta das nove da manhã, Nicolau permanecia isolado em sua cela, dando graças aos céus pela faculdade de Jornalismo que havia cursado e que lhe permitia esse isolamento, vendo enquanto o corpo carbonizado era levado da cela vizinha. Pelo comentário dos presos, aquilo devia ser efeito de algum novo tipo de droga, usada para acerto de contas entre traficantes. Para os policiais, o sujeito havia sido morto por alguém de dentro da própria cela, talvez por algum antigo desafeto que reencontrara no xadrez. De repente, um dos policiais chamou seu nome, abrindo a cela e anunciando a sua soltura.

– Sua namoradinha explicou o que houve, garotão. – disse o carcereiro. Sorte de vocês que nossas viaturas conseguiram chegar a tempo.

– Minha namorada?? – pensou Nicolau, sem demonstrar a surpresa para o policial.

Na sala de espera do distrito, a garota da noite anterior o esperava.

– Oi. – disse Nina, meio sem jeito, estendendo a mão e cumprimentando-o. – Eu não podia deixá-lo aí, você salvou minha pele daquele maluco.

Depois de feitas as apresentações, Nina e Nicolau resolveram tomar o café da manhã numa lanchonete ali perto, e rapidamente se tornaram amigos. A conversa simplesmente fluía, e em questão de minutos ambos tinham a impressão de se conhecerem por toda uma vida.

De uma mesa próxima à saída, um sujeito de barba e vestindo uma chamativa camisa havaiana, observou o casal por alguns minutos. Em seguida, levantou-se, pagou a conta e foi embora, com um sorriso no rosto e um olhar divertido por trás dos óculos escuros à John Lennon, enquanto assobiava um trecho de “Hound Dog”…

 

 

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