Por Caio Bezarias
com importantes toques do André

 

Parte I

Mark observava as silhuetas tristes e monótonas das casas, sobrados e galpões passarem pela janela do carro sem interesse. Seu rosto estava duro e vazio. Não sentia medo, terror ou apreensão; sabia exatamente o que lhe ocorreria. O que sentia era uma imensa e frustrante raiva, pois seus algozes, que estavam ali, a seu lado, as roupas deles roçando as suas, o haviam pegado e dominado com uma facilidade humilhante., de tal forma que nada poderia fazer para sequer causar-lhes algum sofrimento ou incômodo qualquer, antes de ser executado. A impotência era o que o desesperava. Terminar sua existência física e sua vida como licantropo sem, de alguma forma, retribuir um pouco que fosse o que lhe fariam, era exasperante demais! Causar incômodo e problemas aos outros fora a marca de sua vida, tanto como humano como lobisomem. E agora aqui estava ele, sendo levado para um canto escuro e mal-cheiroso da cidade, onde seria posto fora do caminho dos outros lobisomens que vagavam por São Paulo sem nenhum alarde, barulho ou confusão,  coisas que ele tanto gostava de provocar.

Enquanto o carro se embrenhava em ruas cada vez mais tortuosas, escuras e sinistras, ele pensava vorazmente. Não estava construindo nenhuma bela e confortadora ilusão sobre si mesmo, jamais fora dado a isso, mas a insatisfação que sentia era demais. Sua habilidade de espalhar confusão e envolver todos ao redor nela, muito  presente em sua (curta) existência como licantropo, era, naquele aqui e agora, uma impossibilidade.

Mark muito pouco uso fez dos poderes e capacidades que recebeu de Gaia que não fosse inconseqüente e desvairado. Tanta insensatez e egoísmo não demoraram a despertar a ira dos lycaons. Seguidores inflexíveis das leis e desejos de Gaia, não demoraram a avisá-lo com a contundência típica deles; vendo seus alertas ignorados, logo decidiram por seu fim, sem delongas ou cerimônias. Foi simplesmente seguido por dois lycaons até sua casa, imobilizado por eles de uma forma inimaginável, jogado dentro de um sedã preto no qual o licantropo mais sinistro que já vira esperava e lá estavam, em uma região mal-afamada da cidade, onde tratariam de eliminá-lo de forma que sua morte parecesse um acidente ou crime como muitos outros que ocorriam naquele lugar.

O motorista, um lycaon cuja aparência humana era de um homem troncudo perto dos quarenta, metido em roupas austeras e fora de moda e que emanava uma aura de Gaia[1] tão intensa e estranha que provocava calafrios terríveis em Mark quando o encarava, parou o carro no fim de uma rua sem saída que terminava em um portão alto e contínuo de aço, pintado em uma tonalidade mortiça de marrom.

 

Parte II

 

Assim que o motor foi desligado, o motorista – e óbvio líder dos demais – saltou para a rua, no que foi acompanhado pelos outros dois, que empurraram Mark para fora. Ele olhou ao redor: uma rua inclinada e em total silêncio, quase às escuras, apenas a luz de dois postes distantes. Nos dois lados da rua a estreita, suja e despedaçada calçada terminava em um muro alto e longo, que corria por toda sua extensão, escondendo uma sucessão de galpões e terrenos vazios que pareciam se estender mundo afora, tão escuro, denso e silencioso era o cenário que os envolvia. Havia muitas árvores mal-cuidadas e mato, nenhuma luminosidade indicando uma habitação, apenas os dois postes altos e esparsos que pareciam se esconder entre as copas, sua luz fraca apenas destacando a escuridão que parecia prestes a engoli-los.

Ele aspirou o ar fétido, impregnado de um sem número de odores e rastros desagradáveis, sentiu uma vaga e inesperada tristeza invadi-lo, causada pelo deprimente cenário e olhou o quanto suportou para o líder, enquanto fazia a pergunta:

– Bem, então é aqui que acabo minha carreira. Posso saber onde estamos, que diabos tem atrás desse portão e principalmente, como será? Não precisam mais bancar os personagens de filme de ação, podem desfazer a pose de fodões misteriosos.

O líder sorriu e os outros riram.

– Que fala patética, típica de quem está apavorado e ainda se faz de valente. – comentou um deles, que tinha sua mão pousada no ombro direito de Mark.

O lycaon aproximou-se dele, encarou-o nos olhos e respondeu:

– Trouxemos você a este lugar vil porque é aqui que eliminamos os inimigos, os desgarrados e problemas em geral do Povo. Este lugar pertence à minha identidade humana. Aqui, cumprimos nossas tarefas mais duras e difíceis sem sermos incomodados. E você terá seu fim aqui, desta forma, meu caro.– E dizendo isso, fez um gesto leve com uma das mãos, como se chamasse alguém que aguardava do outro lado. No mesmo instante o som de animais correndo foi ouvido e logo uma saraivada de rosnados encheu o ar.

Mark reconheceu, por meio dos cheiros e sons, o que havia do outro lado: quatro enormes pastores alemães, que o líder pôs em um frenesi assassino sem dificuldade, usando algum comando imperceptível. Ele percebeu que os dentes estalavam, a baba escorria grossa pela boca dos cães e que estavam enlouquecidos pela fome e pelo desejo de rasgar, morder, dilacerar.

Ficou enfurecido com seus carrascos, pela primeira vez. Terminar assim…Ele se resignara com seu destino já algum tempo. Jorge e outros o alertaram de que os lycaons não agüentavam mais seus abusos e que seu tempo estava contado, mas ser despedaçado por cachorros ferozes era humilhante! Que criaturas impiedosas e matreiras eram esses tais lycaons! Dar cabo de um membro do povo assim. Os licantropos nutriam muito afeto pelos cães, mas também os consideravam uns bichos no sentido mais primitivo da palavra, seres inferiores dignos de pena e afagos e não mais. Os lobisomens mais jovens e descontrolados – como ele – viam-se a si mesmos como “as bestas humanas”, os seres superiores que eram fera e homem e por isso acima dos demais seres, principalmente dos cães, tão submissos aos homens, que eles jovens desprezavam de um modo bastante teatral e calculado.

– Vou virar comida de cachorros fedidos. Escolheram muito bem, vocês lycaons são realmente muito cuidadosos com sua imagem. Bem, vão me jogar para os totós ou querem que eu mesmo pule para lá? – perguntou apontando.

– Calma lá, garotão, não somos assim tão secos, sem sabedoria ou gentileza. Você merece algo antes. – e dizendo isso, o sujeito da esquerda, um homem entre vinte cinco e trinta anos de pele bem morena, imenso, muito forte e esbelto, foi ao porta-malas do carro, mexeu em um pacote e dele tirou uma garrafa de vinho do Porto e outra de uísque, ambas de excelente marca e fechadas.

 

Parte III

 

Mark arregalou os olhos e disse, os braços abertos e as pernas afastadas:

– Muito bem, uma bebedeira para eu sofrer menos e para o serviço ser mais fácil.

– E também para aparentar que você simplesmente estava de pileque ao invadir o terreno, antes dos bichinhos te pegarem. Mas não só isso: uma dignidade a que você tem direito e nós temos o dever de dar, um último prazer, uma despedida da existência física digna de um membro do Povo, mesmo um pária como você.

Mark riu como há muito não ria. Com um movimento tão veloz que imperceptível a um ser humano, tomou a garrafa de uísque da mão do sujeito, fez as garras de sua mão esquerda saltarem do interior dos dedos só um pouco e em seguida, com outro movimento, abriu a garrafa, a tampa se espatifando contra o muro.

Ele olhou bem fundo e fixo nos olhos dos demais, um por um, lentamente, sem pressa. O sorrisinho irritante, bobo, sua característica marcante desde a infância e a única que teve, esculpiu-se em seu rosto. Sem nada dizer ele ergueu a garrafa, enfiou o gargalo em sua boca e bebeu um quarto do conteúdo de um só gole, devolvendo o vasilhame ao grandalhão moreno, que engoliu um gole generoso, antes de passar a bebida adiante.

O fim de Mark não foi inteiramente desprovido de sentido, vazio de importância  ou esquecido. Pois a notícia, veiculada em jornais, programas de tv sensacionalistas e sanguinolentos, sites de notícias, programas policiais de rádio e pelas conversas das pessoas, de que um rapaz jogou-se ou foi atirado para dentro de um galpão no extremo da zona leste, vigiado por cachorros esfaimados, e que estava tão bêbado, como a autópsia demonstrou, que felizmente mal sentira os bichos devorarem metade de seu corpo, logo incorporou-se à coleção de imagens de horrores e atos violentos que só poderiam ocorrer em São Paulo e que se tornavam proverbiais cidade e país afora.

E logo surgiram alguns trocadilhos infames e toscos da expressão “bêbado como um cão”, que se referiam à cena de um corpo de homem jovem semi-devorado por cães  e exalando álcool, encontrado em um dia qualquer em uma “quebrada” qualquer da cidade, trocadilhos que circularam por longo tempo entre aqueles capazes de achá-los divertidos. Se Mark soubesse como sua execução contribuiu à cultura oral de São Paulo, certamente teria ficado orgulhoso.

[1] Aura de Gaia é como os licantropos se referem à emanação, parte material e parte mística, que eles emitem, um sinal de sua comunhão com todos os aspectos da vida orgânica e que permite reconhecerem uns aos outros mesmo à distância.

 

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