Por Caio Bezarias
com alguns toques e sugestões de André Pavesi

 

Parte I

14 de Setembro de 2005, quarta-feira, 2:30 da tarde

Sem vontade ou ânimo, Laura sentou-se em sua cadeira, ligou o computador e retornou ao trabalho. Olhou para a janela, na qual as torres da Avenida Paulista eram visíveis e suspirou com tristeza, pensando na imensidão de horas e dias que faltavam para a noite de sexta-feira, para que surgisse o momento em que aquele cenário ganhava cor, vida e mistério, quando aqueles emaranhados de metal tornavam-se imensas gárgulas de metal cobertas de luz amarela, a cortar a noite, quando o mundo passava a ser sedutor e a encantar; pois durante o dia nada fazia sentido ou importava, o dia não era nada além de uma massa de horas em que ela fazia as coisas que tinha de fazer – trabalhar e ganhar um suado e pequeno dinheiro, e assim ter um teto e se manter longe de seus pais – para garantir sua verdadeira vida, sua vida noturna, a que valia a pena, que entusiasmava, que fazia seu corpo e espírito viverem de fato.

Para suportar melhor o restante da tarde foi à cafeteira, encheu um copo até a borda e engoliu uma enorme golada de café; e enquanto verificava as mensagens e reclamações dos clientes relembrava os momentos de parar a respiração e a pulsação, as cenas incríveis e inexplicáveis que presenciava todos os fins de semana, os segredos, horrores e maravilhas que caminhavam pela escuridão e dos quais se tornara dependente. Enquanto engolia a bebida fumegante um punhado de lembranças de sua vivência na noite desaguou na consciência, tão coloridas e nítidas que o desespero cresceu.

Seis meses antes

Sábado à tarde

Laura terminou de varrer seu quarto, recolheu os papéis amassados empilhados ao lado da escrivaninha e olhou para a janela. Estava suada, os braços doloridos, seu cabelo era uma confusão de fios retorcidos, mas estava feliz, cheia de ânimo. Fim de tarde! A noite de sábado aproximava-se e chegava o momento de produzir-se, de vestir seu traje de noite, maquiar-se a rigor e correr para o Darkness, seu querido Darkie, com sua escuridão inspiradora, sua infinidade de rapazes, suas músicas eternas – sempre as mesmas, para deleite dela e de muitos, todas as coisas que felizmente nunca mudavam, os marcos de um templo sujo e escurecido onde os seus amigos, os estranhos, pervertidos e seres da noite se encontravam, onde ela era uma pequena diva, com um pequeno séqüito a seu redor, sobre o qual ostentava um duvidoso poder de sedução e uso no qual ela mesma acreditava menos a cada sábado…

A noite se aproximava. Sentou-se em sua cama de solteiro e observou, da quitinete encravada no topo de um prédio decrépito da Liberdade, a noite chegar. Primeiro as nuvens próximas ao horizonte tingiram-se do mesmo vermelho que inundou a parte mais baixa do céu, depois a tonalidade sanguínea morreu e deu lugar à escuridão cada vez mais densa. Quando a luz do Sol por fim morreu e a noite, vinda de longe, do outro lado do mundo, engoliu a cidade, um sorriso surgiu no rosto de Laura e lá ficou, um sorriso cheio de malícia e audácia. A noite era o mundo dela, as luzes da cidade, garotas pintadas, irresistíveis – ela era uma dessas –, tudo de misterioso, sedutor e belo que havia no mundo, para Laura e seu povo, concentrava-se na noite.

Sábado à noite

Mal passava de uma da manhã e a noitada já tivera tudo que ela esperava – conversas recheadas de maledicência com os amigos, em que rebaixavam pessoas que lhes eram íntimas há pouco tempo antes, muita bebida, sexo casual com um sujeito do qual soube apenas o primeiro nome, o ato feito no duro banco de cimento defronte à pista de dança, o ambiente ao redor deles totalmente escurecido, ele sentado, segurando-a nas ancas, ela conduzida pelas mãos apressadas dele, subindo e descendo, ao ritmo da pesada música eletrônica que saía das surradas caixas acústicas. Outra trepada que terminou rápido, o sujeito nada preocupado com o prazer dela, mais um bastardo que serviria apenas para fazer pose pras amigas e ser acrescida à lista de “loucuras” que fizera para manter sua imagem que tanto prezava; muito pouco, entretanto, para uma verdadeira satisfação, física ou psicológica. Em um íntimo que se tornava, a cada sábado, cada vez mais evidente, mais fácil de ser captado por aqueles que a conheciam e mais pesado para ela, todo o cabedal de excessos e diversões perigosas que Laura podia mobilizar apenas cansavam-lhe o espírito e serviam para acentuar o vácuo que era sua existência. Ela não sabia mais como enfrentar a simples existência do dia seguinte, apenas fingia que não haveria dia seguinte e que a vida diurna era um intervalo antes de a noite se iniciar.

Após limpar-se no banheiro e pegar um copo da coisa escura que era chamada pelos barmen do Darkie de “vinho”, ela voltou ao porão, apoiou-se contra a parede oposta à cabine do DJ, acendeu um cigarro e lá ficou. Deixou-se levar pela batida da canção do Poesie Noire e entreteu-se seguindo o movimento de um casal que dançava, numa série de movimentos fluidos e elegantes, bem à frente dela, tudo para afugentar a dolorosa consciência de que a noite era cada vez menos o que ela sempre esperava que fosse.

Assim que deu cabo da bebida, teve uma idéia extremada para expulsar o mal-estar emocional: por que não transar com outro cara? Nunca fizera isso antes, nunca trepara com dois sujeitos em uma mesma noite, e ainda por cima fazê-lo no mesmo lugar. E onde fazê-lo, para que a coisa fosse completa? Claro, na “dark room” do porão gótico, a Sala, como era conhecida por toda comunidade gótica e roqueira, a nada secreta sala do Darkness para orgias, trocas de casais e o que mais a libido dos freqüentadores inventasse, era meio restrita à elite dos freqüentadores da casa noturna – isto é, os amigos mais próximos dos donos e aqueles que podiam pagar uma espécie de aluguel para usarem-na quando bem entendessem – mas Laura fazia parte dessa elite sem ter gasto um centavo, pois já tinha dado para os donos e vários dos incontáveis barmen e seguranças que passavam e sumiam como se trabalhar lá fosse um castigo escolar. Ela até mesmo tinha cópia das chaves da tranca e do cadeado que mantinham a Sala mais ou menos inacessível, quando alguém ou um pequeno grupo a alugava para uma festa ou orgia fechada, cortesia de Jonas, um dos donos, que as deu em troca de uma demorada chupeta, em pleno banheiro masculino.

Era isso mesmo. Dar para dois caras, em pouco mais de uma hora, os dois catados no mesmo lugar? Ah, suas amigas ficariam malucas ao saberem, e, bem, o que importava era ser vista como uma doida, o que diriam sobre ela bastaria para afastar a tristeza e o tédio, faria sentir-se poderosa e legal de novo.

Cheia de ânimo, trotou até a porta da Sala, as pontas da bota de salto alto e fino mal tocavam o piso. Esse breve momento perfeito, em que só havia a empolgação e a promessa de emoções novas, foi como a realização de uma antiga e algo inocente fantasia sua, em que era uma deidade, uma rainha urbana desfilando em um piso brilhante, cercada de néon e rostos a admirando, tudo sob a luz de uma lua imensa e perfeita…

 

Parte II

 

Quando a porta surgiu em seu campo de visão ela reparou que a tranca estava passada mas a corrente não estava lá, o que significava que uma festinha “semi-aberta” estava rolando: quem entrasse, se agradasse aos participantes podia ficar e se jogar na orgia.

Ela abriu com dificuldade a bolsa, tão empolgada estava, deixou estojo de maquiagem e batom rolarem no chão. Finalmente, sentiu o metal frio em seus dedos, enfiou a chave no respectivo buraco e girou-a com toda a força que a mão tinha.

Uma luz vermelha, difusa e fraca se espalhava de maneira estranha pela Sala, como se fosse uma névoa imaterial feita de luz. Casais e grupinhos – duas garotas, três rapazes, duas garotas e um sujeito pelo menos dez anos mais velho, uma coroa de rosto marcado com uma ninfeta, e uma maioria de casais homem-mulher estavam largados pelos sofás e pufes puídos e empoeirados. Gemidos e sussurros nada sutis cortavam o ar, pesado da mistura de odores de sexo, maconha, suor, álcool e poeira. Já havia muitas peças de roupa e bolsas largadas no chão, que ela ia pisando sem se importar.

Logo Laura inspecionou toda a Sala e não encontrou nenhum cara desacompanhado e que lhe interessasse. Claro, estúpida! Teria de buscar alguém na pista ou no bar e levar para lá. Deu meia volta e estava a poucos passos da porta quando uma mão forte e grosseira fechou-se em seu punho esquerdo.

– Ei, Laura, quanto teeeempo, gata! Vem aqui, senta cum nós e vem entrar nuumas! Éééé!

Livrou-se daquela garra e olhou assustada. Levou quase um minuto para reconhecer Eduardo, um antigo rolo cuja simples lembrança lhe enchia de ódio e arrependimento. Ficou horrorizada: ele estava pelo menos quinze quilos mais pesado, o rosto inchado, disforme, o cabelo ressecado e desgrenhado.

Imediatamente sentiu o olhar hostil da acompanhante daquele traste e encarou-a. Seu queixo caiu: uma linda morena de um metro e setenta e cinco, vestindo blazer de veludo verde-escuro por cima de um corpete de couro reluzente, calça do mesmo material muito justa. A mulher era alta, corpulenta, magnífica: corpo perfeito, uma cabeleira negra e cacheada esplendorosa, lindos traços faciais cobertos pela pele mais branca e lisa que já vira. Os olhos negros chispando uma luminosidade que ressaltava os lábios fartos e vermelhos.

Como aquela deusa gótica se rebaixava ao ponto de estar com tamanho escroto? O que queria dele? A intuição de Laura alertou-a de que algo muito, muito perverso e anormal rolava entre aqueles dois e decidiu cair fora o mais rápido possível.

– Sai fora, meu. Você está acompanhado e não quero mais nada com você, entendeu?

Antes que ela alcançasse a porta ele ergueu-se e agarrou-a pela cintura, apertando com força. Trouxe o rosto dela para perto do seu e falou bem alto, um bafo terrível exalado a cada palavra:

– Ora, vamos curtir um lance a três, uma surubinha. Vai me dizer que parou com isso? Duvido.

– Já disse para me deixar em paz! – e com um safanão atirou o sujeito contra a parede.

Ele encarou-a por um instante, bufou e avançou, porém, antes de sua mão aberta atingir o rosto de Laura, outra mão, negra e enorme, surgiu, torceu seu braço e prensou-o contra a parede. Somente nesse momento ela lembrou-se dos seguranças que ficavam

ocultos em cantos estratégicos, como sombras silenciosas, impassíveis, assistindo a tudo e só intervindo em situações como aquela.

O segurança, um negro enorme e claro, mal-encarado, metido em traje social azul-marinho, falou com voz fria, de quem já lidara com tal situação muitas vezes:

– Você vai para a rua, gordão, e não abre a boca.

O segurança abriu a porta sem soltar o gordo escroto e desapareceu com ele.

Sentada em um pufe, Laura recobrou o fôlego. Estava bastante incomodada com os olhares que lhe dirigiam e queria sair dali o mais rápido possível. Tinha mudado de ânimo e idéia: nada mais de sexo ou aventuras naquela noite. Tudo que queria era mais vinho, respirar ar fresco no terraço e relaxar.

Antes de levantar-se, percebeu a companheira de Eduardo a sua frente, o rosto praticamente grudado ao seu. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, pois não percebera ela se mover, simplesmente surgira ali!

A voz dela era baixa, mas bem audível, como se entrasse diretamente em sua cabeça:

– Detesto me alimentar de mulheres, mas não há outra opção: estou faminta e sua intromissão estragou tudo, assim, prepare-se para ser presa de um dos imortais, humana desgraçada!

E Laura viu os caninos enormes e pontiagudos pularem da boca da mulher e os olhos emitirem uma luz vermelha. Ela olhou para os lados, seu rosto transformado em uma máscara de desespero, pedindo por ajuda. Um desespero que aumentou ao sentir um som de risada invadir seu cérebro:

– Não adianta pedir por socorro. Meu poder é bastante para que os outros humanos não vejam nem ouçam nada do que realmente estamos falando e fazendo. Vou levar você para fora daqui e beber seu sangue sujo de fêmea até o fim. Maldita seja, mulherzinha!

– Espere! Eu não tive culpa, ele que me abordou. Podemos resolver isso. Eu conheço aquele cara, sei onde ele está agora. Ele não foi longe. Sempre fica no boteco em frente, se lamentando e xingando, após tomar milhares de foras das garotas daqui. Me deixa sair, eu pego ele, levo para um lugar seguro e lá você bebe o sangue dele. Em troca me deixa viva!– Ofegava tanto que parecia prestes a explodir. O sentido da torrente de palavras que despejara foi entrando aos poucos em sua consciência e ficou pasma com sua rapidez de raciocínio.

A vampira fechou a boca, que formou um sorriso malicioso, o brilho vermelho nos olhos apagou-se. Parecia novamente uma beldade humana. Após um instante, perguntou:

– É capaz disso? Entregaria seu ex-namorado para mim para salvar a si?

– Ele nunca foi meu namorado. É um cafajeste nojento, isso sim. Um idiota pra quem dei umas vezes e me arrependi depois. Será um favor para as mulheres daqui se ele sumir.

Novamente aquela risada assustadora invadiu sua cabeça. E dessa vez teve a percepção de que se envolvera até a medula em algo perverso demais.

– Muito bem. Eu aceito sua proposta. Mas saiba que posso te paralisar e sumir com você quando quiser. Assim, tente me enganar e sofrerá muito mais do que sua pobre imaginação pode conceber.

Laura encarou a criatura por algum tempo e respondeu, em um tom de igualdade que surpreendeu e satisfez Ingrid:

– Não precisa temer por isso. Jamais trocaria minha vida pela daquele cachorro. Vamos logo!– e saiu porta afora, levando a outra pelo braço.

 

Parte III

 

Quase em frente ao Darkness há um minúsculo bar que deveria ser tombado e preservado como modelo supremo de botequim sujo, apertado e pitoresco, daqueles que existem aos montes no centro da cidade e arredores. O “bar do Jão”, como era conhecido por todos os freqüentadores da casa noturna, era nada além de um balcão de fórmica desbotada e ensebada que ocupava a maior parte do apertado espaço, logo atrás do balcão ficavam João (o Jão) e seus dois empregados, servindo cerveja, doses de pinga, caipirinha e outras bebidas ao fiéis do Darkie, que ali se abasteciam antes (e por vezes depois) de invadir o porão gótico. Das formas e meandros das relações que João e seus funcionários desenvolveram com seus fregueses noturnos e vestidos de pretos a única que importa aqui é a prática de algumas garotas: sabendo que o depósito de cachaça, conhaque e outros era um buraco escuro e mal-cheiroso no pé de uma das paredes do banheiro, elas pediam para usar o banheiro e saiam levando uma garrafa escondida na bolsa, que era dividida entre elas e amigos na porta da boate, contando com a anuência dos empregados, que permitiam o roubo em troca de um beijo rápido ou uma carícia. E Laura sabia que um “esporte” praticado por Eduardo com freqüência era ir àquele cubículo imundo para despejar o conteúdo de seu estômago, sentar no chão e “meditar”. Assim, ela entrou no muquifo em passos firmes mas tremia de horror por dentro. Jão e seus ajudantes, Fuinha e Zelão, olharam-na de maneira libidinosa quando ela perguntou pelo sujeito e Fuinha apontou o banheiro, enquanto emitia uma risadinha maliciosa.

Não precisou de mais de dois minutos para conduzir Eduardo pelo braço para a rua, já quase vazia. Ele não ponderou por um único instante a estranheza de ela procurá-lo tão doce e gentil, minutos após destratá-lo: como quase sempre, estava bêbado, e sempre fora um cara de inteligência curta e lenta, sobretudo quando tinha a rara chance de pôr as mãos em carne fresca para saciar sua libido.

Laura o levou para a rua logo abaixo do Darkie, como a criatura lhe ordenara. Estava escura, quieta e totalmente deserta. Com a maior naturalidade, ela colocou-o contra uma parede e encarou-o, olhos nos olhos, segurando as mãos suadas dele nas suas. Sorriu como se ele fosse o homem perfeito que esperava há anos.

– Vem aqui, gata. Tô cum mó saudade de você!

– Já vou, querido.

E uma mão coberta por uma pele cinzenta e enrugada, terminada em garras longas de cor negra, veio de cima e puxou os mais de cem quilos de Eduardo em uma fração de tempo, tão rápido que ele sequer gritou ou gemeu. Laura olhou para cima. A monstruosidade apertava o pescoço do gorducho de tal forma que seu rosto já estava vermelho. Um som muito fraco saía da boca dele e os olhos saltados eram terror absoluto.

A criatura riu. Sua risada era um som áspero e metálico, um rugido infernal como nenhum outro som que Laura ouvira antes, saindo da boca forrada de presas alvas.

A criatura falou:

– Se detesta tanto esse homem, certamente será um deleite para você ver seu fim. Venha! – E antes que a mente da garota ordenasse que o corpo desembestasse em fuga, foi agarrada pelo colarinho e posta no telhado.

Desabou nas telhas, encolhida de medo, maldizendo-se por acreditar naquela besta sobrenatural. Um vampiro seria justo? Deixaria um humano saber de sua existência e escapar? O horror supremo de estar bem próxima de seu fim engoliu Laura. Finalmente, o tédio e o vazio acabariam e com ele tudo o mais: o mundo, o tempo e a vida estavam terminados para ela.

A vampira ergueu-a e falou, com suavidade:

– Fique calma. Nada acontecerá a você. Eu sou um dos Senhores de minha raça, honro meus acordos e promessas. Você apenas assistirá a esse ser abjeto ser minha refeição. Vamos! – E a vampira, numa sucessão de saltos e escaladas carregou-os pelos telhados, pátios e becos do Bexiga. Quando parou, estavam em um pátio interno e alto de algum casarão, nuvens cinzentas desfilando acima deles. Sem cerimônia ou aviso a criatura pulou sobre Eduardo e cravou os dentes em sua jugular. O sangue mal escorreu, pois a fome era tanta que a vampira não permitiu desperdício. Laura grudou na parede oposta, apenas observando a cena, muda, boca e olhos escancarados, mas enquanto os gemidos de Eduardo sumiam e sua pele perdia por completo a cor, a satisfação e a completude corriam por Laura. Felizmente a criatura se colocara à frente do gorducho e Laura foi poupada do espetáculo de ver o sangue verter para a boca da vampira. Estava testemunhando algo espantoso, incrível, e para o qual contribuíra! Sentiu-se cheia de si como poucas vezes em sua vida repetitiva e sem sentido. Haveria mais disso pela noite da cidade? Que outros seres e acontecimentos como esse estavam por aí, ocultos aos humanos comuns? Mas agora ela não era mais um humano comum, conhecia o segredo da noite! Ah, se pudesse contar o que agora sabia, a seus amigos invejosos e de boca ferina… Seria o máximo.

Assim que terminou de sugar o fluido, a vampira apanhou o corpo e embrenhou-se nas trevas com ele, retornando de mãos vazias pouco depois. Caminhou até Laura, sentou-se a seu lado e pôs-se a falar como se fosse uma velha amiga que a reencontrou depois de anos:

– Posso ver e sentir que presenciar o que presenciou deu-lhe uma alegria que há muito estava ausente em seu espírito. Se quiser poderá ver isso mais vezes, basta me ajudar a capturar minhas vítimas. Sabe Laura, não sou um monstro irracional e sanguinário.Só me alimento de homens baixos e vis: criminosos baratos que matam por quase nada, pervertidos que abusam da filha, canalhas que se aproveitam das mulheres, agiotas. Procuro limpar um pouco essa cidade. Não quer me ajudar?

Ela nada disse, apenas encarava a deslumbrante mulher, julgando aquela proposta uma piada de um humor insano, incompreensível.

Encararam-se por algum tempo, até que a mulher agarrou-a mais uma vez, colocou-a no chão com cuidado e antes de desaparecer disse:

– Ambas já sabemos a resposta, mas você precisa de alguns dias para assimilar tudo que ocorreu esta noite. Vá para casa e volte a sua existência normal. Na próxima semana no veremos. Esteja pronta. – e desapareceu nas sombras.

Seis dias depois – começo da noite

Laura tivera de fazer hora extra e quando saiu do trabalho já anoitecera. Cogitou passar a noite na rua, zanzando pela Paulista e pelo centro, entrar e sair de lojas de discos, cafeterias, lanchonetes, botecos, até a luz do dia retornar; a idéia de dormir a assustava. Por duas noites seguidas teve o sono interrompido por pesadelos repletos de gritos, escuridão que a engolia e rios de cor vermelha caindo sobre ela para afogá-la; acordou em meio a berros tão desesperados que mais de uma vez os vizinhos bateram à porta para saber o que se passava.

Não iria para casa. Andaria a esmo até ficar cansada demais e mergulhar em um sono tão pesado que os pesadelos seriam ignorados, esquecidos, até esquecer a descoberta de que vampiros existiam e estavam soltos por São Paulo, andando por aí… ou parados nas ruas, como a vampira da semana passada, encostada em um tapume na esquina, olhando para ela com satisfação.

Os temores se dissiparam ao ver a mulher. O sorriso e o olhar eram tão confiantes e convidativos, prometiam tantos segredos paralisantes e maravilhas terríveis que Laura sentiu com nitidez e intensidade inéditas a atração que as horas noturnas exerciam sobre ela, descobriu naquela criatura o segredo da noite, que tanto procurou.

Aproximou-se a passos lentos, ficando bem perto da mulher, pois temia que fossem ouvidas:

– Como me encontrou? Está me seguindo?

– Não eu. Meu servo. Ele descobriu tudo sobre você para mim. Mas deixe isso para lá. Já disse para não me temer. Não bebo o sangue de mulheres e seus desejos me divertem. Vamos?

– Para onde?

– Para as profundezas da noite, para o coração negro dessa cidade, repleta de coisas que os mortais ignoram. – Abriu a porta de uma bmw negra parada ao lado e fez sinal para Laura entrar; ela obedeceu apressadamente.

 

Parte IV

 

Nove da noite

Laura olhou-se no espelho preso na porta do guarda-roupa e ajeitou o vestido de renda negro em seu corpo magro, calçou as botas negras de salto altíssimo como se estivesse se aprontando para o maior encontro sexual de sua vida. Enquanto se maquiava sentiu como se uma mão delicada acariciasse seu rosto e brincasse com seus cabelos. Teve um pequeno arrepio de prazer e imaginou ver Ingrid a seu lado, ajudando-a a ficar deslumbrante para mais uma noite de perversões, prazeres inomináveis e situações indescritíveis, que viviam lado a lado, toda a semana, há vários meses. Não sentiu medo ou espanto ao ver vulto da vampira a seu lado, mas sim satisfação e a sensação de estar protegida dentro de um mundo que ainda era assustador.

Sua relação com a criatura das trevas era um deleite que preenchia seu espírito, a tristeza vaga e insuportável e o tédio tinham desaparecido e isso era o que importava. A cada fim de semana ela sentia que tomara uma estrada que levava cada  vez mais para o fundo de sua alma, encontrando, lá, coisas nada belas ou admiráveis porém inebriantes, pois viciara-se em descobrir quão baixa e vil poderia ser.

Onze e quarenta e cinco da noite.

Laura estava encostada no galpão em frente ao Darkie, uma lata de cerveja em uma mão e um cigarro na outra. Conversava com um rapaz alto e bastante magro, cuja aparência era uma imitação perfeita de um dândi e de modos e voz muito efeminados. Ela estava radiante, exalando animação e ele a examinava, intrigado, esperando que alguma fala ou gesto dela revelasse algo sobre a mudança que se operara nela nos últimos meses.

– Vamos entrar, querida? – Perguntou Yagus (como se auto-intitulava o sujeito, cujo nome nos documentos era José Augusto), carregando a pronúncia do “querida”, numa enorme afetação.

– Ainda não. Estou esperando a hora certa da festa na dark room.

Os olhos do delicado rapaz se arregalaram:

– Você tem convite para a festa de hoje? Uauuu!Só a nata da comunidade dos amantes da noite, dos notívagos, os que têm estilo, beleza e claro, ostentam isso, recebeu convite para essa festa. Faz quase um mês que se fala dela por toda cidade, nos fóruns góticos.

Ela bebeu o resto da cerveja, jogou a lata longe, deu uma longa tragada, tudo da maneira mais grosseira possível, e perguntou em tom de desafio:

– E eu estou longe de ser da nata, não é? Até não muito tempo atrás era só mais uma das largadas que vinham aqui para afogar as mágoas e a solidão, certo?

O rapazola cheio de modos e mesuras não se importou com a agressividade de Laura. Era seu mais antigo amigo na comunidade, a conhecia bem e estava sinceramente preocupado com a transformação por que ela passara, que indicava coisas muito estranhas por trás. Assim, retrucou com toda calma:

– Você é sim. Você sabe o que é ser um verdadeiro praticante da cultura do goticismo, minha amiga deusa. Oh! Por favor, não se ofenda, querida! Mas, assim como eu, você não tem os meios e os contatos (pelo visto, NÃO TINHA) para ser aceita entre eles, que são movidos a aparência e mais aparência.

A garota deu a última tragada, livrou-se da bagana, pôs as mãos na cintura caminhou apenas dois metros, olhando para o céu em que se viam algumas estrelas em meio às nuvens, parou, voltou-se para o amigo e dirigindo-lhe um olhar de superioridade respondeu:

– Ah, querido Yagus, se eu pudesse contar tudo que vi e sei. Tem muitas coisas estranhas, maravilhosas e também assustadoras pela noite da cidade. Desculpe se pareço metida, mas vocês que vêm todo sábado aqui, para dançar, beber, conversar, ficar uns com outros, não conhecem o verdadeiro segredo da noite. Tem tanto segredo e mistério que comanda essa vida, comanda nossas vidas, sem suspeitarmos disso, tantos, que é impossível não se sentir a tal depois que fui apresentada a eles. – e soltou um pequeno suspiro.

– Isso tem a ver com suas práticas de magia? Você invocou algo, uma espécie de sei lá, espírito da noite, um elemental das trevas, por assim dizer.

– Não, não, não tem nada a ver com a antiga tradição da deusa. É algo que não posso revelar. Me desculpe meu anjo. – e dirigiu seus olhos arrogantes para a silhueta dos prédios.

Essa era Laura após alguns meses acompanhando Ingrid, a sedutora vampira de cabelos negros, em suas caçadas, presenciando e por vezes, auxiliando a criatura a dar cabo do que ela considerava a escória masculina, tratando os humanos como peças de carne a serem consumidas sem arrependimentos. Ela passou a pouco ficar entre seus amigos e conhecidos do Darkness e das outras casas noturnas dominadas pelos sempre trajados de negro; suas noites, mais e mais, eram aparecer na porta das boates, cumprimentar as pessoas, dar respostas evasivas e cada vez mais arrogantes sobre por onde andava, o que estava fazendo, bancando a misteriosa e superior de uma maneira que afastava até mesmo os três únicos amigos verdadeiros que cultivava, depois entrava na casa para ou correr para a dark room ou sair dali a pouco e reaparecer duas ou três semanas depois. Quando ia embora, várias vezes uma bmw negra a estava  esperando, o que deu origem aos boatos e fofocas mais variados e cômicos.

– No que você se enfiou, Laura?

– Já disse, em algo tipo muito das trevas, perigoso, e que não posso revelar.

– E você ainda não percebeu o que esse envolvimento com as trevas está fazendo com você? Olhe seus modos, como você tem tratado as pessoas a seu…

– Não devo nada a você ou a ninguém sobre o que faço. Isso é problema meu e ninguém manda em mim. Você não tem esse direito. – Saiu pisando duro na direção da porta do casarão escuro, seguida pelo olhar perplexo do sensível dândi-gótico.

Uma da manhã

 

Após correr para o bar e beber duas cervejas e um copo de vinho quase sem intervalo, Laura fincou os pés no canto mais afastado do minúsculo terraço, para aspirar ar puro e ficar o mais afastada possível da multidão, do intenso movimento para lá e para cá que tomava todos os espaços e escadas do Darkie: era como se todos os presentes fossem convidados para o que começaria em breve na dark room e como ela, estivessem tomados por um frenesi insano, aguardando o início do festim secreto que seria “o ápice inimitável e insuperável de depravação, mergulho nas trevas e descoberta da verdadeira dimensão sobrenatural da existência desse e nesse mundo”, nas palavras de Ingrid, que surgira na porta do prédio em que Laura morava, ao cair da noite de quinta, com o ar despreocupado, reconfortante até, que sempre a acompanhava.

E Laura era convidada para presenciar e se quisesse, participar, da cerimônia suprema que ocorreria no Darkness em dois dias, cortesia dela Ingrid, que ali estava apenas para anunciar isso.

Uma vertigem, uma tontura súbita caiu sobre ela, em parte pela bebida, em parte pura reação corporal às imensas tensão e expectativa; em poucos minutos imaginou inúmeras cenas e possibilidades para o que se iniciaria e questionou a si mesma se conseguiria encarar.. encarar o quê? Tanto temor era absurdo. Somente entrando na sala reservada descobriria se era forte o suficiente para adentrar o centro do mundo inferior.

Um vulto parou bem a sua frente, interrompendo os pensamentos. Como ela deduziu, era Ingrid. A beleza e elegância da vampira eram sem par. Laura jamais vira, em toda a micro-sociedade gótica de São Paulo uma pessoa como aquela, vestida daquele modo, usando um vestido como aquele, que claramente fora feito há bem mais de cem anos e estava intacto, cheirando a tecido novo, livre de odor humano. O pescoço e rosto estavam adornados de pedras brilhantes, verdadeiras sem dúvida, o cabelo cacheado exalava perfume de flores.

 

Parte V

 

Laura admirou sua mestra por algum tempo até que essa lhe disse, tomando-lhe pelo braço:

– Vamos. A maior de todas as noites que esse lugar estúpido vai presenciar está prestes a se iniciar e eu, como um dos Senhores da Noite, tenho de estar presente ao início.

Antes de dar um passo, ela disse:

– Só mais um instante. Preciso beber alguma coisa.

– Você já bebeu o bastante dessas beberagens insípidas. O que verá é muito mais inebriante. Vamos! – E puxou-a com força.

Caminhando ao lado de Ingrid, enquanto abriam caminho rumo à sala reservada, ela percebeu como nunca antes toda a imponência e superioridade da criatura, que eram quase palpáveis, de tão fortes.  Todas as pessoas giravam os pescoços ou arregalavam os olhos para a aparição. E Laura sentiu os olhares, alguns invejosos, outros hostis, dirigidos a ela; julgou inclusive ter ouvido cochichos sobre elas.

Os donos disso aqui estão levando essa festa bem a sério, estão orgulhosos ou apavorados em recebê-la, pensou Laura ao ver os dois seguranças, postados ao lado da porta da sala reservada. Eles não eram grande e fortes, eram gigantescos, dois caras de mais de dois metros engravatados, olhar frio e parado.

Ingrid aproximou-se com a maior calma, tirou sabe-se de onde uma espécie de amuleto de prata, todo intrincado e mostrou-o aos gigantes, que abriram a porta num misto de pressa e delicadeza, fazendo em seguida uma mesura enquanto elas passavam.

A jovem gótica que tudo sabia dos segredos da noite da metrópole olhou e não entendeu: a sala estava absolutamente vazia e bastante iluminada. Não havia ninguém, somente os sofás, pufes e poltronas.

A vampira deleitou-se com a expressão de palerma de Laura e gargalhou, as mechas do cabelos agitando-se no ar.

– Acha mesmo que faríamos uma festividade como essa, aqui, num lugar que pode ser invadido por qualquer mero mortal enxerido, não-eleito para conhecer a verdade sombria?A celebração às trevas ocorre lá embaixo. – E a mulher apontou para uma porta de aço nos fundos da sala, uma porta que Laura jamais vira ou ouvira falar sobre.

Alguma coisa, uma inflexão, um subtom, na voz da mulher incomodou Laura. Sua guia do mundo inferior falou de um modo teatral, estranho, como se duvidasse do que dizia, estivesse cansada do papel que encenava, a mesma inflexão que vibrava na voz dela, Laura, quando fingia se vangloriar de aventurazinhas que na verdade lhe causavam enfado. Mas claro que ela não compreendeu isso, apenas sentiu algo estilhaçar-se dentro dela, algo que lhe dera forças e uma certa alegria, nos últimos tempos.

Ingrid introduziu o amuleto em uma fresta no centro da porta, que abriu-se tão rápido que a gótica superior aos outros góticos deu um pulo involuntário. A vampira não fez sinal algum, apenas entrou e foi seguida por sua pupila.

A escada era velha, rangia muito, causava uma pesada impressão de perigo. A escuridão era quase total, uma réstia de luz dançava, abaixo e bem longe. Conforme desciam por duas vezes um clarão explodiu no teto, sem som e sumiu como surgiu. Laura, é claro, apavorou-se com aquilo, mas escondeu bem a reação, apesar de tremer toda. O que a esperava? No que se envolvera? As estranhezas do mundo das trevas finalmente se relevariam na totalidade?

Ouvia os passos de Ingrid, nítidos e firmes, logo adiante. Após uma caminhada um tanto curta, a voz da mulher rasgou o breu:

– Bem vinda à essência da humanidade que incomoda tanto a ela mesma, a essa humanidade que impinge a si os maiores horrores e violências para fugir dessa verdade assustadora e viciante. E nós, imortais, os mestres da noite e do horror, somos a lembrança, a prova maior que caminha neste mundo, de que essa essência é a verdade que vocês tanto temem; e por isso também nos temem. Nós não somos monstros, somos a verdade sobre o ser humano que ele tanto teme descobrir. E agora, minha criança, minha acompanhante, você testemunhará uma celebração, um ritual, uma exaltação a tudo que é grandioso, belo, terrível e assustador. Acompanhe-me!

A porta foi empurrada lentamente, Laura sentiu o aperto da mão de sua mentora no pulso e em seguida foi puxada para um grande salão, iluminado por uma imensa luminária de teto, coberta de lâmpadas e peças de cristal lapidado, espaçoso e de cheiro suave e agradável. Uma infinidade de objetos estava espalhada pelo ambiente: largos sofás forrados de veludo vermelho, com pés dourados cobertos de entalhes; divãs também vermelhos; poltronas negras; estátuas de mármore representando deuses gregos, homens e mulheres alados e guerreiros da Antiguidade em poses orgulhosas descansavam em cima de pedestais de ônix; vasos, pintados em um delicado tom de azul, estavam lotados de flores de todas as espécies e cores, que perfumavam o ar; diversos instrumentos musicais estavam largados aqui e ali: violoncelos, violinos, flautas; em cima de três mesas de mármore negro havia uma multidão de cálices e garrafas de formatos exóticos, contendo todas as bebidas possíveis, copos e taças de cristal, cheios ou vazios, cinzeiros de vidro, nos quais repousavam piteiras e cigarros de vários tamanhos. Duas lamparinas de ferro fundido, cobertas de decorações, pendiam do teto, nos extremos do salão. O chão era forrado com um carpete de cor clara, muito baixo e fino.

E havia os seres que se entregavam à festa. Dezenas de homens e mulheres, de idades e tipos físicos os mais variados – adolescentes, jovens, adultos, maduros, brancos, muito brancos, morenos, mulatos e negros, orientais, mestiços de todo tipo – mas todos muito belos, a pele brilhando sob a luz, os corpos firmes e bem torneados. Todos vestiam apenas um colant branco e muito justo e alguns tinham os olhos escondidos por uma máscara dourada. Ninguém fazia sexo ou praticava indescritíveis abominações uns contra os outros, como Laura imaginou que seria, todos os dias, nas semanas anteriores àquela noite. Tudo que faziam era uma espécie de dança, ritmada, seguindo uma música que só estava presente em suas mentes, pois Laura não ouviu um único som musical. As pessoas atracavam-se, alisavam-se, juntavam os corpos em  poses nas quais fingiam copular com fúria, roçavam os lábios, rolavam pelo chão juntas, para em seguida abandonar o parceiro e puxar outro baseadas no mínimo esforço – o mais próximo era o eleito.

Ingrid estendeu a mão, coberta por uma luva de veludo vermelho, para Laura, que deu a sua e foi conduzida para o meio do aposento, onde as bolinações e carícias eram frenéticas. Ali, ela pôde estudar os movimentos e expressões e após esquadrinhar três ou quatro dos presentes um súbito sentimento de horror e decepção surgiu dentro de si como a dor mais violenta: todos ali – e ela percebeu que havia pelo menos seis vampiros presentes, ao notar os caninos e os olhos vermelhos reluzentes e despudorados – estavam tomados de desespero, mortificados pelo tédio e pelo vazio, os movimentos exagerados e teatrais de seus corpos não passavam de súplicas para que aquela festinha trouxesse algum calor e valor a suas vidinhas. Aquela malta, que Ingrid proclamou várias vezes ser a elite suprema e secreta dos seres da noite (humanos e não-humanos), que estava ali para atingir o ápice da perversão e da negação da normalidade, era igual a ela, Laura, e isso foi demais: era esse o segredo terrível e macabro que a vampira anciã anunciou com tanta pompa e mistério? O evento que tanto esperou, que saciaria em definitivo (ou quase) a necessidade que a devorava e a reduzia não passava de um exagero caricato das coisas que a atormentavam.

Ingrid a conduziu ao centro do salão, onde foi cercada, um grupo de cinco ou seis encarando-a nos olhos enquanto faziam uma espécie de dança de cortejo a seu redor. Ela devolveu o olhar, ansiando por qualquer coisa e nada. Não havia ali, nas pessoas, no ambiente, no evento, algo que pudesse salvá-la do que dia a dia a matava um pouco. Estava condenada a ser, para sempre, mais uma gótica depressiva perdida em seus exageros, mais uma garota vestida de preto a vagar pela cidade sem receber  atenção especial ou admiração.

 

Parte VI

 

Não pôde suportar mais e, olhando por cima dos ombros, viu Ingrid e viu, no rosto da mulher tudo que via em si e nos demais. A vampira que ela tanto admirava, o ser sobrenatural cuja companhia fez com que se sentisse grande e poderosa durante o tempo em que conviveram, parecia tomada dos mesmos sentimentos, das verdadeiras  dores macabras e sombrias da existência, pois se abatiam sobre mortais e imortais sem distinção.

Laura gritou, um som inarticulado de negação e desespero, empurrou a corja, que a cobria de carícias, com um safanão, e saiu em fuga, na direção da escada. A cada passo surgia alguém que tentava agarrá-la, detê-la, mas ela livrava-se com uma agilidade e força que até então ignorou possuir.

Em poucos instantes ela estava espancando a porta que dava acesso ao mundo exterior, ao Darkness. Gritou e bateu tanto que os dois seguranças abriram. Em seguida desembestou para a rua, correndo, correndo, até que viu um táxi estacionado em uma praça um quarteirão acima. Acordou o motorista, balbuciou seu endereço e encolheu-se no banco traseiro, sem coragem de olhar para fora, tremendo e chorando.

Ao chegar a sua casa colocou a mesa de ferro que servia de mesa de jantar contra porta, passou o trinco e encaminhou-se para a cama. Porém, não conseguiu jogar-se nela: quatro vultos saíram da semi-escuridão e caminharam em passos lentos em sua direção: Ingrid e duas garotas, bem jovens,uma baixa e de cabelos curtos, a outra, mais alta, longos cabelos negros; e um homem alto de pele descorada, todos vampiros.

Laura não conseguiu esboçar um único movimento, apenas assistiu ser cercada. Ingrid chegou tão perto que os rostos quase se tocavam.

– Sim, minha criança, você descobriu que nós todos estamos juntos nessa estrada. Tudo que eu posso lhe oferecer agora é o beijo da imortalidade, para, quem sabe, você descobrir coisas sobre você mesma e sobre nós, habitantes das trevas, que afastem esse cansaço, sabe-se por quanto tempo. Você seria mais uma cria das trevas minha, como esses três amaldiçoados e abençoados são. – E dizendo isso, afastou-se um pouco, para que os três envolvessem-na em uma sessão de carícias e toques meio brutos, pesados.

Logo ela estava sentindo uma tal onda de calor, o calor da excitação, que a entorpeceu e fez com que ela se pusesse a boliná-los, a retribuir o prazer com intensidade dobrada. De repente Ingrid chegou perto mais uma vez e os outros recuaram; jogou-a na cama, e Laura fechou os olhos em meio a um suspiro. A vampira abriu sem pressa os dois primeiros botões da blusa de seda e renda que a garota vestia, afastou o tecido com delicadeza para os lados e contemplou o pescoço, a pele clara e imaculada, o discreto movimento da pulsação, de boca escancarada, os caninos saltados e a língua brincando entre eles. Suas crias sentaram-se ao redor da cama e assistiam imóveis e mudas.

Quando os dentes estavam a centímetros da veia jugular um estrondo ecoou e os estilhaços da janela voaram pela quitinete. Todos deram um salto e após refeitos do susto viram diante deles uma figura enorme e da qual irradiava um brilho intenso. O ser tinha traços masculinos perfeitos, as partes das pernas e braços que a túnica branca não cobria mostravam músculos e pele perfeitos, as mãos crispadas, os cabelos encaracolados escuros caíam pelos ombros. E as asas, enormes, brancas e bem abertas iam de ponta a ponta do minúsculo quarto. O olhar era severo e causou-lhes o mais fundo terror. Encarou-os por um instante apenas e trovejou numa voz imensa:

– Por que queres fazer mais uma vítima, ó aberração das trevas, excrescência maligna? Já criaste estas três criaturas miseráveis, que em nada mitigaram a vacuidade de sua alma negra, por que continuar a espalhar o sangue maldito pela Terra, se o que buscas é o repouso eterno? – O indicador da mão esquerda apontava para Ingrid.

Ela jogou-se nos pés do anjo, ajoelhada e respondeu com dificuldade, entre prantos:

– Porque não agüento mais, porque o Cansaço, a Maldição dos Séculos, apossou-se de mim e não sei mais o que fazer. Porque apesar desse desespero me corroer nada como você veio a mim, para me destruir e me salvar.

– Não vim por ti, não existo para salvar vocês, mas, se preciso, para deter vocês, vim por esta pobre criatura . – Deu dois passos e tomou o rosto de Laura em suas mãos. O toque era frio e ausente.

– Criança fútil e tola. Acreditaste que os habitantes das trevas, mesmo um ancião, a salvariam do abismo que tu mesma cavaste em tua alma? O que tanta depravação e abuso fizeram? Tu te viciaste na baixeza e agora pagas o preço. Eu vim te alertar, pois ainda és humana, para estes miseráveis não há mais salvação. Foge das trevas e busca a retidão que bem no fundo é aquilo que desejas, pois eu posso ver os mais fundos recônditos de todos vocês, humanos e bestas!

A criatura ergueu os braços, suas asas abriram-se ainda mais e ela entoou uma espécie de nota musical, um som que fez as menores fibras deles agitarem-se, um som que fez vibrar um segredo eterno que eles carregavam e ignoravam. Em resposta ao som todos se encolheram em posição fetal e choraram feito criançinhas, até que o som cessou e nova explosão veio, fazendo com que saíssem do estupor. Ergueram-se, viram que o ser alado partira e se olharam. Algum tempo depois Laura sentou-se no chão, as mãos juntas, olhando para o nada. Ingrid foi ao três vampiros mais jovens, que se encolhiam de medo em um canto, abraçados, e disparou:

– Não há mais nada entre nós, nossos laços estão rompidos e vocês sentem isso tão bem como eu. De hoje em diante estão livres. Esqueçam de mim, pois eu vou esquecer vocês. E caso me procurem, eu os estraçalho com as mãos nuas! Me deixem em paz!

Antes que ela desaparecesse pela janela a garota de cabelos longos ousou dizer algo:

– O que vai fazer?

Ingrid virou-se e pensou demoradamente antes de responder:

– Vou buscar, com a ajuda de meu amigo humano, aquilo que o anjo me negou, vou em busca daquilo que nos é negado, nem que tenha de provocar a fúria de todos os espíritos, licantropos, imortais e aberrações deste mundo. – E saltou na noite.

Os três entreolharam-se, espiaram a garota, que desmaiara e estava largada no chão. Sem nada dizer um ao outro, fizeram o mesmo que sua criadora.

 

Parte VII

 

Seis e meia da manhã

Quando acordou, o sol queimando-lhe o rosto, Laura apanhou uma pequena mala, encheu-a de roupas, pegou todo dinheiro que encontrou nos bolsos e carteira e abandonou sua casa, sem fechar a porta e sem olhar para trás.

Durante algumas semanas escondeu-se em um hotel na Liberdade, trancada no quarto todo o tempo, saindo apenas para comprar comida e buscar dinheiro, o mais tarde possível, para não ser vista. Mas sua conta corrente esvaziou-se e ela viu seu rosto estampado em um cartaz, encimando uma declaração desesperada de seus parentes. No meio de uma noite nublada ela abandonou o esconderijo e vagou pelas ruas do centro por uma semana, esfomeada, meio enlouquecida, mal lembrando porque estava naquela situação. Quando conseguia dormir em uma praça ou largo qualquer, logo era atormentada por pesadelos terríveis.

Uma noite, um grupo formado por três “nóias” a cercou, enquanto cochilava embaixo do Viaduto Boa Vista, e abusou dela de todas as formas. Laura só escapou porque conseguiu se apossar da navalha de um deles, com a qual fez um grande estrago nos marginais.

Correu, correu e correu, só parando ao desabar na porta do convento e orfanato da Liberdade, a um quarteirão do hotel em que se escondera. Seu impacto contra a porta e choro foram tão estridentes que uma madre abriu uma espia, viu seu estado e não hesitou em colocá-la para dentro.

Após os cuidados das freiras, banho, comida e tratamento das feridas, além das palavras reconfortantes, sentiu-se novamente viva, embora houvesse uma névoa encobrindo as últimas semanas de sua vida, não havia nenhuma imagem nítida desse período.

Laura teve de insistir, e por fim, assim que recuperou-se foi admitida como noviça na ordem, dedicada a cuidar de crianças sem lar ou família. Quando a madre superiora perguntou sobre sua família, se esta sabia de seu paradeiro, ela insistiu que eles eram parte do passado que queria enterrar, inventando uma longa história de abusos e maus-tratos. E quando a madre perguntou qual seria seu nome na ordem, pois ao iniciar uma nova vida lá, precisava de um novo nome, ela não pensou muito, modificou um pouco o Beatriz de seu nome completo e respondeu de imediato:

– Beatrice, irmã Beatrice.

Laura, agora Beatrice, tornou-se uma irmã muito devota, trabalhadora, um exemplo de mulher dedicada a uma vida de retiro e de ajuda aos necessitados. Mas não eram raras as noites em que pesadelos a atormentavam, em que sonhava com sangue, causar dor, dentes e garras afiadas, devassidão e crueldade. O tempo passou e aquilo tornou-se uma parte secreta mas cada vez mais incômoda de sua mente, uma massa assustadora e retorcida de reminiscências que teria de enfrentar, cedo ou tarde…

Laura e Ingrid jamais souberam que testemunharam um fenômeno que grassa pelo mundo desde que os homens nele apareceram: a existência de espíritos muito poderosos, mas inscientes e amorfos, que repousam em planos e lugares ignotos, um tipo de elemental sem forma e caráter definidos, que pode ser desperto por seres humanos tomados por emoções muito intensas. Se as emanações do espírito desse humano (e também de um vampiro, licantropo) forem suficientemente fortes, atraem um desses espíritos e ainda lhes dão forma e capacidades, de acordo com as lembranças, os desejos e as necessidades mais profundas desse humano.

Laura e Ingrid jamais souberam que aquele ser que surgiu no apartamento da gótica, na noite em que a antiga identidade de ambas morreu, não era um anjo enviado por uma força superior para impedir que a relação anormal delas atingisse um ponto sem volta, jamais souberam que ele era um desses espíritos ancestrais, que fora convocado por ambas sem que disso soubessem, e que a aparência, poderes e principalmente as duras falas que ele lhes dirigiu eram apenas a afirmação da coisa mais persistente que ambas carregavam de seus primeiros anos de vida, a coisa da qual em realidade tinham um enorme medo de superar, a velha companheira de todos os filhos do Ocidente que crêem em algo superior a eles: culpa.

 

 

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