Por André L. Pavesi
com revisão e sugestões de Caio B.
Boa-noite a todos!! (…ok, eu sei que em internet e e-mails não devemos fazer referências à dia ou noite, mas por aqui as coisas são como nos anúncios da revista Crypta…todo dia é sexta-feira, toda hora é meia-noite…)

O mundo seria muito mais tranqüilo se as criaturas que vagam pela noite e eventualmente arranham nossas janelas se limitassem aos lobos e morcegos; tudo seria mais familiar e, por que não dizer, mais romântico…

Mas pro bem ou pro mal, a fauna noturna, assim como os pesadelos, é muito mais variada do que isso.

Espero que essa variação agrade àqueles que acompanham nosso blog.

 

Entre sombras

 

No começo, parecia ser uma investigação como outra qualquer; recebi em meu escritório um mulherão, com seus trinta e poucos anos, vestida com roupas sóbrias que mal conseguiam disfarçar as belas curvas da morena. A suspeita era a de sempre, ela achava que seu marido, com quem estava casada há quinze anos, estava lhe metendo um belo par de chifres, e precisava de provas do adultério para poder extorquir do sujeito uma bela pensão.

Levantar a capivara do canalha e descobrir que ele efetivamente chifrava a patroa foi moleza; empresário bem-sucedido, dono de algumas revendedoras de motos esportivas, passava as manhãs e o começo da tarde no escritório, dando suas escapulidas na hora do happy hour. De cara fiquei impressionado com a quantidade de mulheres que saiam com o sujeito, desde balconistas de loja até universitárias, todas com cara de não ter mais do que vinte anos de idade e meia dúzia de neurônios ativos no cérebro.

Logo no começo da investigação percebi que ele ia com as mulheres para algum motel, onde passava algo em torno de duas horas; até ai tudo bem, sem novidades, apenas o comportamento padrão de um patzo infiel. Depois de comer as garotas ele as largava em algum local público, geralmente perto de onde as havia conhecido.

Mas com algumas delas, e foi nesse ponto que a investigação pirou geral, depois do motel ele dava o que parecia ser uma esticadinha extra para um antigo casarão de três andares na região central da cidade, provavelmente construído no começo do século passado.

Com essas do casarão, ele costumava passar a noite quase inteira, saindo depois das três da matina, com as garotas cobertas por capotes, sobretudos ou mesmo capas de chuva, largando-as depois perto da represa de Guarapiranga. Fiquei intrigado com os motivos dessa mudança no modus operandi…porque essa diferença de horário? Porque levá-las até a represa? Depois do que vim a testemunhar, acho que o motel era uma espécie de seletiva, para perceber se a garota estaria ou não aberta aos jogos macabros que se desenrolavam no casarão. Claro que nunca saberei a verdade…

Aproveitei uma manhã que eu sabia que o sujeito estaria ocupado, para investigar o casarão. A primeira coisa que chamou minha atenção foi o péssimo estado de conservação do lugar; normalmente esse tipo de abatedouro, que alguns sujeitos montam para suas escapulidas extraconjugais, são apartamentos pequenos mas bem montados, mantidos limpos e bem-arrumados, verdadeiros ninhos de safadeza. Mas esse casarão estava praticamente abandonado, sem um único móvel em todos os cômodos, exceto o sótão, que era mobiliado como um pequeno apartamento.

Ficou claro que os encontros aconteciam nesse sótão, que começava num pequeno corredor, abrindo para um espaçoso quarto, ocupado por uma cama e um pequeno rack com um aparelho de dvd e um televisor; completavam a mobília do quarto uma mesinha baixa, coberta por vídeos pornô e acessórios de sex-shop, entre eles chicotes e alguns pares de algemas, que podiam ser presas às paredes. O fedor de ovos podres do lugar me acertou como um soco no queixo, pelo cheiro achei que devia ter alguma coisa morta apodrecendo naquele lugar. Era um fedor que parecia me cercar, quase como se escorresse pelo nariz adentro a cada respirada. Além do cheiro, o clima do sótão era pesado, não havia nenhuma janela ou qualquer outro tipo de ventilação, exceto por uma clarabóia no teto, que parecia nunca ter sido aberta. Praticamente não havia iluminação, exceto por filetes de luz do dia que entravam por falhas na pintura da peça de vidro no teto; esse ambiente sufocante tornava difícil dizer claramente qual o tamanho do sótão, e do teto tudo que se via era a clarabóia delineada pela luz do sol. Testei o interruptor, para confirmar que haveria luz pro dia do flagrante. Ao acender as luzes, reparei que algumas partes do piso pareciam cobertas por restos de algum tipo de casca molenga, umedecida e meio derretida numa gosma esverdeada. Checando a cama, vi poças ainda maiores dessa mesma meleca, encharcando algumas partes do colchão.

 

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