Por André L. Pavesi
com revisão e sugestões de Caio B.

No dia seguinte, o dia do flagrante, com direito a gravação digital e tudo o mais, o sujeito pegou uma loirinha com cara de biscate, talvez com menos de 19 anos de idade, roupas justas e maquiagem carregada. Como sempre, segui-lo foi fácil, e consegui não o perder de vista um minuto sequer, até que se fechou com a menina no casarão, exatamente como eu havia imaginado.

Esperei uns trinta minutos, que sabia ser tempo suficiente para a safadeza começar a rolar solta. Depois desse tempo, invadi novamente o casarão, subi até o último andar e colei o ouvido na porta do sótão, para escutar os primeiros gritos, gemidos e aqueles barulhos ridículos que todo mundo faz quando trepa loucamente.

Aproveitando que ambos estariam bem ocupados para perceber minha entrada, forcei a porta, que abriu com facilidade, e armado com a minha filmadora digital, entrei o mais silenciosamente que podia no quarto, pronto para filmar alguns segundos de transa e garantir uma pensão polpuda para minha cliente; a cada passo ia rezando para os gemidos da garota e os grunhidos do sujeito, que aquela altura do campeonato estavam altos pacas, continuassem encobrindo qualquer barulho que eu fizesse.

Logo depois da porta havia um corredor, e assim que botei os pés nele pude perceber que havia um outro barulho; havia uma espécie de zumbido, entretecendo os gemidos e grunhidos do casal, que parecia aumentar de intensidade justamente quando o casal ficava mais empolgado.

Quando terminei o corredor e espiei o quarto, minha mente apagou, como se rejeitasse o quadro inominável presenciado. Não me lembro, de forma confiável, de mais nada do que ocorreu nos minutos seguintes, mas pelas marcas e escoriações, só pude inicialmente supor que tenha fugido alucinado pelos corredores do casarão, até sair pra rua, segundo testemunhas tropeçando e caindo como se estivesse bêbado como um gambá.

Não consigo me lembrar, de forma consciente, que merda estava rolando naquele sótão. Alias se não fosse a gravação feita pela minha câmera, que estava presa pela alça ao meu pescoço, duvidaria que um dia tivesse posto meus pés naquele cortiço.

Mas me lembro de alguns flashes, algumas imagens desconexas, que atormentam minhas noites. Imagens confirmadas pela minha gravação alucinada – entrelaçados como um só, homem, mulher e uma criatura inominável… enquanto o casal trepava alucinadamente, ele acorrentado à cama, deitado de costas no colchão imundo e gosmento, ela cavalgando enlouquecida sobre ele, pairava sobre os dois, a poucos centímetros da cabeça dela, uma forma profana, imunda em sua mais pura essência, uma criatura saída de algum pesadelo doentio, com a pele translúcida de um corpo insectóide, achatado e alongado, deixando entrever os órgãos bizarros, que pulsavam com um efêmero brilho esverdeado, as asas vibrando e zumbindo de excitação, membros assimétricos alongados fazendo às vezes de braços e pernas para acariciar languidamente o corpo da mulher, que parecia enrugar e formar uma espécie de casca mole a cada toque, como se a vida dela fosse consumida pela criatura abissal. Debruçados sobre o rosto da loira, um par de filamentos saídos do que deveria ser a cabeça da criatura, talvez algum tipo de antena, tremia, agitando-se num êxtase abominável. Na ponta do prolongamento escamoso do que acho que era a boca do monstro, uma centena de pequenos dentes dispostos em inúmeras fileiras irregulares arreganhavam-se, prontos para dilacerar carne humana. Pude ver que era da ponta desse prolongamento, e de algum lugar no meio do corpo daquela aberração, que escorria aquela gosma nojenta que recobria grande parte do colchão.

Permaneci pouco tempo vendo aquela cena de maluco; quando dei por mim, já estava caído de joelhos na calçada, tremendo e chorando como uma criança, abraçando meu próprio corpo. Naqueles momentos, algo dentro de mim deve ter se partido, todo meu autocontrole e segurança viraram farelo. Com muito custo, e devo confessar que ainda sem saber muito bem o que estava fazendo, me arrastei até meu carro – não me pergunte como cheguei em casa sem porrar o carro, mas acho que o santo padroeiro dos detetives particulares devia estar fazendo hora-extra naquela noite, dando uma força pro meu anjo-da-guarda…

Hoje em dia, semanas depois desse caso, ainda acordo de noite, suando feito um porco e gritando palavras ininteligíveis…se minha mulher já não tivesse me dado um pé da bunda anos atrás, duvido que meu casamento resistisse a tantas crises alucinadas. Nos últimos dias, tomei todas as providências necessárias: mandei uma cópia do meu relatório junto com a fita da gravação para a minha contratante, confirmei que o casarão continua sendo usado no mesmo esquema de sempre, e até mesmo segui uma das garotas, reduzida a pouco mais do que um balbuciante resto sub-humano, até as margens da represa, onde ela simplesmente se desmanchou, numa pilha de crostas e meleca repugnante..

Minha única esperança é que os pesadelos acabem depois do que vou fazer amanhã. Os explosivos já estão prontos… trarei àquela criatura profana e seu servo infernal um pouco do pesadelo que ela espalha na vida de suas vítimas.

 

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