Por Caio Bezarias
com revisão e sugestões de André Pavesi

Boa noite a todos!

Conforme anunciado, por meio do preview, posto abaixo nossa mais recente narrativa sobre os mistérios e prodígios de São Paulo, mas antes gostaria de revelar algo sobre a própria.
Apesar de não haver nenhuma relação direta entre ambos os contos, nenhuma cena ou acontecimento de um revelar detalhes ou mensagens ocultas no outro, A primeira noite de Jorge está diretamente ligado a A última noite de Mark, conto de minha autoria postado em outubro de 2007. Ambos nasceram de uma única idéia: mostrar um pouco do comportamento e caráter dos lobisomens por meio de duas narrativas simétricas, uma retratando o nascimento, para a condição de licantropo, de um dos nossos personagens e outra que narraria um licantropo sendo exterminado por seus próprios pares. Assim, se você ainda não leu A última noite de Mark, seria interessante fazê-lo, ainda que isso nada acrescente ao conto abaixo. Boa leitura, aproveitem a noite e não esqueçam dos comentários.
Caio Bezarias

A PRIMEIRA NOITE DE JORGE
Parte I

A tarde era luminosa e lânguida, transmitia calma; o calor não era excessivo ou desagradável e uma brisa suave percorria os labirintos de prédios do centro da cidade. Uma atmosfera de harmonia caía sobre tudo, o mundo parecia em ordem e a vida uma promessa de paz, naquela tarde. Mas em um minúsculo apartamento encravado em uma rua da Bela Vista próxima à Brigadeiro Luiz Antonio, arrastava-se pela existência alguém para o qual o mundo era uma tumba e toda aquela luz e calmaria eram apenas mais uma atuação, monótona e insuportável, de um espetáculo deprimente que nem mesmo anunciava algo pior se aproximando, alguma mudança naquele estado tenebroso. Para Jorge, um homem de vinte e quatro anos que sentia um peso de séculos sobre si, aquela tarde era a repetição de uma torrente de pensamentos, sensações e estados de depressão, fastio, tristeza, desespero, tédio e vazio que há tempos consumiam seu espírito e vontade e que faziam dele uma casca semi-humana que, após poucas horas de um sono que pouco revigorava, acordava para satisfazer as outras necessidades de seu corpo e depois chafurdar em sua casa-prisão-sepultura. Nem mesmo a infinita miríade de prazeres e possibilidades que uma metrópole como São Paulo oferecia a um jovem livre o atraía ou fazia com que ele não sentisse o estado de estar vivo como menos que terrível.
O mais estranho e talvez desesperador do seu estado doentio é que a possibilidade de ceifar a própria vida, que na adolescência o assediou mais do que um ser humano comum poderia suportar, e que retornara com tudo, desde que aquele desespero entorpecente se instalou em seu espírito, não lhe parecia mais atraente, uma possibilidade sedutora de calar a dor surda e intolerável. Ações como pular do alto do edifício, engolir uma mancheia de calmantes ou prender uma corda ao pescoço lhe soavam como uma aceitação extremada de um estado que não queria aceitar, por mais que já estivesse mergulhado nele, pareciam-lhe nada mais profundo que rendições idiotas ao que se apoderara de seu ser. Era como se seu íntimo se revoltasse contra ele mesmo, quisesse torturá-lo por meio de todas as formas, das mais comezinhas às mais densas e aterrorizantes: que outra explicação possível para aquela brincadeira da mente, resgatar das suas lembranças a atração que tinha cultivado há meros dez anos atrás pelo suicídio, se tal coisa hoje lhe causava apenas um sentimento embotado, um tédio extremado e assim não ser consumado. Para quê? Para mantê-lo preso na vida e sofrer infinitamente?
Acordar, castigar-se em um trabalho degradante, comer, azedar-se, sentir a frustração, a raiva e a impotência preencherem seu espírito farto de tudo, zanzar pela cidade, sem que nada ou ninguém não lhe parecesse tedioso ou insuportável, ir para casa, embebedar-se na sempre fracassada esperança de que o álcool levaria todo o horror embora, quando encharcasse seu cérebro; jogar-se na cama, a cabeça pesada como o mundo, dormir até que mais um dia começasse e a repetição de tudo isso; essa tinha sido a vida de Jorge por um longo tempo. Ele não agüentava mais. Suas relações pessoais e sociais estavam por um fio, quando não rompidas: falar com sua mãe e irmãos em minutos degenerava em acusações mútuas e mal-estar; os colegas do emprego no fórum não passavam de um bando de estranhos com quem trocava grunhidos e rispidez, ficar um mês longe deles e do trabalho, graças ao pedido de antecipação de férias, obtido após a recomendação expressa de um psiquiatra impressionado, era a única benção que o acaso lhe dera para mitigar sua situação; os bem poucos amigos (não mais que três), lhe enfastiavam cada vez mais, com sua maneira despreocupada de tropeçar pela existência, ao não perceber, como ele, o horror que era essa existência, e assim os evitava de modo cada vez mais agressivo e constrangedor; e as mulheres não passavam da maior de todas as fontes de desgostos e aborrecimentos, sempre a exigir ações, atitudes e coisas absolutamente impossíveis a uma criatura perturbada como ele. Seu último relacionamento fixo tinha terminado – um fim repleto de gritos e palavrões– há um ano e sua última transa, uma daquelas garotas que o homem tenta se esquecer e o faz se contrair de vergonha ao lembrar-se de que se envolveu com ela, fora há vários meses.
Esse era Jorge naquela tarde de sábado de um ano qualquer do início do novo século e essa era a massa de sensações, sentimentos e pensamentos que pulsava por seu corpo e espírito, enquanto vagava da sala para o banheiro, do banheiro para a cozinha e desta novamente para a sala, onde desabava em uma cadeira e olhava com os olhos de um morto as pessoas, ridículas, histéricas, de mal-aspecto e ar ainda pior, subindo e descendo a Brigadeiro, tentando fugir, e sempre falhando, da vida degradante que estava agarrada a seus pescoços e sugando-lhes a alma.
O que lhe pareceu pior, durante um longo tempo, é que Jorge não divisava nenhuma mudança. Certamente o inferno chegara para ele, inferno que descobriu ser nada mais que a repetição sem fim de um mesmo estado, meio depressivo, meio psicótico, e cujo simples vislumbre era tão esmagador que ele não tinha forças para nada, nem mesmo para gritar ou chorar sozinho no meio da noite, enquanto olhava para as luzes solitárias da Cidade da Solidão, como chamava sua São Paulo natal.

 

 Parte II

Esse estado já perdurava há meses. Ele tinha se tornado um eremita da metrópole. Tudo que havia em sua vida, além de fitar o vazio por horas, eram caminhadas sem duração, destino ou roteiro definidos, em que entrava em um bar atrás do outro, um mais sujo e repelente que o anterior, para embebedar-se e trocar olhares meio hostis com outros miseráveis como ele, pessoas que, por instantes, faziam com que ele se sentisse um afortunado.
A tarde se foi e a noite veio, preenchida por uma lua cheia perfeita, bela, se tal palavra fosse aqui permitida. Jorge olhou pela apertada janela de sua sala, encarou a lua por longo tempo, e sem sentir nada especial, decidiu mais uma vez praticar a única atividade noturna que lhe atraía naqueles dias, a única coisa que lhe mitigava a alma, ele, que dois anos antes fora considerado um verdadeiro garanhão entre a nata dos freqüentadores de bares e casas noturnas de rock da cidade: andar, andar e andar, encostar em um balcão sujo e tentar afogar sua loucura interna em álcool.

Após trinta minutos de caminhada, em que ocorreu uma porção de banalidades com as quais já estava acostumado, que lidava com larga experiência e ainda maior frieza, como espantar os viciados de sua vizinhança, que lhe pediam dinheiro fazendo ameaças estúpidas, dar uma resposta curta e contundente a uma das bichinhas adolescentes que circulavam pelo centro em busca de parceiros, xingar por puro hábito os selvagens que pilotavam carros enormes e brilhantes e ignoravam todos os sinais de trânsito possíveis e existentes, ele foi parar em uma mesa de uma pizzaria e bar encravada em uma esquina a meio quarteirão da Avenida Paulista, um desses locais mentirosos, decorado com retratos de mal gosto de paisagens bucólicas e repletos de mesas de madeira barata, em que homens da classe média decadente levam suas famílias para jantar, para saírem por algum tempo do cárcere do lar e assim se tolerarem mais um pouco, enquanto fingem estar bem e satisfeitos.
Ele sentou-se em uma mesa afastada do burburinho, encostada em uma coluna revestida de madeira envernizada e lascada. Após o garçom servir-lhe uma garrafa de cerveja, os olhos de Jorge pousaram na mulher de modo casual, ele apenas buscou o ponto para o qual todos os homens no salão olhavam, movido pelo tédio de sempre.
E o que ele viu era uma criatura tão voluptuosa, atraente e chamativa que parecia mais que uma mulher, era o feminino mais pleno que poderia ser manifesto em um único corpo de mulher. Estava enfiada em um vestido de malha, curto e justo, provocante mesmo, as marcas da minúscula e estimulante roupa de baixo nítidas no tecido tingido de azul-cobalto. Ela conversava de modo bastante descontraído e animado com o atendente, enquanto bebericava. Jorge reparou que todos os homens no salão, mesmo os acompanhados, olhavam para a mulher, que, ao ter seus atributos avaliados por ele provocou-lhe a primeira sensação, em muito tempo, desprovida de dor ou asco.
Ela tinha nada menos que um metro e oitenta de altura. Seu corpo era tão perfeito, sedutor e lascivo, que descrevê-lo sem usar de lugares comuns seria uma afronta, eram curvas e mais curvas cheias de volume: cintura minúscula, nádegas grandes, seios volumosos, pontudos e empinados. Ela era deliciosa, enlouquecedora, exigia ser olhada e desejada. Sua pele era bastante morena, o belo tom acobreado, facilmente encontrável nas partes mais profundas do país, que era um dos mais atraentes resultados das seculares misturas entre negros, índios e brancos. O cabelo era liso e grosso, negro como ônix, cobrindo metade das costas.
A sensação que a figura da mulher – que não girava a cabeça ou sequer dava uma espiada com os cantos dos olhos, sempre olhando para frente, sempre conversando com o balconista – lhe causou foi como um choque, como se pela primeira vez sentisse desejo por uma mulher. Ele esqueceu o copo de cerveja, ignorou os sons, cochichos e risinhos ao redor. O mundo, a partir daquele momento, resumiu-se naquela morena imensa, que pedia para ser beijada, lambida e mordida em cada poro da pele.
A mulher apanhou o copo de bebida, pulou da banqueta com decisão e sem dirigir um olhar em linha reta foi até Jorge como se soubesse que ele estava ali há milênios esperando-a.
– Oi –disse enquanto se sentava na cadeira em frente, os olhos pregados nele, cujos olhos tinham sido pregados nela – meu nome é Tainá.

 

Parte III

 

Ela era sem afetações e artificialidade. Sua beleza era selvagem. Olhos ligeiramente puxados, escuros e repletos de brilho, lábios carnudos, cheios e vermelhos abertos em um largo sorriso que mostrava dentes nacarados, rosto oval de pele aveludada em que tudo era harmonioso, exibindo um frescor de amolecer.
– Por que veio até aqui falar comigo? – Ele perguntou, zonzo, sentindo-se bêbado após dois copos.
– Você me olha e me quer como nenhum outro aqui, você realmente me deseja, seu corpo e sua alma me querem, não é como esses idiotas que tem aos montes aqui e em qualquer outro lugar em que eu estivesse, que gostariam de me comer apenas para satisfazerem o papel de machão no qual fingem acreditar e para contarem aos amigos ainda mais idiotas.
– Mas como você pode perceber tanto se não olhou para trás uma única vez, só tinha olhares para o palhaço do balconista?
– Intuição, meu doce. Eu senti o seu olhar sobre mim e de onde vinha. E como posso saber tanto, a partir da energia desse olhar de macho de verdade? Bem, não queira saber dos segredos de uma mulher, pode ser assustador.

A mão esquerda de Jorge ergueu-se lentamente e alisou o rosto perfeito dela, enquanto ele dizia:
– Pois uma mulher como você é tudo de que preciso, e muito. – disparou Jorge. Mal percebeu o que dissera e com que intensidade. Alguma coisa profundamente enraizada nele, mas muito maior e mais antigo que ele mesmo, ele podia sentir, tinha o dominado por inteiro.
Os olhos da morena arregalaram-se de satisfação. Apanhou o copo, bebeu o restante da caipirinha de um gole só.
– Há quanto tempo! Finalmente um homem de verdade, que diz o que uma mulher tem de ouvir, sem medos ou sem enfeitar sua fala com frescuras ou galanteios inúteis. Vamos embora daqui. – E dizendo isso pôs as mãos dele entre as suas e entrelaçou os dedos com força. Saíram correndo em direção ao carro dela, um jipe meio castigado, em meio a sorrisos maliciosos e troca de olhares, como duas crianças prestes a realizar uma deliciosa traquinagem. Jorge não estava entendendo muito bem o que se passava ou que sentia, mas sentir novamente a leveza e a pura alegria de estar vivo, regozijar-se com a beleza e simplicidade de uma situação como aquela, sensações que há meia hora atrás lhe pareciam perdidas para sempre, era tão maravilhoso, que sua consciência não permitiu que os temores e desconfianças típicos em um encontro fortuito como aquele sequer se aproximassem. A única coisa que o incomodou foi a pele dela, aveludada demais, tanto no rosto como nas mãos, como se houvesse uma densa penugem invisível cobrindo-a.

A morena dirigiu o carro pelas avenidas, rumo à zona norte, no limite da velocidade e da sanidade. Por três vezes Jorge crispou os dedos no banco de passageiros e viu diante de si formar-se a imagem de um atropelamento ou de uma colisão e por três vezes a mulher evitou o acidente com uma destreza e uma rapidez que lhe pareceram impossíveis.
Em pouco tempo eles tinham se embrenhado nas ruas do Tremembé que desembocam no parque da Cantareira. Ela levou o carro para dentro de um labirinto de ruelas tortuosas, desprovidas de luz, presença humana ou qualquer movimento. Nem um cachorro desgarrado ou insetos noturnos se viam, era como se tivessem penetrado em um outro mundo; nesse meio tempo, várias vezes a mão esquerda dela deslizava para as pernas e a virilha de Jorge, para acariciar e apertar suas partes. A embriaguez da euforia e da excitação fez com que pedisse que ela parasse, para se atracarem ali mesmo, no que ela respondeu com um sorriso maroto e com um “calma, calma” hipnótico.
Um pouco mais e ela parou o carro diante de um enorme portão escuro. Ele espiou para os lados e tudo que viu foi a silhueta negra e imensa de um arvoredo muito denso, em ambas as direções. Sem dizer nada, ela tirou um controle remoto do porta-luvas, abaixou o vidro elétrico e deu o sinal para a barreira de metal erguer-se.
Após o portão uma pista, a cada metro mais inclinada e difícil, seguia para o alto da serra, o asfalto repleto de buracos e calombos. Os solavancos foram tantos que trouxeram Jorge de volta à realidade por algum tempo, o suficiente para ele aperceber-se do inusitado da situação e perguntar:
– Afinal, para onde vamos? Você tem alguma mansão deslumbrante, no alto da serra, e vamos trepar debaixo desse luar bonito pra caralho?
– Já disse para ter calma, meu bem. Estamos indo para um lugar meu sim, não minha casa, mas um tipo de refúgio, em que com você , serei eu mesma. E quem sabe você será você mesmo.
Nesse momento, Jorge especulou se não tinha se envolvido com uma bicho-grilo ou mística barata das que desprezava com ardor, uma daquelas malucas chatas que tinha aos montes no sul e no oeste da cidade, que proporia sexo no meio do mato, sexo tântrico-transcendental ou algo do gênero, como um maravilhoso, “encontro deles com eles mesmos”, não importasse serem devorados pelos mosquitos enquanto o tal encontro rolasse…
Quando ele não tinha mais a menor noção de onde estava e sentiu-se apartado de toda a civilização, pois em um desfile de árvores e sombras e em inclinações do solo cada vez mais violentas o mundo tinha se resumido, ela desligou o carro, olhou para ele mais uma vez, sorrindo o mais belo e malicioso sorriso que já fora dado a ele, e abaixou as alçinhas finas e frágeis de seu vestido.

Durante três horas inteiras eles fizeram sexo, a luz da lua cheia passando pela vidraria do carro como se esta não existisse, banhando-os como se glorificasse a alucinada união carnal. Fizeram de tudo, experimentaram todas as técnicas, posições e ritmos que conheciam. Em nenhum momento ele pensou, utilizou a parte consciente de sua mente, fora dominado por sua porção animal e isso, após tanto tempo de racionalidade hipertrofiada, era algo sem definição ou comparação.
Súbito, em um dos breves intervalos, ela pousou suas mãos nos ombros fortes e volumosos dele e o encarou, em silêncio, o olhar indefinível, por tanto tempo que ele imaginou ter cometido alguma besteira. Então as mãos dela deslizaram até logo abaixo das omoplatas, seus olhos ficaram amarelos e cintilantes, um urro pulou de sua garganta e ela fincou os dentes – longos e cortantes – no pescoço de Jorge, enquanto as imensas unhas negras que tinham saltado dos dedos se enterravam na carne próxima à coluna vertebral. O sangue jorrou do rasgo e espalhou-se pelo corpo de Jorge e pelo interior do veículo. Ele soltou um grito inumano, que foi seguido de outro, quando, ao tentar afastá-la, percebeu que suas próprias unhas tinham se tornado aberrações escuras e pontudas e que suas mãos estavam cobertas de pêlos grossos, cinzentos. Que monstro era ela e o que fez a ele? Como ela pôde fazer aquilo com ele tão rápido? No que ele se transformava? Alucinado, desesperado, ele gritou e ainda mais assustado ficou ao ouvir sair de sua garganta um rosnado, o som de um enorme cachorro feroz, e não a voz de um homem. E percebeu mais: sua visão estava muito mais aguda, a luz branca do luar ostentava uma miríade de sutis variações e ele podia enxergar pequenos animais noturnos correndo de lá para cá, espiando imóveis, animais que até há pouco ignorava estarem ali. A linda morena causou a transformação ou tão somente provocara a erupção da criatura dormente dentro de Jorge? E ela deu-lhe resposta imediata: abriu a porta esquerda do jipe e jogou Jorge para fora, em cima das moitas e capim alto que se espalhavam sobre a borda da pista, para pular sobre ele em seguida, atracando novamente seu corpo ao dele, não mais humana, uma besta com os movimentos e porte da mulher e o aspecto de um lobo bípede coberto de pelagem cinzenta, focinho longo ornado de dentes brancos pingando baba e sangue.

 

Parte IV

 

Quando ela juntou-se a ele de novo todo o medo, toda a depressão e toda a humanidade fútil desapareceram. Ele sentiu, quando o corpo quente do monstro grudou-se ao seu, que a mais imemorial energia que repousava no fundo mais fundo de seu ser vinha à tona e o corpo respondeu, mudando para uma estrutura de quadrúpede, transformando-se em um enorme lobo de olhos arregalados em segundos, a dor dos ossos que mudavam de tamanho e forma, da pele que se esticava, dos músculos que cresciam, tudo isso em segundos, uma vagalhão de sensações e saberes o inundando. E então, vindo de si mesmo e de tudo ao redor, das plantas, dos animais que infestavam a mata, do ar, de tudo, a criatura que não mais era Jorge sentiu algo preenchê-lo, um som, uma sensação, uma ardência que era nome e o próprio ser, representação e a coisa em si:
Gaia!Gaia!Gaia!Gaia. Bem vindo, você agora é um filho de Gaia!
Era muito mais que uma voz interna, era a verdade do que acontecera a ele, era o que Tainá tinha feito a ele e que tinha espantado toda a tristeza tola, a depressividade ignóbil e destroçado sem piedade as complicadas mentiras e os patéticos artefatos com que a humanidade encarava seu mundo-mãe, as barreiras que tinham sido erguidas em sua mente e corpo desde que nascera, e das quais ele tinha se livrado para sempre, a partir daquele instante. Em um momento infinitesimal, mas que persistiria para sempre, ele compreendeu tudo isso e agradeceu a ela por ter sido o instrumento da ação da mãe Gaia sobre ele.

Ela também se transformara em um lobo autêntico, passara de criatura bípede a predador de quatro patas em um instante, encarando-o. Com um rosnado curto o convocou para o primeiro passeio dele mata adentro como animal. Ele uivou em resposta e dispararam para o interior da floresta.
Correram por entre as árvores, saltando buracos e fendas, mergulhando as patas na água fria dos regatos, observando os animais noturnos fugirem deles, sentindo a folhagem roçar a pele, por um longo tempo, parando apenas para sentarem em cima de alguma rocha e uivarem para a lua. A humanidade de Jorge, sua razão, engolfada pela forma lupina, no entanto ainda estava lá, presenciando e vivendo tudo, ao lado da fera: ele se tornara algo muito maior e mais espantoso que as mais desvairadas imaginações que uma vez nutriu sobre si mesmo; continuava homem, mas estava ligado à Terra, a sua força mais profunda e ancestral, da qual os outros homens se apartaram, de modo eterno.
Quando sentiu a manhã se aproximar, a loba soube que era hora de trazê-lo de volta à forma de homem. Assim, ela farejou o ar por algum tempo em busca de uma possível vítima; após sentir a presença de um veado-catingueiro isolado, conduziu Jorge até o animal, que foi cercado com facilidade.
A loba emitiu um comando silencioso, ele pulou sobre o animal e o estraçalhou. Ao sentir a vida do veado esvair-se em suas mandíbulas, algo rompeu-se dentro dele e em instantes voltou a ser Jorge, deitado no meio do mato espesso que cobre as serras do norte de São Paulo.
Confuso e assustado ele olhou ao redor e lá estava Tainá, inteiramente nua, a seu lado. Ela estendeu a mão para ele, dirigindo-lhe um olhar cheio de ternura maternal; ele apanhou a mão de dedos longos e unhas pontudas e deixou-se conduzir.

Dias depois, em uma tarde semelhante àquela em a nova vida de Jorge começara, ele olhava fixamente para a paisagem que a janela mostrava, sentado na sua modesta cama de solteiro. Esquadrinhava por muito tempo uma cena qualquer, o mosaico de prédios e janelas, o movimento incessante da humanidade, um sorriso suave flutuando em sua face. O estado doentio de antes agora era uma lembrança cômica do que passou a considerar a infância mais imberbe e tola de sua vida. Claro, sua vida ainda tinha e teria fracassos e tristezas, frustrações e contrariedades. Mas agora, tudo fazia sentido, ele via e sentia os fluxos de energia de Gaia, mãe de todos, infundindo propósito e até mesmo beleza em todos os acontecimentos da vida, dele e dos outros habitantes da cidade e do mundo, humanos e não-humanos.
Jorge sentia-se vivo como há muito não se sentia, uma nova vida, que modificava e se relacionava com a anterior, sem anulá-la, se descortinava para ele. Uma tarefa, para o qual Gaia o convocara, se iniciava, e ele a via claramente ao contemplar a imensidão e a vitalidade desconcertantes de sua Cidade da Solidão, que aliás nunca mais chamou desse modo.

 

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