Por Caio Bezarias
Título e importantes sugestões por André Pavesi

Parte I

Encontrado na casa de Marcos Mazzarini Leme Bueno, dado como desaparecido:

          Ele está chegando… Ele vai me pegar. Sinto isso e sei, com toda certeza, que não posso fazer nada e que meu fim está muito próximo.

Hoje é uma daquelas noites escuras e sinistras que caem sobre São Paulo durante outono e inverno, as noites em que, eu descobri, essa aberração sai de seu buraco para apanhar suas vítimas. Não tenho coragem nem de erguer a cabeça e espiar a janela, quanto mais abrir e olhar para fora, pois está uma porra duma noite fria, as nuvens escondendo as estrelas e a lua, uma das noites em que aquela coisa cuspida do inferno dá fim em ladrões, matadores e outros bandidos.  E é isso  que está me deixando doido: o que eu fiz? Por que eu? Eu não sou nada disso, sou um homem de negócios sério, invisto na bolsa para mim e para meus clientes, empresto dinheiro a juros previamente combinados e depois recebo (e se necessário cobro, da maneira que for preciso). Moro nos Jardins, a um quarteirão da Paulista e tenho meu escritório nela, comprei ambos, casa e escritório, graças à minha esperteza e capacidade. Muita gente não gosta de mim, me chamam de agiota, explorador do desespero e dos problemas dos outros, de especulador. Que porra! Sou apenas um cara que se deu bem ao explorar as possibilidades dessa verdadeira selva de negociatas, interesses sujos e sede por dinheiro que é o “centro financeiro da América Latina”. Eu sou apenas isso, um cara esperto que fez seu esqueminha, no meio de tantos esquemas e é detestado por quem não conseguiu o mesmo. Então, por quê? Por que um monstro sobrenatural passou a me rondar, me assombrar e está tão perto que eu posso sentir sua sombra sobre mim, anunciando que minha hora chegou? Eu sou um bandido? Sou tão perigoso e mal quanto um assassino ou um estuprador? Claro que não, caralho! Sou só um cara esperto, que não deixa ser passado para trás e às vezes tem de ser duro e firme, para que não me façam de trouxa, pois sem grana não se é ninguém, nem você faz nada, nesse mundo de merda.

Ele está chegando, e estou sozinho, sem mulher alguma por perto para afundar minha cabeça e ser consolado do medo: Ana foi embora para sempre, depois de arrancar tudo que pôde, Bia e Kátia, minhas últimas “amigas”, não atendem mais minhas ligações. Não tenho nenhum amigo, apenas meia dúzia de funcionários que me detestam e uns parentes desprezíveis que só pensam em se aproveitar de mim… estou sozinho em meu apê e sozinho no mundo, pronto para ser pego por aquela coisa, que eu nem sei o que é de fato, tudo que vi se esgueirando entre as árvores do Trianon, há umas semanas, foi um imenso vulto cinzento de orelhas grandes e espetadas e luzes brancas onde deveriam estar olhos.

Eu vi a coisa pela primeira vez há menos de um mês, numa noite de chuva, uma tempestade pesadaça, de molhar os ossos e fazer a gente se sentir pequenininho, pequeninho. Era alta madrugada, eu estava voltando de uma farra daquelas, dirigindo minha linda Mercedes prata, que deixa muito neguinho mais rico e foderoso que eu, cara para quem eu pago um pau mesmo, roído de inveja. Foi quando a coisa surgiu para mim, enquanto esperava o sinal abrir. Olhei por puro acaso (nem sei mais se foi acaso ou a coisa fez com que eu olhasse) para o vulto enorme que as árvores do Trianon formam, durante a noite, principalmente debaixo de toda aquela água, enquanto atravessava, meio devagar, a avenida. E reparei, no meio da escuridão, que um pedaço dela se mexia, e que eu podia ver aquele pedaço se mexer e OLHAR diretamente para mim, para o fundo de minha alma e anunciar que eu já era, que ela ia sair da escuridão da Avenida Paulista e me pegar, muito em breve. Mas ela não ia fazer isso logo, claro que não. Iria aparecer mais uma ou duas vezes, soltar uns sons assustadores e fazer umas coisas terríveis e absurdas, para me deixar destruído por dentro, se deliciar com meu sofrimento, quando a hora chegasse. E a hora chegou.

Nessa noite, a noite em que vi ela pela primeira vez, dormir foi um suplício. Se fosse um monstro, um fantasma, uma coisa dessas, que eu tivesse visto de passagem, por acaso, eu ficaria assustado e seguiria meu caminho. Mas ela OLHOU para mim e eu li na luz branca e maldita que saía daqueles olhos tudo o que já pus aí em cima. E foi isso que acabou comigo e foi isso que não me deixou ter mais um minuto de paz.

Rodei por mais uma meia hora, até que o cansaço foi tanto que tive de ir para casa, para cair na cama.

Fiquei um tempão parado diante a porta do meu apartamento, imaginando que a coisa me esperava lá dentro. Por fim, não sei como ou porque, entrei. Acendi todas as luzes, olhando cômodo por cômodo, sentindo como que uma presença atrás de mim. Liguei a TV bem alto, para o som encher minha casa, enquanto me livrava das roupas e punha o pijama importado de flanela. Ainda consegui resistir de pé mais uma meia hora, quando desabei na cama e me enrolei no cobertor. Quando a consciência já tinha quase se apagado, ouvi um estrondo no telhado do depósito que fica atrás do meu prédio e em seguida um som áspero e grave vindo de uma garganta, entre rugido e ronco. Quase morri de susto, abracei meu próprio corpo e fiquei não sei quanto tempo tremendo. Esse foi o começo do meu pesadelo. Mas antes, decidi entender o que se passava, buscar ajuda do tipo que fosse, não ia ser destruído sem antes resistir.

 Parte II

Apesar de tudo, adormeci. Na manhã seguinte corri para o escritório, verifiquei agenda e planilhas, dei uma porção de ordens e saí para a rua, que estava fria e parecia tenebrosa, tudo tinha ficado tenebroso e assustador.

Desesperado e sem saber a quem ou que apelar, entrei na igreja da Consolação, ajoelhei em um canto afastado e recitei todas as rezas que aprendi na infância e fazia tanto tempo tinha jogado na lata de lixo da memória; depois simplesmente comecei a pedir ajuda divina, a tentar falar com Deus. Mas me veio um vazio e uma sensação de ridículo tão fortes que eu saquei rapidinho que Deus não tinha nada a ver com aquilo e que eu devia buscar ajuda de outras forças.

De volta ao escritório, a primeira idéia que me ocorreu foi falar com Jamir, meu motorista. Ele é um negão enorme, forte pra burro e mal-encarado, que mexia com umbanda, macumba, essas coisas de preto. Já me imaginava sendo levado por ele até um buraco sórdido na Vila Nova Cachoeirinha, Furnas, um desses bairros fudidos da zona norte em que ele mora e que eu nunca tinha visitado, só conhecia a má fama. E me imaginei dentro de um casebre de madeira, escuro e sinistro, a sós com um macumbeiro assustador que pareceria um morto, de tão velho, enrugado e seco.

Tremi todo, pensando se não haveria um jeito menos assustador de descobrir o que estava atrás de mim. Acendi um cigarro, e aspirei fundo a fumaça, para relaxar, mas continuei tremendo, tremia tanto que Júnior, meu contador, ao passar casualmente diante meu escritório, notou que havia algo errado, parou diante mim e perguntou o que estava acontecendo. Ele era pouco mais que um garoto, um gordo alto, babão, óculos fundo de garrafa e rosto de expressão ingênua, quase sem barba, vestia-se como um crente, e tinha cara de quem nunca se divertiu na vida. Mas logo descobri que ele sabia muito de coisas estranhas, sobrenaturais, e conhecia cada especialista que havia em São Paulo sobre cada coisa do sobrenatural que pode ser conhecida.

Mandei ele sentar-se na minha sala de reuniões, fui atrás, tranquei a porta e contei a noite anterior, me arrepiando a cada palavra, porque o aviso que a coisa me passou voltou à minha cabeça como se fosse uma mensagem gravada no fundo de minha alma, e lembrar dela fazia com que voltasse com tudo.

Ele ouviu tudo sem mexer um músculo da face, apenas movia o pescoço um pouco, como se aquela história escabrosa fosse de alguma forma familiar a ele. Pediu para usar o telefone da sala dele, retornou depois de quinze minutos e disse que estava tudo certo.

E assim foi o começo de uma verdadeira via sacra em que estive frente a frente com tudo quanto é bruxo, mágico, macumbeiro e charlatão que existe na metrópole. Inacreditável o que tem nessa cidade de coisa esquisita, e pior, o que tem de gente que mexe com as esquisitices e faz disso uma vida, gosta disso! Se eu tivesse tempo, punha nessa carta tudo que vi, mas não dá, tenho de contar o que importa, antes de tentar fugir, revelar que logo abaixo de nós, do mundo em que vivemos, tem monstros prontos a nos devorar, monstros que fingimos que não existem, fingimos que eles são apenas lendas, para não enlouquecermos nem colocarmos tudo abaixo.

Em uma semana rodei São Paulo de ponta a ponta, conheci a cidade como nunca tinha conhecido antes, durante meus encontros e consultas com magas e bruxos, sensitivos e médiuns, praticantes de magia, acho que topei até mesmo com um vampiro! (Hoje, acredito que eles existem, acredito em qualquer coisa). E ainda encontramos uns tipos que provavelmente nem eles mesmos sabiam o que eram

E de nada adiantou, me meti com toda uma gente anormal e de gelar o sangue, pra nada. A reação deles, quando ficavam sabendo da minha encrenca e percebiam o que a sombra negra tinha posto em mim variava de um abanar de cabeça a um medo imenso, todos apontando o caminho da porta em seguida.

Mas por fim consegui o nome do que estava me espreitando, embora antes nunca soubesse, o horror que me pegou pelo pescoço ficou ainda mais sufocante e insuportável depois que soube, com a certeza mais terrível do mundo, o que estava escondido no fundo da Avenida, aguardando a hora de acabar comigo.

Foi assim: nossa penúltima parada foi uma velha com cara de louca, mas com uma voz muito doce e calma, de cabelo longo e despenteado, que vivia em um apartamento muito grande e elegante na São Luís. Após ouvir meu relato, fez uma porção de perguntas e fechou os olhos por um tempo. Aí abriu eles de novo e disse que era uma “coisa da terra, que surgiu e tira sua força do solo e dos seres que aqui existiram antes de todos os invasores e exploradores. É mais velha e poderosa que toda a magia e conhecimento estrangeiros”. E como os outros, ela disse que nada podia fazer.

De volta ao carro, Júnior pensou por um momento e mandou Jamir ir para o extremo sul da cidade, lá onde vivem uns índios naquele matagal imenso que faz limite com a Serra do Mar.

Uma vez lá, Júnior foi bem recebido e não teve trabalho nenhum em trazer a nós um índio bem velho, algum tipo de pajé ou chamã (acho que é isso), que ouviu meu relato, me encarou, tocou em meu rosto e soltou duas palavras:

– Uamaki Itrixê.

E voltou para seu barraco num passo lento e cansado, sem se importar com coisa alguma, principalmente com minha reação.

Eu nunca tinha ouvido esse nome antes, mas ele causou uma coisa em mim que não dá para sequer esboçar: eu tinha descoberto o que me seguia e ia me pegar e descobri que estava perdido. Entrei no carro como se a própria coisa estivesse por perto e mandei Jamir nos levar para bem longe. Assim que voltamos para a cidade, dispensei os dois: enfiei uma bolada, em dólares, na mão de cada um e mandei sumirem do escritório e de minha vida por um bom tempo.  Uma vez no meu quartel-general liguei para um tio meu, um padre velhote, de uma paróquia importante da zona sul, meio bicha mas muito culto. Inventei uma história absurda e pedi que ele juntasse toda informação, possível sobre o nome que o índio me passou. Disse que era urgente, mas não oferecei grana; ele se ofenderia pacas.

 Parte III

Em menos de dois dias veio a resposta, que acabou de vez comigo. Enquanto as palavras saíam do bocal do telefone minha esperança morreu e a impressão, a marca que a coisa pôs em mim veio dos fundos de meu ser com tudo, tomando minha alma de tal modo que será um alívio quando tudo terminar. O que meu tio disse foi tão horrível que lembro de cada palavra:

“O nome que você passou é o de uma das mais antigas e estranhas lendas de São Paulo, não só da cidade como do estado. Trata-se de um ser, ou antes de uma raça de seres, que era temida pelos índios bem antes da chegada dos colonizadores portugueses. Não é uma criatura inteiramente física, embora tenha porção material. Antes é uma entidade formada pelas lembranças, horrores e imagens que todos os seres irracionais caçadores que já vagaram por essa terra deixaram nos homens, fossem antepassados dos índios, negros ou brancos e até seres não-humanos. É uma espécie de espírito que castiga os criminosos e gananciosos. Seus membros teriam sido expulsos ou exterminados pelos bandeirantes e bandoleiros, mas um se escondeu na parte alta e agreste da cidade e lá ficou. Quando a Avenida Paulista foi construída, ele se abrigou nas matas ao redor e depois no subsolo; de tempos em tempo correm rumores de sua presença: urros e roncos nos túneis abaixo da avenida, relatados por aqueles que lá trabalham, um vulto entrevisto, em noites de lua nova, no Trianon, e principalmente, ele seria o responsável pelo sumiço de ladrões e malfeitores, de exploradores do alheio, que agem na avenida, uma espécie de justiceiro do além.”

E é isso. Sou um investidor e agiota que prosperou e é muito conhecido e procurado mas também sou detestado, tão detestado que essa coisa, escondida nos túneis e galerias que correm debaixo da avenida, sentiu esse ódio e resolveu me castigar.

Falta pouco. Sei disso. Chega a ser engraçada a sensação de saber que seu fim está próximo, principalmente quando as coisas estranhas dos últimos dias passam a fazer sentido. Agora os sons, as explosões e os estrondos infernais que eu ouvia, em plena madrugada, após passar o dia naquela busca doida, estão esclarecidos. Era ele, me atormentando, brincando da maneira como só um monstro poderia brincar. Pois só uma coisa maligna, do além, poderia produzir sons de explosões, pancadas e rugidos tão altos que não acordassem mais ninguém ou não fossem notícia por toda a região no dia seguinte. Ele produzia aqueles sons para mim e só eu podia ouvi-los, ele me privou até do repouso do sono, para eu ansiar secretamente por um repouso definitivo. Eu……

Não, não vou me entregar assim! Vou apanhar minha automática e correr para o meio da Avenida, ficar zanzando por lá entre as pessoas, no movimento da madrugada. Ele não vai ousar me pegar na vista de outras pessoas. Não vou me render assim. Tenho só 30 anos e muito mais a fazer e viver. Devo resistir. Mas se eu falhar, esta carta, que deixo aqui, na minha mesa, revela toda a verdade e peço a quem ler: não deixe esse monstro continuar por aí. Os homens foram feitos para dominar, não para serem destruídos por aberrações que se escondem no esgoto.

Outro estrondo! E mais um. Acabei de olhar para fora e vi uma sombra se esgueirar no topo do prédio em frente. Ele chegou! Devo ir agora ou ele irr (trecho ilegível, após o qual a carta termina).

Vera Lúcia estava cansada e já vestira a camisola para dormir. Após certificar-se que os dois filhos já dormiam, foi para a janela da lavandeira, acendeu um cigarro, puxou a esquadria e pôs-se a admirar os prédios vizinhos e a noite, enquanto tragava a fumaça. Súbito, ouviu como que um guincho e olhou para baixo. Nunca soube o que era, mas pareceu-lhe que um homem era carregado por uma imensa sombra que se movia entre os prédios, na direção do Parque Trianon, com uma rapidez impossível. E pareceu-lhe ter ouvido um lamento abafado saindo da garganta do infeliz, bem como ter visto seus olhos, arregalados e parados de horror. O coração disparou e sentiu um arrepio percorrer o corpo. Vera jogou o cigarro pela abertura, trancou-a e correu para a cama, onde o marido roncava. Aninhou-se ao lado dele e tratou de esquecer a cena, tantos eram seus próprios problemas.

 

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