Por André L. Pavesi
Com revisão e sugestões de Caio Bezarias.

Uma forte lua cheia ilumina as árvores e os túmulos de um dos mais seletos e privativos cemitérios de São Paulo, o tipo de lugar que dá a algumas famílias ricas e poderosas a impressão de que seus mortos vão se decompor num pozinho de ouro com cheiro de flores, e não numa massa podre e fedida como todo mundo. Agradeço aos céus pela noite de ar seco já que detesto caçar essas aberrações noturnas debaixo de chuva! Um mapa do lugar na parede da sala do administrador, mostrando a disposição dos túmulos pela necrópole, facilita ainda mais a minha busca. Afinal de contas, o grupo de desocupados que procuro só pode estar no mausoléu principal, que domina toda a paisagem, mas é sempre bom checar possíveis rotas de fuga. Não que eu vá precisar delas.

Os únicos guardas responsáveis pela segurança do lugar, dois ex-policiais que já foram durões nos seus melhores dias mas que hoje têm dificuldades para correr carregando suas panças, não foram um problema. Deixei os dois dormindo, sem que tivessem a menor suspeita do que os atingiu. Meu problema não é com eles, e nem quero as autoridades procurando por um violador de túmulos com a minha descrição.

Fui contratado, como tantas vezes antes, para desbaratar uma célula de infecção vampírica. Desta vez, meus empregadores são religiosos ligados a alguns dos mais secretos círculos católicos, mas já trabalhei para todo tipo de gente, até mesmo contrabandistas preocupados com ataques noturnos aos seus carregadores.

Como era de se esperar, a cena no interior do mausoléu resvala no patético: iluminados por velas e espalhados por todo o lugar, uma dezena de jovens recém-saídos da adolescência se deleita com os versos toscos declamados por um deles, num pastiche de Byron ruim de dar dó, que faria o poeta maldito se revirar em seu túmulo. Como se ele estivesse simplesmente morto.

São todos muito jovens. A palidez doentia marca a pele de cada um deles, e todos usam roupas pretas, cheias de detalhes, babados e rococós. Lenços esvoaçantes, saias semitransparentes e decotes generosos parecem abundar entre as garotas, enquanto os rapazes se vestem com uma mistura estranha de peças sociais e acessórios que supostamente deveriam remeter aos séculos do ultra-romantismo. Não consigo deixar de pensar que todos parecem tão iguais, numa luta desesperada por sua individualidade contestável.

Enquanto o suposto poeta continua desfilando sua versão em versos de um tratamento de canal sem anestesia e garrafas de vinho vagabundo corre de mão em mão, duas das garotas do grupo se entregam a caricias mútuas, num misto de tesão e encenação digno da mais tosca produção da boca-do-lixo. Alguns dos rapazes, que parecem aguardar hipnotizados pelo retorno de seu líder e mentor, um sujeito auto-denominado “Lord Arnaud”, ignoram de forma afetada os devaneios pseudo-eróticos de suas amigas.

Vejo uma porta nos fundos do mausoléu que dá acesso a uma câmara mais reservada, onde ficam os túmulos dos patriarcas da família. De repente, por essa porta, saem dois sujeitos, ainda ruborizados pelo que quer que estivessem fazendo lá dentro: na frente, com uma expressão de quem acaba de ganhar na loteria, apenas mais um dos garotos imberbes, que logo é recebido por seus coleguinhas, num festival de risinhos, comentários e cutucões de fazer inveja às adolescentes de qualquer cidade interiorana. Logo atrás, com uma paradinha estratégica para aumentar o impacto de sua aparição sobre o seu séquito, surge o tão falado “Lord Arnaud”, um sujeito magricelo, beirando os quarenta e vestido como um dândi do século XVIII, com longos cabelos negros batendo no meio das costas. Desfilando entre seus pupilos, Arnaud acena com a cabeça para uns, acaricia com um gesto lânguido de suas mãos magras o rosto de outros, mas parece preferir ignorar as moças, que como todos ali voltaram toda sua atenção para ele, com um gesto de tremenda afetação.

Pela fresta deixada na porta principal, observo a cena com aversão crescente por mais algum tempo. Vejo quando Arnaud se senta aos pés de uma das estátuas de anjos que adornam as paredes, para receber os afagos e gracejos dos garotos presentes. Um após o outro, todos se voltam para seu mestre, esmerando-se em seus gestos vazios e pomposos, tentando captar sua atenção e ser o próximo a acompanhá-lo à sala reservada. A música, antes apenas um murmúrio, passa a sair das caixas de som improvisadas num volume que beira o ensurdecedor, e todos começam a dançar. Todos, exceto Arnaud e um dos garotos, que passam a trocar carícias na escuridão. Na pista improvisada, enquanto alguns deles tentam passos de dança supostamente rebuscados, outros simplesmente ficam caminhando como zumbis. Em dado momento, uma das garotas começa a girar como um peão, levantando seus braços sobre a cabeça e jogando seus cabelos tingidos de preto e azul sobre o rosto, como se envolvida numa espécie de transe hipnótico, enquanto seus pares formam um círculo ao seu redor.

No auge daquela celebração à futilidade, um garoto, que não parece ter mais que 17 anos, se aproxima do púlpito de Arnaud. Até aquele momento, ele esteve pelos cantos, meio escondido, meio assustado, apenas bebendo grandes goles do vinho que circulava entre eles. Sem muitas palavras, ajoelha-se aos pés do seu lorde. Os demais garotos desligam o som e abandonam suas danças e esquisitices, passando a formar um círculo ao redor do novato, gritando, gemendo e cantando, num êxtase quase místico, como se um bando de idiotas como esse, regado a vinho barato e ilusões auto-alimentadas tivesse capacidade para algum tipo de elevação espiritual. Arnaud aproxima sua boca do pescoço dele, e estranhamente opta por cobri-lo com pequenas lambidas, como um animal limpando sua cria.

E é nesse momento que minha paciência se esgota e a diversão começa!!

Escancaro com um chute as portas do mausoléu, que batem contra as paredes fazendo um barulho alto o suficiente para assustá-los! Passado o susto inicial, aqueles fedelhos passam a me olhar de forma desdenhosa, mas aceito esse desdém como conseqüência de minha aparência, afinal de contas tudo que eles vêem é um velhote, um cinqüentão vestindo roupas simples, de cabeça raspada e barba por fazer, não muito alto nem especialmente musculoso. Mesmo meus coturnos não parecem capazes de impressioná-los. Ótimo! É assim mesmo que quero! Quanto menos se impressionarem com minha aparência, mais displicentes e fáceis de bater eles serão.

– O que você quer, velhote? – grita comigo um dos garotos, um loirinho meio gorducho que reconheço como sendo filho de uma das mais abastadas famílias da sociedade paulistana. – Já não mandei vocês vigias de merda não perturbarem minhas festinhas aqui?!

Fecho as portas às minhas costas e desço os degraus da entrada até ficar frente a frente com o pirralho, que me cutuca no peito enquanto continua berrando bobagens sobre como o papai dele vai me demitir e como eu nunca mais vou arrumar emprego naquela maldita cidade.

Parte II

Sem dizer palavra, agarro os dedos da mão que me cutuca e torço-os às costas do fedelho. Sinto quando alguns pequenos ossos do punho, dos mais complicados para calcificar fraturas, se quebram sob a pressão aplicada. Chuto o garoto de lado, e saco minha .44, apontando-a para o peito de Arnaud. Nesse momento, o mausoléu vira um pandemônio! Todos os moleques se afastam do seu querido lorde, alguns tentam correr até a porta, e sigo nocauteando todos que passam perto de mim, tão fácil que não dá nem para suar.

Encosto minha arma na testa de Arnaud, e o cheiro de mijo se espalha pelo ar enquanto a frente das calças dele ganham uma enorme mancha amarelada.

– Você me conhece, seu vampiro de merda? – pergunto a Arnaud, embora já saiba a resposta.

– Não me mate, p-p-por favor… – implora o suposto lorde.

– Você sabe muito bem que minhas balas não matam vampiros, seu desgraçado – grito com ele, ciente de que todos os olhos e ouvidos ao meu redor captam não apenas cada uma das minhas palavras, mas também os trejeitos e a fraqueza na voz de Arnaud.

– Mas não me mate, eu num sou vampiro… – choraminga Arnaud. Quase posso sentir a desilusão dos garotos ao meu redor se formando, enquanto ouço os murmúrios aumentarem ao ouvir a resposta de Arnaud. – Eu só queria os rapazes…

Nesse momento, a mascara de empáfia e arrogância de Arnaud cai por terra de vez, e as palavras saem num jorro inconstante e fracionado por soluços, lágrimas e pedidos de clemência. Arnaud, na verdade Arnaldo, entrega todo o serviço. Não é e nem nunca foi um vampiro, apenas criou essa persona vampírica para atrair garotos incautos e poder, bem, como dizer isso de forma polida, chupar os rapazes e seus fluidos pelos meios tradicionais. Até mesmo detalhes desnecessários, como o preço pago pela peruca de cabelos longos que ele arranca da própria cabeça num gesto melodramático, acabam sendo derramados como vômito.

Ao final de alguns minutos de choramingos e confissões, em que aproveito para apertar mais um pouco o desgraçado, alguns dos rapazes do grupo se voltam contra o falso lorde. Deixo que eles se divirtam e aliviem sua decepção e raiva por alguns minutos, enquanto ligações são feitas por celulares e a notícia corre o mundo. Engraçado como justamente aqueles que há pouco veneravam de forma mais intensa o sujeito são os que mais agressivamente o atacam, chegando mesmo a esbofeteá-lo! O garotão que acabou de receber uma chupada na sala reservada chora desconsoladamente, amparado por outro amigo, e as mesmas moças que até minutos antes imploravam pela atenção do sujeito agora se afastam abraçadas e chorosas. Depois de um tempo, todos se afastam, alguns ainda olham para trás, para seu antigo senhor com um desprezo de dar gosto. Outros, nem isso! Os que nocauteei são reavivados por seus amigos e levados dali enquanto ouvem as más noticias.

Quando finalmente saio sozinho do mausoléu, o brilho intenso da lua no céu parece testemunhar a favor de meus atos. Subitamente, um bater de palmas chama minha atenção. Do meio das árvores próximas, uma figura bem vestida se aproxima, ainda aplaudindo de forma cínica.

– Bravo, meu amigo – diz a figura, um velho conhecido. Para dizer a verdade, meu mais antigo inimigo. – Bom trabalho, Gomes, realmente um excelente desempenho! Suponho que seus empregadores da Ordem não façam idéia de que o suposto foco vampírico detectado por eles não passava de um diletante com delírios de cinema, mas acredito você não vai acabar com a ilusão deles e diminuir sua fama.

– Eu devia arrancar esse sorriso besta da sua cara com uma estaca, seu bosta… – respondi, entredentes. – Mas a sua última noite ainda não chegou, Franco!

– Entretanto, meu amigo, você não vai. Ou vamos acabar com nossa dança macabra de tantos anos hoje? – Franco responde, gargalhando em seguida.

Balanço a cabeça, e com um sorriso irônico olho diretamente nos olhos vermelhos do vampiro. – Como vai sua chefe, meu caro? Ou você ainda se recusa a admiti-la como a verdadeira líder da sua corja nessa cidade?

Como previsto, minhas palavras derrubam o sorriso do vampiro.

– Você ainda vai aprender a não ser insolente! – ameaça Franco, aproximando-se de maneira ameaçadora.

– Ah, claro! – respondo com um sorriso nos lábios. – Acho que já ouvi isso antes, mas não tenho certeza se foi de você, ou daquele seu amiguinho que fritei no sol no começo dos anos 90! Deixe de frescura, Franco! Você sabe tão bem quanto eu que seu pessoal me deve, que se não fosse pelo meu trabalho vocês teriam muito mais problemas em se manter discretamente nessa cidade.

– Ouça bem minhas palavras, humano – rosna Franco, transtornado pela menção ao seu namorado favorito, um vampiro que nos anos quarenta fez papel de galã em algumas produções dos palcos cariocas. Num piscar de olhos, o desgraçado salta sobre mim, sua verdadeira natureza exposta, presas à mostra, a pele transformada numa massa enrugada que mais parece uma casca de árvore. – Um dia esse reinado maldito vai acabar, e seu acordo nojento não valerá mais nada!

– Mas até lá, seu sanguessuga de merda, qualquer vampiro da alta roda que encostar em mim deverá responder diretamente a minha pequena amiga Angelina. Aliás, mande lembranças minhas a ela, da próxima vez que for lamber suas botas como um bom morceguinho. – respondo afastando-o com um safanão.

Nesse momento, temo ter ido longe demais. Os olhos de Franco brilham com mais intensidade, como sempre acontece quando a raiva primal se abate sobre os vampiros. Fico preparado para um ataque definitivo, mas depois de alguns segundos Franco se afasta, mesclando-se às sombras daquele modo irritante tão teatralmente característico dele.

– Eu e minha boca grande! – penso, enquanto recolho meu material e me afasto com mais uma missão cumprida, tendo a lua como muda testemunha de meus atos. Sei que está chegando o dia do acerto final de contas, mas até lá sigo fazendo aquilo que sei fazer de melhor.

 

 

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