Por Caio Bezarias

Episódio I – Se a Paulista não der certo, rume ao  Anhangabaú!

Laura aproximou-se a passos lentos, ficando bem perto da mulher, pois temia que fossem ouvidas:

– Como me encontrou? Está me seguindo?

– Não eu. Meu servo. Ele descobriu tudo sobre você para mim. Mas deixe isso para lá. Já disse para não me temer. Não bebo o sangue de mulheres e seus desejos me divertem. Vamos?

– Para onde?

– Para as profundezas da noite, para o coração negro dessa cidade, repleta de coisas que os mortais ignoram. – Abriu a porta de uma BMW negra parada ao lado, fez sinal para Laura entrar e a garota obedeceu apressadamente.

A vampira guiava o carro como se o veículo fosse uma entidade viva e inteligente, com a qual se comunicava e se entendia perfeitamente; e Laura realmente desconfiou, por alguns instantes, disso. Ainda não sabia, sequer tivera um vislumbre, do mundo espantoso e repleto de maravilhas e horrores no qual tinha penetrado, porque não seria possível um vampiro dar vida a um carro e comandá-lo com os pensamentos? Seria demais! Uma porção deles guiando seus carros-seres pela cidade, incógnitos, menos para ela, Laura, a única pessoa a conhecer esse segredo. Uau!

– Você dirige muito bem, parece até que está falando com o carro e ele te obedece.

– Apenas tenho larga experiência no volante e movimentos e reflexos tão rápidos que você sequer os vê.

– Ah. E o sorriso morreu no rosto da gótica, substituído por um rubor de vergonha e autocensura.

– Pra onde  estamos indo?

– Em busca de algum exemplar desses homens patéticos que julgam serem todo-poderosos porque penetram as mulheres com seus órgãos ridículos. E você vai me ajudar a literalmente possuí-los, linda criança, pois não é isso que quer, participar de uma vingança contra eles?

– Hã, é claro, claro que vou te ajudar, esses canalhas que ficam contando vantagem, eles merecem ser destruídos, seremos as vingadoras noturnas da raça feminina, não é?

Ingrid riu, jogou os cabelos para trás e respondeu: sim, é isso mesmo que seremos. “ Vingadoras noturnas”, um belo nome. Querida criança, quantos anos você tem?

– Vinte e dois, por quê?

Mais um riso enigmático e uma resposta que nada respondeu:

– Oh, nada de importante. Sim, vamos nos vingar desses seres  desprezíveis.

E iniciaram sua primeira missão na noite de São Paulo, lindas e irresistíveis  vingadoras noturnas que purificariam a cidade dos homens escrotos, vis e baixos que faziam tantas mulheres como elas padecer injustamente.

Ingrid conduzia o carro com a máxima lentidão que era possível em meio à pressa e neurose da Avenida Paulista e arredores em uma noite de sexta frenética, o ar impregnado de inquietação e urgência. Laura não agüentou por muito tempo: arriou o vidro da porta a seu lado e passou a dirigir olhares lânguidos e sorrisos forçados para todos os vários homens que mediam o carro e a encaravam. Era tão bom provocar os homens e estar a uma distância segura, protegida por uma máquina poderosa e por uma entidade das trevas! Ela não era mais uma gotiquinha qualquer, era a mais foderosa gótica da cidade, fazendo algo que nenhuma outra fazia! Ah, como se vingaria dos homens, levaria montes deles para os dentes de sua mestra!

Episódio II

Após encará-la com severidade, Ingrid ralhou:

– O que está fazendo?

– Tentando atrair a atenção de algum homem, um mais atiradinho que dê sinal ou fale algo. Você estaciona, ele entra, brinco com o idiota enquanto você guia para um lugar seguro e aí…

– Que estratégia de rameira é essa?! Você deveria indicar um lugar que conheça, mas no qual não seja muito conhecida, para apanharmos alguém sem chamar muito a atenção. Por que disse para atravessarmos a Avenida?

– Bem, eu nunca andei aqui em um carrão desses, só de ônibus ou pegando carona nas charangas de amigos. Achei que seria gostoso, legal, me sentiria bem, tão bem que poderia chamar a atenção de um desses engravatadinhos e você sugaria ele até secar. Não gosto desse povo daqui da Paulista e Jardins, sabe, eles…

Ingrid estacionou o carro, como Laura previu. Depois a fuzilou com o olhar e ordenou que indicasse um lugar em que ela, Laura, conseguisse arrastar um qualquer. E que o dissesse sem demora.

Alguns minutos depois a BMW negra entrava na Nove de Julho e seguia firme rumo ao Anhangabaú. A gótica vingadora fez sinal com o dedo, mostrando o lugar. A poderosa vampira assentiu a cabeça de leve, fez os contornos necessários e por fim deixou o carro em um estacionamento a duzentos metros do bar.

Enquanto desciam a Álvaro de Carvalho, Laura notou algo na vampira. O rosto sempre pálido estava um pouco afogueado e os passos um tanto nervosos e apressados, a elegância no andar e porte já não era a mesma. Ela lembrava um cão esfomeado que corre com ar babão para o humano que agita um pedaço de carne.

De repente, Laura sentiu uma coisa correr por dentro dela. Suas pernas começaram a tremer; o coração não disparou, enlouqueceu; e a boca secou. Sentiu uma imensa necessidade de bebida, não poderia encarar aquilo sóbria… Apontou para um bar bem iluminado e espaçoso, repleto de homens mal-vestidos e barulhentos e disse para a companheira:

– Preciso beber alguma coisa. Você paga, tá? – E disparou para o boteco, sem esperar aprovação.

Ingrid balbuciou algo, suspirou, sentiu-se miseravelmente humana e seguiu a garota.

O destino da dupla vingadora que estava prestes a realizar sua primeira missão para resgatar a moral e estima do mulherio paulistano era um boteco na mais orgulhosa acepção do termo. Era sujo, tosco e mal-iluminado, a decoração mal-acabada e duvidosa – pôsteres amarrotados de ícones do heavy metal, pregados de qualquer jeito, pinturas sem proporção exaltando a música, a cerveja vagabunda (porém gelada), era apertado para a quantidade de gente que o apinhava, tinha um ar de perigo e encrenca que atraía quase todos que passavam por ele quando a noite caía. O bar do China Blau (ou Chin) era ponto de encontro, beberagens, intrigas, bolinação, sexo no banheiro e outras coisas mais da comunidade roqueira que circulava pelo Centro da cidade nas noites dos finais de semana: rockers em geral, headbangers e góticos abasteciam-se de bebida no balcão do Chin, sempre solícito e bem humorado,  antes de partirem para suas aventurinhas noturnas. Mas a maior atração do bar era certamente seu dono, uma personalidade sem par, que chamava a atenção em meio à profusão de tipos exóticos que pululam no Centro de São Paulo. Um sujeito alto e corpulento, barba e cabelos imensos, pele muito morena, mas não mulata, olhos meio orientais em um rosto brutal, que parecia ter sido feio a golpe de machado. Seu sotaque era estranhíssimo. Circulavam histórias as mais contraditórias sobre ele, de ser um neto bastardo de um tirano despótico do Extremo Oriente que matara milhares a agente de grupos terroristas, infiltrado em São Paulo com intenções malignas…

Laura estava fora de si, alcoolizada, bêbada, travada, chaparral, quando passou pela entrada do bar, esbarrou em uma mulher magricela de meia-idade que fazia ponto ali, desesperada por alguém que a levasse para a cama, cumprimentou Chin com um aceno, como se ele fosse um velho amigo e seguiu para os fundos, onde a ação acontecia. Lá havia uma televisão no teto que exibia shows de heavy metal e gothic metal, uma mesa de bilhar que parecia ter eras de idade, mesas emporcalhadas e os banheiros da casa, onde todo tipo de transa e transação aconteciam.

Ingrid vinha logo atrás. A vampira estava tomada de ceticismo e desconfiança. A menina entornara dois copos de uísque e um de vinho em menos de dez minutos e a bebida tivera um efeito devastador e instantâneo, transformou-a em um verdadeiro espantalho para os homens: voz estridente, tagarelice monótona e incessante, os modos tornaram-se ainda mais vulgares. E a dúvida se converteu em sobressalto e até mesmo em medo, quando ela pôs os olhos no proprietário, o reconheceu e reparou que ele seguiu a gotiquinha com os olhos, um brilho nada amistoso chispando deles e logo em seguida caminhou para a traseira de seu estabelecimento.

Quando Ingrid alcançou Laura, ela já tinha entabulado conversa com dois rapazes, que bebiam encostados em uma parede, observando o movimento, a garrafa de cerveja apoiada sobre uma pilha de engradados.

o lance é cheirar umas depois de beber, entrar numas antes de ir para a noite suprema, tá ligado? A noite precisa duns lances. Vamô entrar numas? Eu moro aqui perto e tô com uma amiga. – e apontou para Ingrid, que observava a três metros, apoiada em uma pilastra – a gente podia…

Uma pancada. A quina de algo duro e pesado veio contra a cabeça de Laura, não o bastante para machucar de fato, mas para fazê-la interromper a torrente de palavras. Fora ninguém mais que Chin, que passou carregando um engradado de bebida a toda pressa. Ele ignorou o estado alterado de Laura e deu à pancada e ao grito a mesma importância que dava às moscas que circulavam pelo balcão.

A jovem vingadora noturna em sua primeira missão esfregou o local do choque com a mão esquerda, gemeu e disse, numa vozinha de menina desamparada:

– Aiii!! Vai inchar! – e desabou a cabeça no peito do rapaz mais próximo, um sujeito alto e forte vestido de preto, tachas, rebites e pregos, que não teve reação diante de Laura alisando a doce e maltratada cabeça no seu peito musculoso e abrançando-o como se fosse o único macho do recinto. As pessoas mais próximas não guardavam o riso dentro de si e Chin olhava de longe, rindo como uma raposa matreira.

A vampira deu dois passos, decidida a resolver aquela cena, mas o amigo do desafortunado rapaz foi mais ligeiro que a criatura das trevas: deu um safanão na gótica e puxou o grandalhão para a frente, que saiu em disparada.

Foi mais que suficiente para acabar com a paciência de Ingrid, que estava esfomeada e já meio enlouquecida, tanto sangue a seu redor e a isca cometendo besteira após besteira. Como ela, um dos Antigos, fora tão estúpida? Aceitara pôr aquela ridícula humana dentro de suas caçadas, como uma nova forma de diversão, para dar mais colorido à busca por alimento e quando deu por si estava há mais de uma hora para lá e para cá sem ter bebido uma gota, tão ridícula quanto a garota. Que bom que os vampiros não se vigiavam com a mesma intensidade que os licantropos e não tinham os protocolos que eles mantinham entre si, caso contrário…

Tão rápido que ninguém percebeu, ela agarrou o pulso da menina e em instantes estavam na rua. Mais um instante e estavam na Ladeira da Memória, Os olhos da vampira estavam vermelhos de ódio e fome, a voz trovejando dentro da cabeça de Laura e somente lá:

– Você vai atrair uma vítima para mim agora, caso contrário quebro minha regra pessoal e beberei o sangue de uma fêmea, está entendendo?

E largou a garota com tanta violência que ela quase rolou pela escadaria da Ladeira. Laura ergueu-se, esfregou o joelho dolorido e espiou ao redor. Um gordo grisalho de aspecto repelente, um peão, um marreteiro ou um tipo assim, cambaleava logo ali em frente, dizendo coisas desconexas. Ela respirou fundo, pôs de lado o amor-próprio e seus parcos princípios e caminhou na direção do escrotão, a voz enfraquecida  ensaiando uma besteira qualquer, para chamar a atenção do sujeito.

Menos de dez minutos depois, a BMW estava estacionada em uma ruela, Ingrid se alimentava e Laura tinha seu batismo como vingadora noturna e iniciada nos segredos das trevas.

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