Por Caio Bezarias
com grande e importante revisão de André L. Pavesi

 

Prelúdio – há algum tempo atrás…

Ninguém seu deu conta quando a coisa rebentou naquele espaço vazio, uma confluência de fundos de prédios apertados e mal colocados, no centro da cidade. Raízes entranharam-se na terra, folhas e flores cresceram e abriram-se, galhos e trepadeiras entrelaçaram-se e uma mata fechada surgiu, no coração da Bela Vista. Os animais se instalaram em seguida, ratos, insetos, aranhas e alguns escorpiões, lagartos de muro, aves – durante o dia, do previsível pardal ao misterioso siriri, um grupo variado enchia a pequena e densa selva de sons, enquanto durante a noite corujas e curiangos davam, com seus pios, o devido ar de mistério à fechada mata urbana.

A coisa cresceu com uma rapidez anormal, mesmo para a terra em que se plantando tudo dá, mesmo contando com um inesgotável suprimento subterrâneo de água e com a total indiferença dos homens que viviam e labutavam ao seu redor, como se algo partisse do verde entremeado de escuridão e impedisse que os humanos destruíssem a coisa, que surgira graças a seu descuido e indiferença.

Já se disse que os mitos expressam a si mesmos, conversam entre si, por meio das ações, eventos e rituais da humanidade que, pretensiosamente, julga utilizá-los para se expressar. O que o autor desse pensamento e seus seguidores diriam diante de Gaia, a fonte de tudo, incluindo os mitos, expressando a si mesma, sem a menor restrição ou oposição, a poucos metros da avenida que os habitantes da cidade elegeram, com desmedido orgulho, como símbolo maior de seu poder e domínio sobre o mundo e os outros homens?

A exuberância da escuridão verde

 

    Semanas atrás…

Era uma abafada, quente e vazia noite de quarta-feira, uma das infindáveis noites em que a maioria dos ocupantes de São Paulo, derrotados, descansa o suficiente para apenas encarar mais uma noite e dia vazios, e outro, e outro e outro.

Pouco passava da meia-noite, alguns carros circulavam para lá e cá. Um homem loiro, magro e esbelto, estava sentado em um ponto de ônibus da Nove de julho, esperando alguém, curvado num ângulo que desfazia a pouca classe que ele tinha. Ele parecia calmo, seus olhos claros e infantis olhavam para frente e não para a direção da qual um suposto ônibus viria para apanhá-lo.

Um Golf negro e reluzente aproximou-se, vagaroso, vindo da Zona Sul, seu condutor o estacionou tranquilamente em frente ao homem, como se a via existisse somente para seu bel-prazer de exibir seu carro e sua arrogância. O vidro enegrecido por película da porta do passageiro desceu e uma voz nervosa ordenou:

– Sobe logo!

Mark levantou-se com estudada calma, deu dois tapas nos fundilhos da calça e entrou pela porta traseira. O carro pôs-se em movimento a não mais de 20 por hora, como se os ocupantes não soubessem para onde ir, como se tateassem pela cidade, esperando que ela lhes desse algo.

Miranda guiava o carro e Natasha estava a seu lado, as coxas de ambas se roçando. Estavam mais belas, cheirosas e deslumbrantes do que ele poderia se lembrar. A chance de ter as duas na cama, e bem numa noite Sagrada[1], era uma dádiva de Gaia para um licantropo tão mal-visto por seus pares e por quase todos os seres místicos da cidade.

-Tudo certo? Podemos deixar o lixo[2] lá?

– Sim, e a parte de vocês, está combinada?

– Claro que está – respondeu Natasha, passando os dedos pelo cabelo. Embora eu ainda prefira algum outro tipo de pagamento. Trepar não é muito fácil ou agradável para nós.

– Deixa disso, gata, já falamos disso antes, está combinado. Acha que vou dispensar a chance de ter duas gostosas como vocês, de uma vez?

– Isso é engraçado, pois você fugiu como um cabaço assustado de mim, no passado. E se livrou de Natasha de um modo muito torpe.

– Eu era um idiota total, hoje reconheço. E quero as duas! Isso ou nada feito.

– Certo, então vamos logo com isso.

– Antes, é melhor nos livrarmos do presunto. Onde está?

– No porta-malas. E não está morto. Ainda. Está fraco e inconsciente mas ainda tem um pouco de sangue. Queremos terminar de sugar o cara lá, na mata. Sabe, esse carro era dele. Bonito, não? Pena ter que largar em uma esquina, mais tarde, pra não termos problemas.

– Bem, entre à esquerda e siga até aquele hospital grande e luxuoso. Lá, vire à esquerda de novo.

Pouco depois, o carro estava estacionado num trecho escuro da rua Itapeva. Mark saiu devagar, inspecionou os arredores, afinando a sensibilidade do olfato e audição ao caminhar. Ótimo: não havia ninguém que pudesse ver ou atrapalhar. Somente alguns vigias entediados ou adormecidos e um mendigo prostrado na esquina. Voltou-se para Miranda e disse à meia-voz:

– Abra o porta-malas.

E num movimento, um pulo que nenhum olho humano perceberia, que até as duas vampiras quase não distinguiram, alcançou a traseira do Golf e retirou a carga de lá, desaparecendo nas sombras em seguida.

Há pouco…

Era alta madrugada, um céu sem Lua enfeitado por poucas estrelas pálidas cobria a cidade. Um enorme carro preto, antiquado, mas em perfeito estado, um Landau brilhante, estacionou em um ponto da Itapeva, embaixo de uma enorme tipuana. O silêncio era tanto ali, a poucas quadras do que muitos habitantes da metrópole afirmavam ser, com orgulho, seu centro econômico, cultural e social, a parte de São Paulo que se orgulhava de nunca parar, de nunca dormir, que quem acreditasse nesse provincianismo metido a modernidade repetido incessantemente pela elite paulistana e seus lacaios, ficaria bastante surpreso ao saber que a escuridão e o silêncio existiam tão perto da maravilhosa, sempre iluminada e ativa Avenida Paulista.

Três pessoas saltaram do carro: um negro de meia-altura, muito forte e atarracado, pescoço curto e largo, uma mulher de andar elegante, muito alta, enorme cabeleira negra farfalhando em suas costas e um homem de cabelos encaracolados e estatura mediana, de meia-idade, metido em um blazer marrom.

Durante um minuto o trio ficou ao lado do carro, olhando para todas as direções, erguendo os narizes para o alto e arregalando os olhos, que emitiam uma luz amarelada. De súbito interromperam a varredura e saltaram, juntos, em perfeita sincronia, para o primeiro galho da árvore forte o bastante para suportá-los.  Mais alguns saltos e estavam encarapitados no muro que não apenas indicava os limites do terreno em que a mata crescera e se tornara absoluta, mas que sinalizava um pedaço da Terra que os homens ignoraram por tempo suficiente para a própria Terra tomasse posse. Lúcio, Tainá e Silas sentiam a essência brutal, selvagem e desenfreada de Gaia, sua mãe, mãe de todas as plantas e animais que constituíam tal maravilha verde, exalar  dali e ansiavam por se misturar àquilo, sentiam desejo de fazer os pêlos de lobo cobrirem seu corpo e em seguida espojaram-se na terra sagrada que estava logo ali embaixo; Tainá estava tão excitada que uma pelagem fina cobriu todo seu corpo e suas presas já pulavam da boca. Mas também havia algo estranho e desagradável em meio á emanação da Natureza, uma espécie de névoa ruidosa que lampejava na percepção deles, também vinda da mata. Tainá e Silas não tinham certeza do que era, apenas que era algo sombrio e nascido de sofrimento, Lúcio identificou de pronto e deu sinal para mergulharem na vegetação, em busca da fonte daquilo, pois era o que buscavam.

Caminharam no interior da vegetação com direção definida; Lúcio logo encontrou a fonte da perturbação: duas ossadas humanas despidas de qualquer tecido mole e uma terceira que ainda tinha restos de tecido e vísceras suficientes para servir de repasto a vermes, insetos e ratos, jogadas em uma pequena vala cavada na parte mais densa da mata. O cheiro terrível não foi a principal orientação, mas sim a emanação espiritual repleta de ódio.

Um movimento das orelhas impossível a um ser humano foi o sinal de Lúcio para seus companheiros aguardarem na borda.  Firmou pés e mãos na borda do buraco. Então, no milissegundo antes de saltar, algo veio e encheu sua mente; era muito mais que uma imagem, muito mais denso que cheiros, sons, rajadas de vento e coisas mais estranhas roçando a  pele: Lúcio, durante uma fração de tempo tão minúscula que um ser comum julgaria aquilo mais tênue que um sonho, simplesmente foi arremessado para um possível futuro da cidade, uma possibilidade que precisava de um único e inescrutável acontecimento-chave para se tornar tão real e sólida quanto o tempo e lugar em que ele estava há uma micro-fração de tempo antes…

São Paulo não mais existia. A cidade desde há muito fora coberta por uma eterna camada de nuvens grossas e escuras, que a castigavam com uma chuva torrencial que pausava pouquíssimas vezes, a ponto de o Sol, a Lua, as estrelas e um céu desanuviado serem lendas quase esquecidas. Os poucos humanos restantes encolhiam-se nas poucas galerias subterrâneas que não tinham sido tomadas pela água e sujeira. A superfície era dos  vampiros, lobisomens e outras criaturas místicas, que se destruíam em uma guerra tão violenta quanto interminável e estúpida. E toda a superfície da cidade e além, além dos limites do que outrora fora conhecido como Grande São Paulo, estava coberta de uma vegetação densa e escura, uma floresta tropical de árvores altas ligadas umas às outras por uma grossa cobertura de trepadeiras, uma massa vegetal que fazia a terra abaixo dela uma tenebrosa escuridão  úmida. Uma fauna composta de mutações e feras medonhas e distorcidas era a única que grassava ali. Uma vegetação que fincou suas grossas raízes nos buracos do asfalto e calçadas castigados pela chuva sem-fim, que dominou o topo de todos os edifícios, dos mais modestos aos antigos “cartões-postais” da cidade, que se insinuava em cada espaço livre para anunciar a vingança da natureza… E tudo isso começaria lá, na pequena e fechada mata em que ele estava. Tão nítido como se dito em palavras, Gaia anunciou a Lúcio que a Mata, o pequeno terreno selvagem que lobisomens e vampiros, na única ação conjunta que realizavam sem atritos ou violência, protegiam há anos, a Mata seria o germe, o embrião, o início de todo o escuro inferno verde que ele visitara por um pequeníssimo instante, caso os homens não mudassem totalmente o curso das ações que sua espécie fazia já há tempo demais. E esse seria o destino de todas as grandes cidades e metrópoles do planeta… Lúcio ajoelhou-se, suspirou e perguntou numa voz fraca:

– Oh Mãe-Terra, por que mostraste a mim? Por que tenho de ver e saber isso?

E a resposta, mais uma vez nítida e sem palavras, veio: porque você terá papel fundamental nesse futuro, se ele ocorrer. Mas você não veio a ela para isso. Cumpra a tarefa desta noite.

E ele obedeceu a sua mãe ancestral. Retomou o controle sobre si mesmo, fez um sinal para Silas e Tainá, indicando que estava tudo bem, pulou para dentro da vala e com cuidado aproximou a mão do crânio semi-descarnado. Antes que o tocasse, uma figura translúcida que tinha a forma de um homem moreno e jovem surgiu, uma expressão facial vincada de dor e sofrimento e inconformismo para com uma morte prematura e horrível. A aparição não causou o mínimo espanto no licantropo de mais de duzentos anos.

“POR  QUÊ?   POR  QUÊ?     POR   QUÊ?  HOMEM  QUE  É   FERA,   EU   MORRI   PARA   DUAS   BEBEDORAS   DE   SANGUE   SE   DELEITAREM.    EU   ESTOU  MORTO!     MORTO! MORTO!   PARA   ISSO?   A TERRA    ME   CHAMA    PARA    DESCANSAR   E   ESQUECER    MAS NÃO   VOU,   QUERO   VINGANÇA,   NÃO   PARTIREI!   VIDA!   VIDA  ! AGORA   SÓ   VEJO   A VIDA,   NÃO   ESTOU  NELA!   POR   QUÊ?  VIDA!!!!  – As palavras surgiam dentro da mente dos três licantropos sem atravessar o ar. Lúcio sustentou a postura diante do desesperado fantasma e perguntou, numa voz severa, mas calma:

– Quem? Quem fez isso?

“DUAS      GAROTAS  . NATASHA     E    MIRANDA.   UM     HOMEM-FERA,    COMO    VOCÊ,    AJUDOU,    ME  TROUXE    AQUI     PARA     ME     MATAREM.       AQUI,    ONDE    AGORA    ESTOU      PRESO,     POIS      NÃO    POSSO  E    NÃO    QUERO    REPOUSO!

– Foi numa noite de Lua Cheia, estou certo? E o homem que as ajudou, que jogou você aqui, para elas te matarem,  um homem loiro, alto e magro?

” SSSIIIMMM!    SSSIIIMMMM!!    EU VEJO ELES ZOMBANDO DE MIM E NÃO POSSO DESCANSAR.

Foi nesse momento que o espanto e a indignação inundaram Lúcio. Ele ergueu sua mão esquerda, que pousou no ombro do fantasma como se ele fosse sólido, e numa voz cheia de convicção, que acalmou por algum tempo a miserável alma, afirmou:

– Você será vingado. Acalme-se, pois logo será liberto desse grilhão e poderá repousar para sempre.

O espectro desapareceu, Lúcio voltou para a companhia dos amigos, que acompanharam  com máxima atenção o diálogo. Ele encarou os dois e com os olhos chispando raios amarelos, rosnou:

– Vamos pegar aquele desgraçado, essa noite, agora. Quanto às amiguinhas dele,  ficará para outra oportunidade, mas também pagarão.

Mark saiu da garagem como se um exército estivesse lá dentro, com todas as armas apontadas para ele. Rastejou para fora, através do pequeno espaço entre a porta de aço e o piso repleto de poças de óleo de automóvel, ergueu-se, ignorando a sujeira grudada na roupa, e disparou rua afora, na direção de sua moto, parada a menos de trinta metros. Sua roupa estava molhada  de suor e ele arfava; a urgência de cair fora antes que o dono do antro surgisse era tão forte que se continha para não se transformar; ao mesmo tempo, a alegria por estar tão próximo de partir incógnito, além da conquista de ter se deitado com a maravilhosa mulher de um criminoso daquele naipe e periculosidade, em troca de um serviço que também rendera uma bela grana, era imensa,  tanta que ele estava quase urrando para o céu. Pena que era uma noite sem Lua para a qual uivar e exaltar a si mesmo! Que noite gloriosa! Ele era foda, era esperto e poderoso e seus poderes de lobisomem fariam com que nunca fosse pego por quem quer que fosse .

E lá estava sua moto, simples, modesta, mas em perfeito estado e que o levaria para bem longe dali. Parou ao lado da máquina, tirou a chave do bolso, moveu sua mão na direção do contato… e foi agarrada por uma enorme e pesada mão negra, que o fez soltar a  chave com um aperto medonho. Antes que a peça de metal batesse na calçada, outra mão, esta lisa, suave, bela e morena, surgiu, apanhou o objeto e esmagou-o sem esforço.

Os apavorados olhos de Mark correram ao redor e ele viu-se cercado por três dos mais fortes e temidos licantropos de toda a cidade de São Paulo, talvez de boa parte do Estado. Lúcio o olhava com um sorriso malicioso; Tainá ostentava na palma da mão uma bolinha de metal retorcido; e Silas segurava sua mão com uma força imensa, quase moendo os ossos. Ao ver-se sob domínio da Tríade Que a Noite Teme, o calafrio que lhe correu o corpo instalou-se na espinha e de lá reverberou por dolorosos segundos em ondas de suor e tremedeiras.

– Que diabos vocês querem? Vai me atazanar de novo com seus discursos, Lúcio? Faz tempo que não me meto com ninguém do nosso povo, estou de boa.

– Sim, não se mete com nós, anda se metendo com os bebedores de sangue, com os filhos da Sombra do Sidh. Cale sua boca e não tente nada, seu filho de uma vira-latas. Nós vamos passear um pouco. – E após dizer isso apontou para seu Landau preto, estacionado na esquina.

– Ei, e minha moto, como fica?

– É verdade, alguém pode roubá-la. Vamos cuidar para que isso não ocorra. – Lúcio agachou-se, estudou o motor por alguns instantes e num gesto rápido esmagou uma peça qualquer.

– Pronto, isso a tornará sem nenhum atrativo para gatunos que causam mal a gente decente como você. Podemos ir?

Sequer ousou sentir raiva, temendo que eles percebessem. Os três certamente já tinham planejado algo bastante pesado, provocá-los era uma estupidez que nem o notório Mark ousaria, estando em tal situação. Ele suspirou, seus ombros caíram, Silas deu-lhe um safanão e ele cambaleou na direção do carro negro.

Após menos de dez minutos, o carro parou em uma rua deserta próxima ao ponto das Marginais em que o Pinheiros e o Tietê se encontram, pois Lúcio não se conteve mais. Pulou para a traseira, agarrou o jovem licantropo pela gola da camiseta, suas mãos cobertas de pêlos e terminadas em garras, os olhos intensos como faróis fuzilando o rosto apalermado de Mark:

– Você permitiu que vampiros se alimentassem na Mata, na pequena floresta da Bela Vista, durante Lua Cheia? Permitiu que eles quebrassem o acordo?! Nós não podemos entrar na Mata quando eles o fazem e vice-versa, é muito movimento, que pode chamar a atenção dos humanos e causar perturbações no Sidh, no mundo paralelo, que sempre têm reverberações neste. Já é quase um milagre que aquela maravilha, tão densa e exuberante,  viceje próximo à avenida mais importante da cidade, há vários anos crescendo sem ser incomodada, e você faz isso, numa Lua Cheia?   Por que seu estúpido, por quê? Você sempre teve atração pela confusão e pelo caos, mas não tem direito de trazer isso aos outros membros de sua raça! Sagrado canto das águas que murmuram nos bosques! Por que Gaia fez de você um lobisomem? Você deveria ser um”asnomem”, isso sim,  deveria transformar-se em um homem-asno, uma besta com cabeça de burro, pois é isso que você é!

Mark nada disse. Apenas olhou para Lúcio por muito tempo, sem encarar de fato o olhar terrível. Estava desesperado, sem saber o que fazer, nenhuma palavra se formava em sua língua. E haveria como enfrentar a Tríade com palavras e justificar suas ações insanas? – Acho que meus dias no mundo material já eram, deduziu, nenhum sentimento associado ao pensamento.

– Já foi demais, Mark. Gaia não tolera isso. Logo você será chamado de volta a ela, eu o aviso. Mas não podemos fazê-lo sem ordem direta dela, como você deve ou deveria saber. Gaia cria nós licantropos, Gaia nos chama de volta. Mas nós podemos “brincar” um pouco com você, isso podemos, não é, amigos? – E os outros dois sorriram sorrisos cheios de presas brilhantes. Silas fechou o punho e aplicou um golpe na têmpora esquerda de Mark, que caiu desfalecido no banco de passageiros.

Uma série de chutes no traseiro o fez ficar semi-consciente. A dor no local em que o negrão o bateu veio em seguida, despertando-o de uma vez. Ele ergueu-se com lentidão. Os três estavam a seu redor, transformados em lobisomem. Tainá, mesmo na forma de licantropo ainda continuava esguia e bela, cheia de feminilidade, enquanto os dois machos desprendiam uma brutalidade muito perturbadora. Ele procurou divisar onde estava. A cidade parecia distante e vaga. Luzes vermelhas de aviso a aviões presas no topo de antenas, a alguma distância e situadas abaixo deles, sons isolados e indistintos de carros, vindos de muito longe e de baixo e acima de tudo, o uivo do vento gelado que os açoitava indicavam que tinham-no levado ao topo de algum prédio muito alto.

– Terá de usar ao máximo suas habilidades e sentidos para sair daqui, o que não deixa de ser uma gentileza nossa, pois logo não mais  será um licantropo, logo você será nada. – Trovejou o licão.

E sem que ele conseguisse perceber o movimento, desapareceram como fumaça levada pela brisa. Ele caminhou até a borda do edifício e estudou a paisagem. Parecia estar em algum ponto no Oeste da cidade. Será que fora largado no topo do enorme edifício do Correio fincado perto da Marginal? Tremeu, e não somente de frio, pois um estranho desalento, uma sensação de solidão cortante o dominou. Gaia estava abandonando-o, ele estava  sozinho da maneira mais intensa e profunda possível, uma maneira que humano nenhum poderia compreender, sequer imaginar. E a culpa era apenas dele mesmo. Mark sentou-se na beira do edifício, contemplou o solo e ponderou como seria difícil, fraco e débil como estava, descer aquela torre.  Pela primeira vez naquela noite, sentiu como estava escura, sentiu a escuridão sem Lua como mandíbulas se fechando sobre ele.

 

[1] Jargão dos lobisomens, outrora usado por Licãos e mais idosos e que foi tomado pelos mais jovens e desregrados, para se referir à Lua Cheia, assim chamada por motivos óbvios.

[2] Jargão dos vampiros mais jovens., usado para se referir ao cadáver de uma  vítima recém ” bebida”. Enquanto os vampiros mais antigos, principalmente os Anciãos Lendários, praticavam um  respeito solene e meio emocionado por suas vítimas, que por vezes se assemelhava aos rituais que  povos caçadores realizavam em agradecimento ao espírito dos animais que matavam para sobreviver, os vampiros mais jovens tratavam suas vítimas com consumado desprezo, como se fossem um gado bípede, na melhor das hipóteses.

 

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