Por Caio Bezarias
Revisão de André L. Pavesi

Junho de 1986, Tucuruvi, zona norte de São Paulo              

A noite era fria, fria como eram as noites de junho em São Paulo, há não tantos anos. Nuvens brancas e densas corriam pelo céu, mostrando e escondendo as estrelas, poucas mas bem nítidas. Apesar da temperatura, o ar era agradável de respirar. Havia pouco movimento nas ruas, uma ou outra pessoa bem agasalhada que corria para casa e para a TV; era um bairro de gente simples e de gente simplória. Em um sobrado de esquina, alguém estava sentado sobre uma mureta meio torta: um rapaz magro mas alto e bem proporcionado para sua idade, que não fazia nada de especial, apenas olhava o mundo: a brancura das nuvens galopando pelo céu parecia feita por um pintor divino, o piscar das estrelas era mágica pregada no céu, as luzes dos poucos prédios que então havia na região eram cada uma um segredo a ser desvendado. Todas as coisas transmitiam um som, um acorde, um brilho, um sinal insinuando um mundo empolgante e cheio de descobertas, quando ele fosse adulto e dominasse a capacidade e os recursos para se mover entre lugares e pessoas que agora o impressionavam e enchiam-no de curiosidade e desejo.

Ele estava maravilhado com o futuro que seus sonhos e descobertas prometiam – claro, o que ele já sabia e experimentara era pouco, tinha somente 13 anos… – As leituras  que pouco a pouco fazia, as muitas canções falando de amores profundos e sofridos, de emoções intensas e assustadoras e os relatos dos seus vizinhos mais velhos descortinavam uma cidade violenta e repleta de tribos estranhas e fascinantes, que se enfrentavam e se misturavam lá longe, em porões escuros e barulhentos no Centro da cidade,  tudo um mosaico que ele iria decifrar e colorir.

Ele estava cheio da energia que enlouquece o adolescente e o faz descobrir que a vida é um sem-fim de possibilidades. E ele era jovem, faria tudo que sonhava e o que não sonhava, tinha tantos e movimentados anos a sua frente.

Os poucos que passavam não deixavam de notá-lo: parecia mais alto do que realmente era e em seu rosto ainda imberbe e sem barba estava marcado tudo que corria em seu interior, naquele momento mágico. Uns riram,  julgando-o apenas mais um menino boboca; vizinhos e conhecidos, sabedores de seu hábito de observar as estrelas nada diziam ou davam um aceno,  e uma mulher de trinta anos, metida em um casaco longo e pesado, rosto marcado por  uma mistura de sabedoria e amargura, dirigiu-lhe uma observação meio jocosa, que  não entendeu e ainda retribuiu com um sorriso.

A última pessoa a passar pela rua estreita e tortuosa, antes de ele se recolher, cedo, foi a mais importante, mas ele nunca soube. Um homem de altura média, cabelo escuro e cheios de caracóis, rosto marcado e vivo, vestindo roupas típicas da década anterior, veio da direita, caminhando sem pressa alguma; não interrompeu por um único instante o passo lento e regular nem dispensou o mais breve  olhar para o garoto,  pois sabia sua tarefa desde que Gaia o chamara,  há poucos minutos,  tirando-o da chácara centenária e meio abandonada  que resistia ali perto, a uns duzentos metros de distância, onde ele e mais dois lobisomens, convocados pela Mãe-Terra, faziam uma espécie de ritual para concentrar e depois espalhar sua energia vital entre seus filhos ingratos e cegos. E foi justamente isso que o tirou do galpão meio apodrecido em que ele e os parceiros trabalhavam para o bem dos humanos mas também contra eles: A imagem do garoto, sentado, acompanhada de algo semelhante a um choque elétrico, em que ecoava a ordem de  impregná-lo com a energia vital que eles estavam ali concentrando, pois se ele a recebesse e soubesse conservá-la e usá-la, seria um importante agente de Gaia sem saber, espalharia entre a decadente infinidade humana  a energia da vida autêntica.

Assim fez Lúcio, como sempre fez em seus mais de duzentos anos de vida: pôs de lado o que fazia e obedeceu de pronto a Mãe-Terra, sem dúvidas ou questionamentos. Enquanto passava , ligou-se à energia corporal do rapaz, energia que era pura emanação de Gaia, como a natureza e ser do lobisomem também eram, e  impregnou-o com o máximo da força e do desejo de viver sem limites, sem medo de trazer caos e sofrimento a quem quer que fosse – mesmo a si mesmo – se  isso fosse condição para viver de fato, como a Mãe de Todos ordenou-lhe.

Lúcio partiu, sereno, sem se importar com o que a força desmedida que inoculou no rapaz causaria em sua vida futura.

Naquela noite o garoto foi dormir esperançoso e exaltado, imaginando mil possibilidades e maravilhas para sua vida, certo de que seria interessante e movimentada e começaria de fato em breve.

 

Julho de 2008, Rua 24 de maio, centro novo de São Paulo

                Fim de tarde, sexta-feira, as ruas do Centro apinhadas. Escriturários, gerentes, chefes, contínuos, secretárias, técnicos e bancários, vendedores, balconistas e outros mais se apressavam em correr para casa ou buscavam uma mesa de bar para relaxar, após uma semana, um mês, um ano, uma vida inteira matando a si mesmos nos cubículos, escritórios e lojas que enchiam prédios de formas geométricas e sem beleza do Centro da cidade.

Ninguém se destacava em meio à massa. Todos eram cinzentos, cansados e fartos, e muitos já pareciam meio mortos, sem vitalidade ou essência, a vida sugada e substituída por rotina, obrigações,  desejos e ambições que na maioria das vezes não eram seus, mas instrumentos de interesses alheios.

As pessoas mal reparavam umas nas outras, estavam fechadas em suas conchas de pequenos dramas, ambições e frustrações, e ainda julgavam seu drama particular o mais profundo e desesperador de todos os dramas que faziam de São Paulo o que é. Assim sentia-se um  sujeito de pouco mais de trinta anos, alto, precocemente grisalho, olhar bravio, preso dentro de um terno barato, um sofredor e injustiçado, que ao passar por uma galeria da 24 de maio, apinhada de bares e  de gente que iniciava seu fim de semana do modo mais sensato possível – embriagando-se – resolveu fazer o mesmo, pois lembrou-se da mulher já o esperando, de suas  exigências e reclamações e dos três filhos estridentes.

Nenhum dos “colegas” de trabalho estava com ele, e isso era bom, estar sozinho era sua melhor terapia. Sentou-se na primeira mesa desocupada que encontrou, pediu cerveja ao atendente e pôs-se a assistir ao mundo fluir, enquanto a bebida fluía pelo corpo e aos poucos acalmava sua cabeça.

Os pensamentos que tanto lhe atormentavam (O que dera errado? O que tinha feito de sua vida? O único responsável pela desgraça em que afundou era ele mesmo. Não havia saída, viveria e morreria infeliz e sufocado) não vieram e torturaram, como ocorria várias vezes ao dia. Deslizaram pela consciência e desapareceram, talvez expulsos pelo álcool, e deram lugar a uma terna nostalgia para com seu começo de juventude, quando a vida parecia um sem-fim de promessas e ele imaginava-se capaz de virar o mundo do avesso, em nome de sua realização pessoal, da aventura e do novo.

O princípio da adolescência sem dúvida era a melhor porção da vida, depois, somente desgostos e problemas, pensou. Adolescência em que nas noites de sexta-feira esperava os pais dormirem para, silencioso como um rato, voltar para a sala, ligar a TV e deliciar-se com as deusas seminuas do Sala Especial, pois ainda não havia conhecido uma mulher e o sexo era  a maior das maravilhas que o futuro reservava. Sim, tempos fáceis e divertidos, em que aqueles filmes e seus tipos e roupas bizarros não eram ridículos. Tipos vestidos exatamente como o que ocupava a mesa bem a sua frente.  O homem não era mais um rapaz mas exibia boa forma, vestia-se com roupas quase exóticas: blazer bege  meio curto riscado por listras vermelho-escuro que formavam quadrados, sapatos impecáveis de bico fino e brilho intenso, gravata curta e cinza, camisa de seda verde-clara. O cabelo encaracolado precisava de um corte, e no rosto barbeado e moreno destacavam-se os olhos confiantes e a expressão, o cara sem dúvida era um cafajeste convicto e orgulhoso, como se saído de um daqueles filmes que tanto embalaram seus tempos de rapaz, tempos de festinhas e bailes nos sábados à noite, improvisados em garagens, quando ele e seus amigos deslizavam suas mãos por cada parte do corpo das meninas, tentando apalpar os seios e as calcinhas durante danças de corpos e outras coisas grudadas, tempos em que a música e seus grandes heróis davam resposta e sentido para tudo, as garotas eram menos agressivas e interesseiras, a cidade um atraente labirinto de descobertas e prazeres.

Juventude, para onde fora? O que o mundo e principalmente ele tinha feito a si mesmo? Por que abandonou o sonho de ser músico e deixou o que deveria ser somente sua forma de sustento se tornar sua vida, a ponto de concluir um curso imbecil, o curso dos “idiotas que não sabem o que querem da vida, querem apenas ganhar dinheiro e não viver”, como dizia um amigo mais velho daquela época, sobre o curso de administração, que ele tanto odiou e ainda odiava.

Mas algo ocorreu, diferente das demais tardes de sexta-feira, em que o ritual deixar o trabalho-embebedar-se-chegar em casa- discutir  com a inimiga que diziam ser sua esposa se repetia, semana após semana, mês após mês, ano após ano: descobriu onde a energia da juventude se enfiou e essa descoberta o fez um rapaz de novo, as lembranças da adolescência não eram mais dolorosos avisos de seu fracasso. Não lembrou-se do rapaz cheio de energia e planos que foi, voltou a ser esse rapaz. Os dias memoráveis, em que mostrou esperteza e rapidez insuspeitas para sua pouca idade; as noites de alegria, beijos e alguma lascívia; as letras bobas mas sinceras que escrevia aos montes, para serem cantadas pelo grupo de rock que nunca formou, tudo isso, ele descobriu ali, vinte anos depois, não esteve morto, apenas oculto e esquecido.

O renovado rapaz, o garoto cheio de energia que renasceu naquela tarde quente e estranha compreendeu bem rápido algo muito importante: primeiro, antes de recriar sua vida e dar vazão àquela energia imensa, deliciosa e perigosa, que  tinha retornado tamanha que não poderia mais ser calada ou reprimida, antes ele deveria reduzir sua vida a um nada doloroso. Para ser recriada, deveria ser destruída. Mas houve algo desse fim de tarde que nunca percebeu: o renascimento de sua juventude ocorreu durante e logo após o sujeito vestido como um cafajeste dos anos 70 dirigir-lhe um olhar fixo mas muito breve.

O homem que voltara a ser jovem liquidou a cerveja, pagou e foi cuidar de sua nova vida. Já Lúcio reaprendeu algo que quase esquecera, tantas foram as atribulações, confusões e problemas que tivera nas últimas décadas: ele e os outros licantropos não eram apenas furiosos guardiães de Gaia a protegê-la dos homens. Mantê-la viva e forte também significava espalhar sua energia entre os humanos, a energia que anima a vida, sem nenhuma amarra ou limite, ignorando as conseqüências mais particulares e exatas que isso poderia gerar. Os homens e sua sociedade estavam por demais dominados pela Sombra do Sidh e precisavam reencontrar-se com sua essência, que não estava perdida, como muitos, até entre os licantropos, julgavam.

Lúcio, ao reencontrar o garoto de 1986 e fazê-lo ressurgir, redescobriu que os lobisomens não eram somente mestres severos ou predadores dos homens, eram também seus companheiros na jornada através das veredas e caminhos escuros do planeta, através dos jardins de Gaia.

 

Anúncios