Por André L. Pavesi
Com a paciente revisão de Caio Bezarias

Crônica da morte de um vampiro genérico rebelde

ou

Nada como ser o vampiro errado, no lugar errado, na hora errada

Huum, vejamos, por onde começo? Once upon a time…não…era uma vez…também não, isso não é uma porcaria de conto de fadas

Final de madrugada de segunda-feira, lá pras cinco e pouco da manhã, estava no alto do prédio onde moro numa travessa da Consolação, esperando meu mais novo amigo-vampirinho acordar; éramos dois perdidos depois de uma noite suja, dois sujeitos que se encontram de lados opostos de uma surra: um todo arrebentado, preso por correntes e amordaçado, largado no chão contra a mureta do prédio, e eu inteirão, com minha camiseta branca, meu jeans surrado e minha bota nova de motoqueiro (cara, eu adoro esse visual anos 50!!), fazendo minha melhor cara de poucos amigos.

Depois de um tempo o morcegóide arrebentado começou a acordar aos poucos, com todos  seus músculos parecendo queimar de tanta dor – definitivamente, não é uma das maneiras mais confortáveis de despertar.

O desconforto aumenta ainda mais quando ele lentamente tenta abrir os olhos inchados e dá de cara comigo, no meu melhor papel de sujeito enfezado…

– Ah, finalmente acordou, já estava achando que você iria perder o nascer do dia…calma aí, cara, pára de se debater, vocês vampiros são fortes e tudo o mais, mas depois da surra que lhe dei essa noite duvido que você consiga arrebentar essas correntes.  Ok, ok, tudo bem, admito que nem nos conhecemos, mas sou o sujeito mais sem sorte do mundo e pro seu azar tive um final de semana dos infernos! Agora para de se debater, porra! – esbravejei, chutando o sujeito nas costelas.

Depois de esticar um pouco as costas e espiar o horizonte por entre os prédios, continuei:

– Pombas, eu sou humano…ok, tá bom, meio humano, meio máquina, mas minha parte cyber-tech é 100% limpinha e muito bem polida! Mas voltando, sou um ciborgue vindo do futuro com uma daquelas tradicionais missões E&S (especial e secreta) como outro qualquer, com vontades e desejos. Você acha que é mole se adaptar ao final de uma década onde todos os moleques parecem usar algum corte de cabelo afetado e o rock já deixou de fazer qualquer sentido? Onde todas as garotas interessantes parecem à procura de algum tipo de príncipe das trevas emo?  Tudo que eu queria nesse maldito, desgraçado e mal-acabado final de semana era tomar alguns galões da bebida alcoólica mais forte que achasse (já tentou ficar de porre com um mini-reator de fissão no lugar do estômago? Não é mole, cara!), arrumar uma companhia pelo menos 75% humana para dar uns amassos bem dados, e chegar na porra da segunda-feira achando que tinha feito algo de bom, para voltar a minha supracitada missãozinha.

Mas quer saber o que tive no final de semana? Vamos lá…

Na sexta-feira, caí pro Darkness, lotado de trevosas meio bêbadas, um verdadeiro parque de diversões para sacanas! Gastei metade da noite xavecando uma gostosa, coisinha mais linda, uniforme de piranha-gótica-modelo-cigana-das-trevas completo (você deve conhecer o tipo, saia de renda esfiapada, corselete e cabelão alisado e mal-cuidado) pra no final da noite ver aquela pele de pêssego branquinha e cheirosa se enrugar até parecer uma porra de uma casca de árvore, aquela boquinha deliciosa se escancarar de uma forma anatomicamente impossível, revelando dentes do tamanho do meu dedo mindinho!! Malditas vampiras, custava primeiro me deixar comê-la pra depois ela tentar me comer? Voltei pra casa, contando que o final de semana ainda iria melhorar, afinal de contas estava apenas começando…

Traumatizado, no sábado resolvi mudar…simbora pro bom e velho Tokyo Road, com suas bandas covers vagabundas e suas patricinhas metidas a roqueiras, loucas para arrumar uma trepada com um sujeito com cara de roqueiro limpinho – não se esqueça, ô das trevas, partes metálicas polidas, parte humana devidamente perfumada,esse é meu lema. Logo vi duas gatinhas caindo de bêbadas, cheias de salamaleques e trejeitos. A primeira coisa, antes de mais nada, foi checar pelas leituras do infrared se elas eram humanas (sim eu sei, se tivesse pensado nisso na sexta teria evitado de perder meu tempo com a morcegona). Boas notícias, ambas eram humaninhas da silva, apenas alguns pequenos ajustes de silicone em lugares deliciosamente estratégicos. Colei nas duas, já pensando em todas as variações possíveis de uma trepada a três, apenas para descobrir depois de horas de risos e gracejos e pequenos amassos que elas eram neo-wickas (porra, nem sabia que existia isso, cada coisa que a gente descobre na noite!!), que só topavam uma transa se depois pudessem me sacrificar para abrir uma merda de um portal para a dimensão perdida de Tordlin, lar dos gigantes púrpuras (nem me pergunte whattchafucking é isso, se quiser vai atrás delas que elas explicam tudo, em dolorosos e aborrecidos detalhes.) Fui pra casa com aquele sentimento de dever NÃO cumprido e lamentando mais uma noite jogada fora…

Domingão resolvi desencanar e curtir a tarde no Ibirapuera. Simples, bucólico (se é que pode haver algo de vagamente bucólico naquele povo todo correndo ou nas famílias com suas crianças escandalosas berrando por um frango assado – e pensar que voltei no tempo pra salvar o rabo desse povinho bunda…). Mas a porra dos hormônios não me deixavam ficar sossegado apenas com uma tarde relax no parque, tinha que ficar procurando encrenca – e que bela encrenca, alta, loira,  toda malhadinha, usando um daqueles deliciosos vestidos ripongos, cabelos ao vento, aquele jeitão meio zen de quem anda fazendo a cabeça na base da esquadrilha da fumaça. Conversa vai, conversa vem, sorrisos, trejeitos, olhares – pimba, acabei no apartamento dela, no meio de uns amassos deliciosos. Parecia que finalmente iria salvar meu final de semana, com uma trepadinha no domingo à tarde. É, só parecia…no melhor do bem-bom, quando eu já ia abrir o zíper da calça, a garota ganhou uns trezentos quilos de músculos, pêlos, garras, dentes e bafo de lobo, e cismou de arrancar minhas partes eletrônicas, urrando algo sobre o demônio da tecnologia estar acabando com a mamãe natureza!! Mal tive tempo de pular pela janela a tempo de salvar minhas prezadas cyber-partes (nada como reforços hidramáticos nas pernas para agüentar uma queda de cinco andares…)

Resolvi voltar pra casa e esquecer o final de semana, não seria nem o primeiro nem o último dos sujeitos a terminar o final de semana sozinho, se sentindo o último homem (ok, ciborgue) na face da terra. Mas daí, no caminho pra casa, o azarado aqui tinha que cruzar com um vampiro nojento, todo meninão, se achando o último morcego da Transilvânia, montado numa puta duma Harley e com uma gostosa na garupa?!?! E você ainda teve o disparate de querer pagar de gatão pra sua gostosa tirando uma com a minha cara?!?

Agora você entende porque que tive que lhe arrebentar na porrada e por que vou largá-lo aqui em cima para torrar no SOL, bem QUENTE, enquanto consolo sua amiguinha? Sem ofensas, cara, nada pessoal…mas tive um final de semanas dos infernos!!

 

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