Por André L.Pavesi
Com revisão de Caio Bezarias

Parte I

 

Vinte anos depois, ainda querendo um pouco de diversão noturna

 

Mesmo nessa pocilga que alguns chamam de pista de dança, lotada e nublada por gelo seco e cigarros, eu não a perco de vista. Ela não sabe quem eu realmente sou, envolvida numa teia de mentiras tão frágil quanto qualquer farsa. Quando caminha até mim, com sua atitude blasé e suas cigarrilhas alemãs, minha presa não faz idéia do ardor que corre em meu sangue. Sigo seu jogo, baby, mas as regras são minhas.

Com um movimento estudado de corpo, a bela Ivana, também conhecida como Lady Vamp por seus amiguinhos góticos, joga seus longos cabelos bicolores sobre um dos ombros, revelando pescoço, nuca e um perfume infernalmente doce. Antes que eu mesmo perceba o que estou fazendo, envolvo seu corpo com meus braços, e começamos a dançar. Dominamos a pista, enlaçados e perdidos para o mundo. Ela me provoca ao máximo, nesse nauseante joguinho de sedução, num instante dizendo “Venha!”, no seguinte me afastando. Toco sua pele macia como a asa de uma pixie1 e branca como uma morte na neve, enquanto as outras pessoas na pista abrem uma roda ao nosso redor.

Ah, que vontade maluca de soltar uma garra, uma única garra para rasgar a garganta dessa vadia de uma orelha a outra, destroçando pele, músculos, veias e garganta! Que desejo alucinado de ver a dor em seus olhos verdes como o mar, misturada à certeza de que sua vidinha inútil chegou ao fim! Mas ainda não é chegado o momento, ela ainda terá mais algumas horas de vida. Mais tarde poderei, quem sabe, subir com ela para um dos quartos do hotel parcialmente abandonado acima de nós e mostrar-lhe um mundo de dor.

Olho em volta e me toco que terei que ficar esperto essa noite. Pelo canto dos olhos vejo sombras escorregadias, que desaparecem quando me viro para encará-las. Numa das áreas mais escuras da pista, bem debaixo de um poster gigante de Marilyn Monroe, dois sanguessugas observam o pedaço, procurando alguém para matar sua fome milenar. Já seria fácil reconhecer os palhaços pela extrema palidez de suas peles – porra, eles parecem quase transparentes! – mas o sutil cheiro de carniça neles não deixa dúvidas. Se eu ainda fosse como um dos cachorrinhos de Gaia, teria a obrigação de me revelar a eles, prevenindo-os de que estão no meu território. Como essa maldita politicagem me enoja!

Ainda me lembro da época em que eu era um desses malditos que seguem as ordens da fraca deusa, como um bando de totós, lassies ou benjies; ainda me lembro daquele papo-furado sobre Gaia e a grande missão dos licantropos de purificar e equilibrar novamente o mundo. Mas me lembro muito melhor da noite em que a máscara caiu, revelando toda a podridão que me cercava.

Era uma noite de chuva de finais de março, e eu estava sendo caçado pelos de minha própria espécie. Meu crime? Ter quebrado uma maldita trégua e abatido duas sanguessugas. Claro que com minha sorte de vira-lata não podiam ser duas sanguessugas comuns, cujo desaparecimento só seria percebido por uma meia dúzia de vampiros vagabundos. Não, uma delas tinha que ser uma espécie de princesa de sangue, favorita de um dos altos figurões dos malditos mortos-vivos. Em questão de semanas, minha vida virou um inferno, fui banido do convívio dos meus pares – ou pelo menos, dos que eu julgava como meus iguais naquela época, perdi minha casa e tudo o que tinha, passando a viver como um fugitivo.Por Hel, isso faz quanto tempo? Quinze, vinte anos?

Voltando a minha punição…eu estava perdido, ferrado de todos os jeitos. Estava cercado numa antiga fábrica abandonada na região do Brás, na verdade pouco mais do que um galpão destelhado, cheio de entulho e merda de mendigo por todos os lados. Sentia algumas costelas soltas, meus olhos já estavam fechados de tanta pancada, um braço pendia de lado, inutilizado, pingando sangue. Pelo meu corpo, marcas de mordida e pedaços de pêlo arrancado marcavam claramente cada um dos golpes sofridos. Já me preparava para vender caro minha pele para cinco dos mais fodidos licantropos de toda Sampa, e quem sabe levar um deles comigo pro quinto dos infernos, quando o tempo simplesmente pareceu desacelerar, quase parar. De repente, era como se eu me movesse entre eles, me senti num maldito museu de cera. E acima de nós, flutuando metros acima de minha cabeça, lá estava Ela, a verdadeira Deusa, envolta num bruxuleante brilho opaco. E como ela estava diabolicamente linda!

As mais diversas culturas ao redor do mundo a chamaram por inúmeros nomes através dos séculos. NyxKaliPersefonesAment. Eu prefiro chamá-la de Hel, a deusa da morte, aquela que acolheu o primeiro dos homens, e ainda estará lá para conduzir o último dos inúteis humanos rumo ao seu destino final.

Ela sorria para mim, de um jeito tão doce quanto obsceno, sua voz soando diretamente na minha medula. Nada de palavras de falso consolo, apenas a verdade nua e crua sobre a minha natureza, sobre meu verdadeiro papel no mundo. Descendo ao chão, ajoelhou-se ao meu lado, e tocando meu focinho arrebentado sussurrou em meu ouvido – Meu lobo…

Toda a dor que eu já tinha sentido naquela noite pareceu pequena perto do que veio em seguida – senti cada pedaço de meus músculos se rompendo de vez, apenas para se reconstruir, de uma nova maneira, com um novo trançado, mais forte e vigoroso. Ossos quebrados foram se esfarelando e ressurgindo no devido lugar, fortificados, órgãos danificados foram liqüefeitos e substituídos por novos. E todo o tempo o maldito sorriso não abandonou Seus lábios. Instantes viraram minutos de dor, enquanto meu corpo era inteiramente refeito. Naquele momento renasci para o mundo, para assumir meu lugar como um soldado de Hel, um servo da morte.

Minhas primeiras vitimas foram aqueles que minutos antes se vangloriavam de serem meus algozes, os desgraçados servos de Gaia. Quando o tempo voltou ao normal, marcando o começo da minha nova vida, afundei minhas novas garras em vísceras, costelas e sangue. Sob o olhar cheio de desejo e aprovação de Hel, derrubei um a um meus oponentes e profanei o mais sagrado dos votos dos licantropos, absorvendo sua alma, sua força e coragem.

Parte II

Acordei dias depois, numa cama que reconheci como minha, embora nunca tivesse botado minhas patas naquele lugar. De alguma forma, sabia que o apartamento de cobertura, a antiga suíte presidencial do abandonado Manchester Hotel seria meu novo lar, minha nova toca para uma nova vida.

Ah, como tem sido infernalmente gloriosa essa vida! De alguma forma o lobo que eu era foi apagado para sempre da existência. Mesmo o mais habilidoso dos caçadores de Gaia não reconhecia meu rastro – pelo Nove Círculos, desde então eu tenho circulado como um mero humano bem debaixo de seus focinhos bastardos!

Pelos anos seguintes, me tornei uma nova lenda urbana na metrópole que nunca dorme. O caçador negro, a-morte-que-anda, uma verdadeira história de terror para os licantropos de minha terra. Tirei de circulação mais vampiros e lobisomens do que imaginava possível, reservando a cada um deles um destino especial. Ah, ainda me lembro da cara de Lúcio quando entrou numa segunda-feira de manhã em seu escritório e achou a cabeça de sua concubina favorita largada sobre sua mesa de trabalho!! Assim como me lembro do pavor irracional, do cheiro do medo saindo de cada poro da amaldiçoada Ingrid enquanto segurava sua carcaça contra os raios do sol nascente.

Mas certamente minha bela parceira dessa noite nem faz idéia de nada disso; para ela, eu sou apenas um sujeito boa-pinta, passado dos trinta anos e que a leva a loucura, participando dos seus joguinhos patéticos de sedução. Para seus planos, eu sou pouco mais do que uma refeição cozinhando em banho-maria. Não, ela não é uma sanguessuga. Ela é pior do que isso, é uma humana viciada em jogos de sexo e perversão tão doentios que a levaram ao mais inumano dos atos – drogar-se com o sangue podre de um vampiro, e no pico mais louco dessa viagem transar com um morto-vivo, sabendo o que ele é. Mas pior do que isso, ela é umafornecedora, levando garotos e garotas para seus amiguinhos sanguessugas se alimentarem.

Ela se aproxima de mim mais uma vez, deliciosa em seu espartilho vermelho, longas pernas enfiadas em botas pretas de cano alto. Diz que quer ir embora, insinuando que teremos várias paradas no caminho. – Quanto uma vadia pode ser previsível? Basta darmos a volta no quarteirão para chegarmos à entrada do Manchester Hotel, meu lar no últimos 20 anos. Nos anos setenta, o Manchester foi um marco de luxo e gosto duvidoso, mesmo para os padrões da época. Mas o grand hotel tinha duas caras – de fachada, um glamouroso ponto de encontro do jet set mundial, um oásis primeiro-mundista no terceiro mundo paulistano. Mas, como todo grande hotel, mantinha sua sujeira varrida pra debaixo do tapete, guardando segredos que fariam corar Nelson Rodrigues, cheio de quartos e andares para uso exclusivo de alguns poucos e maus. Durante toda a década de oitenta a decadência do lugar foi visível. Aos poucos, antigos habitués o deixaram de lado, algumas atividades ilegais – prostitutas, jogatina, drogas, pode escolher – simplesmente migraram para outras paradas, outro hotéis, menores e menos espalhafatosos, mas não menos podres. Finalmente, na virada dos anos 90, o grande Manchester Hotel, o número 1 na hospedagem de todo tipo de grã-fino, de presidentes a misses do mundo todo, abriu falência. Com o passar dos anos, alguns sócios morreram, os andares foram sendo fatiados e transformados em cinzentos escritórios, sem nem sinal do que fora até alguns anos antes. Uma ala inteira do hotel – adivinhe, justamente os andares bukowskianos, secretos do lugar – ficou trancada, reservada sem ocupação, até que me mudei para sua cobertura.

O caminho entre o bar e um dos quartos do Manchester é marcado por beijos espalhafatosamente quentes, o gosto de Scotch e tabaco impregnando minha garganta. Já no elevador, as carícias aumentam ainda mais de intensidade, justificando uma parada rápida para uma trepada mais rápida ainda, o que apenas fez aumentar a ferocidade de seu ataque sensual.

Cerca de uma hora depois, ela dorme em meus braços, com todos os instintos do baixo ventre satisfeitos. Ou pelo menos parece dormir, com esse tipo de gente nunca nada é o que parece ser. Levanto-me e vou até o banheiro, onde a diversão começa. Hel, eu simplesmente adoro essa parte, a hora do show! Em segundos, assumo minha forma natural, um pesadelo de pêlos negros e garras afiadas, trezentos e cinquenta quilos de dor e morte. A transformação continua tão dolorosa como da primeira vez – a dor infinita é um tributo pequeno a se pagar para quem quer seguir os caminhos de Hel.

 

As vezes, faço uma cena digna de filmes de terror – começo a me contorcer e gemer, me transformando lentamente diante de olhos cada vez mais esbugalhados, me divertindo pacas vendo a sanidade escorrer pelas orelhas de minha futura vítima. Mas com ela prefiro o tratamento brutal: arranco a porta do banheiro com uma patada, e pulo no quarto rosnando e babando como uma fera saída do Inferno – e não é exatamente isso que sou? Pela sua reação, ela devia mesmo estar dormindo naquele momento, não há como confundir tão clara transição, da cara amassada de quem acorda de supetão para uma expressão de puro pavor primitivo. Sua primeira reação, além de molhar o que restava de lençóis limpos da cama, é gritar como uma louca. Por um instante achei que ela fosse desmaiar, estragando toda a diversão da noite. Mas, depois de alcançar vários decibéis com seu berros, ela parece tremer da cabeça aos pés e despertar pra vida, saindo em disparada pela porta do quarto. Apenas como medida de incentivo, capricho num novo urro amaldiçoado, daqueles que parecem ecoar por toda a eternidade na cabeça de quem os ouve.

Tadinha da graciosa Ivana – ela sai em disparada, buscando primeiro os elevadores – emperrados por mim, claro – depois as escadas de serviço no final do corredor dos quartos, onde a saída para os andares superiores também está trancada, forçando-a a descer. Mantenho uma certa distância, perto o suficiente para que ela continue apavorada, e a sigo escada abaixo. Dois andares depois, ela encontra uma porta aberta, entrando em mais um corredor cheio de quartos. Um corredor escuro da ala abandonada do hotel. Exatamente como eu queria, ah!

Nas entranhas mais profundas do Manchester, num ponto que se ainda estivesse neste plano de existência seria bem no meio do antigo hotel, existe um tipo de loft, um antigo salão de festas. Suas janelas altas e estreitas foram construídas como seteiras dos antigos castelos medievais, protegendo o ambiente de qualquer interferência do mundo externo – um mundo externo em constante mutação, mas nem sempre amigável. Nos meus primeiros tempos no Manchester, encontrei esse lugar, com sua mistura única de cheiros e rastros, algo nauseantes, algo envolventes. Afastei todos os móveis e tranqueiras amontoadas nesse salão, limpando-o de tudo. Com a troca da porta por uma de aço reforçado e o reforço das janelas altas, tornei o antigo palco de inimagináveis orgias e profanações sem fim das ordens vazias de Gaia numa masmorra inviolável. Uma vez trancada a porta, nem uma porra de uma guerra nuclear pode coloca-la abaixo.

É justamente essa porta que Ivana vê no final de um longo caminho, provavelmente o mais apavorante de sua curta vida, depois de avançar aos tropeções por um verdadeiro labirinto de corredores escuros e portas trancadas. Ao longo dessa tão deliciosa caçada, assumi um comportamento de errático, inconstante, apenas para aumentar ainda mais a pressão sobre ela. Quando ela disparava alucinada, correndo e tropeçando no escuro sem nem mesmo ver o caminho, eu avançava no mais completo silêncio, como só um caçador noturno sabe fazer, apenas para me aproximar dela e urrar bem ao lado do seu rostinho lindo, encharcado de lágrimas e suor, sua pesada maquiagem escorrendo como pequenos filetes de sangue. Em seguida, socava a parede ao seu lado, ou passava minhas garras no pelo chão, cortando filetes no carpete, minha respiração monstruosa preenchendo todo o ambiente.

Fecho a porta atrás de Ivana, trancando para sempre. Nesse momento imagino que ela esteja mais confusa e cansada do que propriamente assustada. Deve estar olhando em volta, imaginando que encontrou um lugar seguro, longe de minhas garras.

Longe das minhas garras pode até ser, mas seguro…ah! Ao longo dos últimos vinte anos, tirei de circulação um sem-número de vampiros. A maioria encontrou um fim às vezes rápido, às vezes lento, mas sempre sangrento e doloroso em minhas garras. Mas para alguns, escolhidos diretamente por Hel em todo Seu sinistro esplendor, reservei um destino especial. Imagine o que é para esses filhos da noite, desgraçados amaldiçoados até o final dos tempos, ver o sol nascer por pequenas janelas – eu diria parecidas com seteiras de castelos medievais – sem poderem se alimentar, sem um simples esguicho de sangue para sacia-los. Imagine como a dor e a fome corrompem sua consciência, reduzindo-os a pouco mais do que animais.

Quanto tempo um petisco como a deliciosa Ivana, linda e doce, banhada em lágrimas e suor, transpirando medo por todos seus poros, durará trancada com eles?

 

1Pixies são criaturas mitólogicas, muito comuns na literatura da era vitoriana; maiores dúvidas, procure no Google!!

 

Anúncios