O conteúdo desta postagem é de um tipo inédito no Carpe Noctem, até então. E por que um texto de não-ficção e ainda por cima uma resenha? Bem, decidi postá-la como retribuição à gentileza de meu amigo Causo, que além de me convidar para o lançamento enviou-me uma cópia de seu mais recente livro.
Roberto Causo é um dos mais importantes autores e pesquisadores da literatura fantástica no Brasil. Há mais de vinte anos que escreve, edita, traduz e pesquisa a fantasia, o terror e a ficção científica, além de realizar muitos eventos. A lista de serviços prestados por ele ao gênero nestas plagas é longa e não cabe aqui; aos curiosos, acessem http://rscauso.tripod.com/, para saber mais. Este romance de fantasia/terror, finalista do Projeto Nascente, tradicional concurso promovido pela USP para revelar talentos artísticos, foi publicado pela Devir, de São Paulo, das poucas editoras brasileiras que publicam literatura fantástica com regularidade.


Anjo de Dor investe em um filão que hoje, para aqueles que acompanham a literatura fantástica produzida no país, parece lugar comum, batido até, tantos são atualmente seus autores, incluindo os deste blog: narrativas de terror e fantasia passados no Brasil que procuram maior atualidade, que arriscam um passo além, o de ser uma representação do lado negro da modernização do país, sem se ater em demasia ao ‘pitoresco’, ao ‘exótico’ da Terra Brazilis, ou seja, inserir em cenários e contextos nacionais temas, criaturas e situações do imaginário digamos, mundial, da ficção fantástica, refletindo assim o próprio momento histórico, social e cultural do país, uma busca, ainda hesitante e com resultados muitos diversos e irregulares, por uma forma brasileira e moderna de literatura de ficção fantástica (essa é também a busca de nós autores do Carpe Noctem).
E do que trata esse romance? Ele se apropria da temática da mulher fatal que pode trazer tanto êxtase celestial quanto perdição horrível ao homem e a situa em Sumaré – cidade do interior de São Paulo onde Causo passou boa parte da infância e adolescência – no início dos anos 90, quando o país ingressou, da maneira abrupta e violenta que conhecemos, em uma nova etapa da sua modernização – esse elemento, a contextualização histórica, tem certa importância na totalidade da obra, mas a maneira como é posta na narrativa pouco contribui para sua densidade, as referências ao confisco do dinheiro do país, pelo governo Collor, entre outras, são simples filigranas que não tornam o cenário mais vivo ou tenso, inclusive porque não se tornam necessárias diante do cenário meio pesadélico, que não necessitaria estar dentro de algo maior e mais incômodo, pois Sumaré é retratada como são a esmagadora maioria das cidades do interior do estado que passaram por um ciclo de crescimento econômico desordenado e posterior decadência: um lugar semi-morto, povoado por gente estreita e grosseira, uma terra tão estéril e sufocante que as energias mais fundas e obscuras dos homens são impelidas a vir à tona nessas ‘cidades mortas’ que garantem a atualidade do livro homônimo de Monteiro Lobato.
O protagonista é Ricardo Conte, um ex-militar que leva uma vida modorrenta, regrada, pacata e solitária: vegetariano, metódico, vive sozinho em um sobrado e é barman da única casa noturna digna desse nome da cidade. A trama começa a se delinear quando a mais nova contratada da boate em questão aporta na cidade para uma temporada como cantora e principal atração do local, uma loira atraente e misteriosa que atende pelo nome de Sheila, dona de voz afinada e potente e um domínio completo sobre diversos gêneros musicais, o que faz com que sua fama se alastre até a região de Campinas. Logo se instala uma tensão sexual problemática entre ela e Ricardo, espalhando discórdia entre os empregados da boate e pondo abaixo, aos poucos, a vida certinha do rapaz. Essa erosão na ordem do mundo de Ricardo torna-se de caráter sobrenatural: a figura de Sheila desperta nele um poder latente, que julgava adormecido há muitos anos, de uma forma estranha e assustadora, que ele não suspeitava ser possível, enchendo suas noites de medo. E os outros conflitos se avolumam, com seus colegas de trabalho e com a própria loira fatal. Completando o jogo, entra em cena uma figura violenta e sinistra, um cafetão vingativo, centro de um passado pesado e nada dignificante que Sheila carrega, e do qual tenta fugir de modo desesperado. Com o surgimento de Ferreirinha a narrativa incorpora situações de ação e violência e cristaliza-se a idéia de que os homens, sem apelar ao além e suas entidades, são capazes de infundir o mais puro terror e caos na vida de seus semelhantes.
Anjo de Dor é escrito com segurança, sobriedade – este foi o primeiro texto longo de Causo, que o trabalhou por anos. Porém, esse domínio, essa sobriedade que garante uma obra madura também é fraqueza, pois o trato com os temas e o uso do idioma são comedidos em demasia, ele mostra um Brasil interiorano nada saudável, violento e as forças do além que dele se erguem com espanto, mas de uma distância algo demasiada, como se a ficção que narra fosse ficcional e distante demais para inflamar um pouco mais a narrativa, como se receasse causar mais medo no leitor. Em termos mais simples: poderia haver mais hemoglobina no estilo do narrador, termos mais fortes e agressivos, para o texto ser de fato uma narrativa de terror, pois, decididamente, é um bom exemplar de fantasia, de sobrenatural, mas faltam mais sexo e violência e mais imagens e situações fortes para causar no leitor aquela espiada na janela ou nos cantos enquanto se lê uma obra assustadora, que pertença ao gênero terror.
Mas, caros leitores, não tomem essa resenha subjetiva e parcial a sério demais: Anjo de Dor é um avanço para o gênero fantástico no Brasil e merece ser lido, pelo puro prazer estético e para descobrirmos que essa terra abençoada ou amaldiçoada sabe-se lá por quem ou o quê é repleta de cenários e situações a serem explorados para se criar obras de ficção fantástica brasileiras e modernas.

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