Antes do conto, alguns esclarecimentos,

Sim, este foi o atraso recorde na história de Carpe Noctem: mais de um mês entre a publicação do preview e a publicação do conto. Antes que os fiéis e pacientes leitores convoquem as criaturas das trevas para nos castigar, permitam a esses humildes escribas noturnos e cervejeiros um momento para se explicar: devido a uma crise de mal humor que acometeu os sites de webmail da Yahoo e Hotmail, estes ficaram de malzinho entre si e se recusaram a receber mensagens um do outro. Gastamos mais de dez dias em tentativas falhas de fazermos nossas imprescindíveis leitura, releitura e troca de opiniões sobre o texto, antes de publicá-lo. E tivemos de apelar a método meio primitivo para trocarmos o arquivo devidamente editado.
Assim, finalmente deleitem-se com mais uma aventura de nossas gloriosas guerreiras noturnas, sem esquecer a alegoria da decadência urbana que elas são: pura ficção distorcida.
Saudações Noturnas e Etílicas.

 

Por Caio Bezarias
Revisão de André L. Pavesi 

 

Laura espiava Ingrid em olhares muito rápidos, que a vampira flagrava e respondia com um leve sorriso, para tormento da garota, que, tentando esquivar-se, olhava para as luzes e movimento noturno da Marginal Pinheiros, remexia sem parar na sua bolsa, torcia as mãos. Ela estava certa de que a vampira guardara algum desagrado ou raiva das noites anteriores em que tinham corrido a cidade: Laura, em ambos, se demorou mais do que previu ou gostaria para arranjar uma vítima para a milenar criatura, que mostrou seu descontentamento. A menina estava certa de que a qualquer momento sua guia e mestra rugiria uma ameaça de causar sucessivas noites de pesadelos, se ela mais uma vez fosse tão vacilante e demorada.
O tempo passava, as ruas e carros desapareciam em ritmo veloz e Ingrid nada fez do que a garota esperava: sem menção às outras noites de caçada, não dirigiu olhar marcante de tipo algum; seu rosto estava calmo, os olhos emitiam o brilho intenso de sempre, mas firme e tranqüilo, sem oscilações. Ela conduzia o carro sem dificuldade ou esforço, como se alguma força desconhecida e silenciosa da natureza, intrometida no ar parado, quieto e calmante da noite quente lhe sussurrasse ordens. Isso era o que a gótica especulava, baseada em um conhecimento sobre os vampiros que provinha de livros de misticismo emprestados pelos amigos, dos quais lera uma dúzia ou menos de páginas e de muitos sites da internet, nos quais trafegava sem se deter em nenhum.


Cerca de quarenta minutos antes a vampira parou o carro diante dela, a alguns metros do prédio em que Laura vivia, fez sinal e acelerou para dentro da noite e da cidade. Já há vinte minutos rodavam pelas vias expressas da Zona Oeste. A tensão maltratava os nervos da garota, até que Ingrid fez o carro sair da marginal e após voltas tortuosas no interior do Butantã entrou em uma rua escura em que se destacava o perfil de um imenso depósito ou algo assim, de teto côncavo. A bmw praticamente parou, tanto diminuiu a velocidade. A Anciã apontou para o enorme galpão e soltou o discurso num tom meio didático, meio de prazer, parecendo uma professora feliz em compartilhar um saber com um aluno aplicado:
– Este galpão pertenceu à antiga Cooperativa Agrícola de Cotia, a famosa cac. Lembra dessa sigla? A empresa se autodestruiu, então esse depósito, ainda sem uso ou futuro definido, ficou abandonado, tanto que foi usado por algum tempo por alguns vampiros para resolverem suas rusgas em certo isolamento. Não é mais usado por eles, mas há alguns sinais da passagem deles, sinais não-físicos.
E acelerou o carro, enfiando-o na avenida 9 de julho após uma série de manobras que deixaram a gótica zonza.
O carro avançava pela avenida em direção ao túnel do Anhangabaú. Laura especulou se estavam rumando ao bar do Chin, em busca da vítima da noite. Bem, naquele verdadeiro pinel, imã para perturbados e lesados de todo tipo entre os roqueiros, góticos, drogados, malucos e derrotados que circulavam no centro, seria fácil conseguir uma vítima para a vampira… que fez o carro parar diante um edifício bastante decadente, no início da avenida: vazio, janelas e portas lacradas, sujeira nas frestas e ângulos retos, grandes samambaias crescendo nos cantos mais improváveis, tantas pichações que formavam arabescos pervertidos.
O vidro elétrico ao lado de Laura desceu lento e a mão sinuosa e perfeita da vampira apontou para o prédio, enquanto ela falava:
– Este prédio está fechado e vazio já há vários anos. É uma construção dos velhos tempos da cidade: suas paredes são tão sólidas e grossas, e foi tão bem lacrado que alguns dos vampiros que circulam no centro o usam, sem correr riscos, para dar fim ao corpo daqueles que lhes servem de alimento; claro que eu, devido ao status que possuo não posso ser tão, digamos, pequeno-burguesa em minhas práticas. O lugar esconde restos de humanos, mas o cheiro não alcança o exterior e os milhares que passam defronte sequer especulam isso.
O espanto superou os temores e Laura encarou fixamente a vampira, com uma perplexidade furiosa.
Durante mais de seis horas, entre pouco antes das dez horas da noite e as quatro da madrugada, a situação repetiu-se diante um sem-número de casarões abandonados, prédios lacrados, ruínas e todos os imóveis possíveis que marcavam a história de São Paulo: sobrados arruinados em Pinheiros e Pacaembu; uma inacreditável nesga de mata atlântica, com lago repleto de peixes e dois casarões centenários, encravada entre duas avenidas no Tucuruvi, usada por anos pelos lobisomens para iniciar os novatos na condição de licantropo; prédios e mais prédios fechados no Centro; galpões de indústrias esquecidos nas ruas assombrosas, repletas dos restos de um passado fabuloso, dos Campos Elíseos e da Barra Funda; os fantasmas que vagavam pela Tokyo Road, uma casa noturna de rock no início da 13 de maio; as ruínas de um casarão na Barão de Limeira que tinham sido habitação de uma entidade pavorosa que nem vampiros nem lobisomens conseguiram descobrir o que era, e que causou problemas a ambas as raças; e muito mais. Em todos ocorria o mesmo: sem nenhum temor ou vacilação, Ingrid diminuía a velocidade do automóvel para 10 por hora ou até mesmo o fazia parar e desfiava uma verdadeira aula sobre o lugar, suas relações com o mundo noturno e assombrado, deleitando-se com os sentimentos conflitantes que explodiam no olhar, gestos e espírito da moça: o maravilhamento em conhecer tantos segredos sombrios de sua cidade natal e o estranhamento da ação sem sentido aparente.
O relógio do celular de Laura acusava pouco mais de quatro da manhã; elas passavam pela terceira vez pelo túnel do Anhangabaú na noite; ela não suportou mais a curiosidade e perguntou, inquisitória:
– Minha mestra e senhora, o que significa isso? Estamos pela cidade há horas. Estou muito contente e agradecida com tanto conhecimento que compartilhou comigo; sinto-me, mais ainda, uma iniciada na cidade oculta que existe debaixo da cidade que todos mortais imaginamos conhecer, mas está faltando algo nessa noite: a caçada, a busca pelo seu alimento. Já passam das quatro. Logo o dia virá. Você precisa se alimentar antes de repousar, certo?
Ingrid parou mais uma vez o carro, olhou para sua pupila enquanto um sorriso maroto formava-se no rosto e disse, calmamente:
– Agora iremos visitar o último local desta peregrinação. – E arrancou com tudo, o motor do carrão preto rugindo na noite.
A magnífica mulher toda vestida de couro negro justo e recendendo a novo conduziu o carro por entre as ruas estreitas, sujas e encobertas do Glicério com calma e clara intimidade com o território, sem se importar com os olhares cobiçosos e agressivos vindos de vários pontos. Laura tremia, ao lembrar-se dos apuros que passara ali, numa madrugada chuvosa, em companhia de uma amiga. A criatura da noite percebeu isso e se divertiu diminuindo ainda mais a velocidade do carro, que finalmente entrou na parte mais baixa da Liberdade e alcançou as ruas do Cambuci.
Parou diante um sobrado de mais de quarenta anos, meio maltratado, em cujo térreo despontava uma garagem fechada com portão de aço. Ingrid apontou um controle remoto na direção da barreira, que se ergueu ruidosamente. A bmw arrancou para dentro e o portão desceu.
Brilhava uma única lâmpada fraca, presa no teto. Laura não prestou atenção em nada ao redor, toda sua atenção estava voltada para a valquíria sombria, que caminhou para o fundo da garagem, abriu uma porta e fez sinal para acompanhá-la.
Uma escada de madeira mergulhava num buraco mal-iluminado por lâmpadas presas na parede sem nenhuma regularidade. No espaço de menos de cinco metros aglomeravam-se três; depois mais de quinze sem luz. Desceram, desceram… Laura sentia sua respiração e coração prestes a explodirem. Havia subterrâneos tão fundos em São Paulo? Quantas outras culturas, quantos seres vivendo ocultos ou mesmo entre os humanos existiam, compondo uma cidade paralela à cidade dos que só se importavam com dinheiro, poder, sexo, diversão barata e seus probleminhas particulares?
A caminhada terminou diante de uma porta entreaberta. Detrás saía uma luz forte e regular. Laura sentiu uma excitação enorme e também algo muito pesado. O que houvesse do outro lado, sua intuição percebeu, a marcaria para sempre.
– Entre minha doce criança e encontre quem terá a honra de me alimentar nesta noite que está prestes a terminar. – E empurrou a porta.
A mais gótica das góticas da cidade, a única e verdadeira garota das trevas a conhecer as trevas verdadeiras de São Paulo pulou para dentro e não precisou varrer todo o salão muito bem iluminado, a coisa estava bem a sua frente. Em uma cama de casal de madeira maciça estavam estirados, pulsos e tornozelos atados por cordas e fita adesiva na boca, um casal jovem e bonito, com a mesma idade de Laura – ela loira e cheia de curvas, ele musculoso e bronzeado, bem vestidos – que os reconheceu de imediato, apesar de seus rostos distorcidos pelo medo. Ela pronunciou os nomes num grito:
– Claudinei?! Sandra!? – e voltou-se para a vampira:
– Como, co… como assim? O que estão fazendo aqui, o que pretende?
Ingrid chegou-se ao lado da cama em passos lentos, estudados. Sua mão acariciava ora o rosto do rapaz, ora o da garota, enquanto ela falava:
– Sim, criança, Claudinei, o gostosão de sua escola que tentou te possuir e, inconformado com sua negativa em ser mais uma peça na coleção de conquistas dele, espalhou que você era uma lésbica drogada e pervertida, e a hoje esposa dele, a detestável Sandra, a patricinha mais maledicente e intrigueira do bairro e da escola, que sempre detestou e perseguiu garotas como você, que não pertencessem ao mundinho fútil e de faz-de-conta dela, apenas para se mostrar como superior e mais feliz. Lembra-se? Eles iniciaram um namoro após você recusá-lo e ambos, com a baixeza e maldade que sempre os marcou fizeram da sua vida um inferno: espalharam mentiras e fofocas por todo seu bairro, forjaram coisas terríveis contra você, sua mãe quase te pôs na rua ao ouvir o que era tido como verdade por todos fofoqueiros, falsos e hipócritas, ninguém mais andava com você, somente os desprezados e bobões queriam sua companhia.
Laura chegou bem perto e encarou os dois, que já derramavam lágrimas dos olhos, com um olhar frio.
– Você os trouxe até aqui para que eu assista serem mortos? Mas… você diz não gostar do sangue de mulheres.
O casal, ao ouvir essas palavras, mexeu-se tanto quanto podia e tentou gritar o mais alto possível, produzindo uma algaravia de grunhidos e sons de desespero. Sandra entoou uma prece com a mente, implorando por intervenção divina.
As mãos brancas de Ingrid deslizaram pelo rosto do casal como serpentes mais uma vez:
– Realmente, doce criança, não me alimentarei dela. Este é o momento da vingança, de fazer com que paguem por toda a humilhação, preconceito e solidão que você enfrentou nesses anos. Pois você a trucidará, lentamente, sem piedade ou pressa, diante os olhos desse machãozinho ridículo, até que ele implore para morrer e não veja sua amada espirar. Ou será que eles já se detestam tanto, esse casamento feito por força de uma concepção indesejada já encheu ambos de rancor e ódio mútuos, hein… – Puxou a cabeça do rapaz na sua direção – Que ele aceitaria exterminar Sandra, esse fardo em sua vida, para preservar sua vida e garantir que o filho de ambos perca somente a mãe, hein?
Laura deleitou-se com as palavras e sorriu para o ex-casalzinho perfeito do Tucuruvi com um brilho tão pervertido que se encolheram e soltaram sons lamurientos. Então, uma idéia ocorreu-lhe, a confiança e o deleite evaporaram e perguntou à mestra:
– E se eu não aceitar esse jogo? O que será de mim?
– Acha que eu te eliminaria por tão pouco? Além disso, sua participação não é fundamental ou necessária para a consumação do destino deles. No momento em que foram capturados tiveram seu fim decretado, mas você, criança da noite, como seguidora de uma Anciã, merece ter uma desforra de seu triste passado à altura de sua atual condição! Se recusar, você volta para a garagem e vai para sua casa, apenas isso. O que decide?
– Vejamos o que essas duas criaturas fracas têm a nos dizer. – E arrancou a fita da boca, primeiro da putinha, depois do garanhão.
– NÃO ME MATE!! MATE A ELA! MATE ELE! ME POUPE E FAÇO O QUE QUISER! EU MATO ELE, MAS ME DEIXE IR E CUIDAR DE MEU FILHO! NÃO AMO ESSA VACA, POR ISSO ELA DEVE MORRER! CASEI COM ELE POR CAUSA DA GRAVIDEZ!
Ingrid riu com gosto, as presas saltadas. – Ah, os humanos, como nos divertem, não é, minha princesa? Tome, mostre a eles do que você é feita hoje. – e nas belas mãos da morena surgiu um enorme canivete de mola, a lâmina cintilante.
Laura apanhou a arma, olhou para ambos, ignorando o sentido da torrente de sons cada vez mais inarticulados e sem aviso enterrou o canivete no pescoço de Sandra, que gritou enquanto o jato vermelho jorrava. O calor do líquido, ao atingir sua mão, foi doce, agradável, era o calor da vingança tanto ansiada e aguardada…tão estimulante que lhe provocou uma idéia: não tiraria o canivete e abriria outro talho; rasgaria o pescoço daquela maldita, sem tirar a lâmina. Agarrou o cabo com ambas as mãos e fez o canivete mover-se para lá e para cá com fúria, até que a vaca silenciou. E completou sua vingança ao encarar Claudinei já quase sem consciência, os olhos vidrados, pois quase todo seu sangue já se instalara no corpo da vampira, que o segurava como um boneco, suas presas enterradas na jugular.
– Deixe um resto de vida dele para mim!
Ingrid atendeu ao pedido e jogou-o na direção da gótica, que o recebeu enterrando o canivete em seu peito com toda força.
Tudo terminado, Ingrid fez sinal para Laura acompanhá-la e voltaram para a garagem, onde o Alemão as aguardava tranqüilo e bonachão no assento do motorista.
– Ele a deixará em seu refúgio e depois dará o devido destino aos corpos, como faz tão bem. Bons sonhos, querida, esta, de muitas formas, foi uma grande noite. – E após abrir a garagem desapareceu nas sombras do fim da madrugada.
Enquanto o carro se aproximava da casa de Laura e o céu mudava para o acinzentado que antecede a aurora ela se deliciava, planejando, visualizando, saboreando como se vingaria de cada um de seus desafetos, por meio de sua mestra. O ex-chefe que a demitiu porque não quis dar para ele no banheiro do escritório, as conhecidas do meio gótico com que disputava popularidade e atenção, seu meio-irmão que lhe roubou sua pequena herança… sim, ela, Laura tornara-se a mais poderosa e sombria gótica de São Paulo, que ela agora sabia ser a cidade dos monstros e vampiros, e todos os que envenenaram sua vida sentiriam isso. Seu futuro seria uma sucessão de noites gloriosas, coloridas por sangue.

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