Por Caio Bezarias
Revisado por André L. Pavesi

Ingrid ligou para a zeladora do prédio em que mantinha pequena parte de suas propriedades no centro da cidade e avisou que ficaria por lá uma noite ou mais; a velha ensaiou iniciar uma ladainha parte queixa por tanto tempo sem dar sinais, parte curiosidade mórbida, que ela calou com a simples menção de dinheiro; fez tudo sem a intervenção de Anson, que estava por perto e não teve desconforto ou melindre algum por isso. Ele já acompanhava sua senhora há mais de duas décadas, praticamente três, e antes mesmo de assumir o papel de pupilo e ajudante de uma vampira milenar sabia como os vampiros são misteriosos e independentes ou, como julgava, muito mais humanos que os humanos que não os conheciam de perto supunham ou imaginavam; uma forma extrema, muito mais viva, de humanidade, em que tudo era feito e vivido com uma profundidade e verdade aterradoras aos mortais.


Assim, ocupado que estava, de lá para cá, enquanto ela dava as ordens com sua voz envolvente e autoritária, ele nada disse, apenas especulou por quanto tempo ela poderia se ausentar. Às vezes a enorme e deslumbrante mulher saía logo após despertar, e se ausentava por uma ou duas noites, em outras permanecia vários dias (ou melhor, noites) sem dar sinais. A única ocasião em que avisou seu auxiliar e seguidor de origem teutônica de que ficaria ausente foi a mais longa: muito séria e grave chamou-o, deu-lhe as instruções para acessar e desfrutar do conteúdo de uma de suas enormes contas bancárias, recomendou que vivesse os próximos tempos, durassem quanto durassem, da forma mais intensa e sem limites que um homem jovem e cheio de energia poderia fazer e que não a procurasse ou se preocupasse com ela, Ingrid,… que ressurgiu na vida dele, tão súbito quanto partiu, cerca de quatro anos mais tarde, como se tivesse passado quatro dias “fora”.
Claro que essas especulações muito o perturbaram. Antes mesmo de encontrar Ingrid ele já não era uma pessoa normal, alguém que se acomodasse ao fluxo do cotidiano vazio a que o resto da espécie humana se submetia bovinamente, e tornara-se assim muito mais, após tanto convívio com um dos Anciões: quando ela se ausentava ele tornava-se inquieto e perturbado, como uma massa de carne animada e sem propósito. Quando dessa maior ausência dela, levou mais de seis meses para deixar a fortaleza em que tinha se isolado e gastar parte da fortuna assustadora que ela lhe reservara satisfazendo desejos e caprichos, que no início lhe pareceram distantes e borrados, como uma obrigação tediosa que cumpria apenas porque assim tinha sido ordenado, tamanha a falta que a morena de mais de 1,85 m lhe causava.
E como sempre ele nada disse: continuou com seus afazeres, os procedimentos e técnicas que os mantinham duas sombras fugidias que eram apenas entrevistas pelos outros humanos, sem sinais ou registros de suas existências, e se resguardou de questionar para aonde ela iria ou o que faria. Já anoitecera há mais de duas horas, quando Ingrid ordenou que ele a levasse até uma esquina movimentada do Centro de São Paulo, em que desembarcou lenta e majestosa, sem dizer palavra ou dirigir gesto para Kohln, que sentiu um estranho desejo de contemplá-la pelo espelho retrovisor antes de partir. Calou a tolice, temeroso de alguma reação ou desagrado da mestra e disparou para a “fortaleza”, como chamava o sobrado em que viviam numa área nobre e isolada.
Ela estacou diante a portaria de um prédio velho e desgastado de quatro andares e abriu a fechadura da porta de ferro pintado de negro num gesto rápido e sutil, a chave que carregava na minúscula bolsa negra e reluzente sequer tilintou ao ser encaixada na trava. O ruído tremendo que a peça fez não a incomodou nem um pouco; entrou e subiu as escadas em passos naturais, sem estudá-los, a cada um os cheiros, emanações e sons dos humanos que já ocupavam a maioria dos apartamentos chegavam nítidos a seus sentidos sobre-humanos, emanações impregnadas do desespero e do cansaço, misturados a uma ânsia de descansar e esquecer o desgaste de mais um dia, de afastar tudo o que eles fingiam ser sua vida cotidiana, sua vocação, dever e finalidade.
Ingrid entrou no minúsculo apartamento fincado no topo do prédio, que lhe pertencia há quase vinte anos, trancou a porta, largou a bolsa e retirou ao acaso um volume da estante empoeirada que ocupava toda uma parede, abarrotada de livros empilhados em absoluta desordem.
Sentou-se na poltrona coberta por um lençol amarelado e pôs-se a ler: Estela [1], de Goethe, uma peça escrita em alemão, a quinta língua européia que aprendeu durante sua vida no Velho Continente. Uma boa leitura, que faria o tempo escoar como o fluxo de uma água limpa e musical, até a hora em que certas ruas do Centro são preenchidas por gritos, cantorias, ofensas, passos, buzinas, grunhidos, gemidos de bêbados castigados por estômagos queixosos, ruas como aquela, ocupadas por prédios como aquele, em que aquele apartamento, encravado em um ponto em que no decorrer da noite, conforme esta se tornava mais densa e fria, muitos desses desesperados passariam. Antes a solidão compartilhada que a solidão isolada, como Ingrid ouvira, sobre esses tempos.
O primeiro som pertencente ao tipo que esperava, que são expressão da dor que assola os mortais que se cansam de envergar máscaras e preferem a noite e o mergulho em luxúria, álcool e diversão enquanto esperam o dia seguinte, foi o canto desafinado de três garotas adolescentes, a entoar uma cançoneta paupérrima que exaltava em forma e conteúdo o esplendor tolo e perfeito das ninfas humanas:
¬ – Ela é linda e é gostosa, ela é o tipo de todo mundo, ela é minha e é fogosa… [2]
Ingrid espiou pela fresta da janela as garotas embriagadas, uma apoiada no ombro da outra, a rirem e distorceram a canção; esperou pacientemente que retomassem o passo e saíssem de vista; conforme o trato que tinha consigo mesma, os primeiros que surgissem não deveriam ser os escolhidos, ou a vigília sabor algum teria: que sentido em atacar e sugar uma ou mais vítimas logo no início da espera? E simpatizou com tais meninas, certas de terem o mundo a seus pés como somente uma adolescente rija e cheia de curvas pode ser, elas compartilhavam com a vampira milenar uma fração do poder que toda mulher possui sobre os tolos homens e por isso deveriam seguir adiante.
A madrugada já se iniciara e somente após vários seres tênues e desprezíveis terem desfilado pelas calçadas da rua, o segundo candidato surgiu: um mulherzinha, um travesti, o corpo deformado por química e próteses – o cheiro dele era típico de sua raça e causou mal estar em Ingrid – que sentou num degrau do outro lado da rua, sacou de um telefone móvel e pôs-se a berrar, as palavras entrecortadas por choro reprimido:
– Reginaldo, seu filho da puta, me escuta, viado, e não desliga essa porra! Tô cansada de você me trocar por essas bichinhas que fingem serem machos. Eu não! Eu dei a cara a bater pro mundo e assumi, ao contrário desses cuzões, que quero ser mulher, vem ver meu corpo, cê conhece meu corpo, não, é, bicha? Escutaqui, eu… não desliga, filha da puta! Alô, alô! – e retomou o passo, soluçando.
Ingrid o poupou por dois motivos: o primeiro e decisivo foi o odor que o corpo da criatura emanava, repelente, repleto de substâncias anormais e inconvenientes, o segundo foi a pura tristeza. O choro do travesti, enquanto virava a esquina e sumia na noite simplesmente tocou Ingrid, pois era pura humanidade, despida das mentiras e belas palavras que os humanos constroem para se justificar.
Menos de trinta minutos e cinqüenta páginas depois, ouviu os sons anunciadores do próximo candidato: um garoto magro e sujo de pele escura, que dormia pelas ruas, um típico “nóia”, como os paulistanos chamavam – termo que soava opaco para ela – gritando ofensas desconexas aos boys que passavam de carro, às mulheres que evitavam olhá-lo, cheias de nojo e desprezo, aos gambés que o espancavam sempre e sem motivo, aos pais que o abandonaram e de quem mal se lembrava, amaldiçoando a tudo e a todos… O sofrimento do menino era tanto e tão fundo que dar-lhe fim seria uma benção e ela imaginou a situação: o arrebataria para um canto escuro, o envolveria na sua treva, os olhos deitando fogo, os caninos imensos, as unhas transformadas em garras, o urro paralisante. Passado o terror, quando o fim se mostrasse inevitável e próximo, os estertores da morte dominando, ele se entregaria a ela plenamente; em sua versão particular do delírio que acomete os humanos em sua hora final, sempre buscando um sentido para uma existência impossível de tê-lo, ela seria uma nossa senhora branca e imensa, que poria fim a uma vida terrestre que fora apenas desgosto e dor, substituída pelo esplendor e recompensa dos céus.
Não, não faria isso. Sentiu-se ridícula apenas por imaginar a cena, que diria torná-la real? E os odores e marcas que chegavam a seus sentidos sobrenaturais, vindos do corpo maltratado e doente eram tão repelentes quanto os do travesti. Ingrid, como todo vampiro Ancião, preferia sangue puro, grosso e forte, algo a cada noite mais difícil de ser encontrado…Com um suspiro, deixou o garoto de rua seguir sua sina.
A madrugada agonizava. Encostada à esquadria de alumínio, os olhos fixos na rua vazia e quieta há muito tempo, Ingrid pressentia a alvorada próxima e sentia-se exasperada; não fora uma noite típica para o quarteirão: após o garoto, apenas três homens quietos e cabisbaixos tinham atravessado a rua, sem emitirem nada, nem um sinal de algum sentimento ou sensação intenso os retorcendo por dentro, nenhuma mostra de desumanidade que justificasse morrerem nas garras de um vampiro. Teria de se recolher ao ataúde improvisado que repousava embaixo da jamais usada cama de casal, dormir um sono cheio de perturbações e ao, acordar, na próxima noite, atacar qualquer um que cruzasse seu caminho, para aplacar a sede até alcançar Kohln e ele providenciar, fuzilado por um olhar de milhares de anos de matança e solidão, vítimas o bastante para compensar a noite perdida? Mostrar-se também capaz de falhar era odioso demais a ela, até diante alguém que a idolatrava com a maior das sinceridades.
Planejara tudo tão bem. Os prédios, naquela porção de uma conhecida rua da cidade que tornara-se muito conhecida nos últimos anos, eram altos, não muito largos e bastante próximos um do outro. Uma sequência de saltos e passos, da janela para a laje pouco abaixo, dessa para o prédio vizinho, desse para o chão e num instante estaria diante sua vítima, que seria carregada para o escuro e silencioso apartamento tão rápido quanto, a maior parte de seu sangue já correndo no corpo de Ingrid, quando pousassem no piso de tacos empoeirados e riscados. Um exercício de suas habilidades e poderes que seria tão prazeroso, no entanto…
– VOCÊ TEM QUE CONSEGUIR!! ENTENDA, PORRA, EU SOU UM INVESTIDOR FODIDÃO E PRECISO DE UM ESPECIALISTA EM TRADINGS TOPS INTERNACIONAIS, UM BENCH MARK, PRA HOJE, PORRA! Está me entendendo? Não quero saber, eu tenho negócios a serem fechados e preciso dessa assessoria!
Os olhos dela se arregalaram e inundaram-se de vermelho. Como era possível? Ainda não tinha amanhecido e um sujeito metido em um terno caro, sapatos impecáveis, gravata de seda, empunhando luxuosa pasta de couro negro, já estava de volta a sua busca incessante por dinheiro, poder, reconhecimento, e, pior esbravejando ao telefone com um subalterno qualquer? O homem era alto, muito alto, forte, uma careca perfeita e lustrosa no alto da cabeça. O cheiro que vinha dele era típico dos que comem muita carne e alimentos caros: puro, simples e intenso. Havia poucos odores de sintéticos e um tanto de álcool, que ela tolerava sem dificuldades. Sim, o escolhido finalmente aparecera! Espiou por detrás dos prédios mais próximos e confirmou que o amanhecer estava próximo. Uma idéia arriscada varou-lhe o cérebro. Não fazia algo assim há muito tempo, e aquela criatura despida de qualquer respeito ou dignidade era perfeita para a ação. Sem perder tempo, escancarou a esquadria, e em menos de um minuto estava parada atrás do homenzarrão, que urrava ofensas, o dedo médio em riste, a um morador do prédio em frente, que ousara interromper sua importante conversa para reclamar da exibição de majestade e poder de tão importante executivo.
– Deixe esse peãozinho desprezível para lá, você é muito melhor que ele. – Disse ela com uma voz tão doce e envolvente que o brutamontes deixou seu caríssimo e avançadíssimo aparelho celular desabar na calçada. Após medi-la de alto a baixo, num olhar despudorado, perguntou, a voz trêmula:
– Qu- quem é você?
– Uma mulher que estava à procura de um homem de verdade, um macho como você, passei a noite insone suspirando por ele e soube tê-lo encontrado ao te ver.
O poderoso executivo desfez-se por completo ao ouvir tantas belas palavras pronunciadas de maneira tão sedutora, apanhou o braço direito daquela belíssima mulher vestida de negro e disse:
– Não quer ir a um bom hotel, ao melhor da cidade, tomar café da manhã comigo?
– Se não for indigno de sua posição, preferia irmos à minha casa, que é logo ali em frente – apontou para seu apartamento – para podermos ficar a sós.
Ele sorriu, tomou a mão dela e pediu que o conduzisse. Afastou a leve neblina de suspeita e temor que rondou a consciência com raiva e convicção. Ele era um cara durão e forte, nenhuma mulher conseguiria aprontar com ele!
Enquanto subiam as escadas, ela divertiu-se com a situação: encontrar o ser deformado que a faria se sentir um pouco humana, um verdadeiro monstro desumano, desprovido de sensibilidade, razão e decência, nos últimos instantes da madrugada, fora muito divertido. E enquanto abria a porta com um gesto, saboreou com o olhar os mais de um metro e noventa e cerca de noventa e cinco quilos de músculos do homenzarrão. Ao entrarem, fechou bem devagar a porta e anunciou:
– Agora, meu poderoso e viril macho, é hora de meu jantar atrasado.

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