Como alguns leitores sabem, os nobres escribas deste blog muitas vezes colhem a inspiração para nossos contos em incursões pela decadente e charmosa madrugada paulistana, em bares de rock, baladas pseudo-oitentistas, alguns botecos, muita conversa regada a cerveja e eventualmente em portas fechadas de estações de metrô.

Portas fechadas de estações de metrô? Como assim?

Explico: dependendo do ânimo da incursão noturna, às vezes cruzo a pé um trecho do Vale do Anhangabaú (que em tupi significava algo como rio do diabo, água dos maus espíritos, córrego da morte, mas isso eu abordo num futuro conto sobre o momento que um maldito yuppie vê mais do que deveria, aguardem!), me deliciando com todo o clima de tão poderoso pedaço da nossa metrópole, me sentindo como que acolhido, bem recebido (feeling like coming home é a expressão que me vem à mente) pelos viadutos do Chá e Santa Efigênia, alguns prédios que se julgava futuristas nos anos 70, velhos e decadentes hotéis de fundo, o Teatro Municipal, edifícios como o Banespão, o Martinelli, a antiga Light, enfim tanta história…

Geralmente essas caminhadas terminam nos portões de aço da estação São Bento do metrô, onde, enquanto espero a abertura dos portões, fico admirando mais uma vez o clima da madrugada naquele pedaço de São Paulo. O Vale muitas vezes vazio, os prédios comerciais quase totalmente apagados (quem será que está naquela sala com a luz acesa no 17º andar desse edifício, fazendo hora-extra em plena madrugada de sexta-feira??), raríssimos carros fazendo o retorno para cair no Vale, a calma e o silêncio da madrugada, ouvindo apenas minha respiração e pensando…em zumbis.

Zumbis? Sim, zumbis…uma horda de mortos-vivos, sedentos por cérebros humanos!

Pode ser que eles venham se arrastando como nos velhos filmes de zumbis, cruzando o vale, mas eles também podem correr e atacar alucinadamente como os zumbis de Extermínio (puta filme, se me permitem o francês), despencando pelo gradil do Viaduto Santa Efigênia como uma cascata de carne putrefata, atravessando aos saltos o pequeno jardim na frente da estação…

Como seria esmurrar o portão e gritar pedindo para alguém abri-lo pelamordeDeusquetemumbandodezumbisaquifora!! ? Ou então correr para fechar os portões antes que eles alcancem a estação?

As vezes penso numa fuga externa, subindo pela rampa lateral, pulando para o jardim superior (apenas para, em mais uma variação, me ver cercado e sem saída ali também!), correndo pela Libero Badaró ou pela Direita enquanto mais e mais zumbis parecem brotar de becos, bueiros e portarias arrebentadas de prédios.

Divertido, não?

Saudações noturnas, A.

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