Por André Luis Pavesi
Com a sempre atenta e precisa ‘já num te falei que infinitivo não leva crase!!’ revisão de Caio Bezarias

Ah, a pequena Fabi! A deliciosa e tentadora Fabi era o que vocês humanos chamam de um monumento. Gostosa, linda, sensual, pode escolher o adjetivo que bem quiser, meu amigo, que ainda assim será a mesma coisa que chamar o oceano Atlântico de banheira super-desenvolvida!

Sejamos sinceros, humano, ela era uma delícia! Cabelos longos e lisos, sedosos, negros como a mais profunda noite cercando um rosto perfeito, uma boca apetitosa e um corpo capaz de enlouquecer qualquer sujeito. Fabi sabia até que ponto poderia arrebentar com os corações e almas de homens e até mesmo mulheres ao seu redor. E pode acreditar que ela jogava pesado!

Perdi a conta de quantos casamentos, namoros e relacionamentos tive o prazer de ver morrerem nos braços longos e macios dessa pequena devassa. E o prazer dela era diretamente proporcional ao estrago causado – quanto maior o rastro de dor deixado pra trás, maior o prazer que ela sentia. Ela era simplesmente o mais doce pecado feito carne, um verdadeiro presente dos infernos aos bares e casa noturnas desse pequeno Hades que vocês humanos chamam de São Paulo.

Mas nem sempre ela foi assim. Quando chamou a nossa atenção, era o equivalente feminino a uma água-viva, um pequeno pedaço de carne flácida e sem graça, o tipo de mulher que não consegue chamar a atenção masculina nem se correr pelada no meio de um campo de futebol. Cabelos mal cuidados cercando um rosto de um branco leitoso e forrado de espinhas, complementado por um par de óculos sebosos e eternamente remendado, que escondia ainda mais seus traços, da mesma forma que moletons disformes escondiam suas formas cheinhas.

Vocês humanos são mesmo muito engraçados! Quantos mais estranhos, quantos mais esquisitos, mais parecem buscar um jeito de se afastarem ainda mais do que é normal entre seus pares! Para muitos é o heavy metal, para outros uma fascinação por filmes escapistas cheios de naves espaciais e efeitos especiais, mas para ela a rota de escape da realidade, a estrada rumo ao reino encantado dos esquisitos de plantão passava por livros ligados à magia – exatamente como nossos planos aqui no segundo círculo.

E pelos Treze Tormentos, a menina era boa! Claro que ela não fazia a menor idéia disso, mas trazia nas veias a herança mística de uma longa linhagem de feiticeiras, desde os dias da antiga Floresta sem Nome, passando por mais de uma dúzia de grandes feiticeiras. Para ela, tudo parecia apenas uma questão de sociabilização, de gastar horas e horas com um bando remelento de meninas tão deslocadas na sociedade quanto ela mesma, para desfilarem uma imensidão nauseante de bobagens e feitiços de segunda-linha, enquanto seus hormônios ferviam por vampirinhos de mentira.

Cá entre nós, se não fosse a estupenda energia arcana que ela trazia nas veias, aquele grupinho de amigas dela metidas a feiticeiras modernas nunca teria conseguido mais do que pequenas perturbações no Plano Inferior, algo como um peido de velho numa tempestade. Mas com sua participação, o nível de poder desse pequeno grupo atingiu picos consideráveis, e foi exatamente aí que uma das minhas meninas resolveu entrar em cena.

Foi num começo de uma madrugada de sábado, em meados do mês que vocês chamam de Julho. Fabi, já então uma mulher feita, havia ido a uma festa de aniversário de uma colega de trabalho, num desses bares de rock. E como sempre, foi sumariamente ignorada a noite toda pelos homens do lugar, exceto pelos mesmos tipos berebentos e desconjuntados de sempre. E no final da noite, com seu pobre coraçãozinho partido mais uma vez, pegou um táxi aos prantos, e em mais uma cena patética e hilária chorou o resto da noite trancada em seu quarto. Vocês humanos não tem idéia de como uma cena dessas pode ser divertida para alguns de nós!

Nessa madrugada, Fabi dormiu com o travesseiro molhado por suas lágrimas. E sonhou com a resposta as suas preces. Ao acordar no domingo, já pela hora do almoço, trazia gravadas a fogo em sua mente as lembranças do sonho. Lembrava com clareza do descampado açoitado pelo vento inclemente, carregado por poeira de ossos e podridão. Lembrava do círculo de pedras cheirando a morte, bem como do pacto que fizera, com sua alma escancarada, com a minha pequena Yrka, uma das menos graduadas succubus saídas dos meus domínios, para vergar sua vontade e entregar seu corpo e sua vida às doces garras de Yrka. Em numa troca deliciosamente simples, ela passaria a ter todos os homens que desejasse aos seus pés.

A essa altura dos acontecimentos, você já deve estar imaginando o que aconteceu depois desse maldito domingo. Fabi passou por uma verdadeira transformação física, desabrochando como uma borboleta a partir do podre casulo. E a cada homem, Fabi e Yrka, tornadas uma só alma, aumentavam ainda mais seu desejo profano por homens, sexo e almas. Cada homem era abatido, sugado até seu último suspiro. Mas elas queriam sempre mais. Chegaram a um ponto em que não se satisfaziam mais em ser escolhidas, mas passaram a escolher, estabelecer alvos. E quanto mais difícil julgassem o alvo, melhor. Ah, que deliciosa odisseia vê-las escolher o mais certinho dos sujeitos, apenas para arrasar com o casamento dele…ou desfilar pelos bares provocando a todos, e cedendo a nenhum, ignorando as investidas recebidas com cara de desdém. Não era mais uma questão de saciar sua carência, Fabi passou a degustar o poder sobre a felicidade noturna de quem a cercava.

E foi nesse ponto que elas se perderam. E ver a queda delas foi quase tão divertido quanto havia sido ver sua ascensão! Numa dessas noites de meio de semana, Fabi/Yrka saiu para jantar com um empresário, que enlouquecido de tesão já estava falando em largar um casamento de quinze anos para poder viver com ela o que julgava ser uma grande paixão. Na mesa ao lado, no meio de um grupo de garotas, estava Nascimento, um sujeito boa-pinta, bem vestido, de modos afáveis e gentis, e que para a surpresa de Fabi parecia nem notar a presença dela no mesmo ambiente.

A menina, enlouquecida pelo reencontro com a quase-esquecida sensação de rejeição, usou todos seus truques para se aproximar do sujeito, para arrastá-lo para sua cama. Mas ao contrário de todos os homens nos últimos meses, o bonitão simplesmente levantou da mesa e deixou o restaurante, sem dar a menor importância para o assédio de Fabi. Do exato jeito que os homens costumavam fazer antes da possessão. Aquela rejeição, tão brutal quanto inesperada, arranco-a dos eixos. Pelos dias seguintes, cada vez que fechava os olhos ela revia a cena, Nascimento saindo do restaurante com duas de suas garotas, sem nem ao menos olhar para trás.

Para resumir uma história desnecessariamente longa, Fabi tanto fez que conseguiu não apenas descobrir onde Nascimento morava, mas foi bater à porta do apartamento com uma garrafa de lambrusco importado e duas taças. Ah, que cena ridiculamente romântica! Ao abrir a porta, ele apenas sorriu, dizendo que sabia que um dia ela viria até ele. Intrigada pela recepção, e pela mais completa ausência de surpresa no rosto de Nascimento ao recebê-la, deixou-se levar para o quarto, onde logo se atracaram na mais violenta trepada desde, bom, desde sempre.

O que nem Fabi nem Yrka podiam saber é que naquele quarto ela não era a única a ter um pacto com uma criatura infernal. Nascimento, também conhecido na adolescência como Dumbo, saco-de-banha, e outros apelidos desagradáveis, havia negociado sua alma com Spurk, um incubus, não por acaso a versão masculina de Yrka. E como foi escrito no início dos tempos, Yrka e Spurk se consumiram, como sempre acontece quando os dois lados da mesma moeda se encontram. Assim, essas almas desgraçadas se atracaram como loucos por semanas, sem deixar a cama nem ao menos para comer, definhando deliciosamente até a morte. Hoje posso vê-los, ainda atracados como animais, percorrendo a planície descampada, assolada por ventos inclementes do meu círculo infernal.

E você, meu amigo, por que não fechamos logo nosso acordo?

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