Por Caio Bezarias
Revisão e título (muito melhor que o original), por André L. Pavesi 

A respiração do sujeito hora era ofegante e pesada, hora se suspendia; sua cabeça girava alucinada, percorrendo toda a vidraçaria do corsa, para captar todos os movimentos, cores e luzes da noite desnorteante em que o carro passeava; o cheiro que desprendia lembrava o de um cachorro de rua, sujo, e parecia aumentar junto com seu nervosismo crescente; suas pernas tremiam tanto que o movimento era percebido no banco do condutor; e o cara dava ordens totalmente desconexas: após percorrerem duas vezes a Avenida Tiradentes, mandou voltar para o centro e subir a Brigadeiro Luiz Antonio a toda, que atravessaram meia hora antes; a seguir ordenava que entrassem numa rua qualquer e fossem para Liberdade. Mal chegavam lá, apontava para a parte mais escura do Glicério e pedia que passassem por ali bem devagar, depois espiava por longos instantes a silhueta de prédios à direita e mandava voltar para a Brigadeiro, agindo como se fosse uma impossível mistura de grande conhecedor de todas as ruas e quebradas do Centrão com turista boboca maravilhado com o visual noturno de São Paulo. Que cacete! Jamilson estava meio doido por causa do sujeito, o passageiro mais esquisito que pegara em muitos dias, mais do que poderia lembrar-se. Rezava em silêncio para o cara cair fora, temendo pelo pior: por duas vezes em menos de dez minutos quase enfiara o carro em um muro, tão fixo estava seu olhar no retrovisor, vigiando o brutamontes, certo de que ele teria um troço, passaria a berrar com voz de demônio ou puxaria um canivete. E a corrida já estava bem cara. Estava ansioso para que o louco, ao chegar a seu destino, fosse qual que fosse, se indignar com a conta, para dar uma resposta daquelas…

Quando se aproximaram da Paulista o cara aquietou e inclinou-se para frente, como que apontando o caminho com o nariz. As fungadas fortes e barulhentas que passou a emitir dissiparam a dúvida do cansado taxista: fissura por uma droga daquelas. O “rolê” fora uma busca por algum trafica, na certa. Como não reconheceu ninguém, não viu quem procurava nos pontos e bocas a que estava acostumado, teria de apelar para algum mais violento e caro. E o cheiro de bicho peludo e sujo?  Com certeza era um desses anormais que trepam com animal e tinha praticado essa obscenidade antes de entrar no veículo. Sim, tanta agitação só poderia ser fissura e desvio. Que caraca de droga deixava um homem tão grande e forte desse jeito? Um mundo perdido mesmo, cheio de desviados, gente longe de Deus e da vida reta.

O maluco mandou-o descer o Bixiga, alcançar a 9 de julho ou o Anhangabaú e voltar para a Tiradentes. Mal entraram na Almirante Marques Leão, suas casas velhas e maltratadas, abrigos de uma gente que trazia más recordações ao taxista, a despontarem, e

Grande e importante notícia

não se conteve mais:

– Ô companherô, já passamos lá duas vezes e a sua corrida já está em mais de 80 paus. Tem certeza? Se não achou o que procura antes, acha que…

– Dinheiro não é problema, fica frio que vou te pagar. Desce a rua e pega o caminho para o norte de novo que… espera!! Pára, é aqui que eu desço. – gritou as últimas palavras sem tirar os olhos da direita, em que erguia-se contra a noite uma impressionante e compacta massa de vegetação, fincada em um terreno assentado em uma base rochosa, cercada por um muro enorme cuja inclinação era um desestimulo a toda curiosidade, senso de aventura ou simples xeretice: o muro, nada mais que uma tosca aplicação de concreto sobre rocha ou um muro anterior, inclinava-se quase 70 º  em relação ao solo.

Jorge desceu do carro, deu uma espiada rápida no taquímetro, apanhou o dinheiro com desprezo, pôs 90 reais na mão do taxista e sem olhar para ele disse:

– Pode ficar com o troco. E desculpe pelo passeio maluco.

– Não por nada. – respondeu Jamilson, que arrancou dali desesperado, antes que a sujeira da vida do sujeito respingasse nele.

 

Parte II

 

Duas noites seguidas sem dormir, rodando o Centro da cidade – Brigadeiro Luiz Antonio e praticamente todos os bares e restaurantes das suas esquinas, ruas  iluminadas e movimentadas da Liberdade, arredores da Paulista, depois Cambuci, Glicério, Aclimação, de volta à Brigadeiro; rondar imediações do Horto Florestal e quase ser preso por isso, correr pela Tiradentes um sem-fim de vezes, na esperança de que o jipe negro e maltratado surgisse na avenida, surgisse para que ele fizesse o quê? Berrar o nome, gritar, urrar, rugir: Tainá! Tainá! Pular do táxi, atravessar a avenida e jogar-se diante do carro, urrando, babando, zonzo, enfurecido por ela tê-lo abandonado após um tempo  em que  pouco circulou com ele, pouco acasalaram e menos ainda ela ensinou-lhe sobre sua nova condição, nada disse sobre Gaia e porque a Mãe fez dele seu filho e instrumento. Para quê? O que se tornara? Indescritível, maravilhoso, uma erupção de energia, de vida animal e plena  ser um licantropo, um homem-lobo, um ser-fera. Mas, o que fazer daquilo? Tainá nada fazia ou dizia para acalmar a torrente que corria por ele, tão intensa e maravilhosa quanto a sensação que o tomou ao tornar-se homem, com pouco mais de 15 anos. Ela apenas ria um tanto, beijava-o, deitavam-se algumas vezes – sempre menos que ele queria ou necessitava – soltava frases irritantes, repletas de termos estranhos que nada esclareciam (“somos os einhamir, os irmãos dos iauareté desta terra, somos os corredores, eu sou sua lobeira, temos grande força, pois somos agentes de Gaia, que espalham seu perfume, Awen”, “o mundo tornou-se sujo e antinatural, a Yrmis toma conta de tudo, e temos de trazer o agente principal desta, o homem, de volta à trilha da natureza, ou então destruí-lo”). Então, após uma exasperante semana, em que tornou-se progressivamente inquieto, ela desapareceu sem despedidas falas, nada. E agora, lá estava ele, dois dias e duas noites inteiras percorrendo a cidade, os lugares em que estiveram, as cercanias do restaurante em que seus caminhos se cruzaram (na verdade ele não acreditava nisso. Estava certo de que fora escolhido, que a mulher apareceu, linda e provocante, seguindo uma ordem, um sinal de Gaia), o percurso que fizeram até o coração da Serra da Cantareira, em que a transformação se consumou, tudo em busca dela, para apertá-la nos braços, possuí-la e exigir uma explicação, uma orientação sobre como extravasar tanta força e novas capacidades fervilhando dentro de si e não ter a mínima noção de como o fazer. Esperar a lua cheia e bancar os lobisomens das histórias de caipiras e vovôs, atacando bichos e pessoas sozinhas? Não sentia o menor desejo de ferir sequer um camundongo e extravasar sua nova natureza de qualquer forma, sem regras, seria totalmente absurdo e suicida vivendo no centro de uma cidade como São Paulo, embora sua recente descoberta que mais de um vampiro andava tranqüilo pela cidade, além de outras coisas  que não identificou, o pôs a imaginar o que aconteceria pelas ruas, cantos, parques e esgotos da cidade sem que os humanos se apercebessem de um cheiro, som ou forma anormais… Seria possível assumir sua forma lupina e poder uivar, rosnar e correr por algum lugar da metrópole, uma porção da verdadeira Terra, sentir o cheiro das plantas e dos animais escondidos entre elas, a fragrância embriagante e indefinível da mãe Gaia desprendendo-se e o enchendo… ser o que nasceu para ser?

Ele parou a busca ensandecida  porque o sinal de que outro lobisomem estivera ou estava ali, na esplendorosa mata que brotava bem no meio da cidade, surgiu-lhe assim que entrou na rua, na forma de uma mistura de um rastro esfarrapado de luz mortiça flutuando no ar e  cheiro de lobo. Se não a que o fez mais que homem, era outro licantropo, que certamente conheceria Tainá e o levaria a ela, de um jeito ou de outro!

Assim, quando deu por si, já escalara, graças a unhas transformadas, a parede impossível, embrenhou-se naquela mata de árvores altas e arbustos densos e compactos e sentiu um urro interior: SIM!! Mesmo no coração de uma cidade envenenada por química anti-natural, coberta por uma massa de emanações psíquicas doentias e distorcidas, varada pela doença de negar a verdadeira natureza, típica dos humanos e que os destruía e à natureza que ainda resistia em um lugar tão maldito, um lobisomem poderia encontrar um canto seguro e caminhar tranquilamente  em forma bípede, como estava naquele exato momento: reparou que as plantas estavam abaixo dele e não roçando seu nariz, e só então descobriu que caminhava apoiado nas patas traseiras! Nada de roupas rasgadas ou esticadas, quatro patas mergulhadas na terra úmida. Não, era finalmente um autêntico homem-lobo: bípede, musculoso, cabeça em forma canina, de animal, mas conservando a consciência humana, ampliada pelos sentidos e capacidades que a Mãe lhe dera. Ah, Tainá, loba-mãe safada e cruel, porque se escondia? Por que não aparecia, para ver isso e se acasalarem como celebração?

Caminhou a esmo pela mata por algum tempo, deixando sua porção humana mergulhar na manifestação de Gaia que o cercava, cheia, forte e incontida, submergindo sua tênue humanidade em algo muito maior, além da razão, nomes, categorias, e tudo mais, presunçosas invenções da humanidade em sua tentativa ridícula de controlar e limitar a natureza.

Corria e corria entre as árvores, até que sem nenhum motivo especial olhou para direita. Um determinado ponto da mata revelava, entre as árvores, uma porção da silhueta dos edifícios que circundam a Paulista, recortados contra o céu. Essa visão, ainda que Jorge sempre a julgasse bela e impactante, não o interessou, e sim o que se  via por trás da silhueta: uma luminosidade de um amarelo difuso, esmaecida, mas larga e alta, se desprendia, vinda de algum ponto a uns trezentos metros de distância. Seus instintos alertaram que essa luz era da mesma natureza da luminosidade que o atraiu para a erupção em que estava e que devia rumar para lá, em sua peregrinação. Assim fez. O mais rápido que pôde desceu a parede e pousou no chão num estalo seco, pois estava em forma lupina, que regrediu ao humano em um instante tão curto que qualquer xereta ou azarado que tivesse presenciado a cena apenas imaginaria ter confundido um mulato fortão com um grandalhão branquelo, devido à escuridão, ou quem sabe a umas doses a mais. Olhou ao redor, espiou os sobradinhos velhos e maltratados dos quais partiam vozes queixosas, choros de criança e outro sons e cheio de pressa correu na direção da névoa de luz que subia e se dissolvia no céu noturno.

Ao alcançar o lugar, uma confusa sensação o tomou, uma mistura de surpresa com a voz de uma lembrança distante mas nunca desaparecida,  ao se ver diante da fonte da luminosidade. Outra mata antiga bem no centro da cidade, oculta entre prédios,  densa, há décadas cercada pelos homens, tolerada e também desconhecida por eles, crescendo dentro dos limites que eles lhe impuseram, mas adensando-se a cada ciclo das estações, tornando-se mais forte e abrigando seres e coisas, dentro desses limites, que poderiam gerar os pesadelos, mitos e medos de toda uma raça de homens, se reveladas ao mundo.

 

Parte III

 

Era uma mata ainda mais densa e alta que anterior, uma mata poderosa que crescia na rua Itapeva, cercada por muros que a separavam de algumas torres de apartamentos e de dois depósitos e estacionamentos. Ele já tinha passado por ali muitas vezes nos últimos anos e nunca, nunca dedicara a menor atenção ou espanto para aquilo, que agora, a seus olhos, revelava-se uma fonte de energia aguardando o momento em que os filhos e servos de Gaia a usariam para retomar o solo, o ar e a águas do apinhado de planaltos e várzeas que os humanos chamavam São Paulo, julgavam seu e destruíam.

Essa erupção chamava por Jorge com uma voz ainda mais intensa e audível que a anterior. Espiou para os lados, esperou um automóvel solitário seguir seu caminho e então, após um único pulo estava sentindo a folhagem acariciar seus braços, já cobertos de pêlos grossos e músculos inumanos.

Caminhou por pouco tempo; teve de parar e recompor-se, tanta era a energia, avassaladora, que o queimava. Apoiou-se contra um tronco, aspirou profundamente o ar, tão diferente da insuportável mistura de odores e sabores que dominava a avenida logo ali em cima – como coisas tão puras, tão imaculadas e belas podiam existir no meio da cidade, e como os humanos eram cegos e estúpidos de ignorarem tanto?  Ser homem era se deixar limitar pela razão, uma névoa tão tênue e que cegava tanto a humanidade! Ser licantropo era ser muito mais que humano, era ouvir a voz e o ser da natureza, ser servo, amante e parte dela. E a energia que fervilhava dentro de si gritou para que deixasse a desprezível humanidade para trás e se tornasse pleno filho de Gaia, sentiu a ordem, vinda da sua porção animal, ordenando que seus membros tocassem o solo sagrado, que seu focinho longo roçasse a folhagem viçosa, que seus ouvidos assumissem a forma na qual captavam todos os sons emitidos por seus irmãos animais, até o menor e mais furtivo, que seu corpo desfilasse o poderio que só um predador possui; Jorge recebeu a ordem para tornar-se lobo: quadrúpede, feroz, animal. Cedeu cega e alegremente à ordem e a transformação começou… interrompida por uma mão humana firme, que pousou em seu ombro e provocou uma das mais estranhas sensações que já sentira: algo como um choque elétrico que percorreu seu corpo arrastando consigo suas forças e capacidades para desaparecer como surgiu, e que o fez retornar em um instante à forma humana. O susto foi tamanho que despencou na terra úmida, onde ficou, olhando aparvalhado para as duas figuras que o observavam: diante dele, eretos, firmes e tranqüilos, um sorriso um tanto bonachão, um tanto cínico, nos rostos, estavam dois homens: um de meia idade, branco, pálido, cabelos negros encaracolados, altura mediana, com terrível gosto para se vestir e um negro enorme, um gigante de cabeça raspada, pescoço grosso como uma tora, fortíssimo,vestindo peças escuras.

– O garotão está meio perdido, precisa de ajuda para conhecer as maravilhas da vida noturna da cidade? – Perguntou o branquelo.

Jorge ergueu-se de um pulo, pôs-se em posição firme, reta, e encarando-os sem acanhamento, preferiu fazer outra pergunta:

– Você é o chefe da matilha, posso dizer assim? Você é o líder dos filhos de Gaia que vivem em São Paulo, certo? Dá para sentir no seu olhar e no cheiro.

Ambos os sujeitos trocaram um olhar, sorriram um para o outro e o chefão respondeu:

– A Mãe-Terra jamais erra ao escolher um novo filho; ela, nos últimos tempos, foi agredida muitas vezes, mas não por seus critérios ou por suas escolhas. Você é a mais recente comprovação de sua sabedoria.

– Preferia ouvir elogios de Tainá do que de você, nada pessoal, espero que  entenda.

– Ficou rodando pela cidade nas últimas noites, dando uma bandeira terrível, se expondo a nós e aos morceguinhos, por causa dela. Ha ha ha. Não importa a forma que assumimos, homem, lobo, licantropo, sempre praticamos excessos e desvarios por causa de uma fêmea.  – Não havia vibração, tonalidade ou inflexão alguma na voz de Lúcio que transmitisse censura, reprovação ou algo do tipo, apenas uma sabedoria velha e até mesmo camarada, que encorajou Jorge a falar mais:

– Por que ela (ou devo dizer, vocês) fez isso: me transformou, me apresentou para o mundo, me pôs de verdade no mundo e depois sumiu? Eu quero aprender, saber o que sou e para que. Não é possível que eu seja um lobisomem apenas para rodar pelas matas e bosques que restam em São Paulo. Ela só respondia com uma conversa que mais parecia papo-cabeça das biscas de Pinheiros e aí sumiu. Não poderia me dar um pouco de orientação? Tudo que eu queria era algo direto, claro, apenas isso. Que dissesse minha função e eu cumpria.

– O licantropo que cria outro tem o dever de um dia expulsá-lo da toca, jogá-lo na natureza, nu e sozinho, como nossos irmãos lupinos fazem com sua cria.

– Mas esse lobinho aqui mal largou das tetas deliciosas da mãe, ela não o ensinou a se virar na noite assustadora, ele ainda está dependente dela e de mamar. – E ambos riram com tanto gosto que ele também se desfez em gargalhadas.

– Nem mesmo um cachorro de pêlo grisalho como eu sabe todas as respostas. Gaia  é tão misteriosa e estranha que torna-se terrível. Ela faz coisas como criar uma porção de licantropos, então os chama de volta ao seu útero, os expulsa de lá, os joga de volta ao mundo, transformados, ainda mais ferozes, insanos e fortes, obriga-os a massacrar cem, duzentos humanos de uma vez e depois os abandona, sem chão, tão perdidos que desbancam para a Yrmis e fica tudo por isso mesmo…

Jorge encarou Lúcio por algum tempo, os olhos estreitos. Nada da fala do chefão fez sentido, uma ladainha tão cansativa quanto à de Tainá antes de ela sumir. Era isso que os licantropos se tornavam depois de um certo tempo, pregadores tediosos? Precisava de respostas, não de discursos.

– Você está dizendo que não sabe porque a morena me encontrou e fez de mim membro do Povo, que ela atendeu a uma espécie de ordem misteriosa da Mãe que ela mesmo não compreendeu bem, é isso?

– Misteriosa sim, mas não sem algo em vista, algum plano ou sentido maior ao longe. Sua figura surgiu em sonhos para todos nós, licantropos que percorremos as trilhas de Piratininga[1], todos nós de alguma forma fomos convocados a nos envolver em sua origem e a guiá-lo, como sempre ocorre quando Gaia escolhe um humano para se tornar parte do Povo. E sua imagem surgia associada a uma das coisas mais estranhas que existem na cidade, sua origem está ligada a isso, você terá um papel a cumprir, mas que ainda não está claro nem mesmo para mim. E é por isso que estamos aqui, eu e Silas. Gaia, por meio de sonhos, nos ordenou que mostrasse esse mistério a você. – E calou-se subitamente, aspirou o ar, suas orelhas se moveram para frente e após um instante concluiu: – Vamos, não aqui ninguém por perto, podemos ir para a rua, mas depressa.

 

Parte IV

 

E os três executaram os mesmos movimentos, em perfeita sincronia, deixaram a mata e logo não passavam de três homens de olhar seco que caminhavam rumo à Paulista, a passos firmes, num abafado início de madrugada.

Jorge nada perguntou, apenas ia lado a lado dos outros, atento aos movimentos deles e à direção que seguiam, mas dúvidas e inquietações o tomaram ao perceber qual o destino, que alcançaram após superarem uma grade alta para um humano e ridícula para eles. Uma vez lá, Jorge e Silas afastaram-se um pouco e o segundo falou a Jorge, numa voz de trovão:

– Este é um dos brotos de Gaia[2], manifestações de sua beleza e força, mais importantes e poderosos e importantes, em toda Piratininga. Debaixo dele e às vezes no meio de suas árvores sente-se uma presença carregada o bastante para perturbar até a nós. O que Gaia “disse” a mim, a Lúcio e a Tainá, nós que somos A Trindade que a Noite Teme, é que deveríamos te trazer a este lugar, pois você revelaria algo sobre essa presença e teria um papel futuro em algo que ainda não está claro, algo que envolve nós, essa coisa que circula por aqui e toda a cidade. Acredite, nós também estamos de cabeça virada com tudo isso, assim como você. A Mãe muitas vezes é dura e esquisita, então, vamos apenas obedecer. Respire um pouco o ar, deixe a energia que circula aqui te invadir e nos diga o que vê ou sente; como o Líder já disse, isso terá importância, no futuro, só não sabemos como.

Jorge obedeceu não ao sujeito, mas as suas palavras, carregadas da força de Gaia – não era o licantropo negro que falou, mas a Mãe-Terra, por meio dele. Assim, ele aspirou o ar colorido pela vegetação e mergulhou no mundo ao redor, as árvores centenárias do Parque do Trianon; folhas roçavam suas pernas; os animais noturnos ao redor, visíveis a eles, os observavam, intrigados; a cacofonia noturna da civilização humana chegava abafada, indistinta, apenas luzes distantes respingando por trás dos troncos e ruídos irregulares.

Uma irrealidade se apossou de seu corpo e espírito; tão intensa que pela primeira vez a expressão “sonhar acordado” fez sentido a ele, pois foi o que se passou com Jorge: estava consciente mas seu espírito comunicava-se com algo muito maior, mais profundo e completo, uma experiência similar ao sonho mais profundo, quando os seres tocam o Grande Oceano, a fonte de energia que era a manifestação de Gaia no plano imaterial,  que alguns humanos chamam de inconsciente coletivo.

Tudo ao seu redor tornou-se mais claro, brilhante, mas também mais difuso, pois sua percepção estava no máximo de sensibilidade, em que tudo era emanação da Mãe-Terra – ar, plantas, animais, terra, seus dois companheiros. E então, de repente o mundo esmaeceu: uma sombra subiu do solo e cobriu tudo com sua escuridão difusa, a projeção de alguma coisa que repousava nas profundezas, abaixo das árvores, do asfalto, sentiu a presença dos licantropos e se manifestou. Mas ele não sentiu hostilidade na presença – era perturbadora sim, uma ferocidade tão intensa, uma manifestação de Gaia tão estranha que bloqueava as demais energias naturais à percepção de Jorge, mas não era uma força oposta a eles, inimiga, disso estava certo.

Um vulto enorme, bípede, avolumou-se no meio da sombra, como se esta se adensasse para sua essência se manifestar. Jorge olhou para a forma, concentrou todos seus sentidos e intuição e algo aconteceu… o contorno do vulto mudara ou uma série de outras formas surgiram, uma engolfando a anterior, desabrochando para em seguida fechar e mudar novamente? Várias eram muito familiares a ele, outras pareciam filhas de outro mundo ou de outras eras. E a escuridão aumentava, aproximava-se, estava prestes a engolir Jorge, que soltou um uivo abafado quando sentiu o toque dela em seu ser e caiu no chão. Silas fez menção de amparar o jovem, mas um gesto de Lúcio o deteve. Em menos de um minuto já estava de pé. Encarou os dois e disse, os olhos emitindo uma luz amarela muito viva, vidrados, a voz sem entonação:

– Está aqui há muito tempo, antes de tudo ser coberto pela pasta de pedra que os homens branquelos usam para construir, antes dos padrecos bichas que usavam saiotes marrons erguerem aquela cabaninha imunda lá no Itaecerá e de lá espalhar sua sujeira, antes da Piratininga, antes dos Guaianases, antes de qualquer coisa  criada por homens ou que tem nome dado por homens existir aqui. É irmão nosso, e também avô, tio, e tudo mais. Tem tanta força que apavora Não quer nada com nós por hora e se quando quiser, que cuidemos. Não sei o que é, a forma parece um de nós, mas tinha sombras, não, não eram sombras, eram lembranças ou formas antigas dele junto, como se fosse, em um só tempo, o um de agora e os todos que já foi antes. Estavam junto dele, e em seguida ele se transformava neles: um bicho que parecia um gato grande, com dentes enormes como facas saltando da boca, um bicho de orelhas pequenas e patas muito fortes, que matava cavalos com uma patada, um urso, sim é isso, cachorros gigantes com dentuça que rasgavam onças, os avôs das onças, tinha um monte de bichos de pêlo junto dele, fazendo ele ser o que é. Vi tudo isso e não entendo.

Ao terminar, sentou-se, apoiando a coluna contra uma árvore e lá ficou, respirando profundamente, cabeça caída. Seus dois irmãos-lobos e guias estavam bem próximos, prontos a ajudá-lo. Silas tremia, sem saber por que as palavras do rapaz tiveram tanto efeito. Ao olhar para Lúcio, seu temor aumentou, pois além de tremer, o chefe da matilha de Piratininga e de boa parte das áreas naturais do estado suava em bicas e tinha os olhos esbugalhados. Ele não se conteve:

– É algo tão poderoso e incompreensível que assustou até a você. O que vamos fazer, agora que temos uma noção do que é? Queríamos uma resposta, recebemos uma leve idéia e estamos apavorados. E aí?

– Ele, Jorge, conseguiu algo que nenhum de nós conseguiu. Bem, o trouxemos até aqui para confirmar os presságios, está feito. Queríamos uma confirmação, ela veio: esse espírito é muito, muito forte e antigo e terá alguma função em algo que vai acontecer por aqui, na cidade. E Jorge vai participar disso. É o que basta. Vamos embora. E logo. Garoto, está acordado?

Jorge ergueu a cabeça e levantou-se prontamente:

– Claro que sim. Vamos embora. Hã, você tem um nome ou conceito para a presença, a sombra?

– Só especulações, e não quero falar a respeito, não estando bem no seu  território. E esta noite foi o suficiente até para mim. Vamos.

O processo de averiguar se havia algum humano xereta nas proximidades, pular as grades do Trianon e desaparecer na noite tomou pouco mais de um minuto para os três licantropos, que ignoraram um ruído de respiração ruidosa vindo do desvão mais escuro entre as árvores do parque e uma mancha negra entre elas.

Também sentia que algo iria acontecer. E estava ansioso.

 

[1] Os licantropos que habitam São Paulo, quando entre eles, chamam a cidade por seu nome indígena, e somente por esse, que para eles é o verdadeiro nome de poder da região em que a cidade se assenta.

[2] Brotos ou Fontes de Gaia é o termo utilizado pelos licantropos para se referir, de maneira carinhosa, às matas, bosques e parques, existentes em centros urbanos, nos quais se abrigam fauna e flora originais da região antes desta ter sido dominada e devastada pelos humanos, ou seja, locais em a força de Gaia se manifesta livremente, e que os atraem.

 

 

 

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