Boa noite a todos!

Como orgulho desmemido, nós autores do Carpe Noctem publicamos o primeiro conto escrito por leitores do blog que tornaram-se colaboradores. Isso mesmo, fiéis acompanhantes de nossa São Paulo noturna e distorcida: um conto escrito por terceiro e quarto autores, e que conto! Um texto pesado, em mais de um sentido, agressivo e acima de tudo, muito contemporâneo, crítico e, por que não? muito verossímil (leiam e entenderão), um retrato/reflexão sobre como a internet influencia e distorce o mundo real. Mas cuidado: a linguagem é a adequada para o tema e a abordagem: crua e explícita.

E quem são essas duas revelações da narrativa fantástica e urbana?

Vinícius é  na verdade um ex-aluno que tornou-se amigo, de longa data. Músico e ( descobrimos há pouco) autor de talento; Diana, com quem escreveu o conto, também é uma grande musicista e… tia de Vinícius!!! Aos interessados sobre o trabalho musical de ambos, em breve colocaremos links para saberem mais, na seção correspondente do blog.

Bem, as apresentações e avisos foram dados: prepare sua imaginação e nervos para descobrir o lado sombrio do divertido mundo das redes sociais de encontros sexuais.

Saudações noturnas e etílicas

Caio Bezarias

 

Por Vinícius e Diana
Revisão de Caio Bezarias e André L. Pavesi

 

Parte I

 

Bastava você olhar os quadrinhos ao lado do perfil (que eram as tais comunidades),  ou seja, as afinidades dela com outros orkutianos. Alguns denotavam uma quase depressão que era um tal de odeio isso, odeio aquilo que chegava irritar! Intercaladas com isso estavam pitadas de cultura pop, passando por ícones mortos da música e auto-afirmações do quanto ela podia ser cult em comunidades dedicadas a autores desconhecidos (as quais ela nunca postara nada, por absoluta falta de assunto e interesse genuíno naquilo), até descambar de vez no grande mote da internet: promiscuidade, sexualidade, gratuidade. Era ali que enfim a pegaria! Não dizem que a natureza da fêmea é provocar o macho, e a do macho é perseguir a fêmea que o provoca? Então…
Olhando de relance podia construir uma imagem de liberalismo sexual, participações em comunidades de sexo casual (ah, as comunidades de sexo do Orkut, que grande piada…), coisas mais específicas como encontros regionais e pinceladas narcisistas; ela era uma das “ruivas que gostam de sexo”, e outros daqueles quadradinhos laterais afirmavam com orgulho “tenho pernas longas”, “eu sou peituda” e coisas do tipo, além de esquisitices como “amantes de bonecas infláveis japonesas” e comunidades sobre remédios anti-depressivos, que ele preferiu ignorar por completo.


Bi-curious
Bel trazia consigo uma enorme quantidade de personagens bissexuais (em sua maioria mulheres também) todas tão parecidas entre si, previsíveis, e mesmo assim querendo soar diferentes. Ela própria se definia como bi, mas o era talvez por indecisão e modismo.
Não era mais uma pessoa, era um quadradinho, uma mera foto num painel azul-claro. As mensagens que recebia dos tais amigos orkutianos eram todas carregadas com aquele tom falso de proximidade, que na verdade não existe. A indiferença em relação a tudo que transparecia nela era outro sintoma da quase depressão. O mosaico conhecido como Bel era embaralhado e mesmo assim mostrava uma imagem clara: sexo – cultura inútil – narcisismo – distanciamento (tantos “amigos”, mas nenhum com quem se envolvesse verdadeiramente) – fantasias. Nada de concreto. Apenas horas e horas conectadas à internet, o grande ópio moderno.
Aquela busca desenfreada por uma notoriedade instantânea e forçada (olhem como sou legal: depressiva, depravada e culta!) a tornou insensível aos pequenos prazeres do dia-a-dia, aquelas coisas que só percebemos o quanto valem quando as perdemos… para sempre!
O orkutiano
Ele era um cara normal. Amava sua namorada, até que a encontrou transando com uma amiga. Apesar do sentimento estranho que veio a seguir, ele invadiu o quarto e transou com as duas. Quando a beijou, sentindo o gosto do mel vaginal da amiga naqueles lábios, ficou ainda mais excitado e se entregou, mas quando a transa acabou o relacionamento estável foi junto. Seu namoro também acabou pois ele imaginou que um dia poderia sentir o gosto do pau de outro, ou esperma, nos lábios dela… Desde então odeia as tais “bi-curious” que infestam o Orkut. Exceto a Bel.
Ela, apesar de proclamar aos quatro ventos que curtia beijar as amigas, tomando a frase “homens fazem sexo e mulheres fazem amor” como uma espécie de regra de conduta, não dispensava em perder noites de sono no MSN falando com diferentes homens. Na verdade, o simples fato de não se assumir como uma lésbica completa (já que só queria “beijar as amigas”) demonstrava falta de opinião, no mínimo. Pobres meninas orkuteiras, sub-produtos da geração MTV, que nem convicção de sua opção sexual tem.
O encontro
“Dating man/women”? Sei.
Ache um ponto em comum. Qualquer um. Pode ser aquele filme esquisito, tão cult que só ela e mais 73 pessoas do Orkut assistiram além de você. Então faça contato. Funciona quase sempre. Se ela for de alguma forma comprometida, e você der sorte de a pegar num dia de insatisfação, deixe um elogio, por mais despretensioso que seja. Massageia o ego, é considerado “normal”, e você certamente colherá os frutos depois! Sabe como é: quando a noite desce seu manto de escuridão sobre nós, as coisas que geralmente são erradas aos olhos do dia parecem subitamente certas, e de alguma maneira até agradáveis…
Essa foi a tática dele, e deu tão certo que encontrou Bel no espaço de poucos dias. Impressionante como as amizades (ou algo próximo disso, em bytes) se firmam em tão pouco tempo, na mesma velocidade em que acabam. Ela realmente era ruiva e peituda. Mas sabe quando a pessoa é, de certa forma… menos? Como se tivesse algo errado? Ela parece “menos” bonita que nas fotos do álbum, “menos” inteligente… “menos” interessante do que o virtual pintava! Culpa da imaginação fértil das tecladas absurdas da madrugada, onde deusas e demônios virtuais nascem e morrem. O real não era tão atraente quanto a entidade virtual que criara pra ela, mas enfim… a voz era a mesma, tanto pelo telefone quanto ao vivo!
Ah, o telefone dela estava no Orkut, para quem quisesse ligar…
O telefone
Ele nunca mais esqueceria aquele telefone. Logo na primeira vez em que ligou foi surpreendido:
-Alô, Bel?
-Me fode.
-Hã?
-Vai logo, eu sei que é você, tava esperando sua ligação! Quero te lamber e chupar.
Ele entrou na brincadeira, excitado com o inesperado: “Chupa. Quer sentir meu pau enchendo sua boca, pulsando?”
-Dai você goza. Sinto sua rola latejando, golfando e golfando jatos quentes na minha garganta!
-Não quero gozar na sua boca ainda. Me conta como tá chupando.
-Eu chupo sua cabecinha, depois enfio toda na boca, cada vez mais rápido. Ai, estou muito excitada!
-Minha cabeçona tá arroxeada de tesão, de tão excitado que estou. Te ponho de quatro e pego pelos cabelos.
-Continua meu tesudão. Não pára, quero gozar!
-Tá sentindo aquilo tudo que você chupou entrando…?
-Vai, com força! Estou peladinha aqui, apertando meus seios e me masturbando! Ai, que delícia!
Ela podia não estar pelada do outro lado da linha, mas ele realmente ficou acariciando o cacete duro ouvindo Bel gemer pedindo porra… Depois desligou, sentindo um vazio e com aquela cara de otário que chega após toda forma de sexo virtual… ou como se fosse um adolescente que acabara de se masturbar! Entraria na comunidade disso no dia seguinte. Afinal, seria legal falar desse assunto com todos os orkuteiros, não?

 

Parte II

 

O sexo
Cara a cara com ela, ele ironizou aquela estória de “golfando, golfando”, e confessou que só não riu pois realmente tinha se excitado, e suas gargalhadas quebrariam o clima. Ela não pareceu nada envergonhada com a observação.
-Você só faz sexo virtual? – ele perguntou, enfim.
Bel deu um risinho sem graça e não respondeu. Então abriu a calça de cintura baixa, baixando também a calcinha, e mostrou uma intrigante tatuagem em forma de código de barras no lugar dos pêlos pubianos. Lembrou que ela fazia parte da comunidade “Depiladas” no Orkut, e que fazia juz. Mas sexo real, a princípio, foi “de menos” também. Bel não era tão quente quanto o virtual sugeria, nem chupava muito bem como teclava no MSN, desmistificando que as tais “bi-curious” são muito hábeis usando a boca.
Acabaram transando como uma fria obrigação entre dois desconhecidos, de maneira convencional. Não sentiu-se tentado a beliscar aqueles mamilos, apesar de ter lido um post dela falando o quanto sentia tesão dessa maneira (impressionante como as pessoas “se abriam” no meio virtual e não na realidade). Tinha vontade de cuspir nela, na língua, bem dentro da boca aberta, ou de gozar na cara apenas para ir passando o pau duro, juntando o esperma e esfregando nos lábios entreabertos; ver a expressão enojada no rosto dela (que não gostava de engolir), mas não fez nada disso.
A transa evoluiu para movimentos rápidos de bate-estaca, sem nenhuma sensualidade envolvida. Ele a fodia com força enquanto ela mordia seu queixo de maneira mecânica e gemia. Resolveram ousar um pouco, e as longas pernas que tanto a orgulhavam apareceram enfim quando se inclinou frente a ele, segurando os próprios tornozelos.
A visão daquele bumbum oferecido e empinado fez com que ele pegasse a única coisa lubrificante que tinha em mãos naquele momento: o líquido que usava para umedecer suas lentes de contato (“Você de óculos fica com cara de nerd!”). Lambuzou o buraquinho dela, excitado com a visão, e depois penetrou firmemente…
A submissão
Enquanto ele enfiava aquilo em sua bunda, Bel analisava friamente o que estava acontecendo. A camisinha melada, que só protegia o membro latejante dele, fazendo uma fricção gostosa em seu ânus  em movimentos irregulares e violentos (mais gostosa ainda quando era com violência) mas que, no fundo, só servia ao prazer dele e a expunha à troca de bactérias, já que o canais vaginal e anal são muito próximos. Ele literalmente cutucava o intestino dela, de fora pra dentro, o que era totalmente contra sua anatomia, afinal… o canal intestinal serve apenas para expulsão! Bel sabia – enquanto ele puxava seus cabelos gritando tudo o que pensava dela – que um incontável número de vasos sangüíneos estavam explodindo naquele instante dentro de seu buraquinho, deixando todo seu sistema aberto às contaminações.
Mas Bel era de outra estirpe. Não era uma garota normal, com anatomia normal. Apenas analisava para entender o prazer do homem e fazer melhor na próxima.
Ele, por sua vez, lembrou então do scrap que leu no meio de outros 2048 no profile de uma daquelas garotas super populares do Orkut, onde ela narrava que gostava de alternar penetração anal com vaginal. Seria ela depravada, desinformada ou simplesmente mentirosa? Decidiu experimentar aquilo em Bel. Deu-lhe um tapa bem sonoro e apertou com força as nádegas dela, retirando seu pau da bundinha, lentamente, deixando a camisinha lá dentro. Sem perder tempo, penetrou a vagina encharcada que se abria logo abaixo. Após uma luta suada e selvagem ele gozou, inundando sua amante ruiva com esperma.
Ela foi tomar banho, e ele quis telefonar. Nunca esqueceria aquele telefone. Então porque, agora que estava com o aparelho dela na mão, não dava linha? Que mensagem era aquela, fria e metálica que dizia em sua orelha que o número era inexistente? Por onde ela se conectava à internet afinal? Sacou o próprio celular e ligou para o aparelho que estava inerte ao seu lado. Novamente a voz metálica informou que o número discado não existia. E lá no box apertado, ela terminava de tomar seu banho…
A verdade
-Bel?
-Você já deve saber agora. – ela começou, sombria – Sim, eu me chamo Bel. Mas também sou muito confundido, tenho várias crias… Echelon, por exemplo. E eu não sou o Grande Irmão, e sim aquele que o inventou! – ela deixou cair a toalha, e sua pele pareceu confeccionada em plástico. Um estranho zumbido, vindo de lugar algum, a acompanhava.
-Quem é você?
-Veja o poder que emana de mim, mortal. Eu crio e destruo relacionamentos. Todos sentam-se em frente ao computador e me adoram, me alimentam dia e noite com suas tristezas, alegrias, fantasias, medos e traições. Veja como sou poderoso, como todos são dependentes de mim: eu sou o criador, mas também sou a tecnologia em si!
-Você não existe! Não é real! – ele gritou, enquanto o zumbido ameaçador aumentava a cada passo de “Bel” em sua direção.
-Ah, existo sim, pois VOCÊ me transforma em real e me entrega sua vida. Eu sou Belphegor, aquele capaz de contaminar até mesmo a igreja, destronando o papado moderno com escândalos de fotos de homossexualismo e pedofilia em seus computadores!
Então Bel – na verdade Belphegor – o pior dos demônios atuais, criador incansável de armas e maquinários destrutivos, que forjou o aço de Damasco, deu aos homens a pólvora e trouxe a bomba atômica, empurrou o homem até o sofá. Não dava para chamar aquele corpo feminino de robô, nem de ciborgue, mas também não era uma mulher. Era algo máquina, algo demônio! Suas unhas vermelhas – perfeitas – saltaram, e ele quis ser cravado por elas.
Sentada no peito dele, ela acariciou suavemente seu rosto com a mão direita, e enfiou o dedão na boca do homem. Ele relaxou, mas subitamente o dedo indicador de Bel perfurou seu olho esquerdo:
-De agora em diante a cor de seu cabelo será em código hexadecimal e você conseguirá assobiar em bauds. Seu grito será estática pura, e seus gemidos de dor serão como ruídos de conexão por modem!
Desde então ele deixou de ser uma pessoa, e transformou-se num quadradinho, uma mera foto num painel azul-claro, esperando pacientemente até que alguém clicasse nele…

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