Por Caio Bezarias
Com a sempre paciente e cuidadosa revisão de André L. Pavesi

 

Parte I

 

Uma madrugada de novembro de 2015, num bar da Martins Fontes

– E então, você quer saber a treta que rolou e fechou o Atlantic pra sempre? Ou vai me dizer que acreditou no papo das autoridades – polícia, prefeitura, toda essa cambada – de que depois do massacre, a porra do lugar foi desapropriada e seria demolida, como parte da reforma da Roosevelt? Cê não acredita nisso, né? Porra, o imóvel em que era o Atlantic fica no lado da Nestor Pestana oposto à praça!  Por que iriam desapropriar algo ali? Não mexeram num tijolo daquele lado, mas pá! Fecha, desapropria, que a prefeitura precisa do terreno para a reforma. Isso já faz anos e tá fechado até hoje!  E essa porra dessa reforma, que transformou a praça em mais um local limpo e bonitinho de “qualidade de vida” para todos esses burguesinhos escrotos que dominaram a região – cara, reparou como o pedaço foi tomado por prédios mauricinhos, uns lugares horrendos, certinhos, limpinhos, luzinhas e decoração, cheios de uns filhos-da-puta que pagaram 300 paus por uma merda de uma quitinete melhorada de 40 m2 e ainda se acham o máximo? E pensar que expulsaram os puteiros, as putas e os malucos da região para essa gente metida ficar de boa, acharem que são o máximo e vivem no máximo!

Jorge bebeu praticamente todo o copo de um só gole e encarou o sujeito. Sempre se irritara com gente sem uma fala linear, organizada, que pula de um assunto para o outro, que adora desfilar suas opiniões e sabedoria sobre tudo e todos para o primeiro besta que lhes dá um minuto de atenção, uma praga que infestava bares, pontos de ônibus, lanchonetes, onde quer que desconhecidos se juntassem por qualquer razão em São Paulo lá estava um exemplar dessa gente desesperada e entediante. Já ia se despachar, falar qualquer coisa e sumir, quando o tipo, um quarentão meio desgrenhado – bafo de cachaça, nariz e orelhas vermelhos, magro de braços e pernas mas com barriga saliente, cabelo bem grisalho crescido e disforme precisando de um corte, roupas ainda limpas mas gastas, entremeadas de fios soltos aqui e ali – em suma, um cara a poucos passos de cair numa vida errante ou até mesmo na mendicância, disparou:

– Aconteceu uma treta lá dentro daquele pulgueiro, que não passava de um antigo bordel transformado em balada de rock, metal e gótico para uma garotada se acabar de bebida, sexo casual e todas essas merdas, uma encrenca sobrenatural na dark room, que ficava no alto, no fim de uma escadaria –  caraca, meu, os caras tiveram uma sacada e tanto, hein? A sala reservada para os casaizinhos de uma noite se atracarem, o ponto alto da noite para eles, ficar no ponto mais alto do lugar, pegou?

Jorge encheu apenas seu copo e bebeu tudo de um só gole mais uma vez. O cara não se importou: pegou a garrafa das mãos do outro e encheu seu copo com a maior calma.

– E o que a treta tem a ver com o fechamento do lugar?

– Foi coisa feia, terrível, pesada demais para uma casa noturna acostumada a mulheres bêbadas trocando tapas, caras brigando por mulher, essas coisas banais, o que rolou foi muito, mas muito mais pesado, tão pesado que a atmosfera, o clima do lugar ficou impossível. Você quer mesmo saber? É algo, tipo, impossível, cê com certeza vai me achar louco ou cascateiro.

– Tenho certeza que você é um pouco de cada, meu amigo, então, manda ver. Pra que eu teria aturado sua ladainha até agora?

O cara não moveu um músculo; os sentidos sobrenaturais de Jorge não acusaram uma única reação à provocação, o que o intrigou um pouco.

– Vamos, desembucha cara!

O quarentão soltou um sorrisinho sacana e começou:

– Você talvez não acredite em nada disso, mas essa cidade é uma fervilhação de coisas esquisitas, sobrenaturais mesmo, desde sempre, desde antes, antes de qualquer coisa que se pense. Antes mesmo dos portugueses chegarem já era uma coisa terrível: no Vale do Anhangabaú tinha tantos espíritos e monstros que os índios davam uma puta volta para contorná-lo, os morros da Cantareira e umas quebradas em volta do pico do Jaraguá ocultavam umas coisas que nem eles sabiam direito o que era, até hoje ninguém sabe. Bom, o que eu vou te dizer é o seguinte – aproximou o rosto de Jorge, diminuiu o volume da voz e o encarou, olhos vidrados  – Tem vampiros e lobisomens andando por essa cidade, matando, pervertendo as pessoas e guerreando entre si.   Mas  o que ocorreu lá não teve a ver com eles, foi uma coisa que apavorou até esses seres das trevas.

Jorge arqueou as sobrancelhas e deixou escapar dos olhos um infinitesimal lampejo de luz amarela, o brilho característico nos olhos de um licantropo.

– A pegação dentro do lugar era frenética: beijava-se uma e imediatamente após você estava beijando a amiga dela, que estava ao lado, a seguir estava beijando as duas ao mesmo tempo, depois elas te largavam e iam paparicar, com beijos e boquetes, o vocalista rockstarzinho de uma das péssimas bandas que tocavam lá, que ficou putinho e enciumado ao ver suas frangas com outro, meninas se atracavam com meninas para provocar os caras, uma doideira. – O tom de voz com que descrevia o Atlantic (nada de novo ou espantoso para um roqueiro rodado como Jorge) era o típico de sujeitos velhuscos que invejavam toda aquela putaria e se remoíam ou por nunca terem desfrutado dela ou por seu tempo de juventude e aventuras ter passado.

– E daí?

– A quantidade de intrigas, briguinhas e troca-troca de casais que rolaram lá, durante os anos, foi infinito, gente aos montes em busca de emoção, de algo para agitar suas vidinhas vazias ou tristes, um chamariz e tanto para os seres das trevas, principalmente os sanguessugas.

Os pêlos das orelhas de Jorge se eriçaram – um sinal lupino que somente outros licantropos perceberiam com facilidade, mesmo num ambiente repleto de fumaça e barulho – Esse termo era corrente, para se referir aos vampiros, somente entre os licantropos, era pejorativo, e… desconhecido dos humanos. Afinal, quem era esse cara?

 

Parte II

 

– Mas o lugar era quase ignorado por esses seres, muito raro um vampiro ser visto lá, caçando ou apenas se divertindo, pois a cidade é tão grande e caótica, tantos prédios, becos e cantos para dar cabo de um humano e se livrar do corpo, que o  Atlantic, em que as pessoas eram tão pegajosas, se insinuavam, se trombavam ou arrumavam encrenca por muito pouco era um retrocesso, um fim da linha total, principalmente se comparado ao lendário Darkness, onde os seres das trevas circularam sem problemas anos a fio.

– Cara, você é uma enciclopédia ambulante da vida  noturna da cidade.

O riso do sujeito foi interrompido por um acesso de tosse, que terminou numa portentosa escarrada na calçada, disparada sem pudores. Depois esvaziou mais um copo, a garrafa, fez sinal pedindo outra e continuou:

– Cê já ouviu falar de possessão licantrópica? Pessoas que acham que são lobisomens e saem mordendo, rasgando, mutilando, ma-tan-do? – Seus olhos faiscavam, a boca aberta, os dentes amarelados saltados, baba acumulada nos cantos do lábio inferior. Claro que nada suficiente para assustar Jorge, apenas sentir um pouco mais de tédio e asco para com a espécie humana.

– Sei, gente tão maluca, tão doente, que para justificar sua maldade passa a uivar para a lua, mijar em postes e árvores e matar criançinhas, imaginando que é um lobo feroz e sanguinário. Vai me dizer que tem gente assim andando por aí, aqui em São Paulo?

– Não é isso; não é imaginar que é bicho, é virar um! Ser possuído pela memória animal, devido a um trauma ou tensão que destruiria uma pessoa comum, pode acontecer: um indivíduo quer tanto fugir de sua condição, está tão farto de SER humano que mergulha na mãe de todos, na fonte dos seres e das coisas e contata e se funde com o espírito ancestral de um de nossos irmãos animais. E de um momento para outro um homem ou mulher cria músculos, pêlos enormes e grossos, a boca vira uma bocarra cheia de presas e temos um lobisomem, um homem que regrediu ao puro animal.

– E foi isso que aconteceu no Atlantic?

– Puxa, como você liga bem as coisas! Um sujeito comum, um dia, ou melhor, uma noite, não explodiu, mas se tornou o que sempre foi latente nele; um cara comum, um tipo que ia ao Atlantic semana após semana, atrás de tudo aquilo que qualquer garoto da idade dele queria: balançar a cabeça ao som de heavy metal, meninas, álcool, diversão. Era só mais um garoto, buscando o que muitos outros buscavam. Ele quase sempre conseguia o que queria, mas você saber como os homens são idiotas na adolescência – somos por toda a vida, mas quando a cabeça de baixo manda mais que a de cima, aí ferrou-se – confundem tesão, paixão carnal com amor sincero e puro que é uma beleza! E lá vai o meninão que acha que encontrou sua musa eterna se desesperar ao descobrir que ela não passa de mais uma biscate como tantas outras.

Parou, tomou mais um gole e olhou fixamente para as luzes dos prédios próximos, como se esperasse que algo lhe sussurrasse nos ouvidos a próxima parte da história que narrava. Qual espécie de musa se dignificaria a soprar nos ouvidos desse sujeito?

– Ele tava vidrado numa mina fazia tempo, uma daquelas góticas que desfilavam no pulgueiro apertadas dentro de espartilho de laçinhos e cinta-liga vermelha. Além de linda e gostosa, a conversa papo-cabeça rasa dela fascinou aquele rapaz da periferia que mal sabia pronunciar o nome das bandas de metal que curtia. Só que, claro, ele era nada ou pouco mais para ela: apenas mais um dos caras que ela usava, noite após noite, para se divertir e para provocar o cara de que ela realmente era a fim. O pobre coitado do garoto não percebeu que ele era somente mais um inseto, entre milhares que rodopiavam ao redor da beleza e sedução dela e que seria queimado por essa luz em breve.

– Foram meses nessa: ele atrás dela, uma ficada aqui, outra ali, depois ela nunca estava disponível, ou então  dizia que ia ao banheiro, não voltava e ele a pegava no colo de outro, ela deu os números e endereços  de toda essa porcariada eletrônica em que as pessoas se viciaram, endereço de MSN o escambau, telefone disso, face não-sei-o-quê, e sempre fugindo do moleque, louco para tê-la e sempre sendo frustrado. E bem, as crianças e jovens deste milênio, dizem os mais velhos e “sabidos”, não aceitam frustração.

– Historinha longa.

– Calma, já estou chegando na melhor parte. Pô, a cerveja acabou de novo! Mais uma!

Dois generosos goles e continuou:

–Até que numa noite a vagaba foi longe demais: estava aos beijos com nosso herói quando viu seu muso aparecer com outra putinha, sua rival, pendurada no saco dele. Ela simplesmente o largou, apanhou o muso – após um belo e desmoralizante safanão na rival, claro! – e o arrastou para a dark room. Nosso amiguinho ficou um tempo desolado, encostado no balcão, o peso do mundo em seus ombros magrelos, mas súbito algo se agitou dentro dele, sentiu como que uma coisa mordendo sua coluna e ordenando que fosse homem, que tomasse o que era dele, que agisse como animal, se necessário. Infelizmente para ele, os infelizes que acasalavam na sala escura e para a história do lendário Atlantic, ele tomou essa última ordem muito ao pé da letra…

 

Parte III

 

– Ele foi atrás deles, entrou na dark room e, posso imaginar a cena, ao se  ver numa escuridão daquelas, cercado de gemidos e sussurros, sabendo que um desses gemidos era ela sendo comida pelo cara, ele simplesmente explodiu de raiva e seu espírito, sua essência, se deixou tomar pela fúria animal e a essência de lobo encarnou nele e o transformou em um lobisomem alucinado?

– Bingo!! Muito bem, garotão.

– Quer que eu acredite nisso? – E Jorge lembrou-se, com riqueza tremenda de detalhes, do furor que o “massacre na casa noturna gótica” causou, afinal era parte do passado recente e ainda muito falado, discutido e distorcido cidade afora. Lembrou-se das campanhas histéricas dos demagogos de sempre da imprensa, pedindo o fechamento de todos os estabelecimentos do gênero na cidade, da gritaria de parentes e amigos das vítimas a exigir uma explicação que nunca veio, do previsível e imediato fim do Atlantic, com graves conseqüências para alguns e principalmente da tensão que causou entre os seres das trevas, que, após breves e violentas acusações mútuas perceberam que o massacre fora causado por algo que desconheciam, um outro tipo de criatura sobrenatural que vagava pela noite, que poderia trazer uma atenção indesejada aos demais seres das trevas, o que os licantropos e vampiros evitaram com muita dificuldade.

– E o licantropo dilacerou todos que seus sentidos hipersensíveis encontraram lá dentro. Foi uma coisa tão rápida que os casais nunca souberam o que os matou, alguns tiveram o corpo rasgado durante a penetração, morte boa, hein? Morrer enquanto goza. O segurança que ficava de tocaia por ali também teve o mesmo fim. Ninguém nos pisos inferiores ouviu coisa alguma: a porra da dark room, como eu disse, ficava bem lá no alto e a desafinação estridente dos grupinhos cover de merda completou o serviço.

– O monstrinho sumiu de vista, coisa fácil, considerando que o teto daquilo lá tinha uma porção de ajustes e gambiarras bem fuleiros. Logo depois, encolhido num canto escuro qualquer, retornou à forma humana e saiu cambaleando pelas ruas do Centro, seu corpo dolorido e cheio de hematomas, sua cabeça zunindo, sem entender bulhufas do que se passava, tão zureta que praticamente se jogou em cima de um carrão que passava pela Augusta e foi moído na hora. Ninguém ligou sua morte estúpida ao massacre, ninguém desconfiou que o sangue que o cobria não era dele e o principal, no meio da histeria e caos que se instalou no Atlantic, às quatro da manhã, quando finalmente descobriram o que ocorrera lá no alto, quem iria reparar que um tipo qualquer, sem graça e pouco conhecido, tinha saído do pulgueiro sem passar pela porta?

– Então foi isso que ocorreu lá? E como você sabe tanto dessa história?

O sujeito mais uma vez ignorou a pergunta que julgou não precisar de resposta, inclinou-se para a frente, para observar o pouco do céu que era visível  do balcão  e assim ficou por algum tempo, até que o dono e balconista do bar chegou até eles e disse:

– Aê, amigos, estamos fechando.

O sujeito pagou as cervejas, apontou para um bar aberto no fim da rua à frente dele, quieta e sem movimento, que avançava para o interior do Bixiga e propôs:

– A saideira, beleza?

Enquanto caminhavam mais continuou seu relato que respondeu a última pergunta de Jorge:

– Os antigos nórdicos, os vikings, tinham uma porção de deuses, e tinham muitas histórias sobre eles, histórias que na maioria se perderam ou foram distorcidas; tem uma bem estranha e pouco conhecida, em que Loki, o deus arteiro, do caos, eterno criador de problemas para os outros deuses, apronta uma bem grave e toma a dura mais violenta que Odin, o chefão, o deus supremo dos guerreiros chifrudos podia lhe dar. Contam, e isso seria um segredo sombrio e secreto que poucos vikings sabiam e evitavam ao máximo mencionar, que havia outras entidades muito, mas muito mais poderosas e antigas que os próprios deuses nórdicos, uns seres imensos e misteriosos que viviam sentados em montanhas acima de Asgard, seres que eram para os deuses o que eles eram para os humanos. Odin, diante da maldade e falta de princípios de Lokin alertou:

“ – Deus da trapaça, você quer causar a ira dos que estão acima de nós, Aqueles que Vivem Acima e nas Sombras?”

– Loki encolheu-se, baixou a cabeça e voltou para suas traquinagens habituais.

O olhar de Jorge misturava impaciência, irritação, por não ter compreendido um evento e pior, sentir-se idiota por ter participado desse evento.

– Em São Paulo também existe algo que vive nas sombras, nas sombras formadas pelas esquinas, prédios, histórias e lendas desta cidade, algo mais poderoso e assustador que todos os seres sobrenaturais que andam por ela. Mas não está acima, está aqui, com nós e entre nós, e é o próprio espírito da cidade, sua essência, que já se tornou uma força que age de maneira independente dos humanos mas não necessariamente e sempre contra eles. O espírito da cidade sentiu que os homens precisam do mistério, do mito e da lenda mais do que nunca, pois suas vidas são cada vez mais chatas, mecânicas e programadas e enlouqueceram por conta disso. Uma cidade em que mesmo o mais rodado policial de ronda noturna, o mais experiente jornalista de caderno policial, o mais sábio e observador dos boêmios ou o mais entendido pesquisador de sua história sente-se sempre como um iniciante diante de sua imensidão, desnorteado: é isso que as pessoas dessa cidade pedem a ela, é isso que ela dá. Enquanto cresce sem controle e torna-se cada vez maior e mais complicada, São Paulo cria ou mantém dentro de si lugares obscuros, assustadores e lendários, alimenta as lendas associadas a esses lugares, pois repito, seus habitantes, nos sonhos, nos delírios e no inconsciente, pedem a ela exatamente isso. E é exatamente por isso que o imóvel em que era o Atlantic está fechado até hoje, podre, lacrado, mas exibindo o neon rachado e desligado. A cidade mexeu seus pauzinhos sobrenaturais para que fique assim por muito, muito tempo, até tornar-se uma lenda tão entremeada no tecido da história do Centro que se confundirá com ele.  Olhe ao redor, cara, e sinta isso, você também pode.

Jorge fez o que o cara disse movido não por obediência, mas por maravilhamento com a revelação estranha e fascinante que recebera. De costas para ele, olhou por algum tempo para os perfis dos prédios do Bixiga, recortados contra o céu escuro e nublado. Ao voltar-se para fazer a óbvia pergunta que o fustigava  (“quem é você?”), viu-se sozinho.

Não havia ninguém ou nada a seu lado.

 

 

 

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