Por André Luis Pavesi
Com revisão de Caio Bezarias

 

Como é mesmo aquela música? Nas noites de frio é melhor nem nascer. Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer.

Pois é, nas de calor, se escolhe. Matar. Morrer. Só que o calor que me faz saltar como um lobo gigante pela janela do meu apartamento (ou deveria dizer apertamento?) não tem nada a ver com a temperatura ou o clima. Bom, até tem, por que tem tudo a ver com a lua cheia brilhando no céu. Alguns gostam de chamá-la da Lua dos Amantes. Eu prefiro pensar nela como a Lua do Caçador.

E é com aquele banho de luz cobrindo meus pelos que corro como um alucinado, saltando de prédio em prédio, incrível como meia dúzia de passos basta para que eu me sinta como parte da noite, saltando de telhado em telhado, livre como só os loucos podem ser, o vento batendo em meu rosto – bem, na verdade em meu focinho e meus dentes dignos do conto da carochinha.

Quem já tentou parar de fumar sabe como é o gosto e o prazer do último cigarro, o sujeito prende a fumaça e reza para que aquela sensação nunca termine. Pois é, é bem assim que me sinto quando respiro o ar da noite, tantos cheiros, fedores e perfumes misturados, porra, é como se aquela inundação de cheiros me alimentasse a alma!

Sonhos de lobo

Se alguém pudesse me ver, e não morresse de susto, é claro, talvez pudesse ver a alegria quase infantil com que corro pelas ruas vazias da madruga paulistana, como me balanço preso apenas por uma mão no parapeito dos viadutos – experimentem um dia desses passar pelo Viaduto do Chá se balançando como um Tarzan over-peludo, mas por DEBAIXO do viaduto. Eu recomendo.

Quantas marquises de prédios já escalei – foi mal pelos eventuais buracos de garras e arranhões, galera da manutenção! Quantas vezes já subi ao topo dos grandes prédios na paulicéia, apenas pelo prazer de uivar lá de cima, como quem diz “você é minha, minha cidade, meu campo de caça e de prazeres”.

Campo de prazeres? Sim, amigos, prazeres. Nem sempre minha caminhada noturna é em minha forma suprema, também conhecida como big bad wolf – vamos lá, você sabem, centenas de quilos de pelos, músculos, dentes e sem nenhum caçador pra tirar a vovozinha. Numa forma intermediária, que me deixa parecido com um desses sujeitos que ralam horas nas academias de musculação, ando pelas ruas desse inferno urbano que tanto amo como um galante cavalheiro da noite, vagando por seus bares, seus becos e avenidas, e escolho as mulheres pelo cheiro do seu cio, é quase como colher flores selvagens no campo urbano, cada uma única em si mesma, sempre um pequeno detalhe especial, algumas ornadas com piercings, tatuagens, vestidas com couro e jeans para a guerra nossa de cada noite, algumas vestidas como se implorando por uma ponta na novela das oito ou no próximo BBB, outras tão cuti-cutis de new românticas e seus vestidos de grife comprados na Oscar Freire…mas querem saber? No fundo todas têm duas coisas em comum: primeiro, todas estão perdidas em suas vidas noturnas, às vezes mais de uma vida distante de sua versão diurna, envolvidas em suas caçadas particulares  e buscando sua private kind of happiness; segundo, todas acabam submetidas ao meu apelo animal, ao brilho da lua em meu olhar, ao chamado da noite sem fim, resumindo, à certeza da paixão em meu toque. Elas sentem, amigos, elas percebem todos os prazeres que as esperam em meu desejo. E ao final dessas noites, alimento meu espírito com o de cada uma delas, com suas essências, seus eflúvios, com seu desejo carnal, sensual e primitivo despertado por minha própria natureza animal. Mas sinceramente, até hoje nenhuma delas saiu reclamando.

Nas noites da grande mãe-lua brilhando lá no alto, às vezes é fácil deixar a fúria fluir, e transformar a noite numa imensa caçada, escolhendo minha presa, cercando-a a cada passo, mesclado às sombras, farejando seu medo, vendo em seus olhos secos e arregalados a certeza do seu fim. Aquele barulho tão familiar como um velho blues das garras rasgando a carne morta que anda na noite em forma de homem, num imenso gozo de ataque e destruição, rasgando e esmagando o inimigo desmorto. Afinal de contas, lobos e morcegos nunca se bicaram, então apenas cumpro minha missão ancestral, e quer saber? Adoro cada segundo de cada vitória, saboreio cada membro arrancado, cada grito de dor e pedido de piedade. Não há salvação para qualquer morceguinho que cruzar o meu caminho.

Mas as noites de fúria geralmente terminam com mais um pouco de diversão violenta. Não há como dizer como é divertido escolher um dentre tantos grupos de imbecis que vagam pela noite, quanto maior, mais barulhento, mais babaca e sujo melhor, e provocá-los, irritá-los, zombar de seus maneirismos, vendo como são todos tão cheios de si ao ver um sujeito sozinho e cercado por eles. Ah, que delícia quando o medo toma o lugar da surpresa em seus rostos ao notarem que eu, sua suposta vítima, salto sobre eles, pegando um deles pela cabeça com apenas uma das mãos, e socando o desgraçado no chão como se estivesse esmagando uma barata. Ah, o prazer de bater um imbecil contra as paredes uma, duas, três vezes!! O êxtase da fúria derramando pra todo lado uma tormenta de socos e pancadas, invencível, nada sequer abalando a fúria do lobo em forma de homem, cada pancada absorvida como uma brisa e respondida com violência redobrada, cada bala sendo nada mais que uma picada de mosquito.

Nessas noites, sinto que enquanto houver a Grande Mãe brilhando no céu, estarei vivo, estarei livre, minha cidade aos meus pés como um campo de caça sem fim.

Mas nascendo o dia, acordo de meus sonhos de lobo. Ainda com o gosto da liberdade impresso nos meus olhos, eu os abro apenas para ver que tudo continua igual, e que as rodas que me prendem ao chão e a dura realidade da minha vida repousam ao meu lado, me esperando para mais um dia vulgar, comum, sem brilho.

 

 

Anúncios