Por André Luis Pavesi
Com revisão apurada de Caio Bezarias

Numa noite de sexta-feira que ficaria registrada na história como a mais fria noite paulistana em duas décadas, o padre consultava seu relógio – quase meia-noite – enquanto descia a Avenida Liberdade com o ar gelado lhe rasgando as vias aéreas. O pensamento de uma boa caneca de chocolate quente, talvez com algumas gotas de rum para aquecer, o fazia acelerar o passo mais um pouco.

Ao chegar perto do Viaduto Jaceguai, o padre logo percebeu, mais pelo cheiro de mijo velho que empesteava o ambiente do que por qualquer outra coisa, o habitual grupo de mendigos que costuma dormir num terreno ao lado de um supermercado. Sabendo que esses tipos sempre são atraídos pela batina, acelerou ainda mais um pouco o passo, afinal não estava disposto a ouvir choramingo de mendigo àquela hora da noite.

Mas seu esforço foi em vão: antes que conseguisse alcançar o viaduto, o padre foi interpelado por um dos mendigos, uma figura maltrapilha – impossível dizer se homem ou mulher – terrivelmente suja e coberta por trapos imundos e peças descasadas de roupas da cabeça aos pés, com pedaços de saco de lixo enrolados nos pés e pernas. Por baixo de um gorro ensebado, seus olhos brilhavam com uma avidez surpreendente no rosto inchado de bebida, parecendo antever as delícias alcoólicas que iria consumir com a grana que pretendia extorquir do padre. Afinal de contas, onde já se viu um padre negar uma esmola, certo?

Parando de forma súbita na frente do sacerdote – como diabos esses mendigos conseguem sempre andar tão rápido quando querem? – se perguntou o padre – o mendigo começou a sua ladainha de sempre, com uma voz enrolada, embolada, quase sem mexer a boca, os olhos correndo rapidamente pela figura do padre, como se avaliando o tamanho da esmola que iria arrancar.

Com uma quase finta, o padre se desviou para o lado, beirando a sarjeta, tentando fugir do mau cheiro que exalava do mendigo. Definitivamente, aquela não era uma noite pra se fazer caridade. Mas o mendigo não iria desistir tão facilmente e começou a resmungar ainda mais alto, seguindo o padre que tentava se desvencilhar dele, até que num movimento mais brusco segurou-o pelo braço.

Foi seu pior erro. Agarrar o braço do padre foi como segurar um fio desencapado de alta-tensão de memórias…enquanto o padre parecia se deliciar com as podres lembranças captadas diretamente na mente entorpecida do mendigo, toda uma vida de erros, começando no abandono da escola, os primeiros goles de cachaça ainda antes dos sete anos, uma mal-sucedida carreira como faz-tudo em obras e reparos em geral, tantos e tantos empregos perdidos por conta das bebedeiras cada vez mais freqüentes, as primeiras pedras de crack explodindo o pouco que restava do cérebro de Josivaldo Washington – Porca miséria, que porra de nome é esse?!?, pensou o padre – as inúmeras vezes em que o mendigo se prestou aos mais sujos papéis para conseguir sua cachaça e sua pedra, como da vez que aliciou dois garotos a entrarem no carro de um figurão para aparecerem na quebrada mortos e sem uma gota de sangue na manhã seguinte, ou das vezes que chupou seu traficante em troca de duas pedrinhas –mais duas pedrinhas, sempre mais duas pedrinhas, só mais duas, por favoooorrrrr …

Mas o mendigo também mergulhou nas memórias do padre…lembranças tão imundas e torpes que fizeram a vida dele parecer um passeio no parque…lembranças de sangue e enxofre, de atos tão vis e perniciosos banhados em latim e hóstias profanas de uma igreja dedicada aos antigos inomináveis, de corpos humanos tratados, jogados e cortados como objetos, de almas amaldiçoadas a arder num ciclo sem fim de dor e punição…testemunhando na alma do sacerdote maldito um mal tão antigo quanto o tempo, de seres que andam entre os homens como lobos entre vira-latas, predadores de outros tempos e lugares, de cores, sabores e cheiros abomináveis que consumiram os últimos vestígios da mente racional do mendigo, daquilo que o mantinha – mesmo que porcamente – acima dos animais…instantes de contato com o mais puro horror reduziram o já desgastado mendigo a uma figura estática, os olhos ainda mais estrábicos e perdidos para sempre, um fio de baba escorrendo pelo queixo e pingando no chão.

Olhando fixamente para o mendigo, um sorriso maligno nos lábios, disse o padre, na língua que não deve ser usada, embora cravada nos recantos mais escuros da alma humana pelos deuses esquecidos de outrora:

– Agora, meu bom homem, por que você não pula desse viaduto e torna o mundo um lugar melhor?

E foi exatamente o que o corpo sem mente do mendigo fez, enquanto o padre dos deuses antigos se afastava, já pensando novamente naquela caneca de chocolate quente, batizada com umas gotinhas de rum, as memórias daquela noite ainda deliciando sua alma podre.

 

Anúncios