Por Caio Alexandre Bezarias
E a sempre precisa revisão de André Luiz Pavesi

 

O peixe arreganha mandíbulas que romperiam a espinha de qualquer dos grandes répteis aquáticos couraçados de eras futuras e avança na direção da vítima, outro placodermo-monstro, mas que possui apenas metade de seu tamanho. A bocarra do segundo peixe também se escancara, guiada pelo instinto de sobrevivência, mandíbulas forradas de dentes formidáveis que poucos vertebrados de brânquias alguma vez teriam, mas insuficientes para a luta que se aproxima. O peixe menor possui mais massa e tamanho que qualquer peixe de água doce que já existiu ou existirá nas águas da Terra.Mas o oponente é ainda maior, um gigante de nove metros enfurecido. Os imensos olhos deste gigante, imensos até para um peixe carnívoro que foi o predador máximo da era aquática, se arregalam e deles se desprende, pela primeira vez neste mundo manifesta-se uma força que atravessará todas as eras: o prazer da caça brilhando nos olhos do caçador, a força antiga e eterna que viverá em todos os seres seguintes e que me alcança, vencendo éons de distância.

O anfíbio de sete metros que se arrasta pela lama do brejo tem a forma de um enorme lagarto, assemelha-se a um dragão-de-komodo de outra era geológica, como se um antepassado incógnito dos lagartos-reis gigantes fosse, um antepassado dos grandes sáurios desconhecido, ignorado por todos que o sucederam, pois a memória racial da existência desse caçador dos pântanos da era das samambaias de trinta metros ficou oculta por eras geológicas inteiras, ainda que alguns dos maiores dinossauros bípedes carnívoros atacassem suas vítimas imensas e lerdas movidos pela mesma necessidade de carne e pelo mesmo êxtase da matança que o anima, forças que permaneceram caladas e ocultas geração após geração do que os mamiferóides arborícolas tentam ridicularizar como “sangue-frio”, como se essa simples particularidade  uma fraqueza ou deficiência fosse…  Pois esse sangue frio e lerdo possui um poder como nenhum outro, difuso por toda sua pele: uma inacreditável capacidade de detectar qualquer emanação de energia de origem orgânica – da mais reles onda de calor à mais fraca corrente elétrica dispersa no ar – um sentido tão acurado e sensível que detectava o movimento e o calor de uma libélula a vários metros de distância, sentido que desapareceu junto com ele, a se esgueirar pelas águas quentes e escuras, encontrando toda a vítima que queria encontrar. Esse prodígio não deixou um único sinal de seu corpanzil e de seus poderes gravados nas rochas, esse monstro admirável que parecia ter sido gerado em um planeta fabuloso foi filho da Terra e eu sou o primeiro a lembrar de sua existência curta e gloriosa em mais de duzentos milhões de anos, sou o primeiro a reviver a sensação e o momento em que ele despedaça com uma simples dentada um animal furtivo e esverdeado, o momento que fixa,  no turbilhão das imagens e memórias da jornada da vida no mundo, o que quase houve e o que por pouco não foi, pois esse anfíbio gigante, o maior que existiu, e seus parentes mais próximos, quase tão imensos como ele, estiveram perto de ser os nêmesis, de extinguir os primeiros escamados rastejantes, os primeiros verdadeiros donos da terra firme que medraram na Terra. Mas os pequenos e lépidos animais de escamas sobreviveram à perseguição de seus primos-antepassados graças aos dons que neles surgiram, que transmitiram aos seus sucessores e até hoje grassam planeta afora. Mas eu lembro e revivo o momento em que o anfíbio gigante saboreia a forma mais primitiva, mais germinal da vingança, enquanto sente a carne do lagarto que se nutre de seus ovos em seus dentes, ignorando por completo que será uma vitória efêmera e que seus poderes e domínio sobre o mundo serão malogrados.

O réptil de cor marrom, cauda longa e chicoteante, apenas semelhante a um lagarto, observou a vítima por alguns momentos antes de fazer uso de seu poder até então secreto, inclusive para si mesmo, para capturar o pequeno anfíbio que se julgou seguro por estar no alto do arbusto, a mais de um metro de distância de seu possível predador, poder nunca antes visto na superfície da Terra, um mundo nessa era coberto por planícies e descampados nus, um mundo que se regenerava e se recobria lentamente de vida mais uma vez, após ser castigado por uma rajada de energia incomensurável gerada na explosão de uma supernova próxima, que por pouco não cozinhou e dispersou a atmosfera do planeta galáxia afora, uma devastação tão grande que seria percebida meio bilhão de anos à frente. O não-lagarto, cujas patas posteriores eram bem menores que as anteriores, movido por algo tão forte como instinto, mas de uma origem ainda mais funda e incompreensível, usou estas, fortes e potentes como nenhuma outra criatura antes teve, para suportar todo o peso do corpo e dar o bote veloz e mortal em sua vítima, tornando-se o primeiro bípede. Aprisionou o pequeno anfíbio em suas mandíbulas cobertas de dentes serrilhados e partiu-lhe a espinha, marcando a alvorada dos que seriam os senhores do planeta por cem milhões de anos. O animal de pouco mais de um metro que descobriu poder mover-se em duas patas silvou à máxima potência de seus pulmões para os membros de seu bando, que caçavam nos arredores, para a savana inteira, para o planeta e o universo. Nesse momento glorioso os mais poderosos de todos os répteis, os descendentes mais admiráveis dos peixes que saíram das águas quentes e mortiças eras antes nasciam, e esse instante é rememorado em cada célula dos tecidos e órgãos do meu corpo que a evolução moldou para a predação.

 

Parte II

 

Somosfomoseremos os maiores matadores que já caminharam neste mundo, do passado, presente e futuro. Tempos, sensações e essas coisas débeis chamadas conceitos e palavras se fundem em um fluxo no qual o que foi anuncia o que será eterno e sempre lembrado, reverenciado e temido. A imagem de nossa força, nossa velocidade, nossa fúria, nosso porte, sobreviverá nos recessos mais ocultos e duradouros de todos os seres que viverem neste mundo após nosso reinado. Em meio a essa orgia os sabores se fundem aos odores, lembrando nossa origem nas águas ancestrais, quando o gosto era cheiro e o prazer da matança surgiu e impregnou-se no corpo de todos nós, uma linhagem que continua e continuará.

Alguns de nós possuímos mandíbulas que partem ossos da dimensão e o peso de um tronco de árvore, cobertas de dentes maiores que um pássaro, outros estão recobertos de maças de osso e placas que podem esmigalhar os crânios pesados e maciços dos mais temidos dos caçadores bípedes; ainda outros, pequenos, pouco dotados de armas naturais, bípedes como os primeiros de nossa raça, foram os primeiros seres a caminhar pelo planeta que desenvolveram a arte de manipular pedra e madeira, suas mãos escamadas envergando as ferramentas e armas primeiras que foram inventadas no mundo. Reinamos por mais tempo que qualquer outro grupo de animais reinou ou reinará, até onde o mergulho mais fundo e assustador na memória coletiva do passado e do futuro pode mostrar. E o mais espantoso é isto: nos retiramos deste plano, mas não da vida física, por nossa inteira decisão. Sim, nós partimos e deixamos a Terra para os voadores emplumados, que não são nossos descendentes, não são uma nova classe de seres, eles são inteiramente parte de nossa raça, eles são nós, para nossos primos encouraçados que dominaram os cursos de água doce e os pequenos e tímidos mamiferóides, que ousaram se mostrar após estarem muito perto do fim.

Sua bocarra, a força de suas mandíbulas, de seus dentes, a capacidade de rasgar, esmagar e matar o oponente com único golpe é a maior, mais forte e pavorosa de todas as eras. Não importa que suas mãos sejam minúsculas, ele é o mais majestoso e assustador de todos os lagartos gigantes. Todos seus antepassados, todos seus conterrâneos – seus primos, muito semelhantes a ele e quase tão poderosos quanto, os lagartos marinhos gigantes, seus parentes – seus sucessores – todos os mamiferóides caçadores, dos de bela pelagem que andam na ponta dos pés, aos uivadores que caçam em bandos; o tubarão gigante que resistirá milhões de anos, o suficiente para ser visto pelos primeiros humanos e ter sua imagem gravada na memória racial deles; os javalis-touros de duas toneladas, presas afiadas como lâminas, que percorrerão as ruínas da civilização humana; as lulas dotadas de tentáculos de trinta metros, cobertos de serras dilaceradoras, que dominarão os mares e rios da era após a queda dos peludos e emplumados – nenhum deles será tão magnífico e assustador, ele será o rei de todos os predadores, pois ele é o maior dessa linha, o ponto em que ela é mais densa, deixando uma marca indelével no tecido do tempo do espaço e daquilo do qual eles provêm, ao viver neste mundo.

Somos um grupo. Juntos, perseguimos, encurralamos e destruímos como  um só, somos astúcia, velocidade e a maior inteligência que já estendeu seu poder sobre o planeta. Nós somos os primeiros caçadores de pêlos, os primeiros sangue-quente matadores de grande porte a correr, saltar, esgueirar-se pelas planícies cobertas de grama, a trepar e se ocultar nas árvores, aguardando nossa vítima; pois nós não atacamos somente de maneira cega, pensamos e criamos novos ataques, emboscadas. Não somos nem jamais seremos os maiores, em força física e poder absoluto de destruição, da enorme linha de predadores que percorre este globo do início ao fim, mas somos os mais intrépidos, os mais sagazes. Somos os mamiferóides, os descendentes evoluídos dos lagartos-lobos, os répteis peludos que dominaram por pouco tempo as terras firmes do planeta, antes dos reptilóides gigantes surgirem, e que assim tiveram de se esconder e esperar, sem saber o que esperavam, até o momento em que tiveram o mundo em suas patas.

E eu conjugo os poderes de toda a família dos animais de pêlo. Em mim vibra o som das vozes dos canídeos que ladram, uivam e aterrorizam as noites das florestas e campinas do mundo há tanto tempo quanto existem vítimas para sentir o terror que espalhamos; o meu corpo explode com a agilidade dos felídeos que foram capazes de dizimar manadas e espécies inteiras com seus dentes do porte de punhais e saltos impossíveis; a velocidade dos primeiros cetáceos, reis dos mares desde sua aparição, foi-me transmitida; a força das patadas dos ursos gigantes da era do gelo, que decapitaram homens e feras, fervilha nos meus músculos. E a astúcia, a inteligência, a capacidade de mudar a tática, comportamento, mudar o modo de ser, estão em todos e estão no meu ser.

E após esse turbilhão, essa massa infinda de poder e conhecimento me inundar, aqui estou de volta ao tempo dos mamiferóides primatas , cercado por meus inimigos, os anormais, os não-vivos, os que se recusam a seguir a ordem da vida, não aceitam que a vida é transformação, é mudança. Eternamente doentios, insistem em prolongar suas vidas abjetas tomando a vida dos outros seres. Aqui estou, no centro de um círculo formado por esses asquerosos, no salão úmido e infecto de um casarão vazio e esquecido da cidade, no meio de uma noite de tempestade. Nesse momento  eu percebo que não sou superior a meus ancestrais, sou seu digno descendente e continuador, sou como  eles, essa sabedoria, de saber que ser um mamiferóide não me torna superior, mas apenas mais um elo na corrente quase infinita da vida, essa aceitação é reconhecida por Gaia, mãe de todos nós, e ela  me concede a  força imemorial, a energia supraespécie que cintilou nos mares de meio bilhão de anos atrás , nunca mais se apagou e me dará o êxito nessa luta. Todo o poder e a força dos animais do passado agora estão em mim. Os sanguessugas que me cercam são muitos e poderosos, mas não têm a menor chance, pois eu deslizo pelas sombras desta ruína com a elegância e o silêncio com que um peixe desliza pelas águas, percebo a presença de meus adversários graças a poderes sensitivos fabulosos até para eles, desfruto da agilidade dos primeiros dinossauros em meus saltos e golpes, a força literalmente esmagadora dos gigantes réptilóides comanda meus membros e a inteligência diabólica dos mamiferóides está toda concentrada em minha mente, para criar e executar modos de destruí-los que os humilham e desesperam.

A vitória é minha, rápida e gloriosa. Um bando de vampiros está despedaçado a meu redor, seus corpos fumegando e se desfazendo e eu tomado por um frenesi indescritível, pois além da vitória conquistada, nessa noite eu aprendo que os poderes que nós filhos de Gaia portamos e os humanos chamam de fantástico, sobrenatural, impossível, são tão somente outro aspecto da natureza, que ser um licantropo é conhecer e ter energias que estão na natureza e são parte da natureza, mas acessíveis apenas aos que foram abençoados por ela, que não temeram os extremos da vida e rasgaram os véus que a própria Gaia enlaça ao redor da mente e do corpo dos seus filhos. Hoje meu aprendizado completou-se, hoje posso erguer meu focinho e presas e uivar não apenas para a Lua, mas para todos os seres de poder que existiram, existem e existirão, incluindo eu mesmo, pois sou eles que sempre serão em mim.

 

 

 

 

 

Anúncios