Por André Luis Pavesi
Com revisão e habituais sugestões de Caio Bezarias

Rude Johnny sempre achou que era o cara, o sujeito mais durão do pedaço. Lá pelos idos de 85, desfilava sua ignorancia pelas ruas do ABC ou do centro paulistano, se metendo com punks, skinheads, darks e o que fosse, peitando a tudo e a todos. Gostava de apavorar as minas e socar os caras, como ele mesmo dizia. Largou desde sempre o nome de batismo, exigindo ser chamado de Rude Johnny, sempre Rude Johnny, como um astro de um velho filme do Corujão.

Quando conheceu a verdade por trás da noite, Rude Johnny se sentiu em casa, era tudo que ele queria – poder, violência desmedida e sangue, muito sangue. Achou que viveria para sempre, Rude Johnny, o rebelde eterno.

Mas logo percebeu, para sua imensa decepção e desespero, que ele, Rude Johnny, o terror das ruas do ABC, era peixe pequeno, que pra cada humano que abatia havia um preço. Que a noite tinha donos, muito mais antigos e poderosos do que ele, com sua mente limitada de burrice avantajada, poderia sequer imaginar. Achou que era o topo da cadeia alimentar apenas para descobrir que era o rés-do-chão da verdadeira cadeia alimentar, muito maior, mais profunda, mais sinistra e suja.

Numa noite alucinante como tantas outras, Rude Johnny bancava o fodão pra cima de um bando de moleques. Cinco bostinhas, cinco minutos de diversão, pensava, sádico. Ledo engano, lamentável erro. Rude Johnny nem chegou a ver o que o acertou, apenas sentiu centenas de quilos de músculos, pêlos e garras esmagando sua espinha dorsal.

– Ah, valentão – um rosnado soou em seu ouvido, enquanto Rude Johnny era erguido pelo pescoço como um boneco de Judas pronto para ser malhado.  – Então você gosta de atacar a molecada na noite, não? Johnny-boy, ouça com atenção…São Paulo tem dono, e não é você!!

E essa foi apenas a primeira humilhação, as ruas já não eram seguras para Rude Johnny, que reduzidio a um moleque remelento virou Johnny-boy nas mãos dos poderes que realmente valem. Foi surrado, batido e humilhado tantas vezes que perdeu a conta. Seus pares lhe viraram as costas, como a um leproso dos tempos antigos. Quantas vezes ao cruzar um beco escuro não pensou ouvir de novo aquele rosnado cheio de sarcasmo e fúria? Quantas vítimas perdeu por um barulho fora de lugar, pela lembrança de um rosnado cantarolando Johnny-boy, Johnny-boy, bonitinho seu apelido…

E agora Rude Johnny dorme apavorado com um 38 embaixo do seu travesseiro, num quarto de janelas fechadas a tijolo e reboque. Rude Johnny sabe que mexeu onde não devia, e anda pelas ruas de cabeça baixa, olhando pra trás a cada momento, se borrando a cada porta batida. Onde está toda a diversão, pequeno Johnny-boy? Onde está aquela panca de Rude Johnny, o selvagem?

Rude Johnny agora sabe que nunca foi o cara, o sujeito mais durão do pedaço. Em pleno século XXI, evita as ruas do ABC e do centro paulistano, se escondendo de punks, skinheads, góticos, até mesmo de emos, sem saber se vai peitar por azar algum dos verdadeiros senhores da noite. Nunca mais apavorou nem socou ninguém. Pensa em voltar rastejante ao nome de batismo, implorando para ser chamado de João Mauricio, ou mesmo Mauricinho, como Dna. Lourdes sempre chamou seu filhinho invocado.

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