Esclarecimento: alguns leitores fiéis questionaram o conto abaixo, pois não compreenderam o final, julgaram-no incompleto, truncado. Bem, o questionamento procede: esse texto fecha o ciclo de narrativas que contam a  origem de Jorge, como tornou-se um licantropo e suas reações iniciais, nas semanas seguintes.  Creio que a maioria de vocês leu os contos em que a transformação é narrada e sua busca desesperada por Tainá, a mulher que o fez parte do Povo; pois bem, a história abaixo faz parte desta, digamos, série interna de Carpe Noctem e relata eventos imediatamente anteriores a seu encontro com  Miranda e Natasha, mas na mesma noite,  ou seja,  O Chamado da Noite conecta-se com os dois contos que abriram Carpe Noctem, em agosto de 2007! 

Pedimos desculpas aos caros leitores por essa negligência, agora sanada. Assim, se tiverem a paciência de ler ou reler Um Pouco de Diversão Noturna e Depois da Diversão Noturna, apreciarão de maneira mais completa nosso mais recente conto de fantasia e terror urbanos.

Saudações noturnas e etílicas

 

Por Caio Alexandre Bezarias
Título, edição e revisão por André L. Pavesi

 

Natasha caminhava apressada pelas ruas do Bixiga nos arredores do Darkness, olhando para os lados, para trás, até para os telhados das casas centenárias construídas pelos primeiros imigrantes italianos que tiveram algum sucesso na nova terra, casarões cujas janelas fechadas pareciam olhos a lhe espreitar e seguir; seu olhar era de temor, como se temesse os nordestinos e peões bêbados e os adolescentes idiotas posando de manos que vagavam pelas ruas tortuosas do bairro; ela sentia-se amedrontada, vampira que conhecia cada ser das trevas que vagava por São Paulo e que devia respostas e obediência somente à arquilendária Anciã que vivia na cidade.

A garota baixa, carnuda, de seios e nádegas fartos, deliciosa e provocante, os cabelos curtos expondo um lindo pescoço alvo enfeitado por uma tatuagem em forma de perfil de morcego, que para sempre aparentaria dezenove anos e sempre pronta para o sexo, bebedeiras, noitadas e todas aventuras perigosas que movem a juventude limpou a boca com as costas das mãos duas, três, quatro vezes com força, até o lábio arder, enquanto aguçava seus sentidos de vampira ao máximo. A sensação de estar sendo seguida e observada continuava e a fonte daquilo era indefinível, estranho. Não era o chamado de Miranda, amiga, amante, com quem experimentava seguidas e incansáveis noites o deleite de sugar o sangue dos mortais e senti-lo fluir de uma para a outra, a essência vital dos humanos, simples alimento que impregnado do ardor e paixão de uma pela outra circulando por seus corpos, fortalecia, extasiava… gerando uma sensação de prazer e união entre elas, vampiras-amantes, tão intensa e deliciosa que as práticas lésbicas de Natasha do tempo de mortal, como sugar o néctar que escorria do sexo das meninas roqueiras e góticas que seduzia e iniciava, outrora o ápice do prazer perverso, hoje eram uma brincadeira infantil e sem profundidade ou intensidade algumas.

Miranda sempre fora ciumenta e meio despirocada, violenta, mas também sempre amorosa e preocupada com sua linda ninfeta-amante por toda eternidade e nada disso estava presente na coisa que rescendia ao redor dela. Não, a névoa tênue e sufocante que a espreitava era vazia de qualquer ternura ou outro sentimento doce, era na verdade uma volúpia selvagem. E havia algo mais muito estranho, um odor doce percorrendo o miasma místico, erupções que emergiam aqui e ali, raios de desejo, de puro cio animal, buscando seu corpo de fêmea, mas dos quais não conseguia identificar fonte, seu emissor, seu “dono”; eram emanações puramente animais, pois não consistiam em desejo por uma certa mulher, queria todas as mulheres e encontrara Natasha, logo a queria. Era puro, intenso e violento, desejava as mulheres pelo cheiro do seu cio, queria colhê-las como flores selvagens da cidade; ela sentiu que havia o brilho da lua no olhar daquele ser, a certeza da paixão em seu toque. E que um alimentaria o espírito do outro ao se tocarem e se sentirem, com suas essências, seus eflúvios, com seu desejo carnal, sensual e primitivo despertado pela natureza animal.

Uma erupção de tesão, que aflorou imensa e avassaladora, pelo descuido de se deixar entregar àquelas sensações por um único instante, preencheu Natasha. A vampira lésbica sentiu-se tão enojada de si mesma que apertou o passo rumo ao Darkness, para lá encontrar sua amada e mergulhar na segurança de sua companhia, da caçada noturna de sempre e esquecer que se deixara fascinar pela desprezível essência masculina. Daquela essência queria apenas o sangue, que, com a sua amada, sugaria do corpo de um qualquer daquela raça desprezível. Sim, para o Darkness, o campo de caça em que reinavam absolutas e incógnitas, oh combinação perfeita, noite após noite…

O chamado da noite

 

Parte II

 

Apanhou a garrafa de cerveja nas mãos, sentiu ganas de atirá-la contra a parede, reprimiu a vontade, estilhaçou-a entre os dedos, os cortes na palma da mão fechando-se em segundos, sem deixarem o mínimo sinal de que tinham existido. Catzo! Caralho!!!Era para isso que fora transformado, para isso ser um filho de Gaia? Para o desejo e a busca pela saciedade definitiva desse desejo serem ainda mais nítidos e dolorosos? Os sentidos supersensíveis serviam somente para que o mundo ao redor apenas exacerbasse o desespero de sua busca infrutífera?

Isso era ser um membro do Povo? Sofrer mais que a mera humanidade?  Bela porcaria!! Dias e dias em busca daquela putana magnífica, a melhor, mais gostosa, perfeita e extasiante que já tivera em toda sua vivência masculina e nada!!! Qual o valor de saber que uma entidade ancestral pavorosa de tão estranha e antiga se escondia debaixo do Trianon e que toda a Bela Vista e arredores da Paulista fervilhavam de energia elemental, de emanação de Gaia, se não conseguia localizar uma única mulher?! A mulher que justamente o levara para essa condição, que lhe trouxera a dádiva que se tornara maldição.

Isto se tornara Jorge, desde há vários dias: um patético homem que suspirava por uma mulher-lobo que o transformara para ser algo muito maior e mais profundo que um sujeito desesperado pendurado em uma janela, negando sua nova e poderosa natureza, mantendo-se preso a conceitos e recalques…humanos. Mergulhara num estado de tal estranheza, uma loucura contida, uma fúria prestes a explodir mas que jamais poderia fazê-lo que supôs ter finalmente ter conhecido a tal besta interna: a fúria se apossara dele e já não cria mais possível saciá-la, estava condenada (e condenando a ele, por isso) a ser para sempre uma volúpia, uma sede, um desejo que jamais seria aplacado em definitivo, sempre incompleto e finito. Onde aquela loba vadia se escondera tão bem que ele não farejava o menor aroma de um único fio de sua delicada pelagem?

Ele não mais saía de seu pequeno e bagunçado apartamento há algum tempo. Ele, o grandalhão que era uma lenda no Darkness, no bar do Chin, nos botecos ao redor da Galeria do Rock, o “rei do metal”, o “imperador noturno”, o cara que já fizera o diabo com inúmeras garotas na Catacumba, o dark room improvisado que imperava ao lado da escada principal da lendária casa noturna, ele estava há noites curtindo bode na janela, observando a vida alheia, sem uma mínima rajada de energia a conduzi-lo para a noite, para o seu amado centro, para os bares, becos e confusões do Centro e da Bela Vista, que tanto adorava.

E foi no auge, numa noite desesperadora, em que tudo que fazia era esvaziar garrafas e mais garrafas de cerveja e disparar olhares tristonhos para a São Paulo noturna que aconteceu: ela simplesmente pulou para dentro, pela janela, saltou no chão salpicado de garrafas e latas de cerveja e papéis amassados, caminhou calma e displicente até o acanhado sofá, sentou-se, cruzou as pernas, expondo as partes, mal ocultas pela saia curtíssima e disparou as palavras aviltantes:

– Um lobo tão bonito e gostoso passando noites em casa, como um adolescente ingênuo e romântico, que tomou fora da mocinha amada…

–Ããããhhhh… – E ao tentar agarrá-la num salto, foi humilhado por Tainá, que se livrou  dele sem dificuldade, o derrubou num movimento incompreensível de tão rápido e simples. E ainda teve de ouvir, estatelado no piso imundo, a mão de dedos finos e longos, pele perfeita de tão macia, o mantendo pressionado contra o chão sem esforço aparente:

– Quando Gaia  envia uma ordem, você obedece!

– Eu obedeci! Meu corpo pedia pelo seu corpo, este corpo perfeito e maravilhoso que fez do meu corpo isso que ele agora é!! – Ao sentir o toque e o perfume dela a energia represada há tanto tempo explodiu, fluindo por seu corpo humano, que cobriu-se de pêlos longos, os músculos expandiram-se, o focinho cresceu, emitindo um som semelhante a ossos se partindo e a transformação completou-se para ele se tornar um grande lobisomem mantido imobilizado no chão por uma mulher de um metro e oitenta.

 

Parte III

 

– Ser um membro do Povo não é ser um romântico idiota que se isola e mergulha em auto-piedade porque não consegue encontrar a musa perfeita; aliás, meu caro, toda musa é questionável! Um macho do Povo, para satisfazer a volúpia que inunda o sangue de todo mamífero, de todo ser carnal filho de Gaia, conjuga a astúcia e o dom das palavras sedutoras, humanas, com o desejo animal furioso e arrebatador que o domina diante da primeira bela fêmea que surge ante seus olhos e corpo!

– Você é um homem-lobo, para você importa o cio, o ato, desde que a fêmea seja bela e disponível! Liberte-se da ilusão da mulher ideal que te salvará da refrega de noites e noites de caça, pois este se tornou seu destino: caçar e por meio disso espalhar a força de Gaia neste mundo moribundo. Saia de sua toca,vá para a cidade, Gaia não te fez para ficar aí como cachorrinho que perdeu a dona.

– E se eu lhe disser que minha dona é você?

– E se eu lhe disser que somos mamíferos selvagens que só acreditam no cio e no acasalamento, que amor é uma invenção desses ridículos humanos, para negarem sua natureza, da qual se envergonham como idiotas?

– Cheguei a me achar apaixonado por você.

– Ha ha ha ha ha!!!! – Tainá libertou-o, caiu no sofá e rolou, enquanto gargalhava. Jorge sentiu-se um rapazinho desastrado cuja declaração de amor ridícula e insegura à mais bela garota do bairro é destroçada por uma rajada de risos, murchou e retornou à forma humana.

– Nós somos criaturas de carne comandadas por princípios e poderes absolutamente impessoais e imemoriais. Após acasalar-se com a primeira garota que te excitar serei uma irmã, uma companheira de raça e talvez de caça, não devo ser mais que isso em sua mente e principalmente seu corpo. Vá, encontre as mulheres, as possua!!

– É para isso que veio?!

– Sim! Gaia ordenou, gritou a ordem. Incrível como as ilusões típicas dos humanos ainda te impregnam. Machos!! Não importa a espécie, sempre uns tontos. Daqui a pouco vai dizer que quer “fazer amor comigo”!! ha ha ha.– Fora daqui! – E com outro salto ergueu-se e desapareceu pela janela.

Ele permaneceu estático por alguns instantes, então sentiu que algo o puxava de novo para a janela, mas algo completamente diverso da pseudo-paixão pela sua lobeira[1]. Uma onda de partículas trazida pela brisa invadiu a pequena sala, procurou seu corpo e seu espírito de licantropo, despertando, acendendo, queimando-lhe por dentro. Era um eflúvio de muitos odores misturados a emanações menos materiais, mais sutis mas tão deliciosas quanto, todas diferentes entre si, mas de uma mesma natureza: as emanações que as fêmeas humanas deixavam pelo mundo afora, enquanto desfilavam. As palavras de Tainá, impregnadas da força e da ordem da Mãe-Terra despertaram a consciência e furor que jaziam nele desde a magnífica noite na Serra da Cantareira, impacientes para se manifestarem em pleno fulgor.

Ilusões e sentimentalismos que habitavam sua carne e espírito e pareciam eternos e imutáveis definharam sem deixar rastro, seus sentidos tornaram-se mais sensíveis, um novo frescor impregnava o ar.

Jorge aspirou o ar da noite, inflou o peito, ajeitou a camisa no corpo e os cabelos na cabeça e saiu para a noite, rumo ao Darkness, pois uma trilha nítida de cheiro e presença de fêmeas vinha de lá e dos arredores, o chamando, pedindo para que lá ele final e verdadeiramente concluísse sua transformação em membro do Povo.

Pouco mais tarde, Natasha e Miranda já caminhavam absolutas, como rainhas da noite que eram, Darkness adentro. Retornaram ao térreo e espalharam-se mais uma vez no balcão, em busca do próximo mortal.  Menos de uma hora antes já haviam experimentado o êxtase, sugar a vida de um sujeito abjeto, um bêbado que se julgava macho por ser grosseiro e violento, fazer seu sangue circular de uma para outra, por meio do beijo vampírico. Ah, fora tão maravilhoso que precisavam de mais, mais, repetir o ato mais três, quatro vezes, até  desafiarem o maior dos perigos e verem o céu anunciar o fim da madrugada e que deveriam recolher-se em breve. E a próxima vítima estava escolhida. O sujeito alto, forte, cabelos escuros, vestimenta completa e clássica de headbanger estava postado no canto oposto do balcão. Natasha teve uma sensação estranha ao pousar os olhos nele, algo no sujeito lhe era familiar, uma impressão forte, mas indefinível, no entanto guardou a impressão para si, pois aquele corpo forte, abrutalhado, sem dúvida tinha muito sangue correndo em seu interior.

Bastou lhe dirigirem um olhar e risinhos para o estúpido encher-se de ânimo, acenar para elas usando o copo e sorrir, antes de se aproximar…

 

[1] Se o caro leitor quer saber o sentido dessa obscura palavra, consulte um bom dicionário: é fácil, gratuito, indolor e aumenta a cultura e inteligência.

 

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