Por Caio Bezarias
Edição de André L.Pavesi

 

Parte I

 

Luz, arredores da avenida Casper Líbero e rua Mauá, meados de 2005, início de madrugada.

UMA NOITE TÃO AGUARDADA

O impacto do cadáver contra o piso repleto de detritos, lixo podre e mal-cheiroso e entulho  produziu um ruído seco e breve e ergueu uma nuvem de pó cujas  partículas se  assentaram com lentidão, para cobrir o chão e seu novo ocupante com uma camada de sujeira muito fina, clara e visível.

Ele havia sido um típico habitante dos cortiços e pensões baratas fervilhando de miséria e derrota ao redor da estação da Luz, Praça Júlio Prestes,  rua Mauá, mais um dos  que se  amontoavam e apodreciam  aos montes, nas pocilgas do bairro. Ainda  exalava um intenso cheiro de suor azedo , sua constituição era esquelética, um zé-ninguém mal-tratado durante toda sua existência, coberto de trapos, envelhecido de modo prematuro: cabelos grisalhos e desgrenhados, a pele ressecada, ossos salientes bem debaixo dela, pouca carne ou saúde, sulcos profundos circundavam os olhos remelentos, que estavam abertos e tão revirados e esmaecidos que  seu outrora tom castanho se apagou, os braços eram duas varas mirradas retesadas e um corte horrendo, largo e extenso, corria da mandíbula até quase o peito, o pescoço por inteiro revelado, a ponto de parte da coluna e cartilagem ser visível Mas o mais insólito da enorme lesão feita por uma fúria demencial desconhecida dos homens era a ausência de sangue:não havia manchas ou crostas vermelhas ao  redor do rasgo.

Apesar do som e sujeira, poucos animais dispersaram-se: três ou quatro baratas entorpecidas pelo frio e dois ratos lerdos e esfomeados foram tudo que correu para os cantos quando o corpo do homem atingiu o piso da antiga pensão de mais sessenta anos e da qual sobrara não muito mais que a carcaça;somente as paredes externas, teto , fachada, no interior quase não havia mais paredes ou cômodos, mais um edifício do centro a exalar imundície  que seria demolido ao raiar do dia. Partículas de pó ainda dançavam nos finos e fracos raios de luz que vinham da rua, trazendo com eles a cantoria desconexa e os xingamentos lamuriosos de bêbados nas proximidades, rasgando o silêncio, quando o vulto alto parado no buraco enorme e sem forma que fora a porta do prédio avançou a passos calmos e firmes  para o interior. Outro vulto surgiu meio minuto depois, bem menor e muito menos seguro e elegante que o primeiro, tropeçando nas pedras e na sujeira, respiração pesada, perturbada.

Os dois vultos postaram-se diante o morto, partes de suas vestes negras e brilhantes reveladas aqui e ali pela luz, conforme se moviam. O mais alto virou para o menor e disparou:

– É isso que me traz?Você é tão vulgar, é uma meretriz da noite tão barata e desprezível que não consegue mais atrair a atenção de nada melhor que um peão esfomeado que se escondia num lugar tão sujo como esse em que estamos? – Não consegue seduzir um homem de verdade, garota misteriosa que se vangloria de saber os segredos sombrios da cidade? Preciso de um homem com vida e energia, que reaja e se desespere ao ver-se diante de sua nêmesis, e não de um desses vira-latas humanos, esses sujeitos cobertos dessa fétida pele de cor escura indefinida que infestam essa terra! Para uma coisa como essa – Ingrid sequer apontou um dedo para o cadáver enquanto humilhava a vida que o ocupou – a morte é uma benção vinda dos céus e eu sou as trevas, sua tola! Quero um homem que realmente sinta o horror ao ver-se diante do fim, para me deleitar com isso.

O vulto menor encolheu-se, menos pela violência com que as palavras foram ditas que por seu conteúdo. Não era possível que sua mestra e senhora dissesse tal coisa e negasse a missão sagrada noturna que realizam já há semanas. Ela não era um simples demônio, um ser das trevas, era uma justiceira e ela, Laura, a eleita, sua seguidora, confidente e auxiliadora!

– Então você não se alimenta somente do sangue, mas também do sofrimento, da dor e do desespero que o beber o sangue causa nas vítimas.

– Ha ha ha ha!!Percebeste isso somente hoje?

– Mas… mas…  não somos simples matadoras, nós somos as justiceiras noturnas da cidade, somos aquelas que são o terror de todos os homens maus que empesteiam São Paulo, nós vingamos todas as mulheres da cidade que já sofreram os abusos do poder masculino, somos únicas e especiais por isso! Você fala como se matasse qualquer um..Fala como se não vivêssemos uma missão sagrada, mas apenas para satisfazer prazeres perversos, como se pudesse matar qualquer homem que cruzar nosso caminho, e não apenas os maus e perversos, que fazem as mulheres sofrerem!

Ingrid aproximou-se da garota mortal. A vampira pareceu-lhe ficar enorme, nada mais além da figura era visível, dominando todo seu campo de visão. As luzes dos prédios próximos, minúsculas como vagalumes levados para longe pelo vento, as últimas partículas da poeira que o cadáver do infeliz levantara, a refletir aquelas luzes fracas, mal se insinuavam diante de seu olhar apavorado, tomado pelas ondas negras e brilhantes dos cachos e pelos olhos velhíssimos porém brilhantes e belos como de uma mulher no auge da beleza e malícia:

– Você usa essa palavra ‘sagrado’ para se referir ao que faço? Como você é engraçada e estúpida! – Jogou a cabeça para trás, seus cachos negros dançaram na noite e brilharam como se fossem trançados em metal reluzente, e gargalhou um som sinistro que paralisou até a medula dos ossos da pequena mortal.

A vampira recompôs-se em um instante:– Minha doce criança, responda-me – Sua mão suave e gélida apanhou o queixo de Laura e ergueu-o com rispidez – Já conheceste algum homem que não fosse vil, nem mesquinho, não apreciasse ser dominador, que não se importasse de machucar corpo ou sentimentos de uma mulher para saciar sua lascívia, sua vaidade, seu desejo de dominação, sua baixeza e sordidez masculinas? Que não tenha sido, não uma única vez, mas muitas, sujo e baixo? Em suma, humana tão jovem e que se julga agora tão sábia: já conheceste um homem que não merecesse seu fim bem nas minhas garras?

– Eu, eu não sei mais minha senhora, se TODOS os homens são maus ou se são apenas maus. Eu, eu conheci homens bons. Meu pai morreu cedo, eu era uma criança e não me lembro dele. Incompreendida pela minha mãe, sofri injustiças de um meio-irmão que me roubou, tentou abusar do meu corpo e ainda pôs parte da família contra mim; quando fiquei mocinha, conheci uma enfiada de canalhas que só queriam prazer, me usar. Comecei a odiar os homens, mas… tive um tio que me acolheu e me ajudou, seu filho era um efeminado mas muito justo e também me ajudou.. Não sou nada para contestar sua missão ou critérios, para discutir com uma vivência e sabedoria tão grandes que nada sou perante você. No entanto, no entanto…

– Sim?

– Não deveríamos conhecer, saber quem é sua vítima?  Já trouxe para suas garras uns tantos de quem nada ou quase nada sabia e pus a me perguntar: eles realmente mereceram esse fim? Por que freqüentavam ambientes baixos, também seriam? Uma ou outra ação egoísta basta para alguém merecer a punição eterna?

 

Parte II

 

A vampira que já era uma Anciã lendária quando Roma vivia seus últimos dias, se introduziu na decadente e desesperada laia dos patrícios e aproveitou-se desse desespero para promover festins insanos nos desvãos e porões da Cidade Eterna, festins que apenas a divertiram, ao testemunhar a elite romana buscar adiar o fim do paganismo e de sua raça com excessos, a peregrina do mundo que há muito deixara de se comover com a ascensão e o declínio de culturas e civilizações inteiras, que assistira a massacres e genocídios  invejando seus autores, devaneando quando uma matança feita apenas por suas mãos e garras  seria tão sanguinária e medonha que  adentraria todos os livros que narram a insanidade da história humana, ela  reagiu ao laivo de escrúpulos da mortal de pouco mais de vinte ciclos solares[1] da única maneira possível para um ser como ela: novamente uma gargalhada partiu de sua boca, algo que soava a um uivo metálico ritmado, terrível, partiu mais uma vez de sua boca forradas de presas, mas desta vez tão intenso que a pobre humana encolheu-se mais, sem forças para sequer mover os olhos para os arredores,  certa que tamanho ruído seria capaz de atrair a atenção até mesmo dos bêbados que cambaleavam  quase a um quarteirão de distância.

O som que soava como o choque entre blocos amorfos de metal bruto e pedras ásperas morreu lentamente na boca de Ingrid. Ela suspirou com leveza, agachou-se e sussurrou para Laura, doce e tranqüila:

– Muito bem, minha criança, então nossa próxima vítima será, como sua nova e elevada consciência urge, um ser do sexo masculino que mereça experimentar o fim escuro que eu trago. Por que não esse rapaz, esse ser que partilha o sangue da família com você e ousou usar essa proximidade para abusar da santidade que vive e repousa em seu corpo? Será um prazer executar a pena que ele merece.

Laura guardou para si a percepção de que inflexões de ironia ou de deboche chisparam pelas palavras da vampira. Por um momento sentiu uma vacuidade em seus atos noturnos secretos, um vazio que coagulou-se em um desejo de fugir e voltar a ser mais uma gotiquinha anônima e sem nada especial, retornar à única vida em que encontrou algum conforto e aceitação; mas o desejo de simplicidade e uma ilusória paz foi apenas um devaneio estúpido logo dissipado pela consciência;  de que na verdade fora  apenas mais uma garota maledicente vítima e algoz de fofocas e desprezo, antes de encontrar a vampira.Ter personalidade e moral devorados em troca de experiências extremas era uma opção que sequer precisava ser apresentada a ela.

A confiança reinfundiu-se em seu corpo, os olhos encheram-se de brilho, um sorriso de triunfo vincou-se no rosto, a coluna curvada e trêmula voltou a ficar ereta, rija. Cabeça erguida, respondeu, a confiança de volta a sua voz de menina:

– Pode fazer isso? Punir aquele que me fez passar necessidades, me tornou maldita no seio de minha própria família?

– O modo como usa as palavras, para parecer nobre e elevada, é tão cômico que chego a deleitar-me. Sim, claro! Claro que faremos esse ato de justiça.Vamos voltar para  nosso transporte e uma vez lá, diga tudo que sabe sobre seu inimigo e parente para Anson. Em pouco tempo meu lacaio descobrirá ainda mais sobre este homenzinho e estaremos prontas para castigá-lo.

A confiança que mal reconquistara despedaçou-se  mais uma vez, como tinha de ser, diante de um escárnio inumano de tão carregado de tempo e de idade. Mas  os anos de fingimento, de praticar o teatro das sombras da vida social noturna fizeram-se valer e graças a eles a menina mortal  manteve a postura firme e confiante,  e também, claro, graças a saborear  as imagens que antecipavam o fim que o miserável Elias merecia e teria em breve. Foi assim que Laura encarou sua senhora, mostrando-se exultante, pois  sentiu que sua vida de justiceira noturna finalmente começaria de fato, que desde o início das andanças pela noite de São Paulo com Ingrid pela primeira vez seria decisão inteiramente dela levar para as garras da vampira um homem que merecesse esse fim. Aquela noite passada naquele lugar horrível e várias outras, em que foi destratada pela criatura das trevas, tendo de se atracar com homens que virariam o estômago da puta mais rampeira, antes que eles tivessem o sangue sugado, teriam sentido e valor, alegrou-se, tão cheia de si como sua mestra, pois passaria a deter o poder de decidir a vida e a morte de homens que mereciam ter a primeira encerrada da maneira como trataram as mulheres.

 

[1] Ingrid referia-se ao um ano inteiro dessa forma, uma indicação vaga da época em que nascera como humana.

 

 

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