Por Caio Alexandre Bezarias
Edição e revisão sempre muito bem feitas de André L.Pavesi, mais uma vez completadas pela participação especial de nossa amiga Elis Verri

 

Parte I

 

“In the night
Come to me
You know I want your Touch of Evil
In the night
Please set me free
I can´t resist a Touch of Evil”

A touch of evil – Judas  Priest

O ar era parado e quente, a rua exalava o calor de tranqüilidade modorrenta, vazia, tão típica das tardes quentes na periferia de São Paulo, nos bairros apinhados de sobradinhos de gente remediada e classes baixas, em que as ruas, nessas tardes são o reino das crianças felizes e dos adultos derrotados, em que desfrutar da alienação feliz que esse calor trazia era tudo que poderia se esperar da vida. Todas essas sensações eram nítidas e torturantes para a garota que se apressava pela rua, como se as lembranças da brevíssima felicidade que experimentou na infância a perseguissem, apenas para lembrar como foram fugazes e tênues.

O amolecimento provocado pela luz do sol a fez esquecer por momentos o desconforto de vestir uma roupa “normal”, de não poder usar seu dress code de gótica vadia e poderosa, a expressão e afirmação de sua identidade  justamente no início de tão importante missão.

Pois aqui estava Laura, a gótica suprema da noite de São Paulo, a mais poderosa, que poderia conjugar os poderes de um ser das trevas para eliminar inimigos e intimidar falsas amigas invejosas, que sempre desfilava recoberta de adereços de metal e tachas cheios de brilhos e filigranas torcidas, enfeites que resplandeciam mesmo nos recônditos mais escuros dos porões da noite paulistana; o corpo liso e alvo, cheio de frescor, mal oculto por meias, ligas e corpetes provocantes que despertaram os apetites sexuais de muitos caras e de algumas garotas, o rosto de menina perversa destacado por maquilagens agressivas, olhares devassos capazes de fazer o mais rodado e temido canalha se ajoelhar a seus pés e agir como um cãozinho obediente, aqui estava a rainha da devassidão noturna de São Paulo escondida em uma calça jeans normal, pouco justa, uma blusa recatada e sem estampa, a ocultar o volume de seus seios proeminentes, tênis comuns e surrados, vestida como uma menininha normal, e não como a criatura poderosa que era na verdade, pois para iniciar sua missão sagrada mais importante de vingadora noturna, a que mais aguardou, imaginou, sonhou, saboreou antes de pôr em execução, não poderia surgir em todo seu esplendor e beleza, e sim parecer uma das rampeiras arrumadinhas que tanto a perseguiram no inferno monótono e sem fim de sua adolescência. Apresentar-se como uma garota típica do seu odiado bairro natal, a zona lost que é a periferia da zona norte de São Paulo, era um tanto exasperante. Ah, maldito Miguel!! Você iria pagar por isso também, além, claro de todo o restante, ser o responsável por ela ter sido jogada no mundo sem nada ou ninguém para lhe amparar por um tempo que pareceu longo demais.

Ela caminhava apressada e nada à vontade pela calçada esburacada e imunda que parecia ostentar os mesmos buracos nos mesmos pontos desde o tempo em que era uma menininha. Tão desagradável era pisar naquele piso que evocava tantas más lembranças que tropeçou duas vezes em poucos metros, ela, uma das poucas góticas que sabia caminhar em um salto alto da maneira correta, atrapalhada em um tênis de cano baixo. Mas não havia outro modo, se aparecesse diante sua tia Sebastiana, aquela velha moralista, recalcada, histérica, nos seus trajes habituais, a megera balofa talvez nem a permitisse entrar na sua casa pestilenta, com cheiro de mofo, velhice e morte, quanto mais responder suas estranhas e intrigantes perguntas sobre seu meio-irmão.

Mas esse preço não fora em vão: a primeira parte da sua mais importante missão sagrada de vingadora noturna das mulheres de São Paulo estava cumprida, a busca de informações que possibilitariam a desforra contra aquele miserável! O ódio fervia seu sangue e descontrolava mais seus movimentos. E neste exato momento a BMW negra surgiu diante dela, parou na calçada e a porta escancarou-se como um refúgio de escuridão em que recuperaria seus poderes de rainha da noite.

– Entrree. – disse a voz já um tanto familiar do motorista, de Anson, o “alemão”. – Ela obedeceu de imediato, mesmo contrariada por ele ignorar a recomendação de pegá-la quando já estivesse distante do seu quarteirão natal – Ele sempre surgia do nada, como um fantasma que a acompanhava e se fazia visível quando bem quisesse! . Mas aproveitou a situação para mais uma desforra com seu passado, embora minúscula: antes de entrar no carro, dirigiu um olhar arrogante para dois mulatos jovens, da idade de Laura, mas já gordos e gastos, dois escrotos que a importunaram várias vezes quando menina, largados na calçada, usando nada além de bermuda e chinelos de borracha, olhos vidrados de inveja e espanto na máquina, tão deslocada na decrépita Vila Bonança.

Após se acomodar, apanhar a vodka no frigobar e verter uma enorme dose, ela encarou o acólito de Ingrid enquanto o carro deixava a zona norte para trás e iniciou a saraivada:

– Descobri o que o filha da puta anda fazendo. Virou pastor evangélico. Primeiro foi obreiro, ajudante de um pastor, uma dessas merdas para arrancar dinheiro desses fudidos que freqüentam essas pocilgas. Ao descobrir que tinha o dom para a coisa, para convencer os trouxas a dar dinheiro para ele, fundou sua própria igreja. Inventou que o pastor ex-chefe dele foi tomado pelo demônio da cobiça, brigou em público com ele, no meio de um culto e convocou os verdadeiros servos do senhor a acompanharem ele na sua nova igreja. – Ha ha ha haahaaaaa!!!!   – a gargalhada foi uma explosão de ódio, possuía um tom metálico e estridente – dá pra acreditar? Aquele maldito que tentou me estuprar duas vezes e tomou minha parte da herança de nosso pai hoje é um “servo do senhor”? Daí ele fundou sua igrejinha, que está sempre lotada. Mas minha tia, que é fanática e tapada, insiste que ele tem uma espécie de poder divino, que sabe do que as pessoas precisam e se elas são sinceras e devotas ele, como instrumento de deus, concede a tal graça e que por isso ele é um fenômeno, a igreja cada vez mais lotada, milagres e tal acontecendo, está incomodando as outras igrejas evangélicas do pedaço. – Outra gargalhada –. O nome da igreja que ele fundou é Igreja da União Verdadeira com o Senhor e fica na Avenida Tucuruvi.Isso deve ser informação suficiente para você e a mestra, não? Ele é um tarado, um doente. Se eu aparecer diante dele fingindo perdoá-lo, vai ficar tão fora de si, crente de que finalmente vai me comer, que posso levá-lo para onde você e a mestra escolherem.

– Após uma pausa para respirar, concluiu:

– Uma vez um bandido, um explorador, sempre bandido e explorador. Antes explorava a família, agora explora os crentes burros.

O alemão virou-se por um instante para ela, sem perder o controle do carro, suas mãos como que movidas por algo mais potente que sua consciência e disse, numa voz calma e amistosa:

– Você terrá a sua vingança, meninaaa.

E enquanto o carro descia as inclinações da zona norte e por fim, após vencê-las o planalto coberto de poluição e promessas do Centro e da região da Paulista se revelar no horizonte, Laura ansiou como poucas vezes antes pela noite e pela escuridão, que cobrissem o mundo o mais breve possível e lhe dessem o poder ao qual não resistia, o poder maligno a que ela nunca tentara ou quis resistir.

 

Parte II

 

Dois dias mais tarde, sexta-feira, após as dez horas da noite, no último quarteirão da Avenida Tucuruvi.

(A noite e a escuridão, para a multidão que enchia a igreja em que pastor Miguel pregava nada tinham de maligna ou temível, pois eles eram os abençoados repletos de luz, que recebiam as graças espalhadas por aquele homem santo que inclusive envergava o nome de um dos anjos mais poderosos. Eles nada tinham a temer, nenhuma força ou agente do mal poderiam lhes atacar, eles eram abençoados, os rostos de olhos fechados, muitos vertendo lágrimas, mãos retesadas para o altíssimo, corpos rijos, um imenso êxtase coletivo.

Laura assistia a essa cena sentada e encolhida na última fileira da igreja, um nojo que vinha de suas entranhas, a ponto de sentir ânsias, de estar entre aquele bando de molambentos mal-vestidos em roupas de lojinhas de bairro, de tecidos baratos tingidos com estampas e listras espalhafatosos; de orgulhosos classe média remediados exibindo as roupas mais brilhantes e novas de que dispunham – mulheres de cabelos clareados, calças justas e salto enormes e de cores fortes, homens de olhar superior, sempre metidos em calças jeans modernas e camisas pólo justas, caminhando como se fossem os machos mais admirados de seu bairro e outros que ela não se dispôs a avaliar,todos exalando um vazio, um ar de alienação, de rebanho, produzido por seu meio irmão a comandar a massa, de lá do tal púlpito – para ela, nada mais que um palco metido a besta – lá estava ele, metido em um terno escuro bem ajustado a seu corpo meio obeso, gravata rosa claro brilhante, cabelos empastados de gel penteados para trás que ela sabia artificialmente alisados,mas que em alguns pontos, no alto exibia ondulações,  emoldurando um rosto bem barbeado, que exibia princípio de papada, os olhos castanhos fixados num olhar sério e intenso que não se desmanchava ,  treinado e estudado, de alguém que vê algo supremo e arrebatador diante de si.

A voz continuava um tanto rouca, numa mesma modulação, subindo o tom apenas quando associava as graças que os fiéis receberiam às ofertas materiais que fariam para serem merecedores.

Mas essa mistura de miséria e exaltação não foi o que mais perturbou Laura: mais terrível era a musiqueta pobre que Miguel e seus acompanhantes no palco – quatro músicos vestidos com roupas “ sociais” e três peruas altas presas em vestidos negros, cabelo alisado e platinado – berravam, uma ladainha de ode ao deus dos cristãos, pobre em melodia e em vocabulário. E muito mais terrível, opressivo, era a sensação de que havia algo mais que simples cegueira e fanatismo naquele antigo galpão de fábrica transformado,que algo estranho,sobrenatural mas nada divino pairava ali. Ela suportou tudo isso  em nome da vingança que estava tão próxima, que se consumaria no escuro mais fundo da noite e então começou a agir conforme o plano: levantou-se do seu lugar e a intervalos regulares  parava, apoiava-se na parede branca – pois não havia lugares disponíveis na porção central e na frente, as pessoas se espremiam para admirar pastor Miguel  – dirigia um olhar mais e mais intenso e demorado para o ungido do senhor e se aproximava mais, até que um sinal foi emitido: enquanto entoava a ladainha religiosesca, ele despertou do transe por um instante, abriu os olhos, que encontraram os de Laura, pregaram-se nela, que sorriu em resposta, ficou ereta e afastou um pouco os braços do corpo, enquanto empinava o busto para frente, um pouco, só um pouco…

Dali em diante, até o final do culto, ele dirigia olhares firmes e regulares para ela, que os retribuía com o charme feminino de parecer e não parecer interessada, um atributo que parecia ter perdido, há tanto não o usava, mas que retornou fresco e afiado, funcionando à perfeição.

Por fim a sessão de glórias ao altíssimo terminou, e os ungidos entregaram  centenas, talvez milhares de reais em espécie, cheques, débitos para receberem o toque divino. O frenesi se instalou: pessoas de mãos e rostos crispados, outras chorando de alegria, ao depositar os valores na caixa de coletas. E veio a torrente final de Miguel, tão exagerada e cafona que as palavras machucaram os ouvidos de Laura ainda mais, abençoando aquela gente e ao mesmo tempo as despachando para suas casas

Enquanto o rebanho deixava a igreja, mais pobre e mais feliz, um tipo de raça indefinida, rosto de feições estúpidas, pele acobreada, alto e mal-encarado, uniformizado nos óbvios terno e gravata, se aproximou dela, apontou para o palco e anunciou que pastor Miguel, graças ao dom que o senhor lhe concedeu, sentiu que ela “deveria ser abençoada diretamente por ele” e que ela teria essa honra, devendo acompanhá-lo, que a levaria até ele. O sujeito era tão tapado que a expressão exagerada de espanto e alegria que Laura fingiu o enganou totalmente, sentiu-se realizado em cumprir o papel de leva e traz para seu idolatrado pastor.

 

Parte III

 

O símio a conduziu para os fundos da igreja. Após atravessarem um portão trancado a chave e cadeado, única passagem em um muro alto, deram em uma ruela quase sem iluminação, na qual três carrões reluzentes, cheiro de cera e tecido novo, estavam estacionados. Ao lado do primeiro, um modelo francês prata, as cantoras da bandinha gospel riam alto e fofocavam algo sobre um fiel qualquer, com os músicos; encostados no segundo, um tipo de semi esportivo, dois dos obreiros que estavam no palco, que cochichavam entre si e disparavam risadinhas para as garotas. O terceiro carro era um jipão de luxo negro maior e mais potente que os outros veículos, o carro do chefão, que se enfiara entre as loiras e passou a comandar a esfregação com e entre elas. Mas assim que ouviu o barulho dos passos ressoando na calçada úmida da garoa, e a voz se elevou sobre os sons indistintos da noite, virou-se:

– Miguel, olá, que bom te rever.

– Laura…irmãzinha. O senhor reuniu nossos caminhos para o perdão e a reconciliação. Que bom te ver! – Moveu-se dois passos adiante e abriu os braços para ela, que o abraçou com um ardor que não deixou dúvidas para os presentes do que aconteceria em breve.

Ele admirou-a por longo tempo, afagando seus cabelos e disse numa voz lânguida, o rosto próximo e afogueado demais para o reencontro com uma meio-irmã:

– Por onde andou? E o que te trouxe ao seio da família? Eu sei, eu vejo, sou um instrumento de Deus, e ele me diz, em sua infinita onisciência, que me achaste para expurgarmos os rancores e maledicências e consumarmos – pôs muito calor e ênfase nessa palavra –a reconciliação que ele deseja.

Laura sentiu o poder da noite e julgou sentir a presença de sua mestra percorrê-la, o prazer de agir contra as regras, de ser uma gótica rebelde transgressora a dominou. Apertou seus seios contra o peito musculoso do crápula e sussurrou para ele:

– Sinto isso, também, que devemos superar as mágoas e ressentimentos do passado e nos conciliarmos.

Miguel abriu um sorriso poderoso e libidinoso para ela, fez sinal de “se mandem!” para seus ajudantes sem sequer olhar para eles  e conduziu pela mão a deliciosa meio-irmã para sua máquina, na qual a conduziria até sua fortaleza de três andares em que a abençoaria com o toque que a faria parte de seu rebanho sagrado.

O jipão atravessou a Avenida Tucuruvi como um animal furioso, rosnando, parou impaciente em um farol da Guapira, a mais amaldiçoada avenida da infância de Laura, pois a escola em que vivera os piores anos de sua vida lá ficava, sempre mais e mais suja, pichada e repelente. Miguel aguardava o sinal para avançar com olhos felinos, como se fosse um conquistador a  admirar os morros e vales das vila Gustavo, Nivi e Medeiros para escolher onde estabeleceria seu novo domínio sobre almas e bolsos.

Logo o carrão arrancou, atalhou à direita, tomou o evidente rumo para o mais maldito bairro de toda a zona norte e da existência – Vila Bonança. Laura sabia que era hora de agir de fato, deixar o escroto a seu lado fora de si de desejo e assim poder levá-lo à armadilha em que pagaria por seus crimes.   Sua mão deslizou como uma serpente que avança para a vítima em silêncio sem ser notada até atingir e apalpar o crescente volume entre as pernas da calça dele, enquanto ela discursava:

–Deus me iluminou, meu irmão, após anos de perdição e falta de luz, hoje entendo que. devemos seguir seus preceitos, que estão no livro sagrado. Nossa família foi desfeita, se separou, devido às ações do maligno. Para ela se refazer e se fortalecer nas graças do senhor, o sangue da família deve se unir a si mesmo, e não se misturar com impuros. Devemos estar juntos como fizeram os clãs abençoados por ele em momentos de grande sofrimento. Hoje entendo qual era sua intenção e aqui estou, para nós consumarmos a ela. – e pôs-se a acariciar, sobre o tecido da calça, o órgão de Miguel, que virou-se e sorriu de um modo estranho, algo muito distante da empolgação de um homem prestes a possuir uma mulher que desejou por anos estava marcado em seu rosto.

O carrão fez uma manobra seca e entrou à direita, enfiando-se em um conjunto de ruas particularmente escuras e temidas na região, lugar em que até estupros tinham sido comuns, quando Laura ainda vivia na região. E pior, a velocidade diminuiu, Miguel dirigia como se apreciasse aquele conjunto de casas sem acabamento, casebres de alvenaria, que exalavam maldade. Dois sujeitos muito intimidadores, encostados em um poste, na entrada de uma viela sem iluminação voltaram-se de imediato para a máquina; Miguel abaixou o vidro, fez um gesto e disse qualquer coisa num tom amistoso, recebeu um cumprimento caloroso com as mãos de ambos e seguiu.

A mão da garota interrompeu a carícia de imediato:

– Você tem amizade com esses caras? Miguel, esse quarteirão aqui era e sei que ainda é o pior de todo Tucuruvi. Andar por ele até durante o dia é arriscado.

– Irmã, um homem de Deus como eu deve levar a palavra, acima de tudo, aos que mais necessitam dela, aos perdidos, desgraçados e pecadores, como nosso senhor Jesus o fez. Estes homens, pouco a pouco, estão se encaminhando para a vida reta graças às minhas pregações. Além disso, ter boas relações com eles protege os fiéis e minha igreja.

O carro seguia cada vez mais devagar conforme se embrenhava, até que por fim parou, no ponto mais escuro e quieto da rua.

Ela olhou para os lados, a tensão fervilhando nos seus trejeitos e encarou o rapaz, sem esperar uma resposta:

– Bem, o que é isso? Você não mora aqui nesse lugar, estou certa. Não vamos para sua casa? Quero você, mas não no banco de um carro, mesmo um tão espaçoso e confortável.

Os olhos castanhos claros iluminaram-se e o rosto com acúmulos de gordura nos cantos adquiriu uma expressão imberbe e também maligna, de uma criança má, ao mesmo tempo em que ele sacou um canivete de mola do porta-luvas. Manipulou a lâmina até que esta refletisse alguma luz vinda de fora e demorou-se antes de responder:

– Laura, meretriz suja que me negou seu corpo, sua vingança, seu plano de me matar, lhe será negada no momento em que parecia mais próxima. Vou te abusar e te eliminar antes que sua mestra, esse ser das trevas de milhares de anos que você pajeia, possa interceder.

Um terror imenso a tomou, o plano perfeito de vingança destruído num instante, que pareceu destroçar também toda a sua vida, tudo parecia acabado ; mas nem ela, nem Miguel se aperceberam que sua mão ainda estava pousada na braguilha da calça dele, no entanto o instinto de sobrevivência, refinado após meses acompanhando um ser das trevas nos mais temidos buracos do Centro, sim: os dedos finos e ágeis apertaram e fincaram-se nos testículos de Miguel. Ele urrou, ela continuou o ataque e desferiu um soco no fígado; ele curvou-se, ao gemidos, enquanto ela abriu a porta e disparou na noite.

A corrida durou cerca de dois minutos. Estacou e viu-se diante de um dos principais pontos de traquinagens de sua infância. O sobrado construído no fim dos anos 70 na beira de um barranco desabara em parte e em parte ficou pendurado, uma parede sempre ameaçando cair, como se suspensa no ar, o barranco de argila vermelha logo abaixo dele, o sustendo de modo precário. Desde que Laura era uma garotinha estava vazio e interditado, como um monumento ao desleixo e à imprudência. Durante seus breves anos de infância feliz e despreocupada a mais cultuada e temida brincadeira que ela e seus coleguinhas perpetravam era, após superar a escangalhada cerca de tábuas que fechava o lugar, alcançar o interior quase todo destruído e exposto do edifício e a partir dele descer o barranco de argila úmida e traiçoeira até a rua abaixo, apoiando-se nos buracos e caules de plantas que brotavam de todos os lados. A glória consistia em chegar no menor tempo e o menos elameado possível à base do barranco. Mais de um dos amigos de infância dela foram mal-sucedidos e fraturaram vários ossos ao tentar a empreitada, até os pais os dissuadirem com os piores castigos. Lá estava a construção decrépita que desafiava a gravidade, a cerca de madeira reduzida a fragmentos. Ela olhou para trás, julgou ver um brilho se mover no sereno, na direção em que o jipão estava e não ponderou muito mais: atravessou o limite entre a calçada e o piso da casa semi-destruída, e logo estava na beira do precipício, como ela e a garotada do bairro chamavam. A idéia era simples e desesperada. Descendo para a rua abaixo, sairia da linha de visão de Miguel, que perderia o rastro dela, e alcançaria a baixada do bairro, onde havia muitos cantos para perder-se, esconder-se, até Ingrid aparecer e cumprir seu papel.

Os braços, as pernas, todo o corpo de Laura resgatou a elasticidade e truques da infância e ela realizou uma descida perfeita, pelo lado do barranco em que o ângulo de inclinação era menor , quase à meia-noite, como jamais fizera quando uma menina e à luz do dia. Em nenhum momento perdeu o equilíbrio ou apoiou os pés em um ponto falso, sua memória guiou o corpo e soube exatamente onde pisar, agarrar.

Logo estava, quase sem marcas de lama, na Rua do Córrego Velho, diante a escuridão do mais estranho e evocativo torrão de toda Vila Bonança, a “chácara”, como todos da região chamavam o grande terreno, único remanescente da época, nos primórdios do século XX, em que aquele pedaço da zona norte não passava de um punhado de sítios que produziam verduras e legumes vendidos nos mercados do centro da cidade, um pedaço de outras épocas coberto de mato denso e árvores altas que cercavam dois galpões escuros e um casarão sinistro, do início do século, que de tempos em tempos estava ocupado, com luzes, para depois ficar meses, talvez por um ano, vazio.

Por um único momento Laura admirou a imponência da chácara, viu algo de gótico e misterioso no lugar que tanto a assustava na infância, mas o devaneio foi despedaçado pelo som agressivo do carrão que estacou uns metros adiante e pela batida violenta de sua porta. Ela ficou paralisada e boquiaberta o suficiente para Miguel estar a dois metros dela e anunciar:

– Puta, vaca desprezível, o poder divino está em mim. Posso sentir seus desejos, medos e emanações de muito longe. Julgou que poderia se esconder de mim, descendo o barranco?Ha ha ha!

Ela encarou a face do escroto, deformada pelo riso, olhou mais uma vez para a massa de mistério, escuro e vegetação que tanto acendeu sua imaginação e medos e mergulhou nesta, afastando a cerca de arame farpado meio quebrada como pôde enquanto passava, sentindo uma ponta de metal rasgar seu braço e o sangue quente escorrer na pele.

 

Parte IV

 

Mais uma vez, um conhecimento da infância, que ela ignorava ainda possuir, a guiou e ela dirigiu-se reta para um dos galpões, ignorando as sensações que os sentidos lhe bombardeavam ao avançar – arranhões, coisas molengas e gorgolejantes sob os pés, impactos de folhas no rosto – ela encontrou uma entrada sem dificuldades. Mas uma vez lá dentro, ficou desorientada e tropeçou no que imaginou ser cadeiras e peças de madeira velha. Guiada pelo instinto, coisas a golpeando como entidades invisíveis que do nada vinham, encolheu-se num canto e tentou controlar a respiração. Mas logo um facho de lanterna elétrica  correu pelos cantos,  fixou-se na sua direção  e a voz de Miguel ergueu-se:

– Sei que está aí, nos fundos desse buraco, putinha. Vou te pegar.

O desespero a paralisou por completo. Seus músculos pareciam atados. E onde estava a vampira?Não percebeu que o plano desandara? Por que não aparecia, deixava a mansão dele, a menos de meio quilômetro dali e exterminava o miserável? A situação era tão estranha que a curiosidade e a raiva venceram o instinto de se esconder e gritou:

– Como pode me achar? E como sabe dos meus planos? Maldito seja, seu filho da puta! Viado!

A luz da lanterna esquadrinhou o galpão, passou por ela, como se não fosse importante e permaneceu fixa, voltada para a porta.

–Não sei com exatidão o que sou, provável que um mutante, um tipo de telepata,  como esses dos filmes, mas o fato é que recebo, direto em meu cérebro, os desejos, vontades, temores das outras pessoas, que estão próximas a mim, na forma não de pensamentos, de frases, mas de imagens, de cenas bem definidas, como uma história visual, em cenas. Tenho esse poder desde adolescente, mas só há poucos anos tomei ciência de que é algo especial, antes eu me achava apenas muito esperto. E graças a ele que sempre me dei bem, usava as pessoas, fingia ajudar, via seus medinhos e aconselhava, manipulava os segredinhos, vergonhas e taras dessa gentinha desse nosso bairro. Comi tantas meninas e ajudei os camaradas a comer outras mais por conta disso: eu sabia para quem ou quando queriam dar, via isso nelas. E graças a esse poder eu digo para os trouxas que freqüentam minha igreja o que eles buscam: basta olhar fixamente e as imagens vem a mim. Revelo o que eles de fato querem e os tenho na minha mão, arranco deles tudo que pedir. Irmãzinha, assim que te percebi, durante o culto, vi porque estava lá e qual seu plano. Assim, foi fácil fingir que acreditei e… Não terminou seu discurso: outra luz de lanterna, mais potente que a sua, surgiu da massa de escuridão e o atingiu em cheio, e uma voz sensual e firme sucedeu o lume:

– Você, Miguel Guedes, não é telepata, mas um empata, um ser dotado do poder de captar e compreender o significado das energias e sentimentos mais profundos e importantes dos outros seres. Sim, você é um tipo de mutante, embora a natureza e alcance dessa mutação sejam sequer vislumbrados por sua patética raça mortal. – A voz era bem conhecida de Laura e nova para o rapaz, que, ao conseguir divisar sua dona, não conteve o maravilhamento diante de uma mulher tão deslumbrante. Uma vampira seria tão bela, atraente, no auge da beleza feminina? Os cabelos negros cacheados brilhavam, a boca era vermelha e úmida, os olhos cintilantes. Apenas a pele pálida destoava. Miguel não se furtou em dirigir um olhar lascivo e decidido para a criatura.

–Você, você é.a…

– A senhora de sua meio-irmã, tão antiga e poderosa que desprezo e renego os Anciãos de minha raça, sou Ingrid, a mais poderosa vampira de todo este continente e a mestra dela no aprendizado do mal que só se revela na noite, o mal irresistível e supremo, para o qual te convoco, pois você, como suas emanações mostram, o anseia. Junte-se a mim e terá ainda maiores meios para conseguir mulheres e riqueza. Seu poder, aliado ao meu, nos fará os verdadeiros senhores da noite. Venha a mim, Miguel!

– Você está me convidando para ser seu novo ajudante, na busca de…

Laura ergueu-se num pulo e postou-se entre eles:

– Mestrraa!!!!! – Você vai me trocar por este escroto!!?? Esse é o pior canalha que já conheci e que já andou neste mundo! Este balofo arrogante de fala bonita iniciaria uma guerra santa e te queimaria no palco de sua igreja se isso garantisse mais dinheiro!

– Com o poder dele, atrair vítimas será muito mais fácil e principalmente, mais prazeroso. Ele sabe como iludi-las, por meio do seu poder, o que tornará sua morte ainda mais deleitosa para mim, ao terem seus desejos negados e perceberem isso no instante final.

– Não, não, não!!!!! Vai me trair e me entregar para ele?

Ingrid dirigiu um olhar dominador a Miguel e deu a ordem como se ele a servisse há séculos:

– Prove que pode ser meu acompanhante. Faça com essa biscate o que ansiou por anos e depois a mate. Agora.

Ele pulou sobre ela, chutou-lhe a barriga e em seguida a arremessou contra um punhado de madeira, num dos vértices do galpão. Enquanto ela ainda gemia e se contorcia, ele apanhou o canivete do bolso, apertou o botão de acionamento da mola, admirou a lâmina contra a luz da lanterna e olhou nos olhos de Laura, a expressão de bom-moço do pastor Miguel dissolvida na irracionalidade do monstro que retornara, uma cara de animal lascivo; saliva brilhando nos cantos da boca aberta, arfante, olhos chispando a imoralidade que acabaria com ela, veias do pescoço saltadas, músculos tensos, prontos para o ato.

-E assim o destino executava seu deboche final com Laura, traída por sua mestra e morta pelo homem que mais desejou atirar às presas de Ingrid.E o fim da vida não era como ouvira dizer, que perto da morte, via-se “o filme de sua vida” passar diante de si. A desgraçada gótica que fugira da Vila Bonança para sobreviver e quem sabe viver não recordou sua curta vida, pois estava tomada pelo horror, um sentimento do absurdo, morrer no lugar que mais detestava e que julgava ter vencido. O terror, o desespero da derrota definitiva desfilavam a sua frente.

Com lentidão moveu os braços para frente do rosto, incapaz de encarar o que viria, sem forças para afastar as mãos repelentes que arriavam sua calça.

Mas antes que os braços lanhados e tesos completassem o movimento um brilho intenso fulgurou por trás do vulto do maldito. Os olhos imensos e inumanos da vampira que já era velha quando o Ocidente se formava surgiram por trás do ombro dele e chisparam para Laura, que movida pelo poder do mal, da noite que as duas esferas lhe transmitiam, lembrou-se das duas ocasiões em que venceu as intenções vis de Miguel e escapou. Olhos que lhe disseram o que era capaz de fazer, que incendiaram Laura e transformaram o terror em ódio, o ódio na determinação de viver. .E ela fez o feito de habilidade física supremo dessa noite: num movimento tão rápido que só percebeu que o fez no dia seguinte, rememorando a cena: seu pé esquerdo empurrou o pé dele, calçado em um impecável sapato de solado de couro, um pouco, apenas o bastante para ele tocar o limo que cobria as tábuas velhas que eram o assoalho do galpão. O leve deslizar fez seu corpo perder o equilíbrio e a pose. As mãos de Laura afastaram-se do rosto e tiveram força e sensibilidade suficientes para apanhar o pulso de Miguel no ar, tomar a lâmina e empurrar a peça de metal no sentido contrário, bem fundo na sua barriga volumosa. O som impreciso que ele emitiu e as gotas de sangue que afloraram na sua boca bastaram: ela puxou a arma de volta para o exterior e cravou-a no lado esquerdo do peito, girando o instrumento várias vezes, enquanto grunhia, urrava.

Por fim ela puxou o canivete para fora.  Antes que desabasse no chão de tábuas podres Ingrid saltou sobre ele e sugou todo o líquido das veias.

Laura sentou-se e chorou por algum tempo, até que sentiu um toque suave e frio no ombro:

– Levante-se minha criança e contemple nossa obra. Sua vingança está consumada. – e pôs a lanterna nas mãos trêmulas da garota

Ela encontrou o cadáver à direita, retorcido, descorado, uma expressão medonha no rosto já irreconhecível. Após encarar por algum tempo o que sobrara da pessoa que mais odiou na sua vida, perguntou a Ingrid:

– Ia mesmo me trocar por ele?

– Não, claro que não! Ha! Ha!– As presas ensangüentadas brilharam, quando ela riu – foi um artifício para te levar ao desespero e ao ódio sem esperanças, o sentimento que gera mais poder nos humanos e fez você matar com mais raiva, o que torna o sangue mais saboroso. Entendeu, cara Laura? Eu sabia, ao provocar o joguinho, que você venceria. Seu ódio, aliado ao desespero, lhe deu força e habilidade inimagináveis, mas que já existiam, estavam apenas em repouso, aguardando o auge da noite para irromperem. .

Laura sentiu sua admiração por Ingrid aumentar, levantou-se, abraçou-a como a uma mãe e perguntou:

– E o corpo?

– Não se preocupe, Anson cuidará disso, como sempre. Agora venha, minha criança. – E a tomou pela mão, para fora daquele lugar velho e bolorento.

 

 

 

 

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