Por Caio Bezarias
Revisado e editado por André L. Pavesi e Elis Verri

 

Parte I

 

“And late at night the last open cafe in a dark street
Down some stairs
She’s gone into a distant light”

Kirlian Camera, Heldenplatz

Luz branca para noites negras

Tokyo Road, uma das casas noturnas de rock no início da rua 13 de maio, início de uma madrugada de sábado

O sujeito era alto, forte, rosto brilhante e liso, tão jovial que lhe dava ar de criança crescida, cabelos curtos muito bem cortados, alinhados à perfeição por gel, metido numa camisa justa aberta na medida exata para revelar o peito musculoso e os braços moldados em academia, um grande macho  que tratou de revelar sua condição de tudo pode e tudo faz: ergueu-se da banqueta já rijo e ereto, pousou as mãos com estrondo no balcão de madeira envernizada e manchada pela coroa de umidade de inúmeros copos de bebida e disparou as palavras em alto volume, animado pelo poder que o álcool lhe deu:

– Porra, mina, qual é a tua? Fica dando trela, segurando minha mão, apertando os coxão em mim e aí quando chego junto dá uma de santinha, de virgem? – gotículas de saliva varavam o ar, com as palavras.

A mulher para a qual dirigia sua fúria aparentava entre 25 e 28 anos, corpo de 1,65 metro  de altura, com curvas exatas, nem provocantes, nem apagadas, envolvido por um vestido preto curto e justo – seios médios mas muito empinados e firmes, traseiro não muito avantajado porém delineado e evidente, a pele muito bronzeada e os cabelos alisados e marcados por faixas brilhantes, mais claras que o moreno natural. A sandália de couro negro lhe conferia pelos menos mais dez centímetros de altura. O rosto bonito, oval e harmônico, com queixo pontudo, olhos escuros cintilantes, boca de lábios finos e avermelhados, nariz  um tanto longo e curvado para baixo, único elemento que destoava da beleza nesse momento petrificada numa máscara de espanto e medo, um olhar de garotinha desamparada implorando por proteção, acompanhado de um arfar rouco.

O sujeito gritara numa voz tamanha que se sobrepôs, para os mais próximos, ao som estridente e desafinado do grupo no palco, que destroçava clássico após clássico do rock setentista, o que fez todos ao redor cercarem os dois em um átimo; alguns homens e mulheres já trataram de proteger a pobre garota do brutamontes, pondo braços entre eles e tentando empurrá-lo para longe.

– Não tenho obrigação de ficar com você! Com ninguém! Só…só  estávamos conversando,mais nada… eu … – a voz da garota era mais aguda e frágil a cada palavra, ela parecia não saber de fato o que se passava ou como se desvencilhar do cara.

Mais pessoas olhavam curiosas e frases curtas “ deixa ela”, “sai fora, meu!” vinham de trás da aglomeração.

Outros espiavam a cena, sem algo dizer ou agir. Dentre eles, um sujeito bastante alto, forte, vestido como um rocker clássico: botas negras de cano alto e solado pesado, calça jeans desbotada colada às pernas musculosas, camiseta branca ostentando o logotipo de alguma banda clássica dos anos 70, cinto cuja fivela era uma caveira alada cromada, os longos cabelos escuros mais lisos que cacheados espalhados pelas costas, um rosto atento e duro, riscado abaixo do olho esquerdo e no queixo por algumas poucas e curtas cicatrizes, com várias linhas de expressão abaixo dos olhos apertados, estreitos, que observavam a cena com ostensivo interesse, a registrar cada detalhe dos protagonistas do pequeno conflito tão comum na noite.

O grandalhão calado estava há pouco mais de um metro da cena, sentado numa banqueta encostada ao balcão. Parecia apenas mais um curioso pelo desfecho, mas seus sentidos capturavam todas as reações corporais da vítima com uma clareza e precisão inumanas: tom de voz, tensão dos músculos, movimento dos olhos, abertura da pupila, posição em que o corpo permanecia, em que ponto do corpo os pêlos se eriçavam, ritmo da respiração, tudo da pequena indefesa ele registrou, mediu e avaliou, seu corpo e mente lendo, interpretando e relacionando cada reação corporal. Ele era Jorge, o mais recente habitante da cidade que  recebera o chamado de Gaia e se tornara membro do Povo, um licantropo. E sua parte  licantropa identificou algo estranho na massa de emanações corporais da garota, um único elemento se destacou, que lhe deu a certeza de que era a mesma de uma noite de poucas semanas antes.

Ela não tentou se afastar do estúpido, como qualquer mulher faria diante de um provável agressor, permaneceu na mesma posição, desde o momento em que ele se ergueu da mesa, numa posição como que adequada para receber o máximo da respiração e as gotículas de salivas contra seus tórax e abdome que a barreira de braços e cabeças permitiria, pois estava estática bem à frente dele, paralisada, olhar parado. E o sujeito era pelo menos dez centímetros maior que ela. Um humano explicaria essa estranheza como algo que dominaria qualquer mulher pequena e frágil numa situação como aquela, a típica paralisia que acomete os humanos engolidos pelo medo. Mas Jorge não era de todo humano e seus sentidos mais que humanos o convenceram: algo estranho  ocorria. E tinha de descobrir, nessa noite, porque  ela não se afastava de imediato de homens que assediavam com violência, pois o lobo dentro dele alertou que algo contra os desígnios de Gaia ocorria com ou por causa da garota e ele, como instrumento da mãe de todos, tinha de, pelo menos, descobrir o que se passava. E claro, sua porção humana, seu corpo de homem, tinha outros planos para a bela fêmea, planos que não haveriam de conflitar com a missão.

Ele já tinha formulado sua fala, a linha de ataque, quando um sujeito bem semelhante a ele em estilo, apenas um tanto barrigudo, meio grisalho e ostentando um cavanhaque loiro muito bem cuidado sentou-se ao lado dela e perguntou:

– Agora está tudo bem, Anna. Precisa de algo? Quer uma bebida? Ninguém vai te agredir mais, não se preocupe – e olhou de esguelha, sorrindo, para o garotão, que arreganhou os dentes e afastou-se grunhindo sobre os folgados e as putas que ferram com a vida dos outros.

A garota desviou o olhar do coroa ao girar a cabeça para a esquerda e disparou um suspiro demorado, o rosto retesado de puro fastio. O jato de ar foi intenso o bastante para uma pequena porção atingir, a mais de metro de distância, os pêlos hipersensíveis do braço direito de Jorge, que se arrepiaram não por ser a respiração de uma bela mulher tocando seu corpo, mas por conter um rubor estranho, não parecia carnal, não parecia…normal, um sinal muito sutil de algo sintético, que não parecia orgânico, tênue demais para ele definir o que seria,  e isso o  assustou. O que era essa garota? Ela era humana, ou apenas aparentava ou fingia ser? Mais uma espécie de criatura sobrenatural descobrira as vantagens e delícias de habitar e se alimentar em uma cidade tão caótica e enorme? Mais problemas para os seres das trevas que enxameavam durante as noites paulistanas?

– O que você quer?

– Sou apenas um cara educado que não admite uma mulher ser agredida por um macaco marombado na sua frente. E você é amiga dos meus amigos, entramos todos juntos aqui, lembra?

– E claro, salvando ela desse macaco conquista a simpatia dela e algo mais.

– Um homem pode ser gentil com uma mulher sem ter segundas e sexuais intenções, moça.

– Você é igual a todos os outros, começa com uma conversa linda e depois seu comportamento fica horrível. Chega! – E a garota paralisada de medo dissolveu-se na fumaça e vapores que empesteavam o clássico bar da 13 de maio para dar lugar a uma mulher decidida, que ergueu-se de um pulo, bolsinha branca de couro bem presa às mãos, reta, firme. Como se fosse uma cavalona de 1,80 m vivida caminhou em passos decididos até a um casal bem-vestido sem traços especiais, as primeiras pessoas que buscaram afastá-la do garotão de cabelo alinhado, minutos antes, típicos freqüentadores dos bares de rock arrumadinhos do Bexiga, que assistia a tudo na outra ponta do balcão e anunciou para eles:

– Não deviam ter me trazido nesse lugar. Tô indo, vou tomar uma cerveja lá fora e depois pego um táxi. Depois ligo. Beijo.

Nada disseram, apenas a garota fez um curto aceno de concordância, como se já  a conhecesse muito bem.

A espera de pouco mais de um minuto para pagar a conta e poder sumir na noite foi sofrida. Mordiscou uma unha, olhou para os lados várias vezes, lábios entreabertos, olhos arregalados, como se um bando de seviciadores fosse pular sobre ela; ao cruzar o olhar com o de Jorge murmurou algo e o corpo ficou ainda mais rijo.

Ele não praguejou por ser obrigado a mudar a ação. Continuou sentado, engoliu o resto do uísque e menos de um minuto depois pagou a conta e ganhou a rua de uma noite de final de semana típica dos primeiros metros da 13 de maio: no momento em que se mergulhava nela, não parecia existir ali um limite entre a rua, as calçadas, as luzes noturnas e as pessoas, tudo era uma mistura confusa e atraente de luzes – luminosos nas fachadas de casas noturnas, placas de botecos, faróis de carros e motos empacados na lentidão; pessoas– mocinhas com corpo e rosto em flor, envergando roupas justas e curtas, salto alto, em busca de bebida , diversão e companhia, rapazes em camisas de gola, ansiosos por ser os escolhidos das garotas, quarentões em jaquetas de couro, cabelo comprido já grisalho, dispostos a tomar as meninas sem dar chance aos rapazes e a usar ao máximo os anos que lhes restavam de uma juventude terminal, trintonas e um pouco mais que isso em pequenos grupos que disparavam olhares sedentos a todos os homens; ruídos – conversas, risadas, gritos, buzinas. Nessa profusão de sinais a emanação da garota estava oculta, indistinguível. Jorge refinou ao máximo que podia seus sentidos lupinos ainda um tanto imaturos e pouco sutis na percepção para encontrar a direção que deveria seguir.

Um rumor muito leve na brisa noturna indicou que deveria subir a rua, seguir na direção das cantinas. E novamente, a emanação causou um estranho arrepio em sua pele. O lobisomem tinha detectado outro ser ao menos em parte  não-humano, não restava dúvida.

 

Parte II

 

Caminhou pela calçada em passos muito lentos, para não deixar qualquer nova pista escapar. Bastaram pouco mais de trinta metros: lá estava ela sentada num banco do bar do Eloy, um simpático e divertido boteco cujas paredes eram um caos de fotos de deuses mortos do rock e badulaques coloridos que pareciam ter sido surrupiados de uma casa de praia vazia, rádio para sempre sintonizado na mesma emissora de “classic rock”, o dono atrás do balcão, uma figura lendária da cena roqueira do Bixiga da década de 80, convertido, agora na meia-idade, em vendedor de bebidas e contador de histórias para os mais jovens.

A garota bebia cerveja de uma lata em grandes goles e a cada meio minuto olhava para os fundos, na direção dos banheiros, parecia ainda mais ansiosa que há pouco antes. Intrigante.

Jorge fez uma manobra simples para evitar que ela o visse ali, na rua, tão próximo: entrou no boteco mais abaixo, do mesmo lado da rua, pegou uma cerveja em lata com o balconista e ficou de esguelha, no limite entre a calçada e a entrada do bar, recuado e olhando para a direção contrária, girando a cabeça de quando em quando, como se apenas para acompanhar o fluxo da noite e não observar algo ou alguém em especial.

Para alívio da garota, a espera foi breve: um sujeito de altura mediana, pele acobreada, magrelo, roupas folgadas, tênis encardido, barba de vários dias a crescer sem cuidados na cara, o cabelo uma massa de tranças de estilo afro embaraçadas, olhar meio feroz, meio chapado, surgiu do interior do bar e sentou-se ao lado dela. A tentativa da garota de disfarçar, fingir que não o conhecia foi tão mal-feita que indicou o oposto: espiou pelos cantos dos olhos fixamente, seus pés delicados foram possuídos por um frenético sobe e desce da base do banco,  fingia estudar as unhas para não pregar o olhar nele, até que divertindo-se com a cena, ele sussurrou algo para ela, que apenas sorriu, pulou da banqueta e disparou para os fundos.

Jorge vivia há anos no coração do Bixiga, nas proximidades do burburinho da 13 e sabia quem era esse sujeito e o que fazia enquanto perambulava pelos bares e era abordado por parte da garotada arrumada e sorridente que bandolava pelas casas de rock da região. Sabia por que eles o procuravam com tanta ansiedade, algumas vezes com olhar faminto, exalando desejo por algo, outras cheios de medo e por que ele por vezes desaparecia por semanas e semanas.

E quando a garota retornou, em menos de três minutos, ainda mais agitada, mas em um ritmo diferente, não tensa ou ansiosa mas cheia de alegria, os olhos mais abertos,  Jorge teve seu palpite confirmado e saiu  firme e decidido do esconderijo improvisado, se postou na calçada, olhar direto para o boteco roqueiro do Eloy, para se mostrar e agir.

Antes que o lobisomem completasse seu movimento, ela parou ao lado do sujeito, que estava numa posição ainda mais largada, parecendo um cadáver sentado, o olhar arrogante ainda brilhando, e disse numa altura bastante para Jorge ouvir:

– Tá no lugar de sempre, valeu. – E pôs-se a saltitar pela calçada, subindo, subindo, olhando para a rua, a sua esquerda, uma vez ou outra, procurando algo, mas sem pressa por encontrar.

Pôs-se a segui-la sem se preocupar em esconder-se e após poucos metros algo ainda mais estranho desprendeu-se dela e atingiu os pêlos de seu braço: a irradiação sobrenatural sumira,  engolfada por um vagalhão de pura euforia. A nova onda de emanações intrigou mais Jorge e aumentou sua decisão de intervir, pois era óbvio que ela tentava aplacar o desejo sexual não-satisfeito por meio de mais e mais droga e que isso estava a deformando.

Acelerou o passo, para alcançá-la, as palavras para formar uma abordagem em aparência casual passando pela consciência. Estava ofegante e ansioso, pois sentia uma imposição de não deixar que escapasse, que entrasse em um táxi.

E Gaia ou outro de seus servos interviu a seu favor, assim imaginou: a garota interrompeu a busca com o olhar por um carro branco, e sem razão aparente, como se movida por uma força superior e invisível, virou-se para a calçada, esqueceu a rua e estacou, ao ver-se bem diante de outro bar: um boteco de teto baixo, mais arrumado e limpo que os seus vizinhos mal-cuidados, seu interior ocupado por mesas e balcão pintados em cores vivas, paredes repletas de máscaras e cartazes de peças de teatro, um pequeno bar devotado à arte da representação, freqüentado por atores de pequenas companhias da região, aspirantes a artistas e fauna que girava em torno deles. Ela estudou o lugar por não mais que segundo, acenou e sorriu para alguém no interior e entrou.

Jorge parou por um instante, contrariado, suas mãos se crisparam num movimento involuntário. Aquele bar era notório na região por ser freqüentado por gente metida, nada sociável com estranhos às tribos que lá posavam de bôemios para seus pares. E ele não tinha apreço algum por aqueles artistas frustrados e esnobes, bichas e sapatas azedas e arrogantes, pseudo-cabeças em geral. Por duas vezes entrara lá por puro acaso, para tomar uma cerveja de fim de noite, e recebeu um tratamento que o divertiu, de tão patético na tentativa de fazê-lo se sentir inferior a eles e ainda mais, provocar-lhe medo!

Bem, então era uma das putinhas aspirantes a atriz ou amiguinha de bichas intelectualóides. Seria necessário um pouco mais que lábia de conquistador para desvendar o mistério: teria de ser paciente. Isso o contrariou mais.

Ergueu a fronte e entrou como um bárbaro prestes a devastar uma civilização decadente e afetada.

 

Ela papeava animada com o balconista, uma bichinha mal saída da adolescência, quando ele passou pela porta de vidro e atraiu os olhares dos seis bebedores.  O mais demorado foi o dela, que o reconheceu e torceu um tanto a boca, ao lembrar especialmente onde o tinha visto. Mas o esgar logo sumiu, expulso por um lampejo, curto mas intenso, que brilhou nos seus olhos castanhos, dando-lhes uma beleza que deixou Jorge mais lânguido e sem que percebesse,  o fez baixar a guarda. Para o inferno dos sanguessugas com sutilezas e planos, a tomaria e descobriria seu segredo da maneira carnal.

Ele chegou-se a eles, pediu uma cerveja ao garotinho afeminado, já exibindo o pagamento, dirigiu a ela um sorriso cafajeste, e após receber a garrafa e o troco, acompanhados de um gemido baixo, sentou-se na mesa mais afastada.

A dama da noite trocou mais algumas palavras com o amiguinho e saltou do balcão, em direção a Jorge, uma lata de cerveja nas mãos, espalhando seu perfume exagerado e irresistível ao redor dele, enquanto puxava a cadeira e ficava de frente. O trio na mesa mais próxima olhou, espantado com a ousadia dela.

– Você me viu no Tokyo e veio atrás de mim, certo? Já te aviso: conheço todos aqui. Este é meu lugar na 13. Se tiver as mesmas intenções e o mesmo proceder daqueles boyzinhos, vai se dar bem pior que aquele tipo.

Jorge bebeu a cerveja rala com vagar, olhos presos nos olhos dela, sua mão inclinava o copo com uma calma que a irritou. Após pousar o copo encarou-a por mais tempo que seria razoável, sorrindo, até que disparou, a mesma expressão no rosto e olhos antes e durante:

–   Este é seu território, então gosta de teatro, se não for atriz é no mínimo aspirante.  Já atuou alguma vez? Ainda atua?

Algo da garota do Tokyo retornou, dando-lhe jeito de menina doce. Os olhos brilharam mais uma vez, um sorriso franco surgiu nos cantos dos lábios, reclinou-se na cadeira feia e dura num movimento gracioso e fluido. E a voz se alterava nas sílabas mais altas, vibravam de entusiasmo.

 

Parte III

 

– É a arte mais mágica de todas, recria o mundo como nenhuma outra, é simulação da vida que se torna vida.

– Os atores sempre dizem que sua arte é maravilhosa, o pessoal do teatro exalta tanto a arte a si mesmos, mas eu acho que deve ser um peso enorme, desgraçado mesmo, fingir e fingir tanto. Acho que eles queriam mesmo é fugir disso e ter uma vidinha normal, mas não conseguem, como se estivessem viciados nisso, será que talvez escolheram a representação para não saber na verdade quem são?

Ela bebeu um gole e o olhou, estudando:

– Você é ator para saber tanto assim?

– Não, sou apenas um cara que anda com todo o tipo de gente, observador e sensível.

– Você, sensível? Acho que tem grande sensibilidade apenas para as funções orgânicas, sexuais, das mulheres.

– Para certas situações é toda sensibilidade necessária. – estreitou os olhos.

– Como agora, não? – Recuou um tanto  e ficou em posição de espera.

– Não sejamos apressados, vamos conversar mais um pouco. – E tomou um longo gole, fingindo despreocupação, os olhos passeando pelas referências à representação. Súbito, algo veio a sua consciência, uma revelação que teve o impacto de um choque elétrico percorrendo o corpo. Seria isso? Então, mais tato e calma seriam exigidos. Maldição! Malditos servos da sombra, da Wyrm. Por que não dar um basta naquela conversa mole, agarrá-la com força para captar toda sua emanação assustadora passando dela para ele e  sentir e ver o que ela é e rosnar: ‘ O que é você? O busca entre os humanos’?

Acalmou-se, agradeceu por Gaia de novo ajudar e após um suspiro que dissipou sua tensão, continuou:

– Não deve ser nada fácil para encarnar uma personagem e não se deixar dominar por ela. O quanto da representação é a personalidade de verdade do artista? Como ele controla isso? Será que ele não deveria deixar sua personalidade aflorar, exatamente para isso, não se deixar dominar pela persona, a máscara?

– Por que deveria? E se a vida dele é, na verdade, tão desesperadora ou vazia que só no palco representando, ele se sente real? Encarnando outros que não ele?  Mas outros que vivem os mesmos dramas. O ator incorpora toda a humanidade! –  as últimas palavras surgiram num crescendo, até a última soar tão entusiasmada e sincera que soou como a voz de uma criança.

– Respondeu convicta. Jorge respondeu com um sorriso cínico que se desfez em seguida:

– Se assim é, ele deveria perceber que há algo muito errado com ele. Fingir sempre? Já ouvi falar de atores que se deixaram dominar pela personagem e se perderam, destruíram sua vida pessoal, ficaram ainda mais vazios, sua vida perdeu todo o calor. – Seus olhos se abriram, a boca pronunciou  – porque ele perderam o controle sobre a vida representada nos palcos.

–Que importa, no fundo? Se todos nós representamos, nesse mundo de merda, todos nós temos de ser um pouco atores? Alguns tanto que esquecem quem são. Outros, ao perceberem essa loucura, não agüentam e piram: vão viver na rua, se viciam. Então, fingir assim não é mais saudável?

– Artistas são, portanto, heróis que ao se exporem e se arriscarem mostram o que é esse mundo de merda como você chama? Mostram a verdade sobre nossas vidas, são superiores a nós?

– Eles brincam com nossas motivações, desejos e manias, mostram como são ridículas.

– E brincar com as pessoas é bom?

– Claro que é. Não concorda? – o brilho voltou aos olhos dela.

– Acho que certas pessoas brincam tanto que esquecem como é a coisa de verdade. – E pousou os cotovelos na mesa, encarando-a.

– E não é assim, cara? Se sabe algo sobre teatro grego, a arte no mundo clássico, vai lembrar que esse espírito já existia desde esse tempo.

– Naquele tempo já existiam fugas para se evitar a vida real?

– Você fala como se fosse algo ruim.

– Princesa, não existe paz ao se evitar a vida, como disse uma escritora.[1],

– As coisas perdem a graça quando acontecem. Fazer não é o melhor, e sim ahhhh. – suspirou e depois inspirou profundamente. Sua mão pousou na dele com leveza, movida por uma força despreocupada, causando um choque no lobo. Uma sensação de prazer, um estremecimento delicioso que o abalou por inteiro percorreu Jorge por todo o corpo ao toque suave e profundo. Seus pêlos se arrepiaram, um calor interno fez o desejo de uivar para a lua e o universo, anunciando estar muito vivo.

– Sustentar um limiar eterno, que nunca se consuma, sempre tenso, apenas brincar, roçar de leve, um teatro na vida, o teatro da vida. Isso é prazer de verdade.

A voz dela tornava-se um sussurro a cada sílaba, as palavras carregadas de significado e profundidade, pareciam não nomes de idéias e coisas, mas as próprias, vivas e materiais, dançando à volta dele, tudo o mais ao redor  indefinido, nebuloso; apenas a garota e o prazer que vinha do mínimo contato físico eram nítidos. O impulso rijo e ardente de tomá-la nos braços, primeiro tocar rosto e cabelos e depois cobri-la de muitos beijos vorazes para que ela também desejasse o prazer maior dissolveu-se em tépida e frouxa satisfação em sentir o desejo fluindo de um para o outro, sem que fosse satisfeito, em apenas sentir a vida se manifestar no fluxo de energia sexual que corria entre eles, fluxo que tornara tudo e era melhor que o próprio ato que prenunciaria sem jamais ocorrer.

Ele não percebeu por quanto tempo estiveram enredados nesse fluxo até que outro impulso o varreu, enviado por Gaia (supôs mais uma vez) e o fez inclinar-se para a frente e buscar a boca pequenina e brilhante, que fugiu  e fugiu em meio a sorrisos e mordidas leves nos lábios, o que o enlouquecia mais de desejo e era mais delicioso, pois prometia um prazer supremo.  E foi esse lapso de tempo que alarmou Jorge, pois ela resistia mais e mais, a mão delicada e frágil agora rejeitava contato da mão grande e máscula por mais de um segundo, os lábios ainda não haviam se encontrado. Por fim, ele agarrou os braços dela, ignorou seu guincho de medo e surpresa, o olhar de pânico e fechou os olhos por um instante, para mobilizar sua percepção lupina ao máximo e atingir o sentir-ver-perceber total, descobrir o que ela realmente era, queria e fazia.

Ele estava no limite de seu controle: mal conseguia conter o impulso enorme, vindo de sua essência homem-lobo, que ordenava que uivasse disparando jatos de saliva, libertasse as garras que ferviam dentro dos dedos humanos e as cravasse na mesinha de plástico sujo, para em seguida atirar o objeto longe, derrubar todos os quadros e máscaras da parede, derrubar a porra do boteco todo e finalmente agarrá-la, trazê-la até seu corpo, e possuí-la, mutado em uma forma meio homem, meio lobo ali mesmo! E era exatamente a graça de fugir dele mas estar ali estar presente, em meios a sorrisos, pura graça feminina, que o detinha, até que Gaia (assim ele sempre julgava) o tirou da ilusão. Diante dele brilhava uma criatura de aspecto feminino, humana sim, mas anormal, distante da criatura indefesa e perdida que vagava pela noite. O impulso sexual era forte e evidente, brilhava e corria por ela na forma de um emaranhado de cintilações vermelhas e pulsantes, pura energia da vida que buscava se manifestar e se multiplicar pelo mundo físico mas fora barrado em seu propósito pela mente infantil e assustada de uma menina que não queria ser mulher. Como a energia sexual não poderia ser extinta, fora desviada na forma de simulações, brincadeiras e provocações com o ser para o qual sua natureza lhe dirigia, até se tornar uma forma de prazer…vampiresca. Anna acalmava seus desejos sexuais alimentando-os com as emanações e imagens do desejo por ela que os homens que a encontravam sentiam. Os provocava da maneira mais sutil, fazia-se de virginal sequiosa por perder a inocência, e mantinha esses jogos inebriantes com mínimo contato físico até o momento em que aqueles seres brutais estivessem no limiar de perder o controle e atacá-la, quando era possuída pela  virgem atacada por um animal insensível, desesperava-se e desaparecia em meio a gemidos de pavor e caretas de medo. E sempre, sempre, em todas as ocasiões, a noite terminava da mesma maneira: um mergulho numa trilha branca de um pó mágico que dava outro prazer, fugaz e perigoso, uma fuga, mas bastante para ela continuar sufocando as forças biológicas  mais antigas e fortes que sua personalidade fraca e orgulhosa mal conseguia deter.

Ela era uma vampira de impulsos e energia sexuais, se deleitava com os desejos dos homens, mas nunca os satisfazia e nunca satisfazia a si mesma. E o mais assustador: ela não sabia.

Tudo isso foi revelado a Jorge durante um átimo de tempo. Ele soltou a garota, fuzilou os olhos escuros e agora sem brilho, perdidos atrás dos cílios perfeitos com seus olhos lupinos, impedindo a luz lupina amarela de vazar deles com grande disciplina e atacou:

– Diga-me, minha linda dama da noite que espalha seu viciante e pesado perfume na homarada, até quando vai negar seus desejos, negar a si mesma e abusar das carreiras de pó para segurar essa onda cada vez maior? Acha que vai suportar só flertar, flertar e depois fugir para sempre?  Não vê o que é? Você…

O tapa no rosto não doeu muito, mas o som de estralo foi imenso, reflexo do movimento violento mas preciso:  ela era uma criatura tão teatral e doentia que até mesmo essa reação tinha de ser dramática.

Todo o bar parou em seguida, o ar parecia imóvel, até que ela soltou um som agudo e indefinido – parte grito, parte maldição, parte desespero de ter seu vazio desnudado, levantou-se e disparou porta afora.

Calmo e majestoso, ignorando as perguntas, impropérios e gritinhos histéricos dos presentes, ele levantou-se, caminhou contrariado para a porta e observou a noite da 13 de Maio, sem a mínima intenção de encontrar a figura dela na massa humana, certo de que ela estava numa busca desabalada,em outro bar, talvez em alguma saleta ao fim de uma escadaria, por mais uma porção de luz branca para iluminar um tanto suas noites negras.

Antes de sair caminhando, em busca de uma bebida mais forte, veio-lhe uma observação engraçada: pois não é que conseguiu fazer com que ela o tocasse por vontade própria, como planejara no início da “missão”?

 

[1] Para os curiosos: frase atribuída a Virgínia Woolf.

 

 

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