Por Elis Verri
Revisado por Caio Bezarias e Vinicius Zahorcsak

Kalika, negra língua flamejante, envolva-me
Faça-me um com seu poder por toda a eternidade
Desperte o reflexo da chama no meu interior
Beije-me com seus lábios sangrentos e leve-me à loucura ~ Dissection

Todos jornais noticiaram o massacre.

“Cinquenta pessoas foram encontrados mortas em uma casa noturna na zona Leste de São Paulo. O dono do estabelecimento Lithium e mais outras cinco pessoas foram internadas em estado de choque. Ainda não há suspeitos”

“Laudos mostraram que alguma das vítimas morreram instantaneamente por conta de parada cardíaca, antes de serem decepadas. Autoridades trabalham com a hipótese de os suspeitos serem de alguma seita religiosa”

“Moradores afirmam que na fatídica noite ouviram um grito de mulher que foi ouvido a distâncias dali”

“Com os sobreviventes impossibilitados de falar, a casa noturna Lithium encerra as atividades”

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Parte I: Danças ancestrais

Como era de costume, Lívia chegava na casa de sua professora de dança ao anoitecer. Era um sobrado não muito grande, mas bem antigo, próximo à estação Belém. O pequeno portão do hall da entrada sempre estava aberto: a garota passava por ele, e a menos de dois metros já batia na porta pesada de madeira com a vidraçaria empoeirada na parte superior.

Lívia morava na região, e mesmo com sua dupla jornada de aluna de faculdade e professora em uma escola de jardim de infância, conseguia acompanhar as aulas de sua quase vizinha, por quem tinha um discreto amor platônico.

A porta foi aberta. Um cheiro forte de incenso veio da sala, forrada com espelhos em duas das quatro paredes e repleto de almofadas tão cuidadosamente bordadas quanto antigas no chão. Uma figura de olhos brilhantes abriu a pesada porta e sorriu.

A idade da anfitriã era uma incógnita, já que apesar da aparência jovem, tinha um ar maduro de sobriedade. Estava vestindo um vestido vermelho simples até os joelhos, bordado tal como as almofadas, mas o pescoço estava adornado com colares de pingentes com símbolos e animais.

Parvati, como se chamava, era filha de indianos, pelo que Lívia soube. A pele morena parecia dourar com a luz, e a cor de seus olhos lembrava âmbar. Só essa descrição já fazia Lívia achar que a professora havia saído de um conto das “Mil e Uma Noites”. Além, claro, dos longos cabelos negros presos por uma trança.

Parvati sorriu, e pediu que a aluna entrasse. Lívia percebeu, ao entrar no cômodo mais iluminado, que sua professora estava com olheiras um pouco mais evidentes naquela noite. Mal deve ter dormido, pensou. Apoiou sua mochila no chão, e começou a procurar seu lenço de dança. Apenas uma das paredes não tinha espelho e, até aquela noite, estava coberta por uma cortina de cor azul.

A cortina, daquela vez, estava suspensa, amarrada por uma corda. O que estava por baixo dela, e pregada na parede, era uma rica tapeçaria. Lívia pôde reconhecer os desenhos, embora não tivesse certeza. Eram dois deuses, certamente hindus, mas o modo como os olhos estavam esbugalhados a fez arrepiar-se. A mais impressionante tinha quatro pares de braços, acentuando seu calafrio.

Lívia nunca perguntava sobre as crenças ou pessoalidades da professora, embora tivesse curiosidade. Mas hoje estava especialmente interessada naquele ambiente tão misterioso, ainda mais depois daquelas figuras estampadas. Antes que pudesse fechar por completo a cortina, Lívia não se conteve:

– Parvati, quem são esses deuses? Quero dizer, são deuses, não?

A professora fixou os olhos em Lívia e respondeu calmamente:

– É Kali. E embaixo dela, Shiva. É uma dança.

– Dança? Nunca imaginaria que eles estariam dançando… – contestou Lívia.

– Apenas Kali está. É a dança da morte, vê? – e apontou para a tapeçaria – As caveiras e os corpos. Shiva estava tentando fazê-la parar, por isso se colocou debaixo de seus pés.

– Achava que danças só matavam de excitação – arriscou a garota, no trocadilho.

Parvati, por alguns segundos fez olhos de gato, e sorriu para a parceira. Lívia sorriu de volta. Tenho certeza que é dançando que ela consegue companhia para as noites, pensou a aluna. E para a indiana, o pensamento não pareceu ser muito diferente.

Em direção aocentro da sala, as duas começaram os movimentos que alongavam as costas, as pernas e também a virilha. Um som indiano enchia a sala, misturado com ritmos tribais. O cheiro de incenso também era presente e deixava o ambiente ainda mais místico, somado às luzes não tão intensas.

Para Lívia, Parvati era um mistério. Não conhecia as outras alunas que ela dizia ter, e tampouco sabia sobre sua vida. Quando a conheceu, em uma pista de dança, Parvati estava encantadora, dançando como nunca ao som de alguns dark wave. E a seguiu até em casa, quando calmamente (Parvati era sempre calma), a mulher perguntou o que ela queria. Envergonhada, a estudante pediu desculpas e elogiou a dança daquela noite. Parvati, para surpresa e encanto de Lívia, ofereceu para lhe ensinar a dançar.

Desde então, frequentava sua casa toda semana. E as noites se resumiam a dançar, enquanto Lívia voltava para casa ou ia para alguma boate, mas sempre pensando na mulher.

Naquela noite, Parvati a ensinaria movimentos típicos da dança tradicional indiana.

– Falar sobre Kali para você me fez lembrar das danças de meu povo. Há quantos anos eu não faço esses movimentos…

Parvati estava satisfeita, o que deixou Lívia contente pelos sorrisos espontâneos da parceira. E por vezes, achou que tivesse visto mais alguém na sala, enquanto rodava. Talvez o giro a estivesse deixando tonta mesmo, pois podia também jurar que as feições de Parvati mudavam quando elas se olhavam.

 

Parte II: Pedidos

Parvati estava satisfeita por ter dançado daquela maneira. Era verdade: há muitos anos ela não dançava as tradicionais indianas para alguém, nem mesmo para Kali, sua guia. Ou mesmo sorrir como Lívia havia lhe feito de uma maneira tão espontânea… Sua condição não permitia isso, essa que era sua maldição mas também a vida oferecida por Kali, a quem era tão devota.

Sua força e seu nome vinham da deusa estampada na tapeçaria, mas também que morava em seu interior. Quando saia para caçar nas madrugadas, era Kali quem a tomava e por ela fazia as maiores atrocidades as quais chamava de banquete. A calma tão aparente em sua feição escondia um monstro dentro de si, que todas as noites se manifestava em busca de alimento e também de sacrifícios. Kali havia lhe dado a vida eterna, e por toda sua imortalidade iria servi-la. Ela não tinha escolha.

Mas ainda assim, carregava consigo a chama da humanidade, que só se mantinha acesa por conta de sua fé. Isso a deixava sob controle, até mesmo para resistir a sua companheira mais próxima, Lívia, que era a única a qual permitia atravessar o limite de sua escolha de ser uma vampira solitária.

Duas horas depois, quando a lua já estava bem posicionada no céu, a aula se encerrou. Mas quando Parvati foi desligar o aparelho de onde vinha a última música, Lívia segurou sua mão. Era a primeira vez que a aluna lhe olhava daquela maneira. Mais que isso: era a primeira vez que ela a tocava.

– Parvati, eu… – começou Lívia – coreografei uma dança. Gostaria de te mostrar.

Parvati ainda não tinha respondido, quando a aluna colocou a música que queria. Era uma canção sobre alguns deuses egípcios. Lívia afastou-se para o meio da sala de espelhos, e começou sua coreografia. Logo após a introdução, um batuque mais forte e intenso marcava o som, que de início parecia lento, dando espaço para um verdadeiro ritual sonoro.

Ela estava lutando contra a timidez, Parvati percebeu. E ao observá-la dançar, ficou feliz por ela tê-la seguido aquela noite. Era uma jovem bonita, de pele clara e cabelo castanho claro até os ombros. Ela fazia cada movimento docemente: aprendera tudo o que Parvati lhe ensinara, mas tinha um toque de pureza e amadorismo em cada balançar de quadris que fazia.

Parvati a havia deixado entrar em sua casa, tal como um vampiro também só pode entrar se convidado. Tudo por um jogo e curiosidade? Estaria ela moldando a jovem universitária para que logo também fosse agraciada pelos domínios da noite?

Enquanto assistia, embora séria, sentia um calor por trás do pescoço e apertava com força seus punhos, sob os braços cruzados.

Parvati a desejava.

Lívia olhava para a sua professora sempre que se virava para ela. Conforme a batida da música ficava mais intensa, mais ela se aproximava. Os improvisos da música a faziam cambalear, mas sempre conseguia se sair bem, jogando os quadris para os lados para manter o equilíbrio. Na última batida, as duas estavam cara a cara, e o silêncio se fez.

Parvati levou uma de suas mãos até o rosto de Lívia e afastou o cabelo do rosto suado. O toque fez tanto uma quanto a outra estremecer. Lívia, com sua pressa juvenil, empurrou a professora contra a parede de espelho e a beijou. Afastando-se poucos milímetros, Lívia a olhou surpresa, provavelmente pensando no quanto sua pele e lábios eram frios.

Lívia, por outro lado, estava quente. A indiana, já pulsando seu instinto de caçadora, voltou à atenção da aluna, correspondendo ao beijo e empurrando-a mais forte para o chão.

Eu te desejo, desejo, desejo!

Neste momento, as mãos de Lívia já subiam por baixo do vestido da companheira; trocando de lugar, ficou por cima e tirou sua própria blusa. Lívia é linda…pensou Parvati, que sentiu sua intimidade doer de tanta excitação. Mas de repente, o extinto de caçadora lhe falou mais alto, e pulou novamente para cima da aluna, tirando gemidos dela.

Parvati parecia ter uma força de outro mundo. Toda sua calma se transformou em fúria diante tanto desejo, e perseguia Lívia como se fosse um animal. Nesse instante uma conhecida sensação tomou conta de Parvati: tudo ficou em silêncio, nem mesmo os gritinhos de Lívia eram ouvidos, embora ela estivesse vendo a parceira se contorcer. Apenas uma voz começou a ecoar em sua cabeça:

– QUERO ELA. DÊ ELA A MIM.

O instinto começou a se manifestar, e Parvati sentiu que suas feições começariam a mudar para finalmente atacar sua presa. Ela iria sugar cada gota de sangue da garota que tanto ela desejara.

– DÊ-ME O SANGUE DELA. A QUERO COMO SACRIFÍCIO.

Quando se aproximou do pescoço de Lívia, percebeu que ela estava com os olhos fechados e sorrindo de satisfação, embora ainda não a pudesse ouvir. Suas presas então começaram a roçar no pescoço da parceira, o que parecia deixá-la ainda mais em êxtase. Já era possível ouvir o som do sangue pulsando das veias de Lívia, tal como o cheio começava a ficar evidente.

Mas no último momento, quando parecia tão fácil para devorar, Parvati ouviu Lívia chamar por seu nome: “Parvati, olhe para mim”.

Com um profundo horror ela se afastou de Lívia. A garota sem entender, apenas sentou e perguntou o que tinha acontecido. Atrás de Lívia estava a figura de uma mulher de oito braços e caveiras penduradas em seu pescoço.

– DEVORE-A – disse a aparição, a qual apenas Parvati conseguia ver.

– Ela não. Ela é minha, não sua! – respondeu furiosamente a vampira, deixando Lívia sem entender. O cheiro de sua podridão de morta-viva começava a se tornar perceptível, à medida que ela se enfurecia.

– O que está falando Parvati… que cheiro é esse?

– DEVORE-A – repetiu a entidade.

– NÃO KALI, LÍVIA SERÁ PARA SEMPRE MINHA! LHE DAREI O MESMO DOM QUE EU TENHO!

Com essas palavras Kali começou a sangrar, e colocar-se atrás de Lívia, cobrindo-a com os braços. Tudo o que a garota pôde sentir foi um desespero que começava a brotar em seu coração. Kali vociferou:

– CINQUENTA CORPOS VALEM O SANGUE DELA. DÊ-ME ESTA NOITE.

Largou Lívia e sumiu.

Lívia estava estática, com os olhos bem abertos e marejados pela sensação de horror. Parvati se levantou controlando a respiração ofegante. Deu a mão para a companheira que, hesitando um pouco, correspondeu e também levantou-se. Parvati estava mais gelada do que nunca e sua calma soava agora como frustração.

– Vá para casa. Volte amanhã. – disse se dirigindo à porta.

– O que houve, Parvati? Eu quero ficar com você essa noite, vamos ficar juntas… – Lívia tinha uma voz chorosa, que só irritou Parvati.

– Esta noite não. Tenho algo a fazer.

– Eu faço com você, eu te espero.

Mas nesse momento, Lívia entendeu que deveria ir embora. Parvati a olhou séria, sem nada dizer. Também calada, a garota se recompôs e pegou sua mochila. Ao chegar na porta, se despediu com um aceno e uma única palavra: “amanhã”.

Assim que a porta se abriu, Parvati urrou. Sua desobediência lhe custaria uma chacina, uma verdadeira dança da morte. Sua devoção a fazia dividir suas presas com Kali, e por vezes, sua fome se tornava insaciável tamanho era o peso que a deusa lhe era. Mas era a sua salvação, ela pensava. Kali era o seu íntimo e há mais de duzentos anos estavam juntas.

Porém havia desafiado a ira de sua mestra por conta de uma mortal. Sua crença não era mais o bastante para a sua solidão?

 

Parte III: A última dança

Parvati entrou em sua banheira, mas como sempre, nada sentia. Nenhum prazer ou relaxamento lhe era possível. De humano, só haviam lhe sobrado os desejos carnais e sua crença – mas ainda assim, o primeiro com um forte teor animalesco. Sua calma vinha de constantes meditações que aprisionavam temporariamente o monstro que era. Lembranças de quando viva em comunidade.

Mergulhou de olhos fechados. Ela poderia ficar lá por muito tempo sem qualquer risco, afinal, ela não era de fato viva. Into myself no atmosphere, pensou a indiana. Era um verso de uma música que costumava ouvir nas casas noturnas, e era bem como ela se sentia: flutuante em uma quase-existência. De que valia a eternidade se não era dona de si?

Esse pensamento a fez abrir os olhos, e logo reparou que a água da banheira estava escura. Levantou-se puxando ar, e se deu conta de que era sangue. Era Kali lhe pressionando, cobrando o sacrifício. Saiu da banheira escarlate, e percebeu que seu reflexo já não existia mais no espelho do corredor. Até mesmo sua chama de humanidade estava à prova. Estranho pois, o que mais humano seria, senão obedecer?

Dessa vez, Parvati iria sair com os cabelos soltos, e um vestido longo e preto, que causava provocações por ser aberto aos lados, deixando à mostra suas pernas. Pendurou seus colares e braceletes. Marcou bem os olhos com o pincel, desenhando-os como os de um gato. Estava se arrumando para a noite, como qualquer outra jovem normal.

O local que escolhera era uma casa noturna próxima dali que, apesar de ser afastada, em uma avenida que tinha mais matagal que qualquer outra construção, era bem frequentada, e as festas góticas costumavam lotar. A Lithium era o melhor ambiente para vampiros: além da escuridão, era o disfarce perfeito para tanta excentricidade. A caça era sempre garantida.

Desceu uma longa rua à pé, que estava deserta, pois já passava de uma da manhã. Mas aproximando-se do local, percebeu a movimentação. Está lotada, pensou. Seria um sacrifício, como tantos outros já feitos. Além do mais, ela estava com fome. Se alimentaria, pagaria sua dívida e logo poderia concluir seu desejo ambicioso de trazer Lívia para o outro lado. Saudosos os tempos em que os sacrifícios eram em guerras ou voluntários, pensou. E riu do próprio pensamento.

Ao entrar, foi em direção ao bar. Mas achou melhor não beber aquela noite. Queria manter a boca seca para se alimentar apenas do que a de fato satisfazia. Subiu as escadas em direção à pista, que era enorme. A única saída era aquela escada, que poderia ser barrada facilmente. E o melhor: a pista de dança estava cheia, como havia previsto.

Tocava “Lucretia, My Reflection”. Perfeito, dançante, sexual. Logo seus instintos começaram a falar mais alto, e aos poucos foi soltando seu corpo, até abrir espaço para o centro da pista. Era natural que arrancasse os olhares das pessoas em volta, afinal, era como se Parvati fosse a própria Lucretia encarnada da música, dançando a morte para os presentes. Além: ela parecia a própria reencarnação de toda a energia do universo.

Então começou seu ato: a dança se tornou um frenesi que estava deixando a todos hipnotizados e dançando como nunca. Os presentes estavam em sintonia, todos na sua rede como ela queria. Uma maravilha pareceu preencher os olhos de quem dançava como se toda a verdade estivesse bem à frente. Então, para ela a música calou-se e apenas sua própria voz passou a ser ouvida:

– JAI MAHA KALI, JAI MA KALIKA, JAI MAHA KALI, JAI MA KALIKA. KALI MATA, NAMO NAMA. KALI MATA, NAMO NAMA.

O cheiro de podridão. Então viu sair de si oito braços, e sentia que podia controlar cada um deles. Não imaginava como seria sua imagem vista pelas pessoas em volta, mas sabia que era aterrorizante. Mesmo assim, se sentia mais bela, poderosa e cultuada como nunca. Começou, então, uma dança bizarra, assustadora e penetrante.

Com seus quatro pares de braços sentia agarrar os que dançavam em volta e arrancar suas vísceras. Neste instante, aqueles que paravam de dançar entravam em outro estado de transe, olhando em choque para o monstro no centro da pista, até que seus corações não mais aguentassem tamanha visão. O cheiro do sangue ficava cada vez mais forte, tal como sua fome parecia ser insaciável.

Quem gritava tinha o pescoço imediatamente arrancado, e aqueles que rastejavam para a saída eram pisados com uma força descomunal. A presença da deusa transformava Parvati em um demônio. A sua natureza pútrida de uma morta-viva se agravava com o toque da divindade. Os gritos agradavam sua monstruosidade, que se tornava ainda mais agressiva.

Porém, quanto mais destruidora ficava, mais todo seu corpo doía como se fosse também se desfazer em instantes. Era um dos sacrifícios mais aterrorizante que realizava, então, sua força e resistência também eram testadas.

Algumas vítimas ela puxava para beber do sangue, e isso ela tinha de fartura. Em breve tudo terminaria, ela estaria mais forte, e seus feitos ainda maiores. Era como um guerreiro em campo de batalha que fazia de tudo que fosse digno de entrar no Valhalla.

Mas aconteceu algo que Parvati não esperava.

Quando os gritos já estavam no fim, sentiu alguém tocando em sua perna, e ao olhar furiosamente para o sacrifício e destruí-lo, reconheceu os olhos.

Lívia estava ensanguentada, com uma enorme ferida no peito, como se parte de sua carne tivesse sido arrancada. Com a última faísca de vida, a garota disse o que Parvati e Kali puderam ouvir claramente:

– Dance sobre mim…

A fúria de Parvati pareceu aumentar ao mesmo tempo que estava recobrando seu autocontrole. De uma só vez, matou as últimas pessoas que tentavam desesperadamente fugir e em poucos segundos, tudo ficou silencioso.

As paredes estavam cobertas de sangue e pedaços de corpos. Parvati agora abaixada, e com o vestido encharcado, não mais sentia seus outros braços, mas estava ofegante e recompondo seu rosto desfigurado. Estava exausta, mas o que era para lhe deixar revitalizada, a fez cobrir-se de sombras. Seu corpo inteiro estava devastado por dor. Queria era se juntar àqueles corpos que compunham uma visão verdadeiramente do inferno.

Olhou para o corpo de sua menina, que seria sua companheira por mais alguns séculos e amaldiçoou a si mesma por isso. Com a raiva, que era o que parecia sustentar seu corpo naquele momento, deu um grito ensurdecedor que fez até mesmo a estrutura da casa estremecer. Arrancou com força seus colares e braceletes. Com as mãos cheias de sangue esfregou o rosto e urrou:

– KALI! Eu já paguei minha dívida. Viverei minha eternidade com minha maldição e sem nenhuma humanidade que essa crença em ti tanto preservou em mim. ESSE SACRIFÍCIO, DE TI ME LIBERTA.

E antes que alguém pudesse encontrar o lugar, Parvati, que jurou não mais se chamar assim, já havia sumido. E agora assumiria sua condição vampírica pelo resto da eternidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

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