Em uma madrugada chuvosa e fria de sexta-feira, em uma rua deserta no centro de São Paulo, na divisa entre o Centro e o início do Brás,  um carro está parado na junção com uma avenida. A esquina estava deserta e quieta, a chuva constante que golpeava o teto do automóvel e os detritos e restos jogados na calçada mais próxima acentuavam a solidão, ressoando que nesse lugar, nesse exato momento, apenas o vazio e os malefícios que a ausência de qualquer manifestação de vida poderia causar em mentes sensíveis e fracas deveriam ser temidos.

Mas mesmo em um ponto tão desolado e quieto era uma ousadia a ponto da insensatez uma Bmw negra reluzente e impecável, sem sinais de desgaste, estacionada naquela esquina. O carro parecia afrontar e escarnecer de todos que tinham habitado o edifício decrépito e vazio logo à frente a menos de cem metros, que dominava a paisagem, uma montanha de concreto coberta de impossíveis pichações em toda sua extensão, na imensa fachada, nas laterais de um verde desgastado, que subiam por dezenas de metros até o topo, e que para Laura, tinham um tom “cor de vômito”, como pensou, uma expressão que usava com excessiva frequência e em ocasiões impróprias para tal. Mas era uma noite em São Paulo, a vida e o movimento não grassavam nesse ponto, mas estavam próximos. Do outro lado das águas mortas do rio que cruzava a avenida brilhava um edifício antigo e amplo, cuidado, limpo e que espalhava por uma grande área, fazendo seu vizinho parecer ainda mais decrépito, mesmo muito mais alto.

Do interior do automóvel era possível divisar o movimento de homens descarregando e conduzindo caixas para o interior do grande edifício, sons indistintos de vozes chegavam até os ocupantes em um momento e depois se dissipavam.

Ingrid fitava cada detalhe e movimento, cada um evocando inúmeras de suas memórias caudalosas, infinitas para um mortal mas para ela apenas uma sucessão cenas nas quais divagar e assim alimentar seu desprezo cada vez maior pelos humanos, patéti…

– Ei! Ei! Me responda, vamos! Por quê? – Laura recomeçara a barulheira de imprecações e gritos a exigir explicações, como se ela a mestra fosse. Fascinante e inacreditável uma pirralha humana, que Ingrid poderia destruir com um leve movimento de um dedo, exigir explicações a voz alta! Tão absurdo que por um momento ela divertiu-se com a ideia de que a pirralha fosse o ser sobrenatural a comandar a outra, pois não era possível nem mesmo a ela Ingrid explicar tamanha ousadia.

Ali estava mais uma razão para desprezar os que eram seu alimento há milhares de anos e uma razão para se divertir às custas deles, uma garotinha vulgar, histérica e sempre inconveniente, que não raras vezes causou aborrecimentos a ela, Ingrid, proclamada por todos demais vampiros a caminhar sobre a Terra como a mais antiga, temida e respeitada da raça, até mesmo pelos Anciãos. Ela se rebaixara ao ponto de suportar aquela criaturinha? Tão insano que era engraçado, um humor que somente um ser como Ingrid poderia apreciar.

– Por que não me oculta, me tira da mira dessa gente que está atrás de mim? Os capangas do meu irmão, minha tia, todos atrás de mim, querendo saber se tenho algo a ver com o sumiço dele. Você precisa me levar para um lugar seguro, me esconder num apartamento, em algum pico seguro e confortável, pra eu ficar lá até…

Ingrid ergueu as sobrancelhas perfeitas e finas um milímetro e um brilho chispou pelos olhos. Foi o bastante para a garota calar-se e encolher como um vira-latas atingido pelo rosnar de um imenso lobo.

– Doce criança, meu acólito já investigou a situação. Nada de concreto ou preocupante há contra você, planeado ou em curso, por qualquer instituição ou grupo organizado dos seus compatriotas ou irmãos humanos, se assim os preferir chamar – um sorriso insinuou-se nos lábios vermelhos e cheios, ao pronunciar “irmãos”– Sua tia foi procurada pelos seguidores do seu querido meio-irmão, aquele lúbrico pervertido em cujas veias corria um sangue ralo, mal nutrido, que estavam em busca de informações, pois nada de certo sobre o paradeiro dele sabiam,  o que sabiam e o que queriam era tão vago e impreciso que apelaram para uma matrona encarquilhada em busca de alguma pista.

– Quer dizer que não há ninguém da polícia atrás de mim? E os cupinchas, os mafiosos dele? Não virão atrás de mim? E se a vaca gorda da minha tia ligar as coisas e falar a meu respeito para eles?

O olhar de Ingrid tornou-se frio e as palavras saíram tão gélidas de seus lábios brilhantes que pareciam pairar no ar como presenças invisíveis mas assustadoras que aguardavam uma ordem sobrenatural para alvejar o rosto afogueado e tenso da garota:

– O que aquela criatura decrépita pode dizer sobre você? Seu logradouro, sua ocupação, suas companhias, números telefônicos, os espaços e recintos que visita, que preenche com sua presença, há alguma coisa que aquela carola cercada de estátuas fúnebres e autoexilada em uma casa mofada realmente saiba sobre você, cara rainha da noite entre os adoradores da noite?

Laura encarou-a por momentos, enquanto buscava a força e as palavras corretas, olhava para lá e para cá: encarou o perfil do enorme prédio, sem luzes, aguçou os ouvidos para talvez compreender algo dos sons difusos que vinham do grande mercado, para o qual olhava no momento em que uma mariposa chocou-se contra o para-brisa. Ela soltou um gritinho e pulou, mãos erguidas. Sua mestra riu. A gargalhada estridente, inumana, a única ação de Ingrid que ainda causava verdadeiro terror em Laura, a única particularidade que a garota não julgava compreender e a lembrava que estava diante de um ser que nunca entenderia de fato era esse som, que soava como o estrondo de forças ancestrais da natureza controladas e distorcidas por consciências demoníacas como a própria Ingrid.

A vampira lendária e temida pelos Anciãos recobrou o fôlego, um sorriso sutil e maligno, que deixava entrever seus imensos colmilhos brilhantes como se fossem peças de metal polido, gravado nos lábios perfeitos e muito vermelhos se transformava, a intervalos regulares, em risinhos curtos e debochados – Laura sentia uma onda de humilhação, raiva e dor a atingindo a cada um desses risos. Desprovida de qualquer pressa ou consideração pela pupila, Ingrid dirigiu um olhar aguçado para o imenso e agora vazio edifício e sem retirar os olhos dele, deu partida no carrão e anunciou, sem olhar ou esboçar o menor movimento de um único dedo na direção de Laura:

– Faremos um pequeno passeio e por fim te mostrarei onde posso esconder sua pessoa daqueles que te perseguem. – E a Bmw arrancou com toda fúria, o motor parecia rosnar, como se a irritação de Ingrid nela houvesse se entranhado.

No instante em que o carro estava prestes a enfiar-se embaixo do viaduto que marca a fronteira entre a Sé e o mal-afamado pedaço do centro conhecido como Glicério, a chuva ganhou tamanha densidade e força, o ruído da água golpeando e escorrendo pela lataria que Laura supôs que a mestra provocara o fenômeno – Ora, não tinha lido que os vampiros muito poderosos manipulavam os elementos?  E também tinha lido ou ouvido que contava-se muitas mentiras e exageros sobre eles. Ah! O que era certo, o que ela sabia, único humano da noite de São Paulo a desfrutar da companhia de um vampiro, é que muitas verdades e coisas espantosas eram tratadas com desdém para que ninguém nelas acreditasse. Ela, Laura, sabia disso e podia afirmar isso!

Mas o sentimento de orgulho sumiu como poeira lavada pela chuva torrencial ao perceber que estavam no mesmo ponto de minutos atrás, ainda que o carro estivesse em movimento por todo o lapso de tempo: mais uma vez paradas a menos de dois metros do viaduto do Glicério que agora, em um momento de quase silêncio, em que a escuridão parecia ter descido do céu nublado e se espalhado no nível do solo, cercando e preenchendo asfalto, os espaços entre os edifícios,  marcava, como um portal sombrio e ameaçador a fronteira para o que pareceu a Laura um território desconhecido e perigoso oculto no Centro, como se nele houvesse partes escuras e malditas,  que, em noites escuras e chuvosas,  se alargavam,  revelavam, como um portal que abre-se para outros planos,  que havia mais ruas, prédios e casarões escuros  no Centro da cidade, inexistentes ou invisíveis à luz do dia. Sim, Laura por instantes devaneou isso, imaginou que sua imprevisível, muitas vezes cruel, mas fascinante e querida mestra, lhe revelava mais um segredo assustador e maravilhoso da cidade… até perceber vultos espreitando aqui e ali, perfis curvados do qual nada se via mas cujo andar distorcido exalava maldade, a se aproximarem do carro com lentidão segura. A visão daqueles seres, o que fossem, se aproximando, desfez seu deleite mais uma vez e deu-lhe a percepção de que não estava em uma São Paulo mágica e noturna, mas em uma parte do Centro perigosa e violenta e que Ingrid apenas andara em círculos, fazendo ela, Laura, gótica das góticas, sentir-se perdida e desorientada em seu território e lar.

– Vamos embora daqui! Não está vendo esses nóias, esses ratos de esgoto? – Apontava para todas as direções, enquanto disparava as palavras – Estão quase nos cercando! – A voz era metálica, histérica.

Ingrid sorriu mais um pouco, dirigiu um olhar entre a piedade e o desprezo para os vultos, que cercavam o carro e estavam a menos de cinco metros, pousou as mãos sobre o volante, cruzou-as e respondeu em voz calma:

– Está com medo, criança, diva e rainha da tribo sombria que afirma e se orgulha de descender dos afetados poetas do penúltimo século? Que seus desejos mais caprichosos sejam concretizados da maneira mais aparatosa. Conduzirei-te para conhecer seu novo lar, seu próximo refúgio, um repositório de passado grandioso e histórias inebriantes, onde se ocultaras de seus temíveis antagonistas! – e súbito o carro arrancou, a atmosfera tenebrosa sumiu, pulverizada pelas sensações que a velocidade trouxe. Mas o alívio de Laura não era completo. O sedã negro atravessa furioso as ruas enquanto ela, presa ao encosto do banco, encarava sua mestra. Nunca, nesses meses de caça noturna em que faziam justiça para as mulheres da cidade e exterminavam homens maléficos, que tinham feito mal a elas, Ingrid usara um palavreado tão estranho e difícil. Algo nela estava diferente ou ela tinha planos para algo diferente, o que arrepiou a franzina morena de cabelos curtos e a prendeu mais no assento.

Pouco depois estavam no Bixiga, nas proximidades da Brigadeiro, Laura percebeu, pois a velocidade diminuiu e por fim o carro parou e silenciou, e ela viu-se em uma rua que não lhe era de toda desconhecida: a grande igreja logo atrás, de torre amarela repleta de esculturas e detalhes, já passara por lá e ficara admirando-a, já tinha parado em uns bares próximos, em uma rua um pouco mais abaixo, para beber, antes e depois do Darkness.

Ingrid observou a garota por algum tempo, num único movimento velocíssimo da mão esquerda ligou os faróis em alto e apontou para a edificação que eles iluminavam:

– Este é um excelente esconderijo para você. Meu servo a colocará aí, como mais uma inquilina comum, mais uma jovem solteira sem passado, sem chamar a atenção além de uma proporção que seja segura, em dois dias. Observe a beleza e detalhes deste palacete lendário. Certamente um lugar que a protegerá dos que a perseguem e adequado ao gosto refinado de uma descendente espiritual dos grandes românticos.

Laura tremeu de medo e de raiva, tão nítido era o sarcasmo na voz da vampira. Ergueu a cabeça com extrema lentidão, dirigiu o olhar para sua esquerda e escrutinou o que a luz revelava.

Dois leões de pedra guardavam o início de um caminho de alvenaria, caminho que levava a um verdadeiro palacete, neste termo a vampira não fora irônica, uma construção sustentada por imensas colunas em estilo grego, de imensas janelas de madeira e teto recortado, como ameias, rostos de divindades femininas em cada vértice, vigilantes, um palácio que  erguia-se majestoso por sobre um imenso terreno, coberto de vegetação frondosa, bem abaixo do nível que se comunicava com a rua, outros andares e caminhos abaixo deste nível.

Uma maravilha oculta que sua mestra lhe revelava, eis um segredo do centro que surgia durante a noite, um castelo, um remanescente de um passado fabuloso de São Paulo! ou talvez mesmo um pedaço de uma outra versão da cidade, que brilhava em outra parte do cosmo, e a Laura era mostrado, para ela, que observou mais e mais e percebeu a deterioração, o limo e as plantas grudados nos felinos imóveis, as rachaduras que rasgavam as paredes, as espias circulares de vidro quebrado, a vegetação era cheia e densa por ter sido abandonada. E os sons de televisões ligadas e de vozes inamistosas chegaram a ela. Aquele palácio do passado era agora um imenso cortiço…

O rosto de Laura crispou-se, os dentes arreganharam-se e ela gritou:

– É aí que pretende me esconder? Em um cortiço, em meio a putas, traficantezinhos, nortistas fedidos[1] e sabe-se mais o quê? Você, uma mestre das trevas, repleta de conhecimento e riquezas, oferece a mim, sua serva, companheira e ajudante, um quartinho num muquifo, como esconderijo?!

– Um lugar perfeito para que não seja encontrada e que combina com você.

A onda de desespero e de humilhação foi tão intensa que a garota só se apercebeu do que fizera vários minutos mais tarde: abriu a porta a seu lado, saltou e disparou pela noite escura e molhada, em passos rápidos e furiosos, as gotas da chuva que engrossara assim que saíra para o ar livre misturadas às lágrimas do choro raivoso.

[1] Aviso: isso, caso o caro leitor não tenha percebido, é pura ficção, mas baseada e inspirada no real. Esse preconceito é reprovável, mas existente fora da literatura.   Laura, a gótica perseguida e discriminada, que só passou a se sentir poderosa, feliz e plena como acolita de uma vampira, deixa surgirem seus preconceitos, mostrando sua imperfeição e contradições: nada aprendeu sobre ser um pária e desvalido. E revoltante é uma época em que um escritor de ficção fantástica tem de se explicar, deixar claro que ações e falas de suas personagens não são as suas, para se preservar de xingamentos dos politicamente corretos de plantão…

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