cropped-cropped-nc3b3s-escritores.jpgLaura corria noite afora, molhada, ofegante e enfurecida, soluços de raiva saíam de sua garganta como se fossem corpos estranhos que a feriam e eram expulsos. Correu não mais que uns cinquenta metros, em que sofreu dois tropeções. O joelho esquerdo dolorido e o orgulho destroçado fizeram-na estacar e quase jogar-se contra uma parede, para sorver o ar que os pulmões queimando de dor exigiam. Observou ao redor e sentiu uma pontada de raiva de si mesma: tomara o rumo de sua casa, o instinto a fizera virar à direita e descer pela rua que seguia rumo ao bairro da Liberdade, onde ainda residia e não queria permanecer por mais um minuto.
Olhou para um lado e outro, incerta do que fazer, até que a imagem dos vultos sinistros que cercaram o carro na escuridão do Glicério encheu a consciência; pareciam se esgueirar pelas sombras da noite chuvosa. Ficou rija de medo e murmurou por Ingrid, chamou por pensamento e por voz sua mentora: mais uma vez pôs o respeito por si mesma de lado.


– Mestra, eu te invoco, eu te convoco, eu te…ohh, ahhh. Te… imploro, venha a sua pupila, que pede a proteção de seus poder…
– Mais olha só que moça bonita, Tonhão! Ôche! Coitada, debaixo da chuva, sozinha, chorando. Cê tá bem, princesa? Que qui ti aconteceu?
Ela encolheu-se contra a parede áspera e irregular, a sensação das pontas de cimento comprimindo-se contra suas costas aumentou o desamparo. Os olhos arregalados encararam o dono da fala de sotaque marcado. Dois tipos de pele morena, cabelo seco e emaranhado, baixos e magriços, roupas não muito novas e de pronunciado mal gosto – bermudas baratas de cores berrantes, camisetas velhas – a observavam. Os dois homens de feições abrutalhadas e poses mais símias que de gente, encurvados, bamboleantes, sem dúvida estavam embriagados e deviam ocupar cubículos no cortiço próximo que sem dúvida já fora um palácio.
– Precisa de ajuda? Tá perdida?
– Vão embora! Não quero nada com vocês – tentou esgueirar-se de volta à rua do palacete, enquanto falava.
O mais jovem, lábios grossos, olhar meio animalesco, cabelo sem corte definido, bermuda barata de náilon verde limão mostrando pernas magriças e peludas, uma visão que repugnava Laura, aproximou-se dela e estendeu uma mão:
– Queremos ajudar, não é bom ser grossa com quem quer…
O ronco do motor e o ruído das rodas de um carro possante e pesado parando no acostamento molhado calaram e pasmaram os três. A bmw postou-se a cerca de um metro do meio fio, a porta do condutor abriu-se e a mulher imponente e deslumbrante surgiu, as gotas de chuva que caíam no seu cabelo e roupas justas ganhavam brilho e vida e destacavam sua beleza e elegância projetada contra os prédios ao redor da Brigadeiro Luiz Antonio e a nebulosidade chuvosa, atrás e acima destes.
Os dois molambentos arregalaram olhos, escancararam boca, sangue fluiu para seus baixos-ventres e assim ficaram, sem reação, mesmo após a deusa vestida de negro disparar a ordem:
– Já chega, os dois esfomeados se afastem, a moça se extraviou mas agora estou aqui e ela irá comigo.
– Vixe, é teu cacho, é? Cês sapatas precisam é de um…
O movimento que trouxe a mulher para centímetros de distância deles foi tão rápido que nenhum dos três pôde distinguir; antes que pudessem reagir ou entender, os dois sujeitos foram erguidos ao ar como bonecos frouxos e úmidos e suas cabeças morenas e feiosas golpeadas uma contra a outra, num estalo seco que arrepiou Laura e fez se encolher. Ingrid largou-os na calçada, apanhou a garota pelo braço, jogou-a dentro do carro, ocupou seu lugar e mergulhou na noite escura e sinistra.
Sem mover o olhar um átimo na direção da garota, guiando o carro de uma forma que mesclava precisão e raiva em partes iguais, trovejou naquela voz inumana que soava como a voz dos elementos naturais em fúria e tanto obliterava e assustava Laura:
– Essa impulsividade ainda te custará muito caro, minúscula acólita humana. Não te salvarei dos perigos humanos de novo, se se portar mais uma vez como menininha mimada que exige de seus progenitores exatamente o que quer e nada menos que isso! Você está viva para me servir e me distrair, para mostrar quão patéticos vocês humanos são. Mas, se eu por fim me cansar de você, consigo outro ridículo humano sequioso por me servir em instantes, mais rápido do que me livraria de tua incômoda existência, entendeu?
Laura afundou o mais que pôde no banco de passageiro, tremendo, balbuciando, encolhendo-se, encolhendo-se, queria afundar e desaparecer, o contraste entre esse desejo, o querer e parecer estar longe e a impossibilidade disso, a vampira bem ali a seu lado, encheu seu ser de desespero, tanto que Ingrid encarou sua pequenez por um instante e sorriu, os olhos brilhando de divertimento, diminuiu a velocidade e disparou:
– Bah! Vamos brincar, minha criança. Faço-te uma oferta: vamos para a avenida central da cidade, a que você tanto admira, tanto gosta de perambular por ela e “perder-se para se achar”, como pseudo-poetas desta terra sentimental gostam de dizer, te deixo nos arredores. Se superar o obstáculo que é a chuva e em até trinta minutos atrair um homem, – um macho de verdade, não um desses homenzinhos frouxos e meio efeminados tão comuns por lá – como paga por teu desempenho providenciarei para você um esconderijo confortável e seguro, em que agentes da lei, tias religiosas histéricas e servos de seu meio-irmão não te encontrem, o que me diz?
Laura ergueu-se um tanto, olhou para a vampira, fugiu do seu olhar, voltou a olhar, fugiu do olhar mais uma vez e deixou a atenção dispersar-se nos edifícios indistintos que corriam pela janela encharcada – não sabia o ponto exato, mas deduzia que estavam nas proximidades da Paulista, rodando pelas ruas inclinadas e tortuosas do miolo do Bexiga.
Sentiu um medo de Ingrid, a criatura das trevas de milênios, de origem desconhecida e poderes cuja extensão não ousava imaginar, tão ilimitados e aterradores se mostravam, um medo tão paralisante que converteu-se em êxtase, o raro e imenso êxtase de viver algo que ninguém mais em São Paulo e sua noite repleta de perversão, pretensões, mentiras e falsidades vivia; o sabor do perigo sobrenatural que saboreava seguidamente, dominando, envolvendo-a como uma onda mística sem limites ou dimensões, um êxtase vindo de um plano distante, que tornava qualquer sensação provocada por drogas ou sexo mínima e desprezível. Era a sensação que tanto buscava desde que caíra no mundo, desde que deixara a casa de seu tio, e que nunca experimentara de fato, até encontrar Ingrid naquela noite terrível e abençoada no salão reservado do Darkness. Era a sensação de estar caminhando no estreitíssimo fio de uma lâmina afiada e mortal, brincando com o risco de cair e ser despedaçada pelo próprio corte antes de se espatifar no abismo sombrio que repousava lá ao fundo, sedento por ela, mas também paciente. Era a sensação de noite após noite de caçada arriscar-se a ser companheira e auxiliar de um monstro de atitudes as mais imprevisíveis, que poderia voltar-se contra ela Laura e matá-la e beber seu sangue e não esperar que ela lhe trouxesse mais um homem egoísta e maléfico, de correr riscos que não sabia mensurar e sair incólume (ou ao menos assim lhe parecia) a cada noite de caçada!
Foi a perspectiva de mais um pouco do êxtase que fez Laura dominar-se, endireitar-se no banco forrado de couro negro e quase ordenar:
– Vamos, para minha avenida principal, arranjarei em meia hora um macho que aplacará nossa sede: a sua por sangue humano e a minha por vingança contra os homens que fazem mal às mulheres!!
Ingrid encarou-a, um olhar de contentamento nos olhos, um sorriso de cumplicidade nos lábios, e acelerou.
Uma garota trajada com a típica indumentária de “gótica-roqueira rampeira e pervertida”, como Laura ouvira uma miríade de vezes em sua ainda curta vida e, estava certa disso, ouviria outras tantas, um epíteto que já lhe causara muito desgosto, mas também a enchera de orgulho, se era dito por certas pessoas na ocasião correta, que desembarca de uma bmw nova e põe-se a caminhar altiva e calma, indiferente à chuva agora reduzida a uma garoa mais grossa e pouco incômoda, chamaria a atenção em qualquer momento de qualquer noite ao desfilar na rua que ostentava os significados Sublime e Sagrado em seu nome e cujos frequentadores davam tratamento de sagrado e sublime ao hedonismo barato e à depravação rala e inofensiva. E assim foi: Laura experimentou por algum tempo tomar a atenção na esquina, rostos e pescoços voltados a ela de modo ostensivo, enquanto caminhava cheia de pose na direção do primeiro bar aberto e movimentado que encontrou, sabedora que sua mestra estava próxima e alerta.
Era um bar sempre movimentado, sempre repleto de gente se apertando e circulando pelas banquetas desconfortáveis ao redor do balcão e nas parcas mesas que ficavam à direita do pequeno salão. Um ponto da cidade noturna no qual os que vagam pela noite, os predadores da noite, em busca de algum tipo de prazer, com alguma necessidade, fosse qual fosse, que precisam da companhia ou do usufruto de algum tipo de pessoa, sempre teriam grandes chances de lá encontrar o que buscavam, em um bar que aparentemente jamais baixava portas ou esvaziava. Para lá, Laura, que já passara de poucos minutos a horas entre seu balcão e mesas, em outros tempos, sem reter nenhuma lembrança nítida ou marcante do local, se dirigiu, atraída pela aglomeração e mais nada. Lá, ela sabia, encontraria a vítima masculina que lhe daria, em troca de seu sangue, sua nova fortaleza, segura e distante dos problemas que se avizinhavam. Laura era uma jovem sequiosa por experiências e riscos, mas queria apenas aqueles cujas regras ela conhecia bem ou poderia determinar, sempre odiara que outros mandassem em sua vida.
O bar realmente estava cheio, pessoas dos mais variados tipos e idades conversando alto, rindo, bebendo, flertando umas com as outras: bichas modernosas na roupa e corte de cabelo, em bando, olhares gulosos para os homens; garotas metidas em roupas justas, cobertas de adereços – brincos, argolas, tatuagens – com ar de oferecidas, cerveja nas mãos, esperando que algum sujeito mais decidido as abordassem, para se divertir, fosse cedendo seus favores ou o tratando com desdém; os homens, não importava idade, aparência, medindo todas as mulheres que entravam e saíam; um sujeito de cabelos longos e grisalhos sentado numa extremidade do balcão, exalando ar mal encarado, acabara de disparar um resmungo irado para a bicha cinquentona que o assediava, potente o bastante para ela levantar-se e partir choramingando noite afora. Tanta afetação e artificialismo desnortearam Laura a tal ponto que considerou pegar uma garrafa de cerveja e partir para o bar em frente, no lado oposto da esquina, se o cabeludo, que parecia ser o único ser do sexo masculino digno da alcunha homem, não se mostrasse receptivo a um olhar e sorriso dela, o que ela não tinha certeza, tamanha era a carranca gravada no rosto do sujeito. Então ela viu o outro, ao fazer o olhar correr pelo balcão para encontrar o olhar do cabeludo quarentão. Meio gorducho, roupas não velhas ou sujas, mas simples e baratas, porém limpas e passadas, barba grossa, densa e escura, meio desgrenhada, cabelo encaracolado em um corte funcional e deselegante, pele curtida amorenada. Por trás dos óculos de lentes grossas e aro de plástico marrom havia um rosto tão amargo e derrotado que Laura pôs de lado a lei de sua mestra que a ordenava escolher homens cujo desrespeito às mulheres era uma segunda natureza, um hábito cotidiano. Ela encontrara seu homem: o sujeito que estava ali largado no balcão, cigarro esquecido entre os dedos, a dose dupla de uísque barato consumida com volúpia, estava por demais deslocado em um ambiente saturado de pose e mentiras, sua masculinidade dura e despojada brilhava, assim pareceu a uma garota que em poucos meses tornara-se uma arguta pesquisadora dos homens que circulavam na noite de São Paulo. Sim, ele era o escolhido, pois seria fácil de conquistar. Mas antes que o abordasse foi paralisada pela dúvida: ele satisfazia a condição para ser abatido? Era mal com as mulheres? Como saber se já tinha feito alguma fêmea sofrer? Já abusara, explorara o sexo ou o dinheiro de uma delas? Espancara ou mesmo matara alguma namorada ou esposa? Não havia como confirmar qualquer dessas elucubrações em pouco tempo, assim ela ignorou todas, sem dificuldades, pois desde muito jovem aprendera passar sobre princípios ou regras para sobreviver em um mundo sempre duro demais.
Estudou o sujeito, nervosa, premida pelo tempo que corria no relógio digital pendurado acima da prateleira de destilados e pela sofreguidão com que o cara entornava a bebida, apavorada pela possibilidade de ele esvaziar o copo, partir e deixá-la diante do fracasso ou ter de arrumar outro homem em pouquíssimo tempo. Já tão rodada com os homens e não sabia como atrair a atenção de um cara que aparentava não receber uma atenção mais ardente de uma fêmea há mais tempo que poderia ser lembrado? Era uma mulher jovem e atraente, seria fácil, bastava ela fingir interesse e um pouco de atenção e ele iria atrás dela como um animalzinho. Estudou-o mais um pouco e reparou como suas mãos ásperas e grossas brincavam nervosas com o copo, não se aquietavam… Um casal sentado ao lado dele ergueu-se e foi ao caixa, braços dados e sorridentes; sem vacilação, Laura sentou-se, pediu uma cerveja ao balconista e após observar os dedos do sujeito tamborilando na lateral do copo quase vazio olhou para ele do modo mais casual que poderia fingir, formou no rosto o sorriso mais suave que conseguiu e disparou:
– Você é meio agitado, não? Parece ter muita energia, muita força e precisa dispersá-la, suas mãos não param e o movimento é certinho, ritmado, bonito de se ver.
O sujeito deu um olhar de esguelha, engoliu o último gole da bebida, depois soltou um suspiro leve e sorriu.
– Tenho mesmo, mas não vale a pena gastar essa força, com o que ou quem seja. E ficar aqui, observando todos os idiotas atrás de aventura, romance e diversão, é bem melhor do que tomar parte dessa roda viva em que eles estão, não acha? E você, o faz ou procura aqui? – a voz era grave, profunda e calma, o que a fez estremecer. O cara era uma rocha de fato, como seu olhar indicava, havia uma parede formada por tantos sentimentos ruins acumulados e solidificados através dos anos que impedia o acesso aos desejos, ao íntimo: solidão, frustrações, raiva, auto-piedade, orgulho, senso de superioridade e de inferioridade fundidos; tudo formava uma carapaça que o protegia do mundo. Como trazer esse cara para fora do bar e pô-lo ao alcance da mestra? O relógio gritava que faltavam menos de quinze minutos para o prazo!
– O mesmo que você, apenas caminho e observo para gastar um pouco da minha energia, observando esses seres humanos patéticos, também me recuso a tomar parte desses jogos patéticos, isso aqui é de envergonhar toda a espécie humana. Sou uma pária voluntária, como você parece ser. Tudo o que resta é beber e se afastar das pessoas comuns. Por que não saímos daqui um pouco? Esse bar é apertado e barulhento, tem gente demais, e nós dois não gostamos de gente, certo? Lá no bar em frente tem bebidas melhores e é menos agitado do que aqui. – e ao dizer isso abriu o sorriso, levantou-se e iniciou um lento e curto estender da mão direita uns poucos centímetros num convite para acompanhá-la, mas não completou o movimento, sua mão e todo seu corpo estacaram, pois Ingrid entrou no bar, ignorou todos olhares apalermados que nela pousaram e sentou-se no lado oposto do balcão, assim encarando Laura, que leu e compreendeu de imediato o que o rosto da vampira lhe transmitia.
– Ora, para quê? As pessoas são as mesmas em todo lugar, não há como escapar da mediocridade delas. Se formos para o outro bar, para todo e qualquer outro bar ou para um lugar qualquer, não importa qual, logo um perceberá que o outro é tão cretino quanto qualquer humano. Não, acho que ficarei aqui. – O discurso do sujeito provocou um sentimento que Laura não identificou, uma desconfortável mistura de asco e pena, que a fez fugir da carranca, observar Ingrid mais uma vez e receber da mestra a ordem de sair do bar e juntar-se a ela, na rua.
– É, acho que tem razão, vou nessa. Fique em paz, se isso é possível. – E saiu apressada, sem olhar para trás, apavorada, envergonhada.
Mal entrara no carro e Ingrid conduziu a máquina em uma disparada por esquinas e voltas, até parar debaixo de uma imensa tipuana, em uma rua cujos postes estavam apagados, sem movimento.
– Por quê? Por quê? Entrou no bar e me disse, com esse seu olhar terrível, para eu deixar o cara em paz. Não entendo. Qual a razão dessa vez? Não sabermos nada dele, se era um vilão para com as mulheres? Não podermos eliminar um inocente? Você sabe muito melhor que eu: não há homens puros e bons nessa porra de mundo, muito menos nessa porra de cidade! Senhora, não reparou no olhar daquele cara? Um infeliz, um coitado que não tem nada ou ninguém na vida faz tanto tempo. Morrer seria um alívio para ele, então…
O simples gesto de erguer a mão, as unhas vermelhas e pontiagudas transmutadas em medonhas garras brilhantes que se estendiam por cinco centímetros, foi o bastante para Ingrid fazer a algaravia parar e desaparecer como um suspiro encoberto por um urro:
– Você, como sempre, viu mas nada entendeu. Sim, um infeliz e coitado, alguém que continuava na existência movido apenas pelo impulso orgânico, desprovido de qualquer propósito ou vontade, um homem puro amargor. Você não sentiu todo o mal estar que exalava dele? A repugnância para com o mundo e para com ele mesmo? Um homem tão decaído que transmite seu mal estar a todos próximos. Sequer tive de mobilizar meus sentidos vampíricos para sentir aquela exalação, mal entrei naquela pocilga. Há muitos séculos, mais do que posso lembrar claramente, não encontrava alguém como aquele infeliz. Você imaginou que eu me alimentaria de alguém dessa estirpe? Ainda não apreendeu, rainha da noite, suprema entre os membros da tribo “noturna e trevosa”, conhecedora dos segredos da noite desta cidade, como adora se imaginar, que me alimento não somente do sangue dos mortais, bem como das energias que deles emanam, não apenas as que emitem na agonia da morte, mas também das que estão tão entranhadas em seu ser que são parte deles, as forças geradas pelas reações químicas vitais que são a origem dos seus sentimentos e percepções pessoais e frequentes. Crê que eu me alimentaria de uma carga de pensamentos e emoções tão negativas? Que eu ficaria incólume àquilo?
A mais poderosa e íntima das trevas de todos os góticos de São Paulo permaneceu rija e de boca escancarada por tanto tempo que só saiu do ricto de espanto quando os músculos e articulações arderam de dor. Desabou no banco e conseguiu articular palavras muito tempo depois:
– Você, você… você teve medo dele?! Medo do que ele poderia transmitir a você? Como pode um humano causar isso em uma mestra das trevas de milhares de anos? Senhora, ele não era humano, era alguma outra coisa, alguma entidade ou monstro, desconhecida por sua espécie, uma coisa à solta em São Paulo, sabe-se com que poderes e propósitos! Impossível um humano causar medo em você, isso…
O carro arrancou com tamanha velocidade que Laura foi prensada com violência contra o banco de passageiros e assim permaneceu durante minutos e minutos, em que Ingrid percorreu quilômetros sem destino, impassível ao volante.
Por fim, estacionou o carro em um ponto bastante conhecido da garota: defronte o predinho de quitinetes em que morava. A voz da mulher temida pelos Anciões soou como nunca Laura ouvira antes, variava de altura, timbre e ritmo a cada sílaba, melódica, estridente, baixa, altíssima, aguda, grave, lenta e pastosa, acelerada e confusa:
– Vá para sua ainda casa; em breve Anson entrará em contato e te levará para sua próxima moradia. – A seguir a voz voltou a ser una e firme, a voz de Ingrid: – E não me procure enquanto isso.
– E seu alimento desta noite?
– HA HA HA HA HA HA!!!!! – cabeça jogada para trás, cabeleira negra esvoaçante, caninos saltados e reluzentes acompanharam a gargalhada.
A pequena e apavorada gótica saltou, apanhou a chave da bolsa, deixou-a cair na calçada molhada e fria duas vezes antes de conseguir abrir a porta e desabalar-se para a cama, trêmula, sem a menor compreensão do que se passara e temendo o que viria.

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