Valerie estava faminta, e a noite quente parecia pedir um parceiro especial. A dona do badalado Devil´s Whorehouse olhava para a pista de dança de sua casa noturna com olhar predador.

Observava como as pessoas dançavam alegremente, embaladas pelo som do violino de Mae e as poderosas pick-ups de seu DJ favorito. Ela nunca entendia direito a química dançante que a instrumentista oriental conseguia unindo seu instrumento clássico com batidas dance hipnóticas. Mas funcionava. E como!

Valerie sentou-se no mezanino, e continuava a olhar a pista lá embaixo. Para um ser de audição privilegiada, a vampira quase não suportava o barulho. Mas não negava que gostava um pouco.

Seu olhar parou numa mulher que dançava como uma louca. Atraindo os olhares de todos ao redor, ela se entregava inteira ao ritmo, e como era sensual!

Mas dançava como se fosse sua última noite. Estranho…

Valerie ficou o tempo todo procurando por alguém na pista. Mas sabia, inconscientemente, que já havia escolhido sua vítima. Seria ela. A dançarina.

Era uma mulher não muito alta, mas dotada de um corpo cheio de curvas perfeitas, delineadas por um vestido muito bem escolhido para a ocasião. Os longos e esvoaçantes cabelos negros chamavam toda a atenção da casa para ela.

Transpirava sensualidade. Dançando ora com homens, ora com mulheres. Val assistiu a mulher durante algumas músicas, até perceber que queria muito beber o sangue dela.

Analisava com frieza a situação. Ela estava desacompanhada. Se desaparecesse, ninguém saberia ao certo onde procurá-la. Perfeita! A vampira ouviu claramente, mesmo através de todo o barulho ambiente, quando um cara a abordou em plena pista:

-Você é muito interessante. Será que faz sexo com o mesmo tesão que dança?

-Eu não dou gostoso quando estou chateada. E hoje estou muito chateada.

-Pouco importa. Quero te comer assim mesmo. – disparou o cara, era forte, atlético mesmo, e com pinta de garanhão barato.

-Só estou afim de dançar, ok? – respondeu a mulher, com educação e graça cínica. A vampira ainda viu o cara se decepcionar e se afastar, totalmente contrariado.

“Ok, querida. Que tal se você olhasse… para mim?” – mentalizou Val.

E a dançarina olhou. Val sorriu o melhor de seus sorrisos, e a cativou. Como sempre fazia. Não havia nada de sobrenatural nisso, ao contrário do que alguns pensavam. Era apenas o conhecimento da alma humana. Os humanos são mais imutáveis que os vampiros. Seja qual for a época, sempre são guiados pelos instintos básicos. A vampira estava nesse jogo por tempo demais para conhecer determinados sinais… Conhecer e interpretar!

Quando a música acabou, a mulher subiu para o mezanino. Causava furor onde passava. Suada, ainda cansada da maratona, ela parou em frente à mesa de Val.

-Sente-se. Seja bem-vinda ao Devil´s Whorehouse. Sou Valerie, a proprietária.

A mulher cumprimentou Val e acomodou-se. Pediu para beber algo forte. O DJ da casa agora tocava a música “Army of me”, da Björk, que com sua voz doce e a batida forte,x embalava à todos lá na pista, mas a vampira estava com a atenção toda concentrada em sua própria mesa.

-São mulheres como você que atraem a clientela de minha casa, sabia?

-Obrigada. É a primeira vez que venho. Sua casa é muito bem recomendada. E com toda razão.

A bebida chegou, a estranha se serviu, e perguntou:

-Porque está aqui sentada comigo se poderia escolher qualquer homem para lhe acompanhar?

-Homens são maçantes às vezes. Mas, e você? O que faz aqui comigo, se pôs todos os homens da casa à seus pés, com sua dança? – a vampira perguntou.

-Não vim procurar homens. Ando cheia deles.

-Então resolveu procurar mulheres?

-Isso foi uma pergunta ou uma afirmação?

-Me responda você, cara dançarina.

A mulher deu um longo gole em sua bebida, e ensaiou um sorriso. “Como ela poderia saber de meus desejos mais íntimos?” Enfim resolveu falar:

-Ando meio chateada com homens. Terminei um longo e tedioso relacionamento. Quero experimentar coisas novas. Uma amiga minha anda me incentivando.

-Você já experimentou uma mulher?

A dançarina gostava do rumo da conversa. Estava mais solta, pela bebida, e com vontade de contar alguns de seus segredos:

-Só a minha amiga. – respondeu, sem embaraço algum.

-Qual o seu problema com os homens?

-Os homens são infiéis e nos esnobam… Mas ficam assustados e confusos quando encontram uma gata que goste de mulher tanto quanto eles!

-Nossa, você já gosta tanto assim?

-Sim. Olho para uma mulher com tanto desejo quanto para um homem.

Val sorriu, entendendo perfeitamente a situação, pois durante as eras acumulou amantes, escolhendo entre homens e mulheres. Serviu outra dose à ela.

-Eles são desajeitados, apressados na cama e fora dela. Nós, mulheres, temos mais tato. Conhecemos o corpo e a alma feminina. Os homens transariam melhor se usassem a outra cabeça na hora do sexo! Eles são uns tolos.

A vampira olhava para a mulher, analisando. Era morena, uma cor maravilhosa de pele. Ah, a pele! Era tão macia! Podia perceber a textura antes mesmo de tocá-la. E os olhos eram uma mistura harmoniosa de cinza com azul escuro, maravilhosos! Eram muito expressivos também.

-Você já tem experiência nesses relacionamentos homossexuais, Valerie? – perguntou a mulher.

A vampira saiu de seus devaneios, e resolveu não se alongar naquele assunto. Respondeu que sim, secamente, olhando para os olhos encantadores dela.

-Eu estou procurando alguém, uma alma feminina que saiba me completar. Sabe, eu gosto de homens. Gosto de me satisfazer com eles. Aliás, só conseguem me satisfazer na sedução. Me excitei dançando com um homem ali, agora à pouco. Sei que não foi suor que molhou minha calcinha. Mas o sexo com um homem já não me excita mais.

Valerie buscou na memória qual foi a última vez em que ela própria tinha molhado a calcinha por alguém. Estranhamente não conseguiu se lembrar.

-Um cara que estava dançando comigo disse que queria me comer ali na pista mesmo. Eu achei graça naquilo. Gostei do interesse dele, mas não correspondi.

Silêncio. Valerie estava com fome. Já tinha achado a vítima perfeita. Preferia não ouvir mais nada, para não se apegar, não criar vínculos. Não queria nem ao menos saber o nome daquela estranha. Ela estaria morta algumas horas depois, sugada até a medula.

A mulher percebeu o silêncio inquietante. Quis quebrar de vez o gelo com sua anfitriã misteriosa:

-Terminei com meu namorado mês passado. Sabe porquê?

-Me conte.

-Ele afirmou que a mulher é a pior parte da vagina… Acredita nisso?

-Hahahahaha! Que cretino!

A mulher olhava nervosamente para seu copo, meio constrangida com a gargalhada de Val.

-É. Cretino mesmo. Era apressado demais na cama, ou, nas raras vezes que queria ser demorado, era lento demais. Ele nunca me deu o prazer verdadeiro. E ainda me dividia com os amigos.

-Vou te contar uma coisa, pequena irmã: Eu nunca dividi a cama com mais de um parceiro, seja homem ou mulher. Acho que o sexo é a dois, e com as paredes como testemunha.

-Eu concordo com você. Mas algumas vezes eu desejei dois homens. Quis saber se meu problema era quantidade. Não era, sabia? – choramingou a mulher.

Novo silêncio.

-Droga, eu estou bêbada. Me desculpe, Val. Devo estar sendo uma péssima companhia. O problema é que estou muito triste para ficar sóbria. Me sirva mais uma dose, por favor?

A anfitriã deu um risinho entre os dentes, e a serviu. Aquele sabor iria impregnar o sangue dela, e com certeza deixaria Val levemente tonta após beber.

-Você quer me beijar? – perguntou a mulher, confessando o desejo, enfim.

-Eu quero. Mas, por que você quer me beijar?

-Eu quero você. E, apesar de gostar, me cansei dos olhares masculinos me seguindo hoje. Quero uma mulher. Uma como você

-Tenho um lugar para nós, vamos? – “Uma como eu, não é?”, pensou Valerie, maliciosa.

A mulher levantou-se com graciosidade, após dar um último gole na bebida, e a acompanhou. Mal sabia o que a aguardava na penumbra do quarto particular da vampira…

Capitulo 2

 

-Mmmmm, assimmmmm… Nossa, você é boa nisso! Mmm… Nunca tive uma amante com essa fome toda.

Se a mulher pudesse enxergar o rosto de Val no escuro do quarto, enterrado entre suas coxas, teria visto um sorriso irônico.

-Continua… que sensação é essa? Meu Deus!

“Tudo, menos Deus.”

-Isso, aí mesmo… Uuuuuuuhh, Valerie que delícia…

A vampira sabia de fato o que, onde, e como fazer. E caprichava… Aprendera com Sammael em outros tempos que o sangue extraído de vítimas em êxtase sexual era mais saboroso.

-Você me deixa louca! Ahnnn, que sensação maravilhosa… que você está fazendo? Meu Deus… Que chupada… Sinto me esvaindo na sua boca! Que loucura…

A mulher segurava as bordas da cama com força, mordia os lábios com aflição… Estava definitivamente entregue! E como era bom!

Mas estava se esvaindo sim. Em sangue. Num ímpeto ergueu-se das almofadas e quis beijar Valerie. Puxou os cabelos da anfitriã, afastando a boca faminta que agora mordia e lambia sua virilha. Mas o que viu foram os lábios vermelhos. E dentes saindo por fora deles, tão vermelhos quanto… Sua mente não conseguiu reagir direito.

-O quê?

-Shhh, relaxe pequena irmã… Está para vir o melhor!

A mulher deitou-se novamente. Estranho como agora ela percebia que não era prazer que sentia. Era dor. A bebida no instante seguinte parou de embriagar seus sentidos. Quando viu a vampira atacar de novo sua intimidade, tateou no escuro. Pegou a primeira coisa pesada que tocou.

-Malditaaa! – gritou, e destruiu um abajur na cabeça de Val.

A anfitriã nem conseguiu absorver o choque. Estava meio tonta pelo gosto da bebida que insistia vir junto com o sangue da mulher, e o golpe na cabeça a derrubou no chão.

A dançarina pegou seu vestido e enrolando-se apressada, destrancou a porta, durou uma eternidade girar a chave, e correu o mais rápido que pôde. Saiu novamente no mezanino.

E mais uma vez captou toda a atenção da pista para si. Percebeu que sangrava entre as pernas, no pescoço, e até seus pulsos estavam cortados. Como não tinha visto aquilo?

Desceu correndo a escada, quando Spot viu o espetáculo. O homem de confiança de Valerie correu pela multidão para alcançar a mulher. Tirou uma pequena seringa do bolso.

Uma massa humana desabou na direção da dançarina, e ela sentia-se cada vez mais fraca. Quando viu a porta, e sua liberdade, ela achou que enfim estaria salva. Corria por sua vida, tropeçando em todos que atravessavam seu caminho. Sentiu-se sendo violada, tocada, agarrada. Tudo ao mesmo tempo!

Quando ela alcançou a porta, trombou com Spot. “Me ajude”, resmungou debilmente. Sentiu apenas o abraço forte do segurança, e uma pequena picada em seu braço. Seu mundo escureceu, e nunca mais brilhou novamente…

Capitulo 3

No Departamento de Polícia do Centro, algum tempo depois, o delegado de plantão observa o farrapo humano parado à sua frente, rindo de algo invisível.

-Qual seu nome? – perguntou enfim o delegado.

-Me chama de Ziggy, bacana!

-Pode me dizer o que você viu?

-Meu, a mina tava viajando! Eu só vi quando o Gardenal, meu chegado, me deu um toque. E ele tentou passar a mão nela. É, tentou sim! Eu falei: ” Cê tá maluco? A mina tá bem doida, vai dá mó sujeira”

-Ok, Ziggy, obrigado pelo depoimento.

-Aê, bacana! A mina era muito gostosa, um pedação de mal caminho, cara. Parecia uma deusa! Cê não vai zoar o Gardenal por causa disso, né?

-Não, Ziggy. Próxima testemunha!

Uma mulher impecável entra na sala. O delegado sente um perfume que sabe custar mais que seu salário todo no mês.

-Qual seu nome?

-Nome de solteira ou de casada, delegado?

-Primeiro nome. O resto eu pego de sua assinatura no depoimento.

-Andrea.

-O que você viu hoje naquela pista de dança, Andrea?

-Aquela vagabunda veio toda ensangüentada. A vadia sujou meu vestido todo! Eu cheguei a dar um tapa nela, mas vi que ela estava menstruada, sei lá! E também tinha cortado os pulsos. Era sangue até nos cabelos, parecia um demônio!

-Obrigado

-Como assim, “obrigado”? Meu vestido tá perdido! Quem vai me pagar por isso??

-A polícia é que não, madame. Tenha um bom dia. Próxima!

Entra uma moça. Olhar assustado.

-Qual seu nome, mocinha? – perguntou pela enésima vez na noite o delegado.

-Shirley. Escuta, meus pais não vão ficar sabendo não, né? Eles nem podem sonhar que eu tava lá. Por favor.

-Ok, mocinha. Apenas me diga o que viu. Eu prometo não divulgar seu nome. Mas quero sua verdade.

-Bem. Essa mulher tava mesmo bem doida. Ela tava dançando. Eu nunca vi ninguém dançar como ela. Ela, bem… Eu briguei com o Rick por causa dela. Rick é… quero dizer, era meu namorado.

-Brigaram por quê?

-Ele deu em cima dela. Fazer o quê, se ela era muito mais gostosa, e dançava melhor que eu?

-Viu o que houve depois? Quando ela estava ensangüentada?

-Sim. O Rick foi quem viu primeiro. Ela tinha sangue no pescoço e nos pulsos. Parecia também que um dos seios dela estava mordido. E ela tava… Bem, ela tava menstruada, eu acho.

-Obrigado. Onde está Rick? Posso falar com ele?

-O Rick? Sei lá onde tá aquele babaca!

-Obrigado assim mesmo. Tenha um bom dia.

A mocinha saiu da sala, e o oficial de polícia pensou em dar um tempo. “Maldição, eu preciso de um cigarro!”. Nem percebeu o homem alto parado na porta, até que ele falou:

-Delegado?

-Sim Quem é você?

-Me chame de Spot. Levante minha ficha. Verá que trabalho há mais de vinte anos como segurança de casas noturnas. Eu que tirei a garota do tumulto. Alguém disse que tentaram violar a vítima no meio da pista de dança?

-Mesmo? Que juventude perdida! E pensar que a garota morta tinha a idade da minha filha…

-Pois é. Venho até aqui em nome da proprietária. Ela está muito abalada, pois isso denigre a imagem de nosso clube. Ao que parece, a garota já chegou lá drogada, e disposta a armar confusão. Sabe aquelas pessoas que querem morrer e levar audiência junto?

-Sim, foi o que me pareceu. Todos os depoimentos falam que ela dançava como uma maníaca sexual. Mas onde ela ficou durante o período em que subiu ao mezanino de sua casa e a volta dela toda ensangüentada? Foram cerca de trinta minutos, meu caro!

-Está convidado a ir até o Devil´s. Posso lhe mostrar as dependências. É um lugar amplo, amplo demais às vezes. Ela poderia ir a qualquer lugar, delegado.

-O que acontece naquela casa noturna, Spot?

-Shows de rock, gótico, essas coisas, que aliás, eu não entendo muito. Meu negócio é evitar tumultos. Nada mais que isso. O problema é que juntar muitas pessoas num lugar de vez em quando dá confusão. Mais alguma pergunta?

-Não. Pode ir. Estamos ainda apurando fatos. A causa da morte foi perda maciça de sangue e intoxicação aguda. Ela estava mesmo muito doida! Qualquer novidade, nos avise.

O homem chamado Spot virou-se e saiu. Era a última pessoa que saía da delegacia naquela madrugada. Aliás, já raiava o dia.

-Policial Carlos!!!

-Sim, delegado.

-Precisamos observar direito essa casa. Apesar de tudo parecer suicídio, confesso que não fiquei totalmente convencido.

-O que o senhor pretende fazer?

-Você gosta de shows de Rock, Carlos? – respondeu com pergunta o delegado, ajeitando o uniforme com olhar distraído. Tinha algo errado, e ele iria descobrir exatamente o que era!

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