Pois é, então… Sou eu, aquele fudido do Carvalho, o sujeito que vê todas as coisas, mortos, desmortos, aberrações e assombrações que vagam por São Paulo e perturbam os vivos e que absorve as energias e lembranças delas, viciou-se nisso e vive num estado tão maluco e anormal  que faria vocês humanos ‘normais’ correrem para baixo da cama de suas mães e não saírem de lá nem com guindaste.  Quer dizer, todas as aberrações e assombrações, não. Moça, a julgar pelo que já ouvi por aí e por certas sensações que caem sobre mim quando passo por uns lugares do Centro – sempre o Centro –  tem coisas rondando São Paulo que não deveriam jamais sequer ter sido imaginadas…

Então, tá lembrada de mim? Trocamos umas ideias num boteco metido a moderno, roqueiro e não sei o que mais, lá no centro. Você, na ocasião jogou um papo de bruxa pra cima de mim, que era íntima dos lances dos planos etéreos superiores e tal… fiquei duplamente  de má-vontade e mal-humorado: primeiro, porque doidas e biscates quem mal conhecem um cara e vêm com esse papo de “as forças do além uniram nossos destinos” fazem qualquer homem que se preze ficar com os dois pés atrás num instante,  e eu, admito me apressei a te julgar uma dessas; segundo, porque, naquela noite, eu estava particularmente  perturbado, fora de mim por causa do carregamento industrial que tinha tomado, naquele dias, das pílulas que despejo no cérebro para me manter são e no mundo dos vivos, minha paciência com vocês que brincam de bruxinha wicca nas noites de lua  cheia mas na verdade não fazem a menor ideia do que rola aqui em SP tava bem abaixo de zero.

A porra toda aconteceu numa noite de sexta-feira. Era umas 19:30h quando deixei a redação do “São Paulo Hoje”, após entregar meu material que estaria na edição dominical desse tablóidezinho safado, o jornaleco da vez a tentar desesperadamente ocupar o espaço, entre a peãozada e classe média baixa, que pertenceu ao lendário NP, mas sem apelar a baixaria e sangueira aos montes, e  claro, mal fechando os custos ao fim do mês por querer manter um certo ‘nível’ (leia-se, não definir se era um jornal para a ralé sedenta por sangue ou um jornal para a classe média baixa ler e se sentir informada). Sai daquele brejo de cobras d´água que se acham cascavéis com o Vieira, um jornalista já beirando os cinquenta, um descendente de portugueses bronco e engraçado. Saímos lá das alamedas dos Campos Elísios a bordo do Palio dele e paramos num boteco na Nestor Pestana todo amadeirado, estilosão, atrizes e malucas dos teatros alternativos ali do lado, da Roosevelt, aos montes em suas mesas meio úmidas, mesas de bilhar no fundo, para  jogarmos duas séries de três partidas, com um intervalo  para a cerva e o papo furado de sempre no meio. Quando as badaladas notúrnicas (ainda não eram as doze) soaram, meu colega de infortúnios jornalísticos zarpou na hora, pois a rádio-patroa dele o controla com mão de ferro e ele não tem culhões nem ânimo de mudar isso.

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