escadaria 9 de julho

Por Caio Bezarias, editado por Elis Verri e Vinicius Zahorcsak

Pois é, então… Sou eu, aquele fudido do Carvalho, o sujeito que vê todas as coisas, mortos, desmortos, aberrações e assombrações que vagam por São Paulo e perturbam os vivos e que absorve as energias e lembranças delas, viciou-se nisso e vive num estado tão maluco e anormal que faria vocês humanos ‘normais’ correrem para baixo da cama de suas mães e não saírem de lá nem com guindaste. Quer dizer, todas as aberrações e assombrações, não. Moça, a julgar pelo que já ouvi por aí e por certas sensações que caem sobre mim quando passo por uns lugares do Centro – sempre o Centro – tem coisas em São Paulo que não deveriam jamais sequer ter sido imaginadas…


Então, tá lembrada de mim? Trocamos umas ideias num boteco metido a moderno, roqueiro e não sei o que mais, lá nos arredores das Paulista. Você, na ocasião, jogou um papo de bruxa pra cima de mim, que era íntima dos lances dos planos etéreos superiores e tal… fiquei duplamente de má-vontade e mal-humorado: primeiro, porque doidas e biscates quem mal conhecem um cara e vêm com esse papo de “as forças do além uniram nossos destinos” fazem qualquer homem que se preze ficar com os dois pés atrás num instante, e eu, admito me apressei a te julgar uma dessas; segundo, porque, naquela noite, eu estava particularmente perturbado, fora de mim por causa do carregamento industrial que tinha tomado das pílulas que despejo no cérebro para me manter são e no mundo dos vivos, minha paciência com vocês que brincam de bruxinha wicca nas noites de lua cheia mas na verdade não fazem a menor ideia do que rola aqui em SP tava bem abaixo de zero.
Lembrou de mim, certo? O cara alto, jaqueta de couro rocker, barba por fazer, olhar enfezado, tudo para dar estilo de malvadão. No fim, apesar dos disparos de mau humor e alguma grosseria, nos entendemos um tanto e trocamos endereços de e-mail. E, sei lá porque, minha cara Artêmis (esse seu nome “místico”, certo?) resolvi desabafar justamente com você. Segundas intenções? Pode ser, se achar que é isso e curtiu a ideia, me chame.
É, vou contar a minha última desventura vivida nessa cidade que é própria antessala do inferno, ou talvez uma amostra do próprio? Caramba, como estou usando clichês… Bem, não foi só uma desventura. Também fiz uma descoberta interessante e assustadora pra caralho, mas claro que me fodi um tanto para isso, perdi um pouco mais da pouca sanidade que ainda tenho/tinha, desde que meu maldito e desgraçado ‘dom’ apareceu, há bem mais de dez anos. E eu que achava que a pior coisa desagradável que habitaria minha fodida cabeça e me atormentaria vida afora, quando ainda tinha meus estúpidos e arrogantes vinte e um anos era a imagem do meu pai me xingando e me acusando de não ser homem de verdade e os recalques e ressentimentos que entopem a mente de qualquer garoto que não se entendeu com seu velho…
O que eu descobri? Calma, você está parecendo esses moleques ansiosos e empata foda na casa dos vinte anos de hoje em dia, esses panacas apressadinhos que não saber esperar ou apreciar nada, ‘franguinhos metidos que se acham, todos uns portadores de síndrome de ejaculação precoce mental’, como costuma dizer a Rosana, uma amiga e ‘ficante’ minha, e cuja maior burrada que cometeu na vida foi tornar-se professora de Artes…Bem, como eu dizia, descobri uma coisa ao mesmo tempo interessante e de gelar a espinha; interessante porque revela que nós humanos temos um potencial escondido para fazer, talvez, coisas du cacete; e é de assustar porque isso pode implicar em coisas ruins e muito assustadoras. Inclusive andei pensando se várias das aparições com que topei nesses anos não eram exemplares dessa coisa que descobri.
Bem, já tivemos o suficiente de preâmbulo, vamos lá.
A porra toda aconteceu numa noite de sexta-feira. Era umas 19h30 quando deixei a redação do “São Paulo Hoje”, após entregar meu material que estaria na edição dominical desse tablóidezinho safado, o jornaleco da vez a tentar desesperadamente ocupar o espaço, entre a peãozada e classe média baixa, que pertenceu ao lendário NP, mas sem apelar a baixaria e sangueira aos montes, e claro, mal fechando os custos ao fim do mês por querer manter um certo ‘nível’ (leia-se, não definir se era um jornal para a ralé sedenta por sangue ou um jornal para a classe média baixa correr os olhos e se sentir informada). Saí daquele brejo de cobras d´água que se acham cascavéis com o Vieira, um jornalista já beirando os cinquenta, um descendente de portugueses bronco e engraçado. Deixamos as alamedas dos Campos Elísios a bordo do Palio dele e paramos num boteco na Nestor Pestana todo amadeirado, estilosão, atrizes e malucas dos teatros alternativos ali do lado, da Roosevelt, aos montes em suas mesas meio úmidas, mesas de bilhar no fundo, para jogarmos duas séries de três partidas, com um intervalo para a cerva e o papo furado de sempre. Quando as badaladas notúrnicas (ainda não eram as doze) soaram, meu colega de infortúnios jornalísticos zarpou na hora, pois a rádio-patroa dele o controla com mão de ferro e ele não tem culhões nem ânimo de mudar isso.
Bem, já eu, solteirão convicto, solitário empedernido e metido a pegador de menininhas na flor da idade (é, eu sei, esse último rótulo cola cada vez menos em minha decadente pessoa), resolvi seguir a inclinação da topografia da região e me enfiar na decadência cada vez maior da rua Augusta, dar umas bandas pelos bares ali da parte baixa da rua, onde os rockistas em geral, além de uns pouquíssimos roqueiros e headbangers de verdade, se reúnem, tretam, bebem e se acabam. Essa fauna decrépita está sempre muito bem cercada de menininhas gostosinhas, bem alimentadas na infância, cheirosas, e por que não, a fim de alguma diversão. Quem sabe ficar ali de bobeira, cerveja na mão, fazendo minha pose de cara vivido e sábio garantisse uma foda para animar o fim de semana?
Bem, lá estava eu, parado na calçada do bar do Seixas, bud na mão, observando o safári sexual de todo o fim de semana começar a despontar aqui e ali; nada aconteceu após quase trinta minutos, além de mandar passear um infeliz que está por lá TODAS as vezes em que apareço, não importa quanto tempo eu demore para dar outra passada no Seixas, um tipinho que adora contar vantagem para o primeiro idiota disposto a ouvi-lo e foi por causa dele que a coisa começou: tive de fazer cara feia, bufar e dar-lhe as costas. Acontece que por vezes uma erupção de raiva aguça minha, digamos ‘percepção do além’, além de eu ter me voltado para a direção do Anhangabaú, ao virar-lhe a cara. Foi quase simultâneo: me voltei para lá, deixei a bronca se espalhar pela consciência e então veio, como se chamada por essas ações, a presença de um descarnado passando por ali, aquela sensação, impossível de descrever para você humanos normais, desde sempre estimulante e assustadora, de que algo estava me tocando, me estimulando, mas ao mesmo tempo parecia muito longe, vir literalmente de outro mundo, o mundo das almas atormentadas e descarnadas querendo pesar em nosso mundo e nele influir. Quer dizer, eu achava que era mais um desses campos de energia eletromagnética-plásmica autocontida e organizada que nós chamamos de ‘espírito’, a vagar por São Paulo, inconformado por não mais habitar e comandar uma porção de matéria, até o instante em que fixei o olhar na forma, que passava ao meu lado, trêmula e apressada, olhar fixo à frente como se perseguindo algo ou alguém que tentava lhe escapulir, e reconheci os traços de outro ex-colega de redação, com quem não falava há mais de ano, mas que eu sabia, por conhecidos comuns, que estava vivo e bem, pelo menos até o mês anterior. Mas o pior, o que me arrepiou, não foi isso: o espectro vestia-se e usava o corte de cabelo que o sujeito envergara há pelo menos cinco anos antes, quando trabalháramos juntos, e depois disso, ainda vivo, eu vi e me lembro muito bem, ele mudara o visual… Não fazia o menor sentido: um fantasma com a aparência que alguém tinha há anos, sendo que o cara continuava vivo e com outro visual? E para piorar, tive o calafrio que é aviso certo de coisa fodida se pondo no meu caminho.
Claro que esqueci imediatamente caça a menininhas, bebida e quetais e segui sôfrego o espectro, que parecia estar vivo, parecia arfar, os olhos cintilando. Querida bruxinha, se você pudesse imaginar a cena e a sensação. Pensa só: um sujeito perseguindo um espectro em plena parte baixa/suja da Augusta (‘Baixo Augusta’, para mim, é termo para hipsters e viadinhos), numa sexta, quase à meia-noite, a rua lotada, correndo atrás de uma aparição que só ele pode ver, se desviando dos manés, tranqueiras e breacos, totalmente alheios àquilo. Dá para entender por que minha sanidade foi para as picas faz tempo e só consigo ter uma vida perto de normal na base de muitas e muitas boletas na cabeça?
O espectro, projeção astral, duplo, seja lá o que fosse deixou a Augusta para trás, passou pela Avanhandava e seus restaurantes burguesinhos e seguia firme pela Martins Fontes, até embicar para a direita e entrar na maldita da Álvaro de Carvalho. Sério, conto isso sem me envergonhar: senti medo ao perceber que a coisa se dirigia para lá. Tem bem poucas ruas e cantos do Centro de São Paulo que realmente evito, que me dão medo de verdade. E essa é uma delas. Além de uma vez quase ter tomado uns tiros por nada, bem embaixo de um dos viadutos que a cortam, de um desses marginaizinhos, por eu ter feito até hoje não sei o que para ter irritado o merdinha, aquele barranco parece uma via expressa rumo ao inferno, tamanha é a energia negativa que se acumula ali. E deve ser mesmo, pois termina bem ao lado do Anhangabaú, que recebeu esse nome dos índios muito justamente.
Bem, eu parei, observei o espectro seguir seu rumo e xinguei o mundo, tudo e o nada pra caralho ao perceber que ele tomava distância e ficava mais e mais indistinto e que eu faria a óbvia, inevitável e imbecil ação de segui-lo e ignorar meus temores e lembranças.
Mas não precisei adentrar muito a ‘Alvo do Caralho’: o espectro do Marcondes (esse o nome do sujeito) correu por apenas mais uns dois metros, até que estacou, fez todos os gestos como se tivesse agarrado alguém, ergueu essa presença invisível e em seguida DESFERIU UMA PORÇÃO DE SOCOS NELA, ENQUANTO BERRAVA: – TOMA, FILHADAPUTA! ACHA QUE VAI ME SACANEAR ASSIM? JÁ TENHO ATÉ NETO PRA SUSTENTAR, NÃO VAI ME TIRAR MEU TRAMPO NEM ME PASSAR PRA TRÁS!
A cena durou menos de um minuto. O espectro largou os braços ao lado do corpo, um brilho de satisfação e de ódio brilhava no que seriam seus olhos, pude, garanto, perceber que ele respirava pesadamente e então ele desapareceu, ficou mais e mais indefinido até não estar mais lá. Moça, fiquei tão desconcertado, olhando para o nada com uma expressão tão palerma que um bando daqueles metaleirozinhos idiotas e suas putinhas metaleiras, que ficam fazendo nada num pulgueiro nojento lá no começo da 9 de Julho e depois sobem a Álvaro e a Martin, em busca de algo que preencha a noite e a vida vazia deles, já iam passando por mim, mas repararam no meu jeito, olharam para mim e balbuciaram algumas palavras. Os caras riram e falaram algo como ‘ih, tá muito loco, ó o tipo’. Mas duas das meninas, por sinal, vestidas e maquiadas do modo mais vulgar e ‘rampeira do hard rock’ possível, chegaram mais perto e perguntaram se eu estava bem, se estava passando mal ou algo assim. Foram as palavras delas, de sincera preocupação, que me tiraram do estupor que eu estava ainda tentando entender o que era aquela aparição.
Respirei fundo, girei a cabeça algumas vezes, agradeci a elas, dizendo que tinha sofrido apenas de uma pontada de enxaqueca que me deixava assim como uma estátua e corri para o primeiro bar que divisei, na Martin Fontes, onde me sentei na mesa mais afastada da porta e do movimento, para beber algo, enquanto punha os pensamentos em ordem o máximo possível.
O que eu tinha de fazer o mais breve possível era claro: saber a quantas andava o Marcondes, se realmente estava vivo – e uma intuição que eu preferia ignorar, calar, insistia em dizer que sim, como se anunciasse coisas muito estranhas pela frente – e o que aquela coisa significava.
Tomei as três garrafas da cerveja vagabunda mas gelada praticamente sem intervalo – assim que uma estava perto de esvaziar, mandava outra vir. Isso mais a expressão estranha, tensa, que estava estampada no meu rosto atraiu a atenção de uma puta – puta mesmo, profissional – que primeiro disparou aquele sorriso sacana e ao mesmo tempo convidativo e com jeito de superioridade, que as putas ali daquele entorno envergam como nenhuma outra, aquela expressão de ‘sei de tudo, sou vivida, sou perigosa, viu MININO?’ que já faz tempo apenas me irrita.
Não dava mais para ficar parado, o fervilhar da noite ao meu redor entrou em fase com meu fervilhar interno e a necessidade de descobrir mais, de rodar e rodar e encontrar alguma coisa, uma explicação ou algo ainda mais esquisito que uma projeção psíquica de um vivo. Pulei da cadeira ensebada, paguei e passei pela porta ignorando o olhar raivosinho da putana decadente. Caminhei não muito mais que uns cem metros a esmo; parei na calçada do Estadão, olhei, desinteressado, para a ‘tal fauna urbana noturna’ que o lotava (eu mesmo já usara essa expressão um par de vezes, em textos encomendados para esses suplementos etílicos e botequeiros publicados por revistas e jornais metidos a modernos, o que me fez se sentir um tanto mais idiota).
É garota, revendo os acontecimentos dessa noite, enquanto estou aqui diante do meu computador véio de guerra que trava e tem de ser reiniciado a cada dois dias, especulo se a sensação de idiotia, de ser um medíocre rodando e tomando todas no centro, rodando, rodando com uma pressa toda para uma porra de lugar nenhum, que me dominou ao observar os frequentadores da lanchonete e me ver como mais um deles, e a (in)consequente vontade de me afastar deles e me sentir realmente louco e selvagem, bem diferente daqueles burguesinhos posando de notívagos, imagino se isso não contribuiu para a decisão de caminhar mais uns passos e simplesmente descer a escadaria do Viaduto 9 de Julho que leva à avenida do mesmo nome; porque fazer isso numa madrugada um tanto fria de sábado, sozinho, descer calmo e lento, de peito erguido, como se todas as trancas, nóias e bandidinhos afim de atirar por nada que rondam aquilo fossem ratos que se espanta com um simples berro e um pisão, é no mínimo bem demencial.
Essas escadarias se tornaram tão anacrônicas que chegam a ser engraçadas: são largas, foram feitas para pelo menos três pessoas atravessarem uma ao lado das outras, ou seja, são de um tempo em que os paulistanos usavam-nas sempre e muito, sem medo, muitos descendo e subindo, a qualquer hora. Hoje (quero dizer, já faz tempo) a largura delas serve para esconder algum trombadinha nos cantos e para receber o máximo de dejetos possíveis fabricados pelos corpos ferrados dos nóias e mendigos. Isso sem contar o mato e até as pequenas árvores que crescem ao redor delas e os grafites que cobrem suas muretas, como o rosto branco sorridente de cabeleira laranja, que parecia me convidar a entrar naquele portal rumo ao que eu imaginava saber, pelo menos até aquele momento. Dei uma última espiada para trás, o piso de mosaicos que formam o mapa do estado, a meus pés parecia estar meio zuando comigo, meio avisando que São Paulo e o mundo hoje não passam disso – um monte de podridão – Mas não quis nem saber, desci, impávido e cheguei à calçada da avenida sem sofrer nada além de sorver o fedor que empesteia os degraus. Mas claro, algo estranho iria acontecer. Só que antes, preciso dar uma de guia de ruas.
O viaduto possui no total quatro dessas escadarias: duas no início, bem próximas ao Estadão, uma defronte a outra, e outras duas no fim, perto da rua Santo Antônio. Ao lado da escadaria do fim do viaduto, oposta àquela que desci, do outro lado da avenida, há um terreno cercado por muro repleto de árvores de copa densa, uma verdadeira floresta fechada em miniatura, encravada em pleno centro – tem várias dessas aqui e ali pelas avenidas e ruas ao redor dos cursos de água subterrâneos aliás, todas exalando algo que atiça meus sentidos – tão densa que mesmo à luz do dia é difícil divisar seu solo, fértil a ponto de sustentar árvores tão altas.
Entendeu? Conseguiu visualizar? Conhece o sítio em questão? Certo. Assim que me vi na calçada, bem iluminada, um movimento até que intenso de gente passando, o que me deu uma sensação de confiança engraçada, me acalmou, decidi seguir em frente, entrar no Bixiga, quando divisei um brilho, um lampejo na escadaria em questão, ao lado da floresta em miniatura, um brilho que parecia ter contornos humanos e que não se apagou ou piscou, mas se escondeu debaixo da sombra mais escura que as árvores faziam! Disso, naquele exato momento, eu não tinha certeza, mas que era o que eu procurava, estava certo, assim, cheio de pressa e muito imprudente – os carros atravessavam a avenida à toda – cruzei a pista sentido zona sul num pique, para parar no canteiro central repleto de arbustos, mal me importando com o movimento; um corolla reluzente desviou de meu sortudo corpo por centímetros, o motorista xingou por mais tempo que parecia possível sem perder o controle de sua caranga e capotar ali mesmo.
Atravessei a outra pista sem ter de tirar fina com algum motorista enfezadinho e me aproximei devagar do muro que delimitava a minifloresta, parando nos primeiros degraus da escada e olhando com cuidado, como se fosse surpreender alguma coisa arisca ou que queria se ocultar e fiz isso sem me dar conta. Aliás, é gozado; repassando o que aconteceu naquela noite, ao escrever isso, percebo que a partir de um certo instante eu mais seguia algum instinto ou força me guiando do que agia por conta própria, e era alguma coisa de fora, alguma força presente naquele pedaço do centro, nada de meu inconsciente me comandando ou coisa assim; meu inconsciente estava sendo comandado por essa força externa, isso sim.
Bem, eu fui me esgueirando em direção àquele muro sem acabamento ou reboco, todo pixado, e então o brilho surgiu, ao lado do muro, uma meia dúzia de degraus acima, de início como uma oscilação, um movimento, como se a brisa noturna estivesse carregada de um pó que parou no ar, ficou brilhante e se expandiu, até formar a imagem de UM CASAL JOVEM, AMBOS NA CASA DOS 25, TREPANDO ALUCINADAMENTE, AS PERNAS ROLIÇAS DELA ENGANCHADAS NAS COSTAS DO CARA ENQUANTO ELE BOMBAVA COM TUDO E ELA REBOLAVA O QUADRIL COMO LOUCA.
Sei lá quanto tempo fiquei observando a cena, mudo e estático, não só pelo absurdo de uma projeção incorpórea aparecer ali, mas também pela beleza e intensidade da coisa: trepavam com uma entrega, urgência e fúria, como se pudessem ser pegos a qualquer momento, dando tudo de si ao outro e ao ato, para gozarem o mais rápido e intenso possível – te juro, gata, dava para distinguir isso no rosto deles, a expressão de perda da razão, tomados pelo êxtase, pelo prazer animalesco, misturada ao senso de risco e urgência.
Os dois eram belos e de carnes bem firmes – ela, uma morenaça peituda – porra, o cara socava nela com tudo e os seios balançavam só para os lados, durinhos – cabelos negros lisos cortados em chanel na altura dos ombros, lábios carnudos, alta, alta; ele, um mulato musculoso pacas, barba cerrada, rosto de traços bem proporcionados. Dava gosto de ver!! Maravilhado, me aproximei mais e mais, e sem vacilo e estendi uma mão na direção dos espectros, como se quisesse tocá-los. E foi exatamente o que aconteceu, um toque, eu toquei e senti algo: um formigamento misturado a uma sensação de calor e conforto correu das pontas de meus dedos para o resto do corpo e o prazer de sentir carne se tocando, o tesão, a entrega em que os dois eram um só maior que eles, tudo que um orgasmo de verdade proporciona a nós humanos veio a mim, me completou, me encheu, e em dobro: todo o prazer que sentiram eu senti, se incorporando a minhas memórias. E soube quem eram, quando cometeram a deliciosa transgressão (há pelo menos uns dois anos), pois essa ação, que me fez absorver aquela emanação de energia também revelou: não eram fantasmas porra nenhuma, assim como a aparição do meu colega, também não era. Eram projeções psíquicas que eles deixaram ali naqueles pontos da cidade; pois foi bem nelas, onde as vi, que eles as viveram: experiências tão intensas que se fixaram no plano espiritual da cidade, uma espécie de gravação mística do momento, e que pode ser vista (ou posta para rodar, digamos assim) pelos sensitivos, paranormais e dementes fodidos, como eu.
Aqueles dois, sabe-se lá quando, tinham aprontado o que eu estava vendo: deram uma gloriosa rapidinha ali, num desvão escuro (não muito, de fato) da cidade, ao ar livre e ainda deixaram uma marca para a posteridade que só uns poucos ’felizardos’, como eu, podiam ver.
Quando dei por mim, o espectro tinha desaparecido e para sempre: eu tinha, como explicar, absorvido aquela coisa. Estava tão pasmo que levei um lapso de tempo que pareceu imenso – na verdade, alguns poucos segundos – para perceber que aquela emanação espiritual que não era a alma completa de um morto acalmou, encobriu, calou, para ser exato, a sinfonia amorfa e insana das vozes indistintas de todas as almas atormentadas que absorvi nos últimos anos, e que só conseguia calar com mancheias e mais mancheias das minhas queridas e malditas pílulas. Gata, eu crispei as mãos, soltei um berro de pura alegria infantil, atravessei de novo a 9 de julho, para fazer o percurso inverso e em poucos minutos encontrar a projeção ectoplásmica que meu antigo colega de redação deixou impressa na junção da Álvaro com a Martins e sorvê-la como um verdadeiro vampiro bebendo o sangue da vítima.
A quietude interior, o alívio de não ser atormentado por um sem-fim de vozes vindas da própria cabeça ficou ainda mais profundo, a tal ponto que parecia um barato novo, uma experiência química nova. Ficar são de novo me deixou meio ébrio, após tantos anos. Meio tonto, caminhei devagar e fui parar onde? No bar em que tinha tomado umas pouco menos de uma hora antes.
A história que tinha de contar termina assim. Neste ponto adoraria dizer que depois daquele dia nunca mais precisei absorver as energias de outros espíritos e aparições, que percorrer todos os cantos de São Paulo em busca de outras projeções ectoplásmicas de experiências intensas vividas por gente viva, para manter a paz que julgava perdida para sempre, não me viciou ou me ferrou de outro modo, inteiramente novo, mas infelizmente essa é minha história, e nem sempre na vida as histórias acabam bem.

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