Por Elis Verri – Revisado por Caio Bezarias e Vinicius Zahorcsak

A quaisquer deuses que existam
Que nenhuma vida viva para sempre;
Que os mortos jamais se levantem;
Que também o rio mais cansado
                Desague tranquilo no mar.

Algernon Charles Swinburne[1]

 

Logo passará o último metrô, por isso corro em direção à estação Liberdade. Apesar de ser um instinto me apressar para conseguir chegar em casa, pergunto-me se voltar é a minha vontade agora. E a de todos os dias.

Essas ruas estão vazias – mas quando se está alheia ao mundo, quase não sinto medo de ser a única pessoa subindo a ladeira. Salvo uma alma ou outra que sei que está por perto pelo som dos passos. De onde eu vim, não importa. Tampouco, para onde irei assim que desembarcar do metrô.

Lembro-me de uma entrevista que Freud concedeu, pouco mais de dez anos antes de sua morte. O entrevistador perguntava se o alemão era um profundo pessimista. Freud negou: “não permito que nenhuma reflexão filosófica complique minha fluidez com as coisas simples da vida”.

Curioso pensar nesse trecho justo quando sigo exatamente o oposto. Não suporto os filósofos prepotentes, mas lembro deste médico. E percebo que cada reflexão que faço torna a existência mais pesada. Caminhar parece um fardo, respirar dói. Apenas a melancolia – essa aura azul que me encobre – me conforta, como se ela fosse uma velha amiga.

Talvez eu sempre tenha carregado essa pequena tristeza dentro de mim. Cada um nasce com a sua, do mesmo modo que nasce com a íris. E nenhuma íris é igual, nenhuma tristeza é igual. Como, então, compreender o que cada um carrega consigo?

E como entender os medos e receios dos outros, se cada um enxerga o mundo a sua maneira?

Chego perto da Estação. Desço as escadas. Mesmo nesse horário, a entrada deveria estar um pouco mais movimentada, mas não vejo ninguém. Não importa. O cartão está vazio, compro um bilhete. Nenhum por favor, obrigada ou boa noite.

Apenas o som de asas, penso. Sorrio ao lembrar de Neil Gaiman falando o mesmo sobre a Morte. É o turno dela? O que devo deixar morrer em mim?

A vida, disse também Freud, tem que completar seu ciclo. Que força dura mais: a pulsão de vida, ou a de morte? Por que tentar vencer a morte, se ela é nossa aliada?

Que arrepio é pensar nisso! Como se fosse um desejo que cuido como um filho. Um desejo que pari, agora, chegando à plataforma.

Vazia. Assustadoramente vazia. Mas por que sinto medo, se há pouco excitei-me pelo desejo que percorreu a minha espinha? Talvez morremos porque desejamos morrer. A vida e a sua eterna relação com a destruição. Mas a morte é simbólica: o que quero enterrar ainda não sei, então a febre percorre todo o meu ser para desmanchar o que está doente.

Escuro. De repente todas as luzes se apagam nessa plataforma. Não ouço o som de nenhum trem se aproximando, muito menos vejo as luzes de emergência indicando a saída.

Sinto medo.

Não quero ficar, sozinha, não quero morrer. Quero apenas que a dor pare. Choro ao pensar nisso como se houvesse um outro ser na minha cabeça lutando para se defender de mim mesma.

O coração acelera, tento manter a calma. O outro lado faz com que eu seja racional: vou para trás até encontrar a parede. Mexo na bolsa, e encontro meu celular. Mas a luz dele não é potente o suficiente para que eu veja algo.

E o metrô que não chega.

Mais de meia-noite.

Um frio arrepia minha nuca.

Então, ouço uma voz aterrorizante, tão próxima, que sinto a respiração em meus ombros.

– Morremos porque desejamos morrer, e eu vim ao seu encontro.

Sinto um peso sobre mim, e meu pescoço sendo cortado. O sangue escorre, sinto-me molhada por ele. Não consigo mais pensar em nada.

Por favor, me deixe…

Viver.

[1] Whatever gods may be/ That no life lives for ever;/That dead men rise up never; / That even the weariest river / Winds somewhere safe to sea. – do poeta Algernon Charles Swinburne

 

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