“Ela canta uma canção sobre seu pecado

 

de prazer e dor

E as virtudes em vão

Para o ouvido que irá ouvir

E para aquele sem medo”

Therion – the rise of Sodom and Gomorrah

A neblina que vagava pelas margens do rio na noite fria e escura de lua nova confundiu Juzué, que tropeçou e tombou com violência. Suas calças grosseiras de lona sem cor definida rasgaram-se de uma vez ao encontrarem as pedras pontiagudas dos barrancos que cercavam o curso d´água (…)o cafuzo não conseguia mais movimento coordenado algum e o desespero entrecortava seus últimos pensamentos: o som dos rugidos era cada vez maior e mais próximo e sua última onda viera acompanhado de uma risada de mulher tão maléfica e distorcida que lhe soou como as portas das profunda do inferno anunciando sua danação, a voz do demo zombando de toda sua fé, de todas as rezas e ofertas para a Igreja lá do Carmo, de seu imenso temor ao Deus Pai. Tudo, tudo para sucumbir ali, naquele baixadão desgraçado, pego, ser amaldiçoado, pervertido por um demo(…)

Ingrid largou o corpo, ficou ereta, suas presas cresceram tudo que podiam, as unhas afilaram-se e tornaram-se garras mortais, o luzir vermelho dos olhos rasgou a neblina. Estava pronta para uma luta encarniçada contra outro vampiro que tivesse sentido sua chegada e reivindicasse aquela cidadezinha miasmática como seu território de caça ou até mesmo enfrentar algum Ancião que ali se exilara por alguma das razões enormes e indescritíveis que só eles poderiam experimentar e lidar, embora julgasse impossível um daqueles cosmopolitas afetados e arrogantes instalado num lugarejo que mais parecia um trapo jogado por cima do solo da América.(…)

– Quem és tu, anfitrião meu e também intruso? Por que escolheste interromper uma ação, um momento tão importante, que é para um caminhante das trevas sua alcova mais íntima, aquela em que está nu e pleno, tão desnudo e sem segredos como a virgem humana cheia de desejos deitada na cama de sua alcova a suspirar pelo amante que não vem.

A elaborada comparação causou verdadeiro enlevo em Lúcio, que relaxou os braços, pousou as mãos nas coxas cobertas pelas calças de veludo negro e sorriu um sorriso ainda mais aberto e amistoso:

– Venho a ti em busca da honra de ser teu anfitrião e guia pelas veredas desta terra, que não é devassa como uma cidade, pois ainda é uma pobre vila, insípida como todas estas são, e pobre como todas aldeias. Por que adentras este monturo de monotonia e de tédio?

 

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