imagem conto do carpe de março 2016

“Ela canta uma canção sobre seu pecado

de prazer e dor

E as virtudes em vão

Para o ouvido que irá ouvir

E para aquele sem medo”

Therion – the rise of Sodom and Gomorrah

São Paulo de Piratininga – uma noite de outono em algum ano da década de 30 do século XIX

A neblina que vagava pelas margens do rio na noite fria e escura de lua nova confundiu Juzué, que tropeçou e tombou com violência. Suas calças grosseiras de lona sem cor definida rasgaram-se de uma vez ao encontrarem as pedras pontiagudas dos barrancos que cercavam o curso d´água; as pontas  esfolaram seus joelhos tortos de pescador de sol a sol e muitas vezes de noite a noite e o ardido causado pela  terra úmida que tocou os cortes e misturou-se ao sangue, devido ao movimento de tentar se erguer, o fez trincar os dentes,  e continuar curvado e arfante; o cafuzo não conseguia mais movimento coordenado algum e o desespero entrecortava seus últimos pensamentos: o som dos rugidos era cada vez maior e mais próximo e sua última onda viera acompanhado de uma risada de mulher tão maléfica e distorcida que lhe soou como as portas das profunda do inferno anunciando sua danação, a voz do demo zombando de toda sua fé, de todas as rezas e ofertas para a Igreja lá do Carmo, de seu imenso temor ao Deus Pai. Tudo, tudo para sucumbir ali, naquele baixadão desgraçado, pego, ser amaldiçoado, pervertido por um demo, bem quando estava apenas tentando pegar uns cachara e uns barbadãos longe do lugar coimeiro, pra  vendê pela manhã nas ruela ao redor do Pateo. Tanto  castigo pra não ter de pagar ou trabalhar a mais por uns peixinhos?

A consciência que a morte se aproximava veio, do fundo dele mesmo, mas parecia vir de lugar algum, ao erguer, com dificuldade, o olhar para o céu, enquanto sua mente destroçada buscava juntar as palavras da reza brava mais potente que conhecera, palavras que apareciam incompletas e a seguir fugiam, esmagadas pela situação e pelo cenário, pois naquela noite nuvens corriam pelo céu, escondendo e revelando, no ritmo da natureza indiferente aos homens, a escuridão de uma noite de lua nova. Isso, ele viu e sentiu ao procurar pelos céus, para pedir ao Pai sua salvação, embora algo – tudo, o som horrível e  indistinto da coisa arfando logo atrás, o sinistro aspecto da várzea do Carmo coberta de neblina que dançava entre as moitas densas e as árvores, os imbés e as copaíbas esparsas e de copa tão densa quanto o mato cerrado que envolvia as margens, o ruído dos grilos tão distante, como se até eles tivessem recuado ante a presença da coisa infernal que ele não conseguira divisar  – tudo pesava sobre Juzué e esmagava sua esperança.

U ação involuntária e meio animal o fez olhar sobre os ombros, para trás, pois ainda que o terror fosse enorme e sem nome, tinha de encarar sua perdição, fosse o que fosse, terminar como homem e filho de Deus.

O vulto era de uma mulher, alta e esbelta, uma cabeleira negra esvoaçava aos passos longos e sinuosos, na verdade saltos, que ela dava em direção ao infeliz, de modo que  Juzué  viu as  linhas belas e fascinantes do rosto oval, os dois grandes olhos negros cintilando bem entre o alvor do rosto;  por um átimo a visão de tanta beleza lhe deu um deleite que incontinenti foi obliterado pelo horror que  o jogou sem retorno na condição de bicho encurralado por fera, o reduziu a uma coisa irracional chorosa que guinchava: a brancura da pele, que parecia a de uma pura menina-moça, era rasgada, abaixo do nariz fino, por lábios avermelhados dos quais partiam duas presas de bicho, grandes e afiadas como de uma onça, os olhos se acenderam num brilho vermelho que se espalhavam pelo ar e se desfazia aos poucos na neblina. Era cria do demo, linda e horrorosa, uma meretriz do diabo, bela para enganá-lo, fazer sofrer mais.

O urro mal partiu de sua garganta, não se propagou por um metro sequer, pois a meretriz do demo pulou sobre ele, num movimento impossível, velocíssimo que não  causou uma mínima alteração nas entranhas ou alguma reação de terror nem deslumbre: Juzué já mergulhara tão fundo na escuridão da insanidade, para se proteger do horror, que o mundo exterior se apagara, fundiu-se em impressões vagas e dolorosas de sons distorcidos, cores esmaecidas e dor. O golpe das presas rasgarem  sua garganta que exalava calor foi o ápice de alívio para o tormento do pobre diabo, que antes de mergulhar no oblívio definitivo da escuridão que tudo engole ouviu, por um infinitésimo de tempo, mas sem compreender, o som da criatura se deleitando com seu sangue quente. Essa fora a última informação, o último estímulo que seu corpo despejou em sua consciência: o som de seu líquido vital sugado assim que escorria das veias do pescoço para a pele, engolido por aquela meretriz de Satanás antes que tocasse sua própria pele que já se enregelava.

Envolta pela neblina, curvada sobre o corpo agora largado na várzea agreste do rio que os nativos chamavam de Tamanduateí, Ingrid sorveu todo o sangue do mestiço sujo e alquebrado, representante típico do povo do vilarejo, como percebeu sem dificuldade desde as bem poucas horas da sua chegada. Um vampiro há milhares de anos vagando pelo mundo detinha tantos conhecimento e experiência que não precisava de muita concentração para apreender os traços básicos de um lugarejo cujo nome homenageava um dos homens mais asquerosos e intoxicado de nojo à carne, principalmente  à carne das mulheres, que ela já conhecera – e maldito fosse ele e o mundo que lhe deu tanto poder! Um dos homens mais influentes desde que a Infinidade[1] fora banida ou rebaixada como superstição e baixeza.

Logo o cadáver tornou-se uma massa ressequida e chupada, os músculos como que se dissolveram e pouco restou deles perceptível debaixo da pele amarronzada, engelhada e grudada nos ossos gastos do corpo do homem de menos de 50 anos.

Ela ergueu-se satisfeita, tirou os pequenos pedaços e torrões de terra úmida do vestido negro e largo que lhe caía quase até os tornozelos, agarrou o corpo magro com as mãos e flexionou os braços para executar o movimento de erguer o cadáver acima de sua cabeça e atirá-lo nas águas frias e escuras do rio, movimento que não completou: logo acima da várzea, da linha de arbustos densos de folhagem escura e árvores mal ocultas pelo sereno veio um som de galhos e folhas afastados e pisados sem o menor pudor, num ritmo calmo e pesado, na direção dela, para se anunciar.

Ingrid largou o corpo, ficou ereta, suas presas cresceram tudo que podiam, as unhas afilaram-se e tornaram-se garras mortais, o luzir vermelho dos olhos rasgou a neblina. Estava pronta para uma luta encarniçada contra outro vampiro que tivesse sentido sua chegada e reivindicasse aquela cidadezinha miasmática como seu território de caça ou até mesmo enfrentar algum Ancião que ali se exilara por alguma das razões enormes e indescritíveis que só eles poderiam experimentar e lidar, embora julgasse impossível um daqueles cosmopolitas afetados e arrogantes instalado num lugarejo que mais parecia um trapo jogado por cima do solo da América.

O ruído cresceu e o vulto atalhou entre duas moitas, atravessou uma camada de névoa e postou-se diante ela, calmo, firme, as mãos pousadas na cintura, sem indicar tensão ou hostilidade.

Ingrid estreitou a visão para avaliar o intruso. Após divisar traços, altura, odores, cores das roupas, seus sentidos vampíricos receberam a emanação mais intensa, que se sobrepôs às outras assim que a sentiu, uma pungência que somente os que caminham nas trevas e vêem o que os mortais ignoram poderiam sentir. Ela permaneceu imóvel por um instante e a seguir curvou-se alguns milímetros, um movimento minúsculo, tão sutil que um humano não perceberia, mas o ser que fez a gentileza de aguardá-la terminar a refeição captou com toda nitidez.  Diante da vampira estava um homem na meia-idade ou próximo, talvez com quarenta anos, rosto ainda firme mas marcado, pele tão clara quanto a dela mesma, cabelos negros encaracolados e curtos aglomerados numa massa volumosa sobre a cabeça, o rosto dominado por olhos vivos, castanhos e intensos e o nariz aquilino. Era um homem de altura mediana, troncudo, com claros traços de descendente de mouro. O mais importante era a aura, o odor, o brilho lupino nos olhos. O sujeito a sua frente era um Licão com pelo menos cem anos de idade.  Um tremor leve percorreu as entranhas  do corpo; um segundo tremor percorreu sua pele de tom quase nacarado, uma reação pueril de vergonha e ódio para expulsar do corpo o medo que a visão lhe causou.

O homem ergueu o queixo proeminente e coberto por uma sombra negro-azulada e sorriu:

– Boas noites, dama provinda de rincões distantes. Em nome desta terra inculta e agreste e de seus habitantes tão atrasados quanto, que no entanto sabem reconhecer e prestar reverências à nobreza e aos viajados, principalmente os que envergam galardões, epítetos e honrarias vários, dou-lhe as boas-vindas à cidade do Santo, ao vilarejo iluminado por lamparinas de óleo dos leviatãs marinhos, mas sombrio como uma eça de enterro, cidade, vilarejo ou localidade, que outrora foi Piratininga mas por graça e intermédio do Senhor deixou as trevas do paganismo para trás e tomou emprestado o nome do Convertido. – As palavras saíram num fluxo muito bem modulado e uniforme. A empolação, as palavras eruditas postas com ênfase não se destacaram tanto quanto a sonoridade, o sotaque. O licantropo viera da península ibérica, das terras lusas, e não há muito tempo, Ingrid percebeu de imediato.

Havia costumes, cortesias e normas, mesmo entre os seres das trevas, e que deviam ser praticados e mantidos vivos por todos, não importava por quantos séculos vagassem na Terra ou quão alta fosse sua posição no enfadonho labirinto de hierarquias, grupos, camarilhas, intrigas e alianças que vigorava entre eles: Ingrid, ainda que temida e lendária até pelos Anciãos, era uma recém-chegada a uma pequena e mortiça cidade em que um Licão se mostrava instalado e à vontade; ainda que contra sua vontade, devia mostrar-se firme porém cortês, e assim o fez.  Seu corpo perfeito ficou rijo de tão reto e firme, as chamas que partiam dos olhos apagaram-se em lentidão, as garras retraíram-se. A segurança que exibia na aparência, ela sabia, não bastaria para ocultar a surpresa e a tensão que sua essência emanava e que um lobisomem de tal estirpe captaria sem grandes esforços, por isso, pronunciou as palavras num tom de tudo semelhante ao dele:

– Quem és tu, anfitrião meu e também intruso? Por que escolheste interromper uma ação, um momento tão importante, que é para um caminhante das trevas sua alcova mais íntima, aquela em que está nu e pleno, tão desnudo  e sem segredos como a virgem humana cheia de desejos deitada na cama de sua alcova a suspirar pelo amante que não vem.

A elaborada comparação causou verdadeiro enlevo em Lúcio, que relaxou os braços, pousou as mãos nas coxas cobertas pelas calças de veludo negro e sorriu um sorriso ainda mais aberto e amistoso:

– Venho a ti em busca da honra de ser teu anfitrião e guia pelas veredas desta terra, que não é devassa como uma cidade, pois ainda é uma pobre vila, insípida como todas estas são, e pobre como todas aldeias. Por que adentras este monturo de monotonia e de tédio?

– Conheces bem esta vila, pelo que dizes, meu honroso senhor.

– Muito bem, suas sendas e searas já percorri, embora isso seja difícil até para os nossos.

– Sim?

– Tem calçadas intransitáveis, encastoadas das mais ásperas pedras, não te deixe enganar pela placidez de estar encravada no cume de um morro cercado de águas piscosas e várzeas relvosas: suas ladeiras são íngremes e as ruas péssimas, nelas as meretrizes, as beatas, as devotas e as devassas se distinguem, quando tanto, pela veste que envergam, pelas belas palavras para esconder suas faltas e pelos rosários que ostentam nas mãos trêmulas, talvez por não suportarem rememorar os pecados cometidos, quem sabe pela ânsia de praticá-los.

– E dizes tu que esta não é uma cidade verdadeira, que é somente uma vila?

O licantropo estreitou os olhos, o sorriso nos lábios modificou-se para uma linha mais estreita, posicionou a perna esquerda à frente e respondeu, o tom da voz diferente, descontraído, as palavras soavam menos cristalinas, mais naturais e descuidadas:

– A pedra fundamental foi ali lançada não pelas razões proclamadas, não foi a fé nas coisas celestiais, mas nas benesses terrenas que orientaram seus fundadores – Sua mão direita amorenada e peluda apontava para uma construção postada no alto do morro que se erguia a oeste,  uma colégio ou um edifício público, encimado por uma torre esbranquiçada de topo afunilado e escuro que mal se insinuava entre a cerração agitada pelo vento frio noturno – esses homens cujos olhos enxergavam para bem distante, orientados pelo brilho do ouro e da prata, sabiam que sua localização determinava sua importância e função. Protegida pela Muralha Verde, a Escuridão Verde da Serra, à beira do rio que rasga o desertão  – pouso e saída para as incursões a que esse Novo Mundo agreste convidava, o chamado dos mistérios, das riquezas. Tu também sabes disso e sabes que nestes propósitos repousam grandes possibilidades, caminhos ricos em campos de caça para tu e os seus,  correto, filha da Wyrm?

A última palavra soou seca, sem ênfase, um conceito poderoso e maligno por si só, um aviso que os galanteios findavam e chegara o momento do acordo inescapável,  de se estabelecer os termos que ditariam como seria a passagem de Ingrid pela cidadezinha inculta e nada bela e quais os limites que o licantropo, guiado por Gaia – opositora da Wyrm – ditaria a ela, sabedora que seria apenas tolerada, quando muito.

Tudo, códigos, limites, acordos, fronteiras reais e figurativas, respeito a forças e nomes que na verdade os seres das trevas mal entendiam, somente sentiam, não eram mais que, para Ingrid, futilidades dos seres da noite, mas que até mesmo ela tinha de lidar, se não quisesse aborrecimentos ou algo pior, pois caminhantes da noite que se estabeleciam em novos territórios sem firmar acordos com os outros que lá viviam geravam e se enredavam em violência e eventos que, Ingrid muito bem sabia, logo envolviam os humanos, algo que todos eles evitavam.

– Não é esta a razão pela qual aportaste aqui, nesta paragem que parece tão seca e sem vitalidade como seu primeiro nome, filha de Wyrm?[2]

A tensão em Ingrid cresceu, a energia negra que ela exalava aumentou e o ar ao redor dela parou como em uma tarde seca, as volutas da névoa estacaram ao seu redor, até o vento que açoitava os arbustos e as roupas bem talhadas do licantropo se curvava à presença dela: seu vestido e sua cabeleira negra não tremulavam ou farfalhavam.

– É aqui que tentarás mais uma vez atingir a notoriedade que lhe é negada desde a aurora de sua existência como filha da perversão da natureza?

Os olhos da vampira chisparam uma rajada de luz vermelha.

– Não és a dama de Babilônia que ofereceu ao grande rei das cidades pecaminosas o vinho que corre em tuas veias, ainda mais pecaminoso? Intentava assim subjugar o grande Bera e inspirá-lo a cometer um grande massacre em teu nome e assim gravá-lo na face sangrenta da história e tudo que conseguiu foi ter sua imagem vagamente associada à prostituta babilônica, teu nome nunca citado ou sequer amaldiçoado. Não és tu a que vagou entre os norse, semeou entre eles discórdia, mentira e morte, anelando que teu nome e tua figura se tornassem tão temidos quanto o da mãe das bestas-feras? E tudo que conseguiu foi ter o disfarce que então envergava registrado na mais ignota e oculta crônica deles, correto, minha cara ‘ Hallgarda’?

Assim que ouviu aquele nome, o qual não era usado para se dirigir a ela há pelo menos oito séculos, e que evocava o desejo mais caro a Ingrid e sua frustração mais doída, os caninos projetaram-se sobre o lábio inferior, as lustrosas unhas afilaram-se em garras cintilantes e a luminosidade rubra voltou a se desprender dos olhos também rubros:

– Como sabes tanto e o que queres, lacaio da funesta devoradora de tudo e de todos?

As mãos peludas e grossas de Lúcio ganharam mais massa e pêlos, relaxaram e ele gargalhou alto, a cabeça jogada para trás, um som tão profundo, zombeteiro e despreocupado que ela sentiu o terceiro e mais intenso arrepio. Ao se recompor, encarou-a por um longo tempo, seus olhos a dardejar o brilho amarelo dos escravos de Gaia:

– É realmente necessária essa pergunta? Tu rebaixas tua fama e tua nobreza ao proferi-la. É digna de um noviço de tua raça, de um recém-criado desesperado e ensandecido, não de ti, aquela que até os Anciões evitam.

– Tua tentativa de rebaixamento não arranha meu orgulho, canídeo. Terei de responder minha própria pergunta? Que seja. Tua mãe maldita, a meretriz que traz o fim negro e horrível a todos, a devoradora da vida, que chamam de Gaia, adorada por vocês iludidos e enganados pela falácia chamada ‘ciclo da natureza’, alertou-te por intermédio de sinais das intempéries, chamados entoados por batráquios ensebados e pássaros piolhentos, para lhe incutir imagens de minha chegada. Assim é. Mas qual o propósito da adversária eterna e odiosa de minha mãe, que me concedeu seu toque eternal e assim me pôs fora do alcance do toque putrefeito de tua mãe, licantropo? Foste convocado a este sítio para deter-me, impedir que me estabeleça nessa palhoça, tu mesmo assim a caracterizou?

Dessa vez, Lúcio não reagiu; como uma estátua que assinalava um marco, uma fronteira que não poderia ser transposta, permaneceu imóvel, exceto pelo brilho amarelo dos olhos, que não cintilou mas cresceu, conforme a vampira despejava sua última torrente de heresias. Esteve estático por um longo tempo, como se aguardasse um sinal e por fim respondeu:

– Conheces o que alguns membros da raça dos homens, as hostes dos alquimistas, magos, filósofos herméticos, afirmam sobre nossas nutrizes? Afirmam que são ambas somente diferentes manifestações de um mesmo princípio ou força, que completam uma à outra e que as rusgas que nós seus filhos travamos, há milênios, mundo afora, são nada mais que um interminável mas prosaico jogo de dados que disputamos tolamente, revestindo-o de uma gravidade e pompa da qual essa verdadeira mãe ri e escarnece.

Ingrid fez o que não ousou fazer desde o momento em que identificou a espécie de Lúcio: deu um passo adiante e se aproximou dele, firme e resoluta.

– Sempre essa algaravia sobre o equilíbrio da natureza, bem e mal, luz e trevas, forças opostas que se completam… Gah! Como esse discurso, entoado pelos desprezíveis mortais para suportar a sina de serem devorados sem piedade pela sua mãe-prostituta, se relaciona com nossa contenda? É esse o manifesto que declama para impedir que eu me estabeleça nesta vila seca?

– Impedir? HA HA HA HA HA – Lúcio brindou-a com uma gargalhada ainda mais forte, após a qual, respirando fundo, concluiu:

– Abandone esse descuidado fingimento que não conhece as mais elementares leis da convivência de nossas raças, dama da noite. Sabes muito bem que sou impedido de te bloquear acesso ou pouso a qualquer pedaço de solo deste mundo. Apenas e simplesmente cumpro meu pequeno papel neste jogo e rolo o próximo lance de dados, dando-lhe boas-vindas, cara recém-chegada a São Paulo. Que esta semente de urbe lhe seja generosa e lhe dê bons frutos, que nela encontre os que saberão ouvir as canções de prazer e dor que seu sangue carrega.

A mão esquerda de Lúcio estendeu-se no ar em saudação e enquanto a mão direita pousava no braço oposto ele curvou-se num ritmo lento e elegante. Em passadas desta vez suaves e silenciosas, desapareceu na névoa.

Ingrid permaneceu no local por mais tempo que gostaria, até se aperceber que o cadáver do mestiço ainda estava a seus pés. Ergueu-o com uma única mão e atirou-o no meio das águas com toda a força sobrenatural de que dispunha.

E apressada desapareceu na névoa, em busca de mais uma vítima e depois rumar ao abrigo já preparado por seus lacaios para se esconder e repousar antes de o sol nascer.

[1] Termo obscuro e arcaico, que pelo tempo da chegada de Ingrid à cidade já era antigo e quase fora de uso, para se referir à multiplicidade de deuses pagãos que fora substituída, nos altares e devoções da maior parte da Ocidentalidade, pelo ‘culto monomaníaco ao crucificado’, como ela se referia.

[2] Lúcio faz uma referência ao nome original de São Paulo, Piratininga, que no idioma tupi-guarani significa ‘ peixe seco’.

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