Trechos do próximo conto

Atrasado, sim, mas em edição avançada. Em breve, o novo conto de Carpe Noctem, mais um episódio das aventuras noturnas de Laura e Ingrid e de seu relacionamento anormal. Alguns trechos abaixo, para, claro, serem lidos ao som das pérolas de heavy metal disponíveis à esquerda. 

Em uma madrugada chuvosa e fria de sexta-feira, em uma rua deserta no centro de São Paulo, na divisa entre o Centro e o início do Brás, um carro está parado na junção com uma avenida. A esquina estava deserta e quieta, a chuva constante que golpeava o teto do automóvel e os detritos e restos jogados na calçada mais próxima acentuavam a solidão, ressoando que nesse lugar, nesse exato momento, apenas o vazio e os malefícios que a ausência de qualquer manifestação de vida poderia causar em mentes sensíveis e fracas deveriam ser temidos.
No instante em que o carro estava prestes a enfiar-se embaixo do viaduto que marca a fronteira entre a Sé e o mal-afamado pedaço do centro conhecido como Glicério, a chuva ganhou tamanha densidade e força, o ruído da água golpeando e escorrendo pela lataria que Laura supôs que a mestra provocara o fenômeno – Ora, não tinha lido que os vampiros muito poderosos manipulavam os elementos? E também tinha lido ou ouvido que contava-se muitas mentiras e exageros sobre eles. Ah! O que era certo, o que ela sabia, único humano da noite de São Paulo a desfrutar da companhia de um vampiro, é que muitas verdades e coisas espantosas eram tratadas com desdém para que ninguém nelas acreditasse. Ela, Laura, sabia disso e podia afirmar isso!
Dois leões de pedra guardavam o início de um caminho de alvenaria, caminho que levava a um verdadeiro palacete, neste termo a vampira não parecera irônica, uma construção sustentada por imensas colunas em estilo grego, de imensas janelas de madeira e teto recortado, como ameias, rostos de divindades femininas em cada vértice, vigilantes, um palácio que erguia-se majestoso por sobre um imenso terreno, coberto de vegetação frondosa, bem abaixo do nível que se comunicava com a rua, outros andares e caminhos abaixo deste nível.

 

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Oito minutos

Por Vinicius Zahorcsak

Revisado por Elis Verri e Caio Bezarias

 

O vampiro estava estático, parado no jardim. Impressionante como a grama verde tornava-se amarelada por onde ele caminhava. Estava com os olhos fixos na janela do andar superior. Era uma pequena mansão, bem longe da realidade dele nos tempos em que ainda respirava… Mas agora as regras eram outras. Quando lhe disseram que um vampiro podia tudo, Damon quis o melhor.

Não tinha mais seu nome de nascimento, adotou “Damon” para tentar se adaptar ao diferente estilo de vida. Soava melhor entre seus novos amigos, os vampiros.

O maior deles, um musculoso, vestido em couro preto, lhe ditou algumas regras. Pareciam todas simples, e ele ainda se lembrava delas. Mas já tinha quebrado uma.

A mais importante, talvez. Uma mortal sabia que ele era um vampiro. Ela dormia agora naquela janela… Continuar lendo

Kali em exílio

Por Elis Verri
Revisado por Caio Bezarias e Vinicius Zahorcsak

Kalika, negra língua flamejante, envolva-me
Faça-me um com seu poder por toda a eternidade
Desperte o reflexo da chama no meu interior
Beije-me com seus lábios sangrentos e leve-me à loucura ~ Dissection

Todos jornais noticiaram o massacre.

“Cinquenta pessoas foram encontrados mortas em uma casa noturna na zona Leste de São Paulo. O dono do estabelecimento Lithium e mais outras cinco pessoas foram internadas em estado de choque. Ainda não há suspeitos”

“Laudos mostraram que alguma das vítimas morreram instantaneamente por conta de parada cardíaca, antes de serem decepadas. Autoridades trabalham com a hipótese de os suspeitos serem de alguma seita religiosa”

“Moradores afirmam que na fatídica noite ouviram um grito de mulher que foi ouvido a distâncias dali”

“Com os sobreviventes impossibilitados de falar, a casa noturna Lithium encerra as atividades”

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Sodomia

Por Vinicius Zahorcsak
Edição e revisão de Elis Verri e Caio Bezarias

 

Em meus olhos você não vê o brilho
Em meus olhos você não vê a luz
Em meus olhos você vê suas lágrimas
Em meus olhos você vê meus medos
Em meus olhos você não vê paixão
Em meus olhos você vê meu ódio
Em meus olhos você vê meu destino.

All alone – The sins of Thy beloved

Parte I

 

Claire andava inquieta ultimamente, mais do que o normal. As horas custavam a passar, e ela queria que chegasse logo a noite.

Sim, a noite, sua companheira.

Sua diversão no momento era frequentar um círculo de jovens que não apenas acreditavam, mas agiam e trocavam sangue como se fossem vampiros.

“Não, Claire! Somos humanos e sabemos disso. Apenas apreciamos o modo negro de se viver, a excitação da troca de sangue. Você nos entende?”

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Grande e importante notícia

Boa noite a todos

Esta postagem não é ladainha barata, não apenas repete que Carpe Noctem não acabou, mais uma vez, pois traz grande novidade, que transforma essa quase promessa furada em fato: Elis Verri e Vinicius Zahorcsak, amigos de longa data e colaboradores eventuais do blog, passaram a autores fixos! Após um rito de iniciação realizado nos confins sombrios da noite paulistana, em que os segredos de nosso midnite world lhes foram transmitidos, abrilhantarão este compêndio de crônicas distorcidas da noite paulistana com suas narrativas, o que é muito bem-vindo, pois André Pavesi, fundador do blog com este que vos escreve, solicitou e foi, com pesar, atendido em receber um, digamos, período sabático não-remunerado (bem, tudo em Carpe Noctem é não-remunerado…).

Assim, mais uma vez solicitamos: não abandonem o blog, várias e novas histórias, de enregelar a medula dos ossos, estão em elaboração e algumas mais já em edição, para dar continuidade a nossa São Paulo macabra, perversa e ficcional.

Saudações Noturnas e Etílicas

 

Luz branca para noites negras

Por Caio Bezarias
Revisado e editado por André L. Pavesi e Elis Verri

 

Parte I

 

“And late at night the last open cafe in a dark street
Down some stairs
She’s gone into a distant light”

Kirlian Camera, Heldenplatz

Luz branca para noites negras

Tokyo Road, uma das casas noturnas de rock no início da rua 13 de maio, início de uma madrugada de sábado

O sujeito era alto, forte, rosto brilhante e liso, tão jovial que lhe dava ar de criança crescida, cabelos curtos muito bem cortados, alinhados à perfeição por gel, metido numa camisa justa aberta na medida exata para revelar o peito musculoso e os braços moldados em academia, um grande macho  que tratou de revelar sua condição de tudo pode e tudo faz: ergueu-se da banqueta já rijo e ereto, pousou as mãos com estrondo no balcão de madeira envernizada e manchada pela coroa de umidade de inúmeros copos de bebida e disparou as palavras em alto volume, animado pelo poder que o álcool lhe deu:

– Porra, mina, qual é a tua? Fica dando trela, segurando minha mão, apertando os coxão em mim e aí quando chego junto dá uma de santinha, de virgem? – gotículas de saliva varavam o ar, com as palavras.

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As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – Episódio VI: a vingança de Laura

Por Caio Alexandre Bezarias
Edição e revisão sempre muito bem feitas de André L.Pavesi, mais uma vez completadas pela participação especial de nossa amiga Elis Verri

 

Parte I

 

“In the night
Come to me
You know I want your Touch of Evil
In the night
Please set me free
I can´t resist a Touch of Evil”

A touch of evil – Judas  Priest

O ar era parado e quente, a rua exalava o calor de tranqüilidade modorrenta, vazia, tão típica das tardes quentes na periferia de São Paulo, nos bairros apinhados de sobradinhos de gente remediada e classes baixas, em que as ruas, nessas tardes são o reino das crianças felizes e dos adultos derrotados, em que desfrutar da alienação feliz que esse calor trazia era tudo que poderia se esperar da vida. Todas essas sensações eram nítidas e torturantes para a garota que se apressava pela rua, como se as lembranças da brevíssima felicidade que experimentou na infância a perseguissem, apenas para lembrar como foram fugazes e tênues.

O amolecimento provocado pela luz do sol a fez esquecer por momentos o desconforto de vestir uma roupa “normal”, de não poder usar seu dress code de gótica vadia e poderosa, a expressão e afirmação de sua identidade  justamente no início de tão importante missão.

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No topo da cadeia alimentar

Por André Luis Pavesi
Com a revisão sempre precisa de Caio Bezarias (e participação especial de Elis Verri na revisão!)

 

O que seria capaz de fazer um imortal de mais de 200 anos correr para sua casa com o rabinho entre as pernas, praticamente se escondendo debaixo da cama, tremendo da cabeça aos pés e choramingando pela benção de uma morte rápida?

Parte I

Pouco depois das onze horas, P.R. Viggo já terminara o trabalho daquela noite, analisando os relatórios online dos mercados de ação asiáticos e europeus e encaminhando por e-mail os assuntos que deveriam ser resolvidos na segunda-feira cedo pelos funcionários da sua corretora. Depois da popularização da internet e dos meios de comunicação digital, sua rotina diária ficou muito mais fácil, bastando meia dúzia de e-mails para orientar seus negócios, e rápidas conference calls substituíam com eficiência os sempre arriscados encontros com Saul Nogueira, seu advogado e braço-direito humano. Por mais que a família de Saul servisse Viggo desde seu renascimento para a noite com extrema lealdade, este distanciamento tornava tudo muito mais seguro.

Ao fechar o notebook, Viggo parou por alguns instantes, olhando a máquina moderna em suas mãos e pensando nas diferenças entre o alto investidor que ele se tornou a partir dos anos 1980 e o moleque que corria pelas montanhas próximas de sua aldeia natal, Villaggio del Salvatore, no final do século XVIII. Ainda saboreando seus pensamentos, abriu a porta dupla de acesso à sacada de sua cobertura, deixando entrar o vento do 27º andar. Saiu para a sacada, sentindo a brisa da noite tocando sua pele e seus cabelos, como se aspirasse a vitalidade noturna paulistana.

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Conto publicado (não neste blog)

Saudações etílicas,

Não caros leitores, não é o novo conto do nosso midnite world (não ainda, a escrita está quase encerrada, a edição e revisão virão em breve), esta postagem apenas comunica a nossos fiéis leitores que outro conto deste escriba foi publicado em meio eletrônico: A Mesa de Bilhar, uma narrativa de fantasia humorística, em que avacalho clichês do gênero, foi incluída no último número do Juvenatrix, fanzine eletrônico sobre terror, ficção científica, cinema fantástico e metal extremo, publicado em formato pdf, que existe desde 1991(!!), editado pelo grande e incansável Renato Rosatti  Já divulguei o fanzine e seu sítio na internet em outra postagem, há tempos, e é momento de fazê-lo mais uma vez (o link está na listagem à direita).

Se você está interessado em conhecer uma aventura cômica estrelada por um primo decrépito dos dragões “clássicos” e uma versão abrasileirada, bebum e picareta de Gandalf e companhia, acesse o endereço, escreva para Renato, peça que ele lhe envie o número 143 (e os vindouros, claro!), prestigie essa ótima publicação e como sempre nós autores de Carpe Noctem solicitamos, comente o conto, enviando seu comentário para caioab66@hotmail.com ou caiobezarias@uol.com.br.

E por fim pedimos um pouco mais de paciência, novos contos sobre os monstros que vagueiam por nossa São Paulo fictícia e distorcida estão a caminho.

Caio Bezarias

 

As Fabulosas Aventuras de Laura E Ingrid, as Justiceiras Noturnas de São Paulo – Episódio V : Uma noite tão aguardada

Por Caio Bezarias
Edição de André L.Pavesi

 

Parte I

 

Luz, arredores da avenida Casper Líbero e rua Mauá, meados de 2005, início de madrugada.

UMA NOITE TÃO AGUARDADA

O impacto do cadáver contra o piso repleto de detritos, lixo podre e mal-cheiroso e entulho  produziu um ruído seco e breve e ergueu uma nuvem de pó cujas  partículas se  assentaram com lentidão, para cobrir o chão e seu novo ocupante com uma camada de sujeira muito fina, clara e visível.

Ele havia sido um típico habitante dos cortiços e pensões baratas fervilhando de miséria e derrota ao redor da estação da Luz, Praça Júlio Prestes,  rua Mauá, mais um dos  que se  amontoavam e apodreciam  aos montes, nas pocilgas do bairro. Ainda  exalava um intenso cheiro de suor azedo , sua constituição era esquelética, um zé-ninguém mal-tratado durante toda sua existência, coberto de trapos, envelhecido de modo prematuro: cabelos grisalhos e desgrenhados, a pele ressecada, ossos salientes bem debaixo dela, pouca carne ou saúde, sulcos profundos circundavam os olhos remelentos, que estavam abertos e tão revirados e esmaecidos que  seu outrora tom castanho se apagou, os braços eram duas varas mirradas retesadas e um corte horrendo, largo e extenso, corria da mandíbula até quase o peito, o pescoço por inteiro revelado, a ponto de parte da coluna e cartilagem ser visível Mas o mais insólito da enorme lesão feita por uma fúria demencial desconhecida dos homens era a ausência de sangue:não havia manchas ou crostas vermelhas ao  redor do rasgo.

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