Più bela Enrica… ou Átala? por André L. Pavesi, edição e revisão por Caio Bezarias, Elis Verri e Vinícius Zahorcsak

Para Ingrid, o lugar escolhido por sua discípula Laura cheirava mal –  mesmo para alguém que viu de perto a Peste Negra ferrando toda a Europa, pisou nas cinzas de Roma e praticamente lavou os cabelos com um restinho da água do dilúvio aquele lugar lhe causava repulsa.

Amaldiçoou sua perfeita visão noturna – afinal de contas, para que poder enxergar no escuro? Para se ver cercada por centenas de jovens humanos ensebados de suor, todos vestidos de preto, com maquiagens pesadas (e mal aplicadas) e cabelos engordurados? Para vê-los se amontoando em balcões imundos, lutando na base da cotovelada para apanhar um copo de cerveja vagabunda e quente? Ingrid quase enfiou uma estaca no próprio peito ao se lembrar que o maldito folheto distribuído à porta do Atlantic Club, um antigo bar de strip-tease que nos finais de semana servia de local para festas do sub-submundo gótico (se é que isso existe), berrava OPEN BAR!!

Já a jovem e bela Laura, que por uma concessão suprema de sua tutora havia podido escolher o palco da caçada daquela noite, optando por um dos inferninhos favoritos dos seus tempos pré-Ingrid, seguia extasiada, desfilando pelos dois pisos sujos, sem se importar nem com os esbarrões nas precárias escadas de acesso ao porão da boate – chamado de “palco dois” num eufemismo irritante – muito menos com as passadas de mão, encoxadas e cantadas baratas. Na verdade, a jovem gótica estava a ponto de explodir de alegria – se é que uma gotiquinha afetada da noite paulistana pode ficar tão “alegre” assim. A garota parecia flutuar. Com todas maldições, ela quase ovulava de tanta excitação! Laura, que sempre foi uma patinha feia na escola, a esquisita de plantão, a garota que tinha que se embebedar a níveis hercúleos para conseguir se atracar com o primeiro wanna-be de principezinho das trevas meia-boca que cruzasse o seu caminho, estava se sentindo a predadora, causando cutucões e olhares famélicos por onde quer que passasse. Graças à companhia de sua mestra e senhora, ao módico custo de pequenas e suculentas partes de sua alma, ela passara a ter O poder, se sentindo uma versão jovem e suburbana – bem suburbana, bem suburbana MESMO – da Angelina Jolie.

Para Ingrid, a visão de tamanha lascívia causava asco. Quando a jovem Laura veio para os lados dela, um copo de bebida em cada mão, um cigarro meio queimado pendurado num canto da boca borrada e meio inchada depois de horas e horas de tantos beijos e agarramentos pelos corredores do Atlantic, Ingrid explodiu, irritada, num tom estridente desnecessário.

Enquanto Laura se afastava, Ingrid sentiu suas últimas gotas de tolerância escorrer, e decidiu que já bastava. Sem se dar ao trabalho de avisar sua pupila, que já estava de novo atracada às gargalhadas com duas garotas ainda mais novas e desmioladas do que ela mesma, Ingrid pegou sua bolsa e foi embora, jurando pelos planaltos macedônios da sua infância nunca mais botar os seus belos pés imortais num antro como aquele.

Saindo do Atlantic, Ingrid deixou o ar gelado de uma típica madrugada de junho paulistana envolver seu corpo. Apesar de poluído, o ar fora do inferninho era quase um alívio para ela. Olhou ao redor, se perguntando onde diabos havia se enfiado Kohln, seu motorista e servo mais antigo. Apesar de fiel de uma forma quase canina, unido a ela por laços de sangue que remetiam a algumas gerações de sua própria família, não era raro Kohln aproveitar as horas que sua mestra passava na companhia de Laura para também buscar, a sua maneira, um pouco de diversão noturna. Diversão essa que muitas vezes envolvia altas doses de scotch, correias de couro e mulheres (ou homens) de botas altas.

Na maioria das noites, ela preferia ignorar tais ausências, quase como que incentivando estas pequenas escapadelas – afinal de contas, Kohln é apenas humano, pensava – mas nessa noite uma fria irritação inundou seu peito, como uma maré que subia lentamente. Ingrid, mais do que disposta a descontar sua fúria no primeiro idiota que cruzasse seu caminho, vasculhou sua bolsa atrás de sua cigarreira, uma bela peça comprada em fins do século XIX num fascinante mercado de Istambul – que para ela seria sempre a bela e instigante Constantinopla. Olhar para a cigarreira fez subir ainda mais a maré de sua irritação, tingindo de vermelho seus olhos. Estaria Ingrid quase chorando de raiva?

Enquanto lutava para controlar seu humor, procurava seu isqueiro para acender uma de suas cigarrilhas alemãs, um vício “humano” que ela adotara anos antes de chegar ao Brasil. De repente, uma mão empunhando um Zippo de metal negro escovado, surgiu como que do nada, seguida de uma voz masculina, de tom insinuante:

– Com licença, mas posso acendê-lo para você, cara mia?

Ainda mais irritada por ter sido pega de surpresa, Ingrid se virou para encarar a pessoa que havia conseguido se aproximar dela de forma tão sorrateira. Porém, num breve instante, a surpresa fez evaporar grande parte da irritação, quando Ingrid encarou um homem alto, mais de 1,85m de altura, vestido todo de preto, cabelos curtos cortados à Cesar. Um brilho de reconhecimento passou por seu olhar, e tudo pareceu se encaixar.

– Paolo – disse Ingrid. – Eu devia ter imaginado que ninguém mais seria tão atrevido…

Ah, belíssima Enrica – respondeu o recém-chegado, com um sorriso sarcástico nos lábios. – Que prêmio delicioso, ver a surpresa em seu olhar. Pelo jeito consegui surpreendê-la, me lembro que você costumava ser mais atenta.

Enrica. Ouvir este nome, que Ingrid adotara tanto tempo atrás, a jogava numa viagem instantânea a outras eras. Era quase como se de repente uma brisa mediterrânea batesse em seu rosto.

Estendendo o Zippo para acender sua cigarrilha, o imortal de aparência bem-cuidada olhava fundo nos olhos de Ingrid, de forma sedutora.

– Só mesmo você para me chamar assim, Paolo. – disse Ingrid.

– E só mesmo você para me chamar de Paolo, più bela Enrica. Neste mundo moderno de aço e vidro, todos me conhecem como P.R., ou Mr. Viggo para a plebe humana.

– P.R. Viggo – disse Ingrid, quase como um suspiro.  – Então o famoso P.R. Viggo, que em pouco tempo seduziu a mais alta noite paulistana, é ninguém mais, ninguém menos, que o meu belo italianinho Paolo.

Viggo continuava sorrindo, malicioso, enquanto fitava a expressão no rosto de Ingrid, que tragava, lânguida, sua cigarrilha, sustentando seu olhar. Esses duelos de palavras e olhares sempre foram uma espécie de jogo particular entre eles, velhos amigos, velhos amantes. Ingrid conhecia bem demais aquele sorriso, ligeiro e malicioso, que deixava Paolo com cara de moleque pego aprontando alguma, e sabia muito bem como seria fácil demais cair nesse encanto, mais uma vez.

Paolo ofereceu o braço para ela, conduzindo-a rua abaixo a passos lentos. Por alguns minutos, caminharam em silêncio até entrarem na Rua da Consolação, poucos carros cortando a fria madrugada. Paolo sentia a irritação de Ingrid na ponta dos dedos, pela tensão em seu belo corpo. Ele sabia que, nesses momentos, o melhor a fazer era deixá-la quieta, esperando que a irritação passasse.

Andaram mais alguns quarteirões, sem pressa, naquele passo meio indolente de um passeio a dois, até entrarem em um pequeno bistrô numa travessa da Consolação, já a meio caminho da Av. Paulista. Com o lugar quase vazio, não tiveram problemas para pegar uma mesa num canto afastado, sem ninguém para xeretar na conversa deles.

– Trinta anos, Enrica – disse Viggo, entredentes. – Quase trinta anos na mesma cidade que você…

– E só agora você criou coragem de vir falar comigo? – cortou Ingrid, ainda irritada. – Incrível como você sempre sabe a hora certa de aparecer, não?

– Huum, eu me importo com você, Enrica. – respondeu Viggo, num tom de voz macio, condescendente. – E você sabe que me importo de verdade, mesmo que as coisas entre nós tenham terminado de forma, digamos, pouco amigável. Posso ter me mantido distante, mas sempre acompanhei seus passos, não apenas nessas últimas décadas, mas desde que nos separamos em Munique. Quando foi, bella? 1827, 1830 talvez? Aliás, foi um pouco antes de você começar a usar seu nome atual, não?

– Sim – ela respondeu. Agora era a vez dela sorrir maliciosa – Munique, 1829, seu pequeno canalha. Festival de verão, belas mortais seduzidas por esse seu jeito cafajeste, nosso refúgio reduzido a cinzas e você desaparecido com todo nosso dinheiro.

– Ora, ora, cara mia, será que estamos condenados a sempre que nos encontramos perdermos tempo remoendo meus erros do passado? – disse Viggo, irônico. Ele conhecia Ingrid bem demais, sabia de sua personalidade forte, impositiva, e por isso mesmo reconhecia o comentário meio divertido, meio amargo como o que era – apenas um cutucão, uma mera provocação sem sentido.

As horas passaram voando enquanto o antigo casal conversava sobre as décadas que haviam passado juntos ao longo do século XVIII e começo do XIX, relembrando histórias, pontuando pequenas aventuras e incidentes. Depois de um tempo, toda a irritação de Ingrid já parecia dissipada. Viggo sabia como poucos que cordas tocar, como conduzir a conversa de forma a deixá-la relaxada, à vontade. A cada lembrança, Ingrid ia mais e mais se soltando, abaixando a guarda e se permitindo rir como há muito tempo não fazia. Viggo sabia o valor do sorriso dela, sabia como era raro que ela se permitisse um momento de descontração. – Com mil demônios, como ela fica linda sorrindo! – pensava o vampiro.

– …e como era trabalhoso manter aquela sua mania das rosas negras… – disse Ingrid, entre risadas.

– Negras não, rubras, bela…rubras, mas tão escuras, tão profundas que à noite pareciam mesmo negras.

– E você as escolhia uma a uma, correndo riscos desnecessários para comprá-las ou mesmo roubá-las, tudo para manter sua marca registrada…

A ironia na voz da vampira soava como música para seu antigo amante, que saboreava o antigo jogo.

– O que é a vida sem estilo, Enrica? Uma rosa, uma musa temporária, toda minha atenção até o final…

– Até o final do seu interesse por elas, não? Tanta paixão, tanta atenção, às vezes por horas, às vezes por semanas…não sei dizer quais eram as mais afortunadas…

– Seja como for, minhas rosas continuam sendo uma marca de privilégio e atenção.

– Continuam? Devo então ficar atenta para o aparecimento de uma dessas rosas sobre a tampa do meu caixão? – sugeriu Ingrid, com prazer.

– Não, não…- respondeu Viggo – Já faz tempo que troquei as rosas por cartas de baralho especiais, feitas sob encomenda, um ás de um lado, a estampa da rosa rubra no verso. Facilidades do mundo moderno, cara mia.

A noite chegando ao fim, Viggo olha distraído para o relógio enquanto Ingrid gira de forma displicente a taça de vinho ainda pela metade, observando seu conteúdo, com os pensamentos distantes.

– E essa nova garota? – perguntou Viggo. – Laura, é isso?

– Sim, Laura – respondeu Ingrid, abaixando os olhos para o copo entre suas mãos. – Nem eu mesma sei por que ainda perco meu tempo andando com uma putinha dessas. Como posso suportar um buraco escuro e barulhento, uma amostra tão vulgar do pior deste novo século? Eu, que já vivi tantas coisas? Que merda comparar essa molecada que parece adorar ser feia e suja trepando como coelhos numa dark room de chão melecado com as coisas que já vi…

– Difícil saber, não? Quem sabe o que você enxerga nela… – disse Viggo, cortando as divagações de Ingrid.

– Como assim? O que você está querendo dizer…

– Por que você se irrita tanto com ela, Enrica? Você mesma já falou, essa menina não passa de uma dessas punkettes imbecis… – deixando o assunto no ar, Paolo sacou seu isqueiro, estendendo-o para acender mais uma das cigarrilhas de Ingrid.

         Ingrid tragou fundo, irritada. Soprou com força a fumaça para o alto, encarando Viggo – Não sei que merda você está falando, Paolo!

– Não sabe mesmo, amore? Você parece estar falando sobre ela, mas também pode estar falando sobre tantas outras, não? – sussurrou entredentes Viggo, porém num tom tão sinistro que era quase como se esmurrasse a mesa. –   Pode estar falando sobre a bela Carmen, la ballerina, sua pupila pelas ruas daquela provinciana São Paulo em, quando mesmo? 1937, 1938? – Viggo prosseguiu, encarando Ingrid. – Ou pode estar falando da le petit Julie, sua mais deliciosa e memorável discípula nas ruas tomadas pela Peste Negra de Paris! Ou será que quem se sobrepõe nos traços de Laura é Cornelia, a jovem romana que assistiu ao seu lado ao deleite nefasto de Nero?

Ingrid parecia tornada em pedra, exceto pelo olhar fulminante, a pira de sua fúria reacesa e aumentada, perante a súbita confrontação de Viggo. – Você está passando de todo e qualquer limite, seu merdinha carcamano…

A gargalhada de Viggo cortou a torrente de palavrões de Ingrid. – Sim, um merdinha carcamano! Era isso mesmo o que eu era até conhecê-la, Enrica, um carcamanozinho de merda, um moleque sem a menor noção do mundo, mas ainda assim eu era exatamente o que você precisava naquela época! Ou melhor dizendo, quem você precisava!

Ingrid se levantou, dando a volta na mesa para sair de perto de Viggo, que segurou suave seu braço, sabendo que não seria a força física que a impediria de sair porta fora, desaparecendo na noite.

Enrica…per favore…eu estive no asilo…– sussurrou Paolo, retomando o tom ameno de minutos antes.

Ao ouvir aquilo Ingrid escorregou de volta na cadeira, como se derrotada. Lentamente, levantou o olhar, para encarar seu antigo amante.

– Eu estive com Carmen na semana passada, Enrica. Na verdade, tenho a visitado de tempos em tempos desde que a descobri.

– Você não tinha esse direito, Paolo – esbravejou Ingrid, encarando afinal o vampiro, com lágrimas de sangue escorrendo dos seus olhos. – Como ninguém me contou de suas visitas…

– Ninguém sabe de mim, ninguém me vê. É fácil, eles a largam por horas na varanda, ela parece gostar do ar da noite, basta saber esperar. E se alguém me vê, com um pequeno toque da mente faço com que me esqueçam.

Ingrid parecia sem reação, sustentando irritada o olhar de Viggo.

– Ela deve ter sido mesmo uma bela jovem nos seus tempos, aqueles olhos claros, quase como duas pequenas contas de cristal azul. Às vezes eu a acompanho ao seu quarto, me sento ao lado de sua cama e seguro sua mão, enquanto ela me conta as histórias dos tempos antes da Guerra, quando alucinava os homens com sua beleza, e com os truques de sedução aprendidos de sua amiga europeia – seria você, Enrica?

Ficaram algum tempo atolados num silencio desconfortável, os minutos se arrastando, Ingrid tiritando de irritação, encarando o olhar fixo de Viggo.

– Você mesma me contou as histórias, cara mia. Carmen, Julie, Cornelia, agora Laura…você não percebe? Ou você não quer perceber?

– Eu não sei do que você está falando, seu desgraçado… – disse Ingrid, quase num sussurro inaudível, encarando Viggo com os olhos vermelhos, injetados de fúria e dor.

– Ah, cara Enrica, eu me importo com você, e por me importar tenho acompanhado seus passos. Você não percebe? Você REALMENTE não percebe? Você precisa delas pra se lembrar, minha amiga…elas são todas tão parecidas entre si, e todas tão parecidas com quem você devia ser, 3.500 anos atrás. Jovens, impulsivas, cheias de vida e de uma energia que lhes embota os sentidos, não deixando que percebam como a vida delas é cheia de possibilidades. E através delas, você revive a si mesma, a jovem Átala…era esse seu nome, não? Era esse seu nome quando era apenas uma jovem camponesa macedônia, destinada a uma vida vulgar, sem brilho, antes que uma estranha cortesã a arrebatasse e a transformasse, mudando sua vida da mesma maneira como você faz com cada uma delas – a única diferença é que sua antiga mentora, cansada de viver sozinha, a tornou imortal.

Ingrid não susteve mais o olhar de Viggo, fechando os olhos como se mergulhasse dentro de si mesma. Respirando fundo, lágrimas vermelhas molhando suas bochechas, a vampira se sentia envelhecida, alquebrada, como se a solidão que tentara negar por séculos e séculos a alcançasse num devastador golpe. – Átala… – disse Ingrid. – Como era jovem…

Instantes depois, abriu os olhos apenas para ver a sua frente a cadeira vazia, e uma carta de baralho com a estampa de uma rosa rubra, quase negra, deixada sobre a mesa. Viggo se fora, mas o recado estava dado.

Boas-vindas inesperadas a uma recém-chegada

imagem conto do carpe de março 2016

“Ela canta uma canção sobre seu pecado

de prazer e dor

E as virtudes em vão

Para o ouvido que irá ouvir

E para aquele sem medo”

Therion – the rise of Sodom and Gomorrah

São Paulo de Piratininga – uma noite de outono em algum ano da década de 30 do século XIX

A neblina que vagava pelas margens do rio na noite fria e escura de lua nova confundiu Juzué, que tropeçou e tombou com violência. Suas calças grosseiras de lona sem cor definida rasgaram-se de uma vez ao encontrarem as pedras pontiagudas dos barrancos que cercavam o curso d´água; as pontas  esfolaram seus joelhos tortos de pescador de sol a sol e muitas vezes de noite a noite e o ardido causado pela  terra úmida que tocou os cortes e misturou-se ao sangue, devido ao movimento de tentar se erguer, o fez trincar os dentes,  e continuar curvado e arfante; o cafuzo não conseguia mais movimento coordenado algum e o desespero entrecortava seus últimos pensamentos: o som dos rugidos era cada vez maior e mais próximo e sua última onda viera acompanhado de uma risada de mulher tão maléfica e distorcida que lhe soou como as portas das profunda do inferno anunciando sua danação, a voz do demo zombando de toda sua fé, de todas as rezas e ofertas para a Igreja lá do Carmo, de seu imenso temor ao Deus Pai. Tudo, tudo para sucumbir ali, naquele baixadão desgraçado, pego, ser amaldiçoado, pervertido por um demo, bem quando estava apenas tentando pegar uns cachara e uns barbadãos longe do lugar coimeiro, pra  vendê pela manhã nas ruela ao redor do Pateo. Tanto  castigo pra não ter de pagar ou trabalhar a mais por uns peixinhos?

A consciência que a morte se aproximava veio, do fundo dele mesmo, mas parecia vir de lugar algum, ao erguer, com dificuldade, o olhar para o céu, enquanto sua mente destroçada buscava juntar as palavras da reza brava mais potente que conhecera, palavras que apareciam incompletas e a seguir fugiam, esmagadas pela situação e pelo cenário, pois naquela noite nuvens corriam pelo céu, escondendo e revelando, no ritmo da natureza indiferente aos homens, a escuridão de uma noite de lua nova. Isso, ele viu e sentiu ao procurar pelos céus, para pedir ao Pai sua salvação, embora algo – tudo, o som horrível e  indistinto da coisa arfando logo atrás, o sinistro aspecto da várzea do Carmo coberta de neblina que dançava entre as moitas densas e as árvores, os imbés e as copaíbas esparsas e de copa tão densa quanto o mato cerrado que envolvia as margens, o ruído dos grilos tão distante, como se até eles tivessem recuado ante a presença da coisa infernal que ele não conseguira divisar  – tudo pesava sobre Juzué e esmagava sua esperança.

U ação involuntária e meio animal o fez olhar sobre os ombros, para trás, pois ainda que o terror fosse enorme e sem nome, tinha de encarar sua perdição, fosse o que fosse, terminar como homem e filho de Deus.

O vulto era de uma mulher, alta e esbelta, uma cabeleira negra esvoaçava aos passos longos e sinuosos, na verdade saltos, que ela dava em direção ao infeliz, de modo que  Juzué  viu as  linhas belas e fascinantes do rosto oval, os dois grandes olhos negros cintilando bem entre o alvor do rosto;  por um átimo a visão de tanta beleza lhe deu um deleite que incontinenti foi obliterado pelo horror que  o jogou sem retorno na condição de bicho encurralado por fera, o reduziu a uma coisa irracional chorosa que guinchava: a brancura da pele, que parecia a de uma pura menina-moça, era rasgada, abaixo do nariz fino, por lábios avermelhados dos quais partiam duas presas de bicho, grandes e afiadas como de uma onça, os olhos se acenderam num brilho vermelho que se espalhavam pelo ar e se desfazia aos poucos na neblina. Era cria do demo, linda e horrorosa, uma meretriz do diabo, bela para enganá-lo, fazer sofrer mais.

O urro mal partiu de sua garganta, não se propagou por um metro sequer, pois a meretriz do demo pulou sobre ele, num movimento impossível, velocíssimo que não  causou uma mínima alteração nas entranhas ou alguma reação de terror nem deslumbre: Juzué já mergulhara tão fundo na escuridão da insanidade, para se proteger do horror, que o mundo exterior se apagara, fundiu-se em impressões vagas e dolorosas de sons distorcidos, cores esmaecidas e dor. O golpe das presas rasgarem  sua garganta que exalava calor foi o ápice de alívio para o tormento do pobre diabo, que antes de mergulhar no oblívio definitivo da escuridão que tudo engole ouviu, por um infinitésimo de tempo, mas sem compreender, o som da criatura se deleitando com seu sangue quente. Essa fora a última informação, o último estímulo que seu corpo despejou em sua consciência: o som de seu líquido vital sugado assim que escorria das veias do pescoço para a pele, engolido por aquela meretriz de Satanás antes que tocasse sua própria pele que já se enregelava.

Envolta pela neblina, curvada sobre o corpo agora largado na várzea agreste do rio que os nativos chamavam de Tamanduateí, Ingrid sorveu todo o sangue do mestiço sujo e alquebrado, representante típico do povo do vilarejo, como percebeu sem dificuldade desde as bem poucas horas da sua chegada. Um vampiro há milhares de anos vagando pelo mundo detinha tantos conhecimento e experiência que não precisava de muita concentração para apreender os traços básicos de um lugarejo cujo nome homenageava um dos homens mais asquerosos e intoxicado de nojo à carne, principalmente  à carne das mulheres, que ela já conhecera – e maldito fosse ele e o mundo que lhe deu tanto poder! Um dos homens mais influentes desde que a Infinidade[1] fora banida ou rebaixada como superstição e baixeza.

Logo o cadáver tornou-se uma massa ressequida e chupada, os músculos como que se dissolveram e pouco restou deles perceptível debaixo da pele amarronzada, engelhada e grudada nos ossos gastos do corpo do homem de menos de 50 anos.

Ela ergueu-se satisfeita, tirou os pequenos pedaços e torrões de terra úmida do vestido negro e largo que lhe caía quase até os tornozelos, agarrou o corpo magro com as mãos e flexionou os braços para executar o movimento de erguer o cadáver acima de sua cabeça e atirá-lo nas águas frias e escuras do rio, movimento que não completou: logo acima da várzea, da linha de arbustos densos de folhagem escura e árvores mal ocultas pelo sereno veio um som de galhos e folhas afastados e pisados sem o menor pudor, num ritmo calmo e pesado, na direção dela, para se anunciar.

Ingrid largou o corpo, ficou ereta, suas presas cresceram tudo que podiam, as unhas afilaram-se e tornaram-se garras mortais, o luzir vermelho dos olhos rasgou a neblina. Estava pronta para uma luta encarniçada contra outro vampiro que tivesse sentido sua chegada e reivindicasse aquela cidadezinha miasmática como seu território de caça ou até mesmo enfrentar algum Ancião que ali se exilara por alguma das razões enormes e indescritíveis que só eles poderiam experimentar e lidar, embora julgasse impossível um daqueles cosmopolitas afetados e arrogantes instalado num lugarejo que mais parecia um trapo jogado por cima do solo da América.

O ruído cresceu e o vulto atalhou entre duas moitas, atravessou uma camada de névoa e postou-se diante ela, calmo, firme, as mãos pousadas na cintura, sem indicar tensão ou hostilidade.

Ingrid estreitou a visão para avaliar o intruso. Após divisar traços, altura, odores, cores das roupas, seus sentidos vampíricos receberam a emanação mais intensa, que se sobrepôs às outras assim que a sentiu, uma pungência que somente os que caminham nas trevas e vêem o que os mortais ignoram poderiam sentir. Ela permaneceu imóvel por um instante e a seguir curvou-se alguns milímetros, um movimento minúsculo, tão sutil que um humano não perceberia, mas o ser que fez a gentileza de aguardá-la terminar a refeição captou com toda nitidez.  Diante da vampira estava um homem na meia-idade ou próximo, talvez com quarenta anos, rosto ainda firme mas marcado, pele tão clara quanto a dela mesma, cabelos negros encaracolados e curtos aglomerados numa massa volumosa sobre a cabeça, o rosto dominado por olhos vivos, castanhos e intensos e o nariz aquilino. Era um homem de altura mediana, troncudo, com claros traços de descendente de mouro. O mais importante era a aura, o odor, o brilho lupino nos olhos. O sujeito a sua frente era um Licão com pelo menos cem anos de idade.  Um tremor leve percorreu as entranhas  do corpo; um segundo tremor percorreu sua pele de tom quase nacarado, uma reação pueril de vergonha e ódio para expulsar do corpo o medo que a visão lhe causou.

O homem ergueu o queixo proeminente e coberto por uma sombra negro-azulada e sorriu:

– Boas noites, dama provinda de rincões distantes. Em nome desta terra inculta e agreste e de seus habitantes tão atrasados quanto, que no entanto sabem reconhecer e prestar reverências à nobreza e aos viajados, principalmente os que envergam galardões, epítetos e honrarias vários, dou-lhe as boas-vindas à cidade do Santo, ao vilarejo iluminado por lamparinas de óleo dos leviatãs marinhos, mas sombrio como uma eça de enterro, cidade, vilarejo ou localidade, que outrora foi Piratininga mas por graça e intermédio do Senhor deixou as trevas do paganismo para trás e tomou emprestado o nome do Convertido. – As palavras saíram num fluxo muito bem modulado e uniforme. A empolação, as palavras eruditas postas com ênfase não se destacaram tanto quanto a sonoridade, o sotaque. O licantropo viera da península ibérica, das terras lusas, e não há muito tempo, Ingrid percebeu de imediato.

Havia costumes, cortesias e normas, mesmo entre os seres das trevas, e que deviam ser praticados e mantidos vivos por todos, não importava por quantos séculos vagassem na Terra ou quão alta fosse sua posição no enfadonho labirinto de hierarquias, grupos, camarilhas, intrigas e alianças que vigorava entre eles: Ingrid, ainda que temida e lendária até pelos Anciãos, era uma recém-chegada a uma pequena e mortiça cidade em que um Licão se mostrava instalado e à vontade; ainda que contra sua vontade, devia mostrar-se firme porém cortês, e assim o fez.  Seu corpo perfeito ficou rijo de tão reto e firme, as chamas que partiam dos olhos apagaram-se em lentidão, as garras retraíram-se. A segurança que exibia na aparência, ela sabia, não bastaria para ocultar a surpresa e a tensão que sua essência emanava e que um lobisomem de tal estirpe captaria sem grandes esforços, por isso, pronunciou as palavras num tom de tudo semelhante ao dele:

– Quem és tu, anfitrião meu e também intruso? Por que escolheste interromper uma ação, um momento tão importante, que é para um caminhante das trevas sua alcova mais íntima, aquela em que está nu e pleno, tão desnudo  e sem segredos como a virgem humana cheia de desejos deitada na cama de sua alcova a suspirar pelo amante que não vem.

A elaborada comparação causou verdadeiro enlevo em Lúcio, que relaxou os braços, pousou as mãos nas coxas cobertas pelas calças de veludo negro e sorriu um sorriso ainda mais aberto e amistoso:

– Venho a ti em busca da honra de ser teu anfitrião e guia pelas veredas desta terra, que não é devassa como uma cidade, pois ainda é uma pobre vila, insípida como todas estas são, e pobre como todas aldeias. Por que adentras este monturo de monotonia e de tédio?

– Conheces bem esta vila, pelo que dizes, meu honroso senhor.

– Muito bem, suas sendas e searas já percorri, embora isso seja difícil até para os nossos.

– Sim?

– Tem calçadas intransitáveis, encastoadas das mais ásperas pedras, não te deixe enganar pela placidez de estar encravada no cume de um morro cercado de águas piscosas e várzeas relvosas: suas ladeiras são íngremes e as ruas péssimas, nelas as meretrizes, as beatas, as devotas e as devassas se distinguem, quando tanto, pela veste que envergam, pelas belas palavras para esconder suas faltas e pelos rosários que ostentam nas mãos trêmulas, talvez por não suportarem rememorar os pecados cometidos, quem sabe pela ânsia de praticá-los.

– E dizes tu que esta não é uma cidade verdadeira, que é somente uma vila?

O licantropo estreitou os olhos, o sorriso nos lábios modificou-se para uma linha mais estreita, posicionou a perna esquerda à frente e respondeu, o tom da voz diferente, descontraído, as palavras soavam menos cristalinas, mais naturais e descuidadas:

– A pedra fundamental foi ali lançada não pelas razões proclamadas, não foi a fé nas coisas celestiais, mas nas benesses terrenas que orientaram seus fundadores – Sua mão direita amorenada e peluda apontava para uma construção postada no alto do morro que se erguia a oeste,  uma colégio ou um edifício público, encimado por uma torre esbranquiçada de topo afunilado e escuro que mal se insinuava entre a cerração agitada pelo vento frio noturno – esses homens cujos olhos enxergavam para bem distante, orientados pelo brilho do ouro e da prata, sabiam que sua localização determinava sua importância e função. Protegida pela Muralha Verde, a Escuridão Verde da Serra, à beira do rio que rasga o desertão  – pouso e saída para as incursões a que esse Novo Mundo agreste convidava, o chamado dos mistérios, das riquezas. Tu também sabes disso e sabes que nestes propósitos repousam grandes possibilidades, caminhos ricos em campos de caça para tu e os seus,  correto, filha da Wyrm?

A última palavra soou seca, sem ênfase, um conceito poderoso e maligno por si só, um aviso que os galanteios findavam e chegara o momento do acordo inescapável,  de se estabelecer os termos que ditariam como seria a passagem de Ingrid pela cidadezinha inculta e nada bela e quais os limites que o licantropo, guiado por Gaia – opositora da Wyrm – ditaria a ela, sabedora que seria apenas tolerada, quando muito.

Tudo, códigos, limites, acordos, fronteiras reais e figurativas, respeito a forças e nomes que na verdade os seres das trevas mal entendiam, somente sentiam, não eram mais que, para Ingrid, futilidades dos seres da noite, mas que até mesmo ela tinha de lidar, se não quisesse aborrecimentos ou algo pior, pois caminhantes da noite que se estabeleciam em novos territórios sem firmar acordos com os outros que lá viviam geravam e se enredavam em violência e eventos que, Ingrid muito bem sabia, logo envolviam os humanos, algo que todos eles evitavam.

– Não é esta a razão pela qual aportaste aqui, nesta paragem que parece tão seca e sem vitalidade como seu primeiro nome, filha de Wyrm?[2]

A tensão em Ingrid cresceu, a energia negra que ela exalava aumentou e o ar ao redor dela parou como em uma tarde seca, as volutas da névoa estacaram ao seu redor, até o vento que açoitava os arbustos e as roupas bem talhadas do licantropo se curvava à presença dela: seu vestido e sua cabeleira negra não tremulavam ou farfalhavam.

– É aqui que tentarás mais uma vez atingir a notoriedade que lhe é negada desde a aurora de sua existência como filha da perversão da natureza?

Os olhos da vampira chisparam uma rajada de luz vermelha.

– Não és a dama de Babilônia que ofereceu ao grande rei das cidades pecaminosas o vinho que corre em tuas veias, ainda mais pecaminoso? Intentava assim subjugar o grande Bera e inspirá-lo a cometer um grande massacre em teu nome e assim gravá-lo na face sangrenta da história e tudo que conseguiu foi ter sua imagem vagamente associada à prostituta babilônica, teu nome nunca citado ou sequer amaldiçoado. Não és tu a que vagou entre os norse, semeou entre eles discórdia, mentira e morte, anelando que teu nome e tua figura se tornassem tão temidos quanto o da mãe das bestas-feras? E tudo que conseguiu foi ter o disfarce que então envergava registrado na mais ignota e oculta crônica deles, correto, minha cara ‘ Hallgarda’?

Assim que ouviu aquele nome, o qual não era usado para se dirigir a ela há pelo menos oito séculos, e que evocava o desejo mais caro a Ingrid e sua frustração mais doída, os caninos projetaram-se sobre o lábio inferior, as lustrosas unhas afilaram-se em garras cintilantes e a luminosidade rubra voltou a se desprender dos olhos também rubros:

– Como sabes tanto e o que queres, lacaio da funesta devoradora de tudo e de todos?

As mãos peludas e grossas de Lúcio ganharam mais massa e pêlos, relaxaram e ele gargalhou alto, a cabeça jogada para trás, um som tão profundo, zombeteiro e despreocupado que ela sentiu o terceiro e mais intenso arrepio. Ao se recompor, encarou-a por um longo tempo, seus olhos a dardejar o brilho amarelo dos escravos de Gaia:

– É realmente necessária essa pergunta? Tu rebaixas tua fama e tua nobreza ao proferi-la. É digna de um noviço de tua raça, de um recém-criado desesperado e ensandecido, não de ti, aquela que até os Anciões evitam.

– Tua tentativa de rebaixamento não arranha meu orgulho, canídeo. Terei de responder minha própria pergunta? Que seja. Tua mãe maldita, a meretriz que traz o fim negro e horrível a todos, a devoradora da vida, que chamam de Gaia, adorada por vocês iludidos e enganados pela falácia chamada ‘ciclo da natureza’, alertou-te por intermédio de sinais das intempéries, chamados entoados por batráquios ensebados e pássaros piolhentos, para lhe incutir imagens de minha chegada. Assim é. Mas qual o propósito da adversária eterna e odiosa de minha mãe, que me concedeu seu toque eternal e assim me pôs fora do alcance do toque putrefeito de tua mãe, licantropo? Foste convocado a este sítio para deter-me, impedir que me estabeleça nessa palhoça, tu mesmo assim a caracterizou?

Dessa vez, Lúcio não reagiu; como uma estátua que assinalava um marco, uma fronteira que não poderia ser transposta, permaneceu imóvel, exceto pelo brilho amarelo dos olhos, que não cintilou mas cresceu, conforme a vampira despejava sua última torrente de heresias. Esteve estático por um longo tempo, como se aguardasse um sinal e por fim respondeu:

– Conheces o que alguns membros da raça dos homens, as hostes dos alquimistas, magos, filósofos herméticos, afirmam sobre nossas nutrizes? Afirmam que são ambas somente diferentes manifestações de um mesmo princípio ou força, que completam uma à outra e que as rusgas que nós seus filhos travamos, há milênios, mundo afora, são nada mais que um interminável mas prosaico jogo de dados que disputamos tolamente, revestindo-o de uma gravidade e pompa da qual essa verdadeira mãe ri e escarnece.

Ingrid fez o que não ousou fazer desde o momento em que identificou a espécie de Lúcio: deu um passo adiante e se aproximou dele, firme e resoluta.

– Sempre essa algaravia sobre o equilíbrio da natureza, bem e mal, luz e trevas, forças opostas que se completam… Gah! Como esse discurso, entoado pelos desprezíveis mortais para suportar a sina de serem devorados sem piedade pela sua mãe-prostituta, se relaciona com nossa contenda? É esse o manifesto que declama para impedir que eu me estabeleça nesta vila seca?

– Impedir? HA HA HA HA HA – Lúcio brindou-a com uma gargalhada ainda mais forte, após a qual, respirando fundo, concluiu:

– Abandone esse descuidado fingimento que não conhece as mais elementares leis da convivência de nossas raças, dama da noite. Sabes muito bem que sou impedido de te bloquear acesso ou pouso a qualquer pedaço de solo deste mundo. Apenas e simplesmente cumpro meu pequeno papel neste jogo e rolo o próximo lance de dados, dando-lhe boas-vindas, cara recém-chegada a São Paulo. Que esta semente de urbe lhe seja generosa e lhe dê bons frutos, que nela encontre os que saberão ouvir as canções de prazer e dor que seu sangue carrega.

A mão esquerda de Lúcio estendeu-se no ar em saudação e enquanto a mão direita pousava no braço oposto ele curvou-se num ritmo lento e elegante. Em passadas desta vez suaves e silenciosas, desapareceu na névoa.

Ingrid permaneceu no local por mais tempo que gostaria, até se aperceber que o cadáver do mestiço ainda estava a seus pés. Ergueu-o com uma única mão e atirou-o no meio das águas com toda a força sobrenatural de que dispunha.

E apressada desapareceu na névoa, em busca de mais uma vítima e depois rumar ao abrigo já preparado por seus lacaios para se esconder e repousar antes de o sol nascer.

[1] Termo obscuro e arcaico, que pelo tempo da chegada de Ingrid à cidade já era antigo e quase fora de uso, para se referir à multiplicidade de deuses pagãos que fora substituída, nos altares e devoções da maior parte da Ocidentalidade, pelo ‘culto monomaníaco ao crucificado’, como ela se referia.

[2] Lúcio faz uma referência ao nome original de São Paulo, Piratininga, que no idioma tupi-guarani significa ‘ peixe seco’.

Monólogo #1

Por Elis Verri – Revisado por Caio Bezarias e Vinicius Zahorcsak

A quaisquer deuses que existam
Que nenhuma vida viva para sempre;
Que os mortos jamais se levantem;
Que também o rio mais cansado
                Desague tranquilo no mar.

Algernon Charles Swinburne[1]

 

Logo passará o último metrô, por isso corro em direção à estação Liberdade. Apesar de ser um instinto me apressar para conseguir chegar em casa, pergunto-me se voltar é a minha vontade agora. E a de todos os dias.

Essas ruas estão vazias – mas quando se está alheia ao mundo, quase não sinto medo de ser a única pessoa subindo a ladeira. Salvo uma alma ou outra que sei que está por perto pelo som dos passos. De onde eu vim, não importa. Tampouco, para onde irei assim que desembarcar do metrô.

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Após tantos anos, ficar sóbrio de novo me deixou um tanto ébrio

escadaria 9 de julho

Por Caio Bezarias, editado por Elis Verri e Vinicius Zahorcsak

Pois é, então… Sou eu, aquele fudido do Carvalho, o sujeito que vê todas as coisas, mortos, desmortos, aberrações e assombrações que vagam por São Paulo e perturbam os vivos e que absorve as energias e lembranças delas, viciou-se nisso e vive num estado tão maluco e anormal que faria vocês humanos ‘normais’ correrem para baixo da cama de suas mães e não saírem de lá nem com guindaste. Quer dizer, todas as aberrações e assombrações, não. Moça, a julgar pelo que já ouvi por aí e por certas sensações que caem sobre mim quando passo por uns lugares do Centro – sempre o Centro – tem coisas em São Paulo que não deveriam jamais sequer ter sido imaginadas…

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Trechos do próximo conto

Pois é, então… Sou eu, aquele fudido do Carvalho, o sujeito que vê todas as coisas, mortos, desmortos, aberrações e assombrações que vagam por São Paulo e perturbam os vivos e que absorve as energias e lembranças delas, viciou-se nisso e vive num estado tão maluco e anormal  que faria vocês humanos ‘normais’ correrem para baixo da cama de suas mães e não saírem de lá nem com guindaste.  Quer dizer, todas as aberrações e assombrações, não. Moça, a julgar pelo que já ouvi por aí e por certas sensações que caem sobre mim quando passo por uns lugares do Centro – sempre o Centro –  tem coisas rondando São Paulo que não deveriam jamais sequer ter sido imaginadas…

Então, tá lembrada de mim? Trocamos umas ideias num boteco metido a moderno, roqueiro e não sei o que mais, lá no centro. Você, na ocasião jogou um papo de bruxa pra cima de mim, que era íntima dos lances dos planos etéreos superiores e tal… fiquei duplamente  de má-vontade e mal-humorado: primeiro, porque doidas e biscates quem mal conhecem um cara e vêm com esse papo de “as forças do além uniram nossos destinos” fazem qualquer homem que se preze ficar com os dois pés atrás num instante,  e eu, admito me apressei a te julgar uma dessas; segundo, porque, naquela noite, eu estava particularmente  perturbado, fora de mim por causa do carregamento industrial que tinha tomado, naquele dias, das pílulas que despejo no cérebro para me manter são e no mundo dos vivos, minha paciência com vocês que brincam de bruxinha wicca nas noites de lua  cheia mas na verdade não fazem a menor ideia do que rola aqui em SP tava bem abaixo de zero.

A porra toda aconteceu numa noite de sexta-feira. Era umas 19:30h quando deixei a redação do “São Paulo Hoje”, após entregar meu material que estaria na edição dominical desse tablóidezinho safado, o jornaleco da vez a tentar desesperadamente ocupar o espaço, entre a peãozada e classe média baixa, que pertenceu ao lendário NP, mas sem apelar a baixaria e sangueira aos montes, e  claro, mal fechando os custos ao fim do mês por querer manter um certo ‘nível’ (leia-se, não definir se era um jornal para a ralé sedenta por sangue ou um jornal para a classe média baixa ler e se sentir informada). Sai daquele brejo de cobras d´água que se acham cascavéis com o Vieira, um jornalista já beirando os cinquenta, um descendente de portugueses bronco e engraçado. Saímos lá das alamedas dos Campos Elísios a bordo do Palio dele e paramos num boteco na Nestor Pestana todo amadeirado, estilosão, atrizes e malucas dos teatros alternativos ali do lado, da Roosevelt, aos montes em suas mesas meio úmidas, mesas de bilhar no fundo, para  jogarmos duas séries de três partidas, com um intervalo  para a cerva e o papo furado de sempre no meio. Quando as badaladas notúrnicas (ainda não eram as doze) soaram, meu colega de infortúnios jornalísticos zarpou na hora, pois a rádio-patroa dele o controla com mão de ferro e ele não tem culhões nem ânimo de mudar isso.

Devil´s Whorehouse

Valerie estava faminta, e a noite quente parecia pedir um parceiro especial. A dona do badalado Devil´s Whorehouse olhava para a pista de dança de sua casa noturna com olhar predador.

Observava como as pessoas dançavam alegremente, embaladas pelo som do violino de Mae e as poderosas pick-ups de seu DJ favorito. Ela nunca entendia direito a química dançante que a instrumentista oriental conseguia unindo seu instrumento clássico com batidas dance hipnóticas. Mas funcionava. E como!

Valerie sentou-se no mezanino, e continuava a olhar a pista lá embaixo. Para um ser de audição privilegiada, a vampira quase não suportava o barulho. Mas não negava que gostava um pouco.

Seu olhar parou numa mulher que dançava como uma louca. Atraindo os olhares de todos ao redor, ela se entregava inteira ao ritmo, e como era sensual!

Mas dançava como se fosse sua última noite. Estranho…

Valerie ficou o tempo todo procurando por alguém na pista. Mas sabia, inconscientemente, que já havia escolhido sua vítima. Seria ela. A dançarina. Continuar lendo

As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid , as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio VII – outro passeio noturno no Centro – parte II

cropped-cropped-nc3b3s-escritores.jpgLaura corria noite afora, molhada, ofegante e enfurecida, soluços de raiva saíam de sua garganta como se fossem corpos estranhos que a feriam e eram expulsos. Correu não mais que uns cinquenta metros, em que sofreu dois tropeções. O joelho esquerdo dolorido e o orgulho destroçado fizeram-na estacar e quase jogar-se contra uma parede, para sorver o ar que os pulmões queimando de dor exigiam. Observou ao redor e sentiu uma pontada de raiva de si mesma: tomara o rumo de sua casa, o instinto a fizera virar à direita e descer pela rua que seguia rumo ao bairro da Liberdade, onde ainda residia e não queria permanecer por mais um minuto.
Olhou para um lado e outro, incerta do que fazer, até que a imagem dos vultos sinistros que cercaram o carro na escuridão do Glicério encheu a consciência; pareciam se esgueirar pelas sombras da noite chuvosa. Ficou rija de medo e murmurou por Ingrid, chamou por pensamento e por voz sua mentora: mais uma vez pôs o respeito por si mesma de lado.

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Trechos da segunda e última parte do sétimo episódio das Fabulosas Aventuras de Laura e Ingrid

Laura corria noite afora, molhada, ofegante e enfurecida, soluços de raiva saíam de sua garganta como se fossem corpos estranhos que a feriam e eram expulsos. Correu não mais que uns cinquenta metros, em que sofreu dois tropeções. O joelho esquerdo dolorido e o orgulho destroçado fizeram-na estacar e quase jogar-se contra uma parede, para sorver o ar que os pulmões queimando de dor exigiam. Observou ao redor e sentiu uma pontada de raiva de si mesma: tomara o rumo de sua casa, o instinto a fizera virar à direita e descer pela rua que seguia rumo ao bairro da Liberdade, onde ainda residia e não queria permanecer por mais um minuto.
Olhou para um lado e outro, incerta do que fazer, até que a imagem dos vultos sinistros que cercaram o carro na escuridão do Glicério encheu a consciência; pareciam se esgueirar pelas sombras da noite chuvosa. Ficou rija de medo e murmurou por Ingrid, chamou por pensamento e por voz sua mentora: mais uma vez pôs o respeito por si mesma de lado.
– Mestra, eu te invoco, eu te convoco, eu te…ohh, ahhh. Te… imploro, venha a sua pupila, que pede a proteção de seus poder…
– Mais olha só que moça bonita, Tonhão! Ôche! Coitada, debaixo da chuva, sozinha, chorando. Cê tá bem, princesa? Que qui ti aconteceu?

Uma garota trajada com a típica indumentária de “gótica-roqueira rampeira e pervertida”, como Laura ouvira uma miríade de vezes em sua ainda curta vida e, estava certa disso, ouviria outras tantas, um epíteto que já lhe causara muito desgosto, mas também a enchera de orgulho, se era dito por certas pessoas na ocasião correta, que desembarca de uma bmw nova e põe-se a caminhar altiva e calma, indiferente à chuva agora reduzida a uma garoa mais grossa e pouco incômoda, chamaria a atenção em qualquer momento de qualquer noite ao desfilar na rua que ostentava os significados Sublime e Sagrado em seu nome e cujos frequentadores davam tratamento de sagrado e sublime ao hedonismo barato e à depravação rala e inofensiva. E assim foi: Laura experimentou por algum tempo tomar a atenção na esquina, rostos e pescoços voltados a ela de modo ostensivo, enquanto caminhava cheia de pose na direção do primeiro bar aberto e movimentado que encontrou, sabedora que sua mestra estava próxima e alerta.

As Fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio VII – Um outro passeio noturno no Centro – Parte I

Em uma madrugada chuvosa e fria de sexta-feira, em uma rua deserta no centro de São Paulo, na divisa entre o Centro e o início do Brás,  um carro está parado na junção com uma avenida. A esquina estava deserta e quieta, a chuva constante que golpeava o teto do automóvel e os detritos e restos jogados na calçada mais próxima acentuavam a solidão, ressoando que nesse lugar, nesse exato momento, apenas o vazio e os malefícios que a ausência de qualquer manifestação de vida poderia causar em mentes sensíveis e fracas deveriam ser temidos.

Mas mesmo em um ponto tão desolado e quieto era uma ousadia a ponto da insensatez uma Bmw negra reluzente e impecável, sem sinais de desgaste, estacionada naquela esquina. O carro parecia afrontar e escarnecer de todos que tinham habitado o edifício decrépito e vazio logo à frente a menos de cem metros, que dominava a paisagem, uma montanha de concreto coberta de impossíveis pichações em toda sua extensão, na imensa fachada, nas laterais de um verde desgastado, que subiam por dezenas de metros até o topo, e que para Laura, tinham um tom “cor de vômito”, como pensou, uma expressão que usava com excessiva frequência e em ocasiões impróprias para tal. Mas era uma noite em São Paulo, a vida e o movimento não grassavam nesse ponto, mas estavam próximos. Do outro lado das águas mortas do rio que cruzava a avenida brilhava um edifício antigo e amplo, cuidado, limpo e que espalhava por uma grande área, fazendo seu vizinho parecer ainda mais decrépito, mesmo muito mais alto.

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